Quando Keith Jarrett se encontrou com o produtor alemão Manfred Eicher, à entrada da porta do Estúdio de gravação, este último disse-lhe que aquele espaço era dele e que poderia ali criar em inteira liberdade e assim, nesse dia 10 de Novembro de 1971, Keith Jarrett atacou o tema “In Front”, que nos irá revelar desde logo a fórmula do futuro do pianista nos seus célebres concertos em piano solo. Aliás, basta escutarem os dez minutos do tema de abertura do álbum “Facing You”, para verificarem as cambiantes deste delicioso tema que navega pelos mais diversos oceanos, terminando numa nascente. Depois temos sete pérolas que nos revelam desde logo toda a genialidade do pianista.
O álbum “Facing You” dá início à mais frutuosa colaboração e amizade entre um músico e o seu produtor. Keith Jarrett gravou até hoje mais de uma centena de álbuns produzidos por Manfred Eicher.
Gravado a 10 de Novembro de 1971 no Arne Bendiksen Studio, Oslo, por Jan Erik Kongshaug e Produzido por Manfred Eicher. Fotografia de Danny Michael e Design de B & B Wojirsch. Todos os temas são da autoria de Keith Jarrett.
Estamos perante um registo intimista da última digressão de Keith Jarrett, datada do ano de 2016, que nos transporta até esse universo tão particular, que foi construindo ao longo dos anos, que fez do pianista norte-americano um nome incontornável no interior da música das últimas décadas.
A história de como nasceu este duplo álbum de piano solo de Keith Jarrett é bem curiosa, porque tudo partiu de um convite do produtor Manfred Eicher ao pianista norte-americano para gravarem um disco e quando Jarrett chegou ao Estúdio, o alemão disse-lhe que o Estúdio era dele, podia gravar o que desejasse e assim iria surgir o duplo álbum “Staircase”, que surge um pouco como se tratasse de quatro sonatas do pianista a navegarem pelas habituais paisagens criadas por Keith Jarrett, mas no meio da serenidade que se respira em cada faixa, há um tema que se destaca pela sua beleza transcendental: “Hourglass” - Part 2.
Tentem escutar este belíssimo tema de Keith Jarrett e certamente irão descobrir que estamos perante uma das mais belas peças para piano criadas nesse distante século XX. Gravado em Maio de 1976 no Davout Studio, Paris, por Roger Roche. Masterizado por Robert C. Ludwig. Fotografias de Franco Fontana. Design de Barbara Wojirsch. Produção de Manfred Eicher. Todas as composições são da autoria de Keith Jarrett.
O Concerto de Bremen realizado a 12 de Julho de 1973, foi uma produção da Radio Bremen e realizou-se na Kleiner Sendesaal, estando o registo do mesmo a cargo de Rolf Rockstroh. Já o Concerto de Lausanne foi produzido pela Radio Suisse Romande, Studio Lausanne e realizado no dia 20 de Março de 1973 na Salle de Spectacles D’Epalinges, sendo o registo do espectáculo feito por Pierre Grandjean e Alain Kibel.
As remisturas destes dois concertos estiveram a cargo de Kurt Rapp e Martin Wieland e a Produção deste trabalho discográfico pertenceu a Manfred Eicher e Keith Jarrett. Capa da Box set, Design e Layout de B & B Wojirsch. Fotografias de Roberto Masotti, A. Reggenbass, Jochen Monch, que acompanham um pequeno livro, incluído no triplo álbum com um texto de Keith Jarrett e outro assinado pelo pianista e Manfred Eicher
“Solo Concerts - Bremen/Lausanne” surgiu em vinil numa box set composta por três discos e posteriormente em cd, numa edição com dois discos.
Todas as composições são da autoria de Keith Jarrett e marcam o início dos célebres concertos a solo do pianista norte-americano para a editora ECM Records.
Um álbum editado em 1992 pela etiqueta Musicmasters e que nos dias de hoje é uma verdadeira raridade, mas cuja audição está disponível na net, para quem desejar descobrir estes três compositores contemporâneos norte-americano, sendo sempre de realçar que um dos intérpretes deste álbum se chama Keith Jarrett!
Nos dias de hoje, neste século XXI, o álbum “Eyes of The Heart” de Keith Jarrett regista o derradeiro concerto do célebre quarteto americano do pianista e onde a improvisação é a regra, demonstrando as afinidades que ligavam os membros do quarteto, que sempre produziram uma música repleta de cores e sem fronteiras, onde o calor dos diálogos entre os diversos instrumentos nos conduziam a paisagens únicas como sucede no longo tema intitulado “Eyes of The Heart”, onde Keith Jarrett surge também a tocar saxofone soprano ao lado de Dewey Redman, para além de diversos instrumentos de percussão na abertura do tema.
Recorde-se que a edição em vinil, lançada no mercado na época, surpreendeu os compradores, porque se tratava de um álbum duplo de três lados ou seja os temas 1 e 2 intitulado “Eyes of the Heart” encontravam-se no primeiro LP, enquanto o “Encore (a-b-c)” surgia só no lado A do segundo disco. E esse mesmo encore encontrava-se dividido em três temas, que nos irão captar a atenção, porque são tocados quase sem pausas.
Assim temos primeiro um tema no quarteto habitual: saxofone, piano, contrabaixo e bateria. Já no segundo tema descobrimos Keith Jarrett a tocar apenas saxofone num duelo/diálogo com Dewey Redman, inesquecível, para no final Jarrett largar o instrumento e correr para o piano e nos oferecer um tema em piano solo repleto de lirismo.
“Eyes of The Heart” revela-se o mais belo documento dos concertos ao vivo do célebre quarteto americano de Keith Jarrett, com Dewey Redman, Charlie Haden e Paul Motian!
Registo do concerto realizado em Maio de 1976 no Theater am Kommarkt em Bregenz-Austria. Engenheiro de som Martin Wieland (Tonstudio Bauer). Fotografias de Keith Jarrett, Design de Barbara Wojirsch. Produção de Manfred Eicher. Todos os temas são da autoria de Keith Jarrett.
Desde sempre Keith Jarrett partilhou um certo gosto pela utilização dos instrumentos de cordas tradicionais em algumas das suas composições, algo que é bem visível nesse trabalho discográfico intitulado “Expectations” (*), gravado em 1972, na companhia do denominado quarteto americano, ao qual se juntaram o percussionista brasileiro Airto Moreira e o guitarrista Sam Brown, em alguns temas.
Já quando o duplo álbum “In The Light” viu a luz do dia na ECM Records de Manfred Eicher, muitos descobriram o Keith Jarrett compositor, com peças onde as secções de cordas tinham uma natural preponderância: “Metamorphosis”, tendo a flauta como instrumento solista; “In the Cave, In the Light”, para piano, percussão e cordas; “Short Piece for Guitar and Strings” (com Ralph Towner na guitarra). E será na última semana de Abril de 1974, após ter gravado nos dias 24 e 25, com o quarteto nórdico o álbum “Belonging”, que Keith Jarrett irá entrar no Studio Bauer, para com Jan Garbarek e a secção de cordas da Sudfunk Symphony Orchestra, de Stuttgart, dirigida por Mladen Gutesha, gravar o trabalho “Luminessence”. (2)
O álbum “Luminessence” é composto por três temas: “Numinor” e “Windsong”, no denominado lado A do vinil e depois no lado B o tema que oferece o título ao álbum e que na verdade é inesquecível, tal é a forma como as cores que nos são oferecidas por Jan Garbarek nos envolvem primeiro com uma alegria contagiante, para depois caírem numa certa melancolia e nos devolverem por fim, após uma certa contemplação do universo que nos rodeia, a essa mesma alegria de recomeçar de novo.
Ao escutar nos dias de hoje o tema “Luminessence”, a magia do saxofone de Jan Garbarek, acompanhado das sonoridades envolventes da orquestra de cordas, continua a fascinar-me, como se tratasse de uma primeira audição (estou a escutar o cd enquanto escrevo), Vale a pena (re)descobrir “Luminessence” da dupla Keith Jarrett / Jan Garbarek.
Gravado nos dias 29 e 30 de Abril de 1974 no Studio Bauer, Ludwigsburg, por Martin Wieland e Kurt Rapp. Produzido por Manfred Eicher. Design da capa da responsabilidade de B & B Wojirsch. Fotografias de Terje Mosnes e Kira Tolkmitt.
(1) – Devido ao insucesso comercial deste trabalho discográfico a editora cancelou o contrato que mantinha com o músico.
(2) – Este CD/Álbum foi editado pela ECM Records com duas capas bem distintas. Originalmente com uma capa branca com as letras em relevo e depois numa capa em tons de azul.
(3) - A editora ECM Records ao regressar à feitura de discos em vinil de 180 g., entre os quais se encontram inúmeras reedições, decidiu denominar esta nova série de "Luminessence".
Dmitri Shostakovich criou estas peças para piano como divertimento pessoal, tocando-as em casa quando se encontrava sozinho, porque elas não seguiam as famosas regras do denominado "realismo socialista", cujas teses tiveram em Jdanov o seu principal obreiro.
E como Dmitri, muitos outros compositores faziam o mesmo, escondendo a sua criatividade do temível regime Estalinista e um dia o compositor percebeu que a policia politica tinha acabado de entrar no prédio e bateram na porta ao lado da sua levando o seu locatário, também ele compositor e calmamente Dmitri Shostakovich aguardou a sua vez, porque a seguir seria ele de certeza, mas os gritos deram lugar a um silêncio tenebroso, até que uma pequena tranquilidade. bem silenciosa começou a instalar-se e ele voltou para o seu piano e mentalmente executou um dos seus prelúdios, que viriam a ficar famosos, após o degelo cultural que se iniciou, timidamente, após a morte do tristemente famoso "pai dos povos".
Este duplo cd de Keith Jarrett foi adquirido num Natal, em que já andava um pouco angustiado por não surgir no mercado a habitual gravação do pianista e seria na loja do Valentim de Carvalho no Rossio (hoje uma sapataria), que viria a descobrir os cds que tinham acabado de chegar.
Jan Garbarek – tenor saxophone, soprano saxophone.
Charlie Haden – bass.
Membros da Radio Symphony Orchestra, Stuttgard, dirigidos pelo Maestro Mladen Gutesha.
1 – Runes – 15:20
2 – Solara March – 9:40
3 – Mirrors – 27:47
Tenho que confessar que este é um dos meus álbuns favoritos de Keith Jarrett e o primeiro vinil que comprei da ECM Records. Descobri “Arbour Zena” no programa de Rádio “Forum”, da responsabilidade do saudoso Jorge Lopes, que para além de ser a mais famosa voz da RTP na área das transmissões de Atletismo, foi também na Rádio o maior divulgador da música da ECM Records no século passado.
Ao iniciarmos a audição deste intemporal trabalho discográfico de Keith Jarrett, datado de 1976 e que recentemente teve uma nova edição, somos invadidos pela cordas da “Radio Symphony Orchestra” de Stuttgart, dirigida por Mladen Gutesha e depois surge-nos o piano de Jarrett pontuando o movimento das cordas, até chegar o contrabaixo de Charlie Haden, que irá convidar a orquestra de cordas a navegar pelas linhas que vai elaborando, sempre acompanhado de forma envolvente e melodiosa pelo piano de Keith Jarrett, ao longo de “Runes”, passando por momentos de um solo mágico e inesquecível, até chegar o saxofone de Jan Garbarek a concluir a primeira viagem deste trabalho discográfico.
Já o segundo tema do álbum “Arbour Zena”, dedicado a Pablo Casals and The Sun e intitulado “Solara March”, surge de forma profundamente melancólica com uma abertura soberba do contrabaixo de Charlie Haden, sempre acompanhado pela orquestra de cordas e só depois nos irá surgir o piano de Jarrett a respirar melancolia por todas as teclas, entrando num soberbo diálogo com Haden, mas quando estamos a chegar a metade deste tema, o piano de Keith Jarrett surge em crescendo e entra o saxofone de Jan Garbarek, repleto de vivacidade e cor, que irá contagiar os restantes intervenientes, sempre numa perfeita harmonia.
A terceira peça deste genial “Arbour Zena” irá contar apenas com a participação de Keith Jarrett no piano e Jan Garbarek nos saxofones soprano e tenor, acompanhados pela respectiva Orquestra de Cordas, dirigida por Mladen Gutesha, que nos irá oferecer ao longo da quase meia-hora do tema “Mirrors” uma inesquecível viagem por um universo neo-romântico, convidando o ouvinte a contemplar o mundo que o rodeia, através de acordes de uma beleza transcendental.
O romantismo que respira das três faixas que compõem “Arbour Zena” levou-nos a elegê-lo como o ponto de partida da viagem musical desta semana: o encontro entre o jazz e a denominada música erudita, nessa bela encruzilhada, que muitas vezes nos conduz a maravilhosas descobertas.
Gravado em Outubro de 1975 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg, por Martin Wieland. Capa de Rolf Liese. Layout de Dieter Bonhhorst. Produzido por Manfred Eicher. Todas as composições são da autoria de Keith Jarrett. Charlie Haden apenas toca nos temas 1 e 2. Todas as faixas são alvo de uma dedicatória do pianista: “Runes” (Dedicated to The Unknown); “Solara March (Dedicated to Pablo Casals and the Sun); “Mirrors” (Dedicated to My Teachers).
Dennis Russell Davies é um nome bem conhecido como director de orquestra ou se preferirem maestro, tendo-se dedicado em particular ao universo musical contemporâneo. Já Keith Jarrett, ao longo da sua carreira, tem também abordado a arte da composição, sendo o seu duplo álbum “In the Light”, uma referência incontornável, ao qual outros se lhe seguiram ao longo das décadas, tendo a escrita desta complexa peça para piano apaixonado Dennis Russell Davies, que a decidiu gravar e basta escutar a entrada fulgurante com que se começa “Ritual” para ficar tudo dito, mas como última nota será sempre curioso referir que quando Keith Jarrett gravou os famosos concertos para piano de W. A. Mozart, o maestro que o acompanhou nessas gravações foi precisamente Dennis Russell Davies.
Gravado em Junho de 1977 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg por Martin wieland. Fotografia da capa do álbum de Signe Mahler. Fotografia de Madeline Winkler-Betzendahl. Design de Barbara Wojirsch. Produção de Manfred Eicher. Embora tenha sido editado em 1982 seria o último álbum em vinil de Keith Jarrett a ter edição em cd, foi na realidade uma enorme espera, mas valeu a pena.
Quando Keith Jarrett decidiu encetar uma carreira em nome próprio constituiu o tradicional trio de jazz composto por piano, contrabaixo e bateria, sendo os seus membros Keith Jarrett, Charlie Haden e Paul Motion, respectivamente, nascendo assim o trabalho “Life Between The Exit Signs” (no qual se encontra incluído o tema “Lisbon Stomp” logo a abrir o disco), que recebeu o aplauso da crítica da especialidade, sentindo-se desde logo uma empatia entre todos os seus membros. Como muitos sabem este trio deu origem ao célebre quarteto americano de Keith Jarrett, tendo-se juntado ao trio o saxofonista Dewey Redman.
Desde muito cedo o contrabaixista Charlie Haden nutriu uma especial afeição por duetos e quando decidiu gravar no ano de 1976, em nome próprio, o album “Closeness”, todo ele constituído por duetos convidou Keith Jarrett para participar no belo “Ellen David”, um tema de uma consistência melodiosa que surpreendeu muitos, embora os dois músicos já tivessem conhecido anteriormente essa aventura a duas vozes quando foi gravado o album “Death and The Flower”, onde juntos em “Prayer” nos ofereciam um tema de um lirismo único. Os anos foram passando e quando a aventura do quarteto americano terminou, Keith Jarrett e Charlie Haden seguiram os seus próprios caminhos. Trinta anos depois os dois soberbos músicos, considerados Mestres nos instrumentos que tocam, decidiram encetar uma nova aventura.
Tudo começou com um convite de Keith Jarrett a Charlie Haden para este o visitar com a esposa, para passarem uns dias juntos na sua residência e como não podia deixar de ser a memória do passado veio para o presente, tendo decidido tocarem um pouco no Estúdio de Jarrett, que se situa mesmo ao lado da sua residência e onde nasceram álbuns como “Spirits” e “The Melody at Night With You”. E embora o seu piano Steinway não estivesse na “melhor forma” (as palavras são de Jarrett), decidiram gravar algumas das mais belas canções de amor do sempre admirável “Great American Song Book”, criando um disco memorável em todos os seus aspectos, já que a empatia entre ambos é digna de nota.
“Jasmine” é precisamente esse álbum nascido do encontro entre estes dois músicos de excelência, no qual transparece um amor pela música enorme e nada melhor do que dar a palavra ao próprio Keith Jarrett a propósito deste disco: “convida a tua esposa ou o teu marido ou o teu amado, depois da noite já ter chegado, sentem-se e escutem. Estas são grandes canções de amor tocadas por músicos que tentaram manter intacta a mensagem. Eu espero que vocês consigam ouvir os nossos sentimentos”.
Na realidade “Jasmine” de Keith Jarrett e Charlie Haden é a mais bela declaração de amor que dois músicos fizeram à música. Esse mesmo amor que todos nós nutrimos pelo ser amado. “Jasmine” representa assim essa maravilhosa estrada que nos conduz ao amor eterno.
Estamos perante um dos últimos registos discográficos dos célebres concertos de Keith Jarrett em Piano Solo, que tanto celebrizaram o pianista e compositor. Recentemente foi noticiado que o músico após ter sofrido dois AVC em 2018 decidiu colocar um ponto final nas actuações ao vivo. Recorde-se que muitos anos antes Keith Jarrett foi vítima do "síndroma da fadiga crónica", que levou a uma paragem de dois anos e quando regressou aos concertos em piano solo, foi obrigado a não voltar ao formato anterior, passando a apresentar pequenas peças e não as famosas viagens de quase uma hora ininterrupta a que tinha habituado os seus fans, nos quais me incluo. A sua música e o seu génio ficam para sempre na História do Universo Musical.