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19.7.26

Richard Brooks - “O Homem das Lentes Mortais” / “Wrong is Right”


Richard Brooks
“O Homem das Lentes Mortais” / “Wrong is Right”
(EUA – 1982) – (117 min. / Cor)
Sean Connery, George Grizzard, Robert Conrad,
Katharne Ross, John Saxon, Henry Silva, Leslie Nielsen.

E a ficção tornou-se realidade… assim poderia terminar esta crónica de cinema sobre a película de Richard Brooks, “Wrong is Right”, mas optámos por inserir a frase no início porque o que está aqui em jogo é precisamente o poder dos “Media” e a sua manipulação pelos políticos, embora também seja possível ver este filme como inspiração de factos ocorridos duas décadas depois.


Vamos buscar a cinéfilia para concretizar melhor este ponto de vista, quando Barry Levinson, no intervalo das filmagens de “A Esfera” / “Sphere”, devido à longa produção dos efeitos especiais, decidiu levar ao écran um argumento do fabuloso David Mamet intitulado “Manobras na Casa Branca” / “Wag the Dog”, nunca pensando que uma história muito idêntica estivesse a decorrer no maior dos segredos nessa mesma Casa Branca, como os acontecimentos posteriores vieram a demonstrar.

Ora o que sucede com o filme de Richard Brooks é que antecipa a História em duas décadas. Como sabemos, após os ataques do 11 de Setembro em New York, foram criadas as condições para desencadear uma guerra, tendo como pretexto a existência de armas de destruição maciça em mãos erradas, tudo por causa da riqueza do petróleo. Se virmos bem, é disso mesmo que trata “Wrong is Right”.


“O Homem das Lentes Mortais” faz assim história, quase um quarto de século depois da sua estreia nos écrans. Na época em que o vimos pela primeira vez em Lisboa, no saudoso cinema Monumental, foi com enorme prazer que encontrámos Sean Connery na figura do destemido jornalista Patrick Hale, sempre acompanhado da sua câmara de filmar, essa câmara de lentes mortais que tudo fixa e tudo transmite, sempre ao “serviço da verdade jornalística”.

Richard Brooks, como um profeta, mostra-nos aquela que será a televisão do século XXI, com os seus “reality shows”, onde se confessam “crimes não cometidos”, desde a mulher que deseja matar o marido, a filha que pretende aniquilar a mãe, desejos esses que o pequeno écran irá servir ao espectador como uma espécie de terapia, ao mesmo tempo que os seus protagonistas atingem esses 15 minutos de fama de que tanto falou Andy Wahrol.


Mas se para muitos, incluindo o próprio Patrick Hale (Sean Connery), o jornalismo representa o “Quarto Poder”, iremos verificar como este poder é tão frágil que consegue ser usado e manipulado para proveito dos mais poderosos, porque aqui não há regras do jogo, porque a partida está viciada desde o início, todas as cartas estão marcadas.

Partindo do livro “The Better Angels” de Charles McCarry, o argumento que Richard Brooks escreveu a duas mãos com o escritor oferece-nos a criação/existência dos homens bombas, numa célebre antecipação dos bombistas suicidas que proliferam pelo mundo inteiro, só que nesta ficção o objectivo é chamar a atenção para a sua luta e não de provocarem o maior número de vítimas inocentes como sucede nos dias de hoje nos atentados terroristas.


Temos assim o jornalista Patrick Hale, que se movimenta muito bem nos corredores do poder, tanto na Casa Branca como no Médio-Oriente, entrando por sua própria iniciativa na rede de espionagem mantida por americanos e israelitas, onde não faltam os inevitáveis vendedores de armas (o negócio gere milhões) e aqui vamos encontrar essa estrela chamada Katherine Ross (a miúda da época, para alguns cinéfilos) envolvida em redes incontroláveis, porque nunca se sabe quem está a manipular os acontecimentos.

Repare-se na forma como nos é apresentado o Presidente Lockwood (George Grenville), que nos faz recordar uma certa pessoa, desde os seus discursos até à forma de se comportar perante os “média”, usando sempre as reportagens contundentes de Patrick Hale (Sean Connery) “para levar a água ao seu moinho”, enquanto por outro lado o jornalista vai transmitindo aos espectadores a informação mais credível sobre o desenrolar dos acontecimentos sempre em “prime-time” para manter o “share” das audiências e assim aumentar as receitas da publicidade.


A forma como é montada toda a intriga, assim como os métodos da contra-informação, levam-nos a pensar até que ponto não somos manipulados neste século xxi, diariamente, pela informação que consumimos, porque cada vez mais o que se publica não é a verdade dos factos, mas sim as notícias que conseguem angariar as maiores receitas: morte, crime, destruição, guerra.

Recorde-se que na panóplia de imagens televisivas com que se inicia o filme “Wrong is Right” / “O Homem das Lentes Mortais” está lá essa maravilhosa publicidade para nos ajudar a viver no melhor dos universos, porque neste Admirável Mundo Novo cada vez mais se vai copiar o pior da história do passado, para se criar a história do presente.

30.4.26

Richard Brooks - “A Última Vez Que Vi Paris” / “The Last Time I Saw Paris”


Richard Brooks
“A Última Vez Que Vi Paris” / “The Last Time I Saw Paris”
(EUA – 1954) – (116 min/Cor)
Elzabeth Taylor, Van Johnson, Walter Pidgeon, Donna Reed, Roger Moore.

Richard Brooks nasceu a 18 de Maio de 1912 em Filadélfia tendo iniciado a sua actividade profissional como jornalista na área do desporto, já a trabalhar na rádio colaborou com Orson Welles, dando depois o salto para o Teatro. O Ano de 1941 marca o seu encontro com Hollywood, como argumentista, cuja actividade se irá dedicar ao longo de uma década, ao mesmo tempo que publica diversos romances. Delmer Daves, John Sturges e Jules Dassin serão alguns cineastas que irão utilizar alguns dos seus argumentos.


Mas como não podia deixar de ser a realização acabaria por ser abraçada por Richard Brooks, assinando em 1950 o seu primeiro filme “Crisis”, com Cary Grant no protagonista,, iniciando assim uma longa carreira cinematográfica, revelando-se como um dos mais importantes nomes da sua geração.

“A Última Vez Que Vi Paris” / “The Last Time I Saw Paris” transporta para o cinema um dos mais famosos contos de Francis Scott Fitzgerald, no qual é de imediato detectado diversos traços autobiográficos do famoso escritor norte-americano, respeitante à sua estadia em Paris, na companhia da sua mulher Zelda Fitzgerald, oferecendo-nos o retrato dessa geração perdida que fez da cidade de Paris o seu reduto.


Charles Welles (Van Johnson) encontra-se num bar de Paris, que bem conheceu num passado recente e depois de ser reconhecido pelo dono do bar, com quem trava uma conversa recheada de memórias, parte numa viagem pelo passado, que o irá conduzir até esse momento de festa, que foi a libertação de Paris do jugo alemão, no final da Segunda Grande Guerra Mundial.

Iremos assim acompanhar os festejos na cidade, com a chegada das forças norte-americanas a serem saudadas efusivamente por uma população e onde Charles Welles (Van Johnson) se irá cruzar com duas mulheres: Helen Ellswirth (Elizabeth Taylor) e Marion Ellswirth (Donna Reed), que por acaso até são irmãs.


Charles Welles acabará por se casar com a primeira, nunca percebendo como a segunda se encontra perdidamente apaixonada por ele, terminando esta por se casar com um seu colega e amigo de armas. Charles Welles irá ficar a viver em Paris, depois de se casar com Helen (Elizabeth Taylor) trabalhando como jornalista e frequentando a vida mundana com a esposa, iniciando uma vida boémia, em que o álcool irá estar bem presente, especialmente quando decide encetar uma carreira de romancista, que tarda em ter sucesso, já que vê os seus livros sempre recusados pelas editoras, dando origem a uma depressão, que o conduzirá inevitavelmente a refugiar-se na bebida e a afastar-se de todos aqueles que lhe são queridos: esposa, filha e amigos.


Ao seguir-mos a história de Charles Welles percebemos de imediato que muitas destas personagens existiram na realidade no universo de Francis Scott Fitzgerald, um dos maiores vultos da Literatura Norte-Americana, que encontrou na bebida o seu escape das contrariedades da vida e a forma como Richard Brooks nos oferece este poderoso melodrama, cativa de forma perfeita o espectador, já que estamos perante uma planificação perfeita e uma direcção de actores surpreendente, onde mais uma vez a interpretação de Elizabeth Taylor é inesquecível.


Ao mergulharmos em “A Última Vez Que Vi Paris” / “The Last Time I Saw Paris” descobrimos a essência do melodrama no cinema, revelada por esse genial cineasta chamado Richard Brooks.