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1.7.26

Alfred Hitchcock - "Difamação" / "Notorious"


Alfred Hitchcock
"Difamação" / "Notorious"
(EUA – 1946) – (101 min. – P/B)
Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin.

“Notorious” / “Difamação”, como todos sabemos, é uma das obras-primas de Alfred Hitchcock e, nesta história de espionagem, vive uma das mais belas histórias de amor do cinema. Como não podia deixar de ser não se trata de um par, mas sim de um triângulo, composto por Devlin (Cary Grant), Alicia (Ingrid Bergman) e Sebastian (Claude Rains). E o célebre MacGuffin, como explicou Hitch, é uma amostra de urânio escondida numas garrafas de vinho. E nunca é demais referir que na época poucos sabiam a que se destinava o célebre urânio, chegando-se a falar que Hitchcock foi vigiado por agentes do FBI, quando se conheceu o argumento. Estamos assim perante um verdadeiro enredo de um filme de espionagem, género tão do agrado do Mestre do Suspense.


Alicia Huberman (Ingrid Bergman) assiste, no início do filme, ao julgamento do pai, um espião nazi entretanto descoberto e preso pelas autoridades americanas. Este tipo de relação familiar já nos tinha sido oferecida em “Correspondente de Guerra” / “Foreign Correspondent” (1942), porque na verdade todos sabemos que, durante a Segunda Guerra Mundial, foram muitos os espiões alemães a fazerem o seu trabalho no território do adversário, como Alfred Hitchcock nos mostrou também nessa outra película intitulada “Sabotagem” / “Saboteur” (1942). Iremos assim assistir à condenação de Huberman e à saída da sua filha do tribunal tentando, por todos os meios, fugir às perguntas dos jornalistas.


A condenação do seu pai leva-a a tentar encetar uma nova vida e será assim que a iremos encontrar a dar uma festa em sua casa para os amigos, refugiando-se no álcool para esquecer a perda do pai. Será também aqui que iremos encontrar Devlin (Cary Grant) pela primeira vez, cuja identidade desconhecemos. Alicia abandona a festa e decide andar pela estrada fora no seu carro e Devlin faz-lhe companhia, seguindo todos os seus gestos com a máxima atenção, porque ela acelera demasiado e está perfeitamente ébria, até que são detidos por um polícia e só então ficamos a saber, tal como Alicia, a verdadeira identidade de Devlin: um agente do governo encarregado de a vigiar. Mas com a passagem do tempo ambos se apaixonam, embora Devlin coloque o dever acima do amor e quando ele a informa que necessita dos seus serviços para vigiar um grupo de nazis suspeitos, que se encontram no Brasil, ela irá aceitar essa missão.


Alexander Sebastian (Claude Rains), antigo amigo do pai de Alicia, nutre uma profunda paixão por ela e quando se encontram ele não esconde os seus desejos. E será assim que Devlin irá mandar a mulher que ama para os braços de outro homem, depois dela ter aceite a perigosa missão. Iremos então assistir ao conflito interior que irá tomar conta de Devlin, que tal como Alicia aceita as sugestões dadas por Paul Prescott (Louis Calhern), o responsável pela espionagem americana no Rio de Janeiro, mantendo-se Devlin como o agente de ligação de Alicia.


Mas ao contrário de Devlin (Cary Grant), Sebastian (Claude Rains) não esconde o seu amor pela jovem e quando ele lhe propõe casamento tudo se irá complicar, embora Alicia (Ingrid Bergman) cumpra à risca as ordens que lhe são dadas: casar com o homem que não ama para descobrir o que se passa naquela casa em que se reúnem nazis. E nunca é demais lembrar o esforço de guerra feito pelos americanos na chamada política de boa vizinhança com os países da América Latina, onde algumas simpatias pelo regime de Hitler eram por vezes bem visíveis. E será assim que Alfred Hitchcock irá introduzir a chave do mistério que rodeia aquela casa, onde cientistas alemães se reúnem.


Alfred Hitchcock irá introduzir o “suspense” de forma lenta e gradual ao longo da película, ao acompanharmos o percurso de Alicia pela casa, sempre vigiada pela possessiva mãe de Sebastian (Leopoldine Konstantin), que segue a nora para todo o lado, em busca do segredo que desconhece. E será numa festa dada pelos Sebastian que Alicia revela a Devlin, então presente como amigo dela, que algo se encontra escondido na adega da casa, as célebres garrafas com urânio, e será nesta longa sequência, em busca do célebre MacGuffin, tratada por Hitchcock com enorme sabedoria, que Sebastian irá perceber que a sua mulher é uma espia. Decide então confessar o sucedido à mãe, ao mesmo tempo que esconde dos restantes cúmplices alemães a terrível descoberta porque, melhor do que ninguém, ele sabe que eles não irão ter contemplações com Alicia nem mesmo com ele, porque por ali não se olha a meios para atingir fins e cometer um erro dessa envergadura é imperdoável.


Até aqui a forma de agir de Devlin, para o espectador, é verdadeiramente antipática, porque se trata de um homem que trocou o amor por uma causa, mas quando ele percebe que a mulher que ama nunca irá sair daquela casa, tudo muda de figura, porque ela até está a ser envenenada, lentamente, com arsénico. Hitchcock cria então o verdadeiro clímax do filme nesse momento em que Devlin (Cary Grant) entra na casa para levar Alicia (Ingrid Bergman) dali para fora. E aqui Hitchcock, mais uma vez, decidiu sabotar a censura e o famoso código Hays, quando infringe as regras da duração de um beijo, estipuladas pelo infelizmente célebre censor, pondo Devlin a beijar de forma ininterrupta a bela e doente Alicia, no cimo das escadas, enquanto a tenta arrastar para fora da Mansão.


O par de amantes, ao ser descoberto, consegue no entanto sair daquele antro onde se encontram reunidos os conspiradores nazis, simplesmente porque Sebastian se recusa a confessar aos seus cúmplices que a sua mulher é uma espia, deixando-a por amor seguir o seu caminho, levada pelo seu rival, porque é mesmo disso que trata “Notorius” / “Difamação”: a luta de dois homens pela posse do corpo amado. E mais uma vez Alfred Hitchcock nos oferece a essência do seu cinema, criando ao longo de toda a película um suspense gradual, que irá atingir o seu clímax na sequência final.


“Difamação” / "Notorious" surge assim, como um dia afirmou François Truffaut, como “a quintessência de Hitchcock”. Uma obra que nos fascina cada vez mais com a passagem do tempo e onde a câmara do cineasta filma, como ninguém, os sentimentos das diversas personagens, basta ver como o olhar de cada um deles nos é oferecido para descobrirmos como muitas vezes o cinema consegue filmar a alma.

3.4.26

Alfred Hitchcock - "A Casa Encantada" / "Spellbound"


Alfred Hitchcock
"A Casa Encantada" / "Spellbound"
(EUA – 1945) – (111 min. - P/B)
Ingrid Bergman, Gregory Peck, Michael Chekov, Leo G. Carroll.

“A Casa Encantada” / “Spellbound” foi um dos filmes mais rentáveis de toda a carreira de Alfred Hitchcock; recorde-se que foi feito logo a seguir ao final da Segunda Grande Guerra. Anteriormente o cineasta realizara em Inglaterra dois documentários sobre o denominado esforço de guerra dos aliados, “Aventure Malgache” e “Bon Voyage”, um género a que não regressaria, como todos sabemos.


A escolha dos protagonistas para esta película recaiu sobre a bela Ingrid Bergman e Gregory Peck, ambos no auge das suas carreiras, e mais uma vez temos o poderoso produtor David O Selznick a ter a última palavra. Dizemos isso porque a película aborda o tema da psicanálise e Alfred Hitchcock decidiu ter como colaborador na sequência do sonho o célebre Salvador Dali, esse sonho que irá abrir muitas portas para a bela Dra. Constance Peterson (Ingrid Bergman) compreender o passado recente de John Ballantine (Gregory Peck). A famosa sequência ficou célebre e tinha uma extensão de 25 minutos mas Selznick decidiu, por razões de economia narrativa, reduzi-la para os cinco minutos que hoje em dia são conhecidos.


“Spellbound” / “A Casa Encantada” conta-nos a história de John Ballantine (Gregory Peck), que um belo dia surge numa clínica assumindo a identidade do novo director, o Dr. Anthony Andrews, ficando desde logo fascinado pela beleza da fria Dra. Constance Peterson (Ingrid Bergman), que esconde de forma bem subterrânea os seus desejos de todos, como iremos assistir logo no início do filme, mas que irá sucumbir nos braços de John Ballantine, para grande espanto dos seus colegas incluindo o Dr. Murchinson, que vai deixar a clínica e reformar-se, sendo substituído por Anthony Andrews. Mas no dia em que Andrews é chamado para uma operação, termina por desmaiar perante o espanto de todos e será a partir daqui que Constance percebe que algo se passa na mente dele, porque já anteriormente num almoço ele tinha revelado sintomas estranhos ao olhar as linhas paralelas que ela tinha feito na toalha branca da mesa com o talher. E no dia em que ela decide comparar a assinatura dele com a existente num livro de sua autoria, percebe que ele não é quem afirma ser.


As razões que levam a médica a seguir John Ballantine (Gregory Peck), que entretanto foge da clínica deixando-lhe uma carta, revelam-se como o fruto dessa paixão que ela sente por ele e quando se encontram no hall do hotel em New York, já a polícia está no seu encalço. Temos aqui uma sequência muito digna do Mestre, entre o caçador de beldades, a médica e o detective do hotel, não faltando a célebre aparição do cineasta a sair do elevador ao lado de Gregory Peck.

Em “A Casa Encantada” / “Spellbound”, Ingrid Bergman é o espelho perfeito da beleza e quando partimos com o par rumo à cidade onde habita o antigo professor de Constance, uma personagem bem sábia e cujos traços físicos se aproximam bastante do célebre Sigmund Freud, percebemos que em breve iremos descobrir as razões da amnésia de John Ballantine.


E nada melhor como regressar ao local onde este esteve, na companhia do verdadeiro médico, situado numa estância de ski, sendo aqui que a verdade irá sair das profundezas da sua mente, para a luz da vida iluminar o amor para sempre. Iremos ter então a leitura do significado do sonho criado por Salvador Dali e saberemos então onde se esconde a verdade. Essa verdade e conhecimento que Constance Peterson (Ingrid Bergman) irá levar ao verdadeiro responsável pela morte do Dr. Anthony Andrews.

Na época da sua estreia, “Spellbound” / “A Casa Encantada” arrastou multidões de espectadores e devido ao tema tratado, a psicanálise (segundo alguns de forma bem ligeira), passou a andar nas “bocas do mundo”, levando-a para o interior da Sétima Arte que irá dar vida cinematográfica às célebres teorias de Sigmund Freud, aliás bem presentes logo no início da película com a sequência da ninfomaníaca.


“A Casa Encantada” / “Spellbound” permanece, nos dias de hoje, como uma das obras-primas da filmografia de Alfred Hitchcock.

11.2.26

Ingmar Bergman - "Sonata de Outono" / “Hostsonaten”


Ingmar Bergman
"Sonata de Outono" / “Hostsonaten”
( Noruega – 1978) – (92 min. / Cor)
Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Lana Nyman, Halvar Bjork,
Gunnar Bjornstrand, Erland Josephson, Georg Lokkerberg.

Quando alguém fala nos suecos mais importantes da História do Cinema, de imediato três nomes se destacam na nossa memória: o cineasta Ingmar Bergman e as actrizes Ingrid Bergman e Greta Garbo. Se o realizador é um dos nomes mais importantes da Sétima Arte já as duas estrelas, nascidas em décadas diferentes, foram de um brilho insuperável. Enquanto Garbo nasceu na época do Cinema Mudo, a bela Ingrid conheceu o sucesso durante o período sonoro, sendo uma das grandes estrelas do Cinema Clássico, como todos sabemos. E se Greta Garbo abandonou o cinema demasiado cedo, o célebre lema “Garbo Ri” já não surtia efeito perante as novas estrelas criadas em Hollywood, Ingrid Bergman trocou a capital do cinema em pleno apogeu, quando tinha o mundo a seus pés, partindo para Itália depois de se ter apaixonado perdidamente pelo pai do neo-realismo, Roberto Rossellini, regressando alguns anos depois a Hollywood que a recebeu de volta, de braços abertos.


Porém, durante largo tempo, foram muitos os que se interrogaram porque razão os dois suecos com o mesmo apelido, mas sem quaisquer laços familiares, não surgiam no mesmo filme? Os anos foram passando, até que surgiu um projecto na década de setenta, de seu título “Sonata de Outono” / “Hostsonaten”, sendo a produção alemã, embora as filmagens tenham sido feitas na Noruega. A razão era simples: Ingmar Bergman encontrava-se na época a residir na Alemanha devido a um problema com o fisco sueco, que o acusava de fuga aos impostos.


“Sonata de Outono”/ “Hostsonaten” oferece-nos o encontro entre Ingrid Bergman e Liv Ullmann, num daqueles duelos em que ninguém sai vencedor nem derrotado, porque ambas são dirigidas brilhantemente por Ingmar Bergman. Na época, aliás, falou-se muito em desacordos entre Ingmar e Ingrid por causa da abordagem da personagem interpretada pela actriz sueca, ambos tinham posições diferentes, para não dizer antagónicas, mas quando se vê o filme ficamos perfeitamente cativados pela forma como Ingrid Bergman trabalha a sua Charlotte, essa pianista que continua, apesar da idade, mergulhada na sua arte. E aqui, mais uma vez, é-nos oferecida a música de câmara, muito em especial um Prelúdio de Chopin, que nos é apresentado primeiro por uma filha envergonhada pela sua inépcia e depois por uma mãe que, do alto da sua autoridade artística, explica os sentimentos que presidiram à criação dessa obra de Frederic Chopin. E aqui percebemos que aquelas duas mulheres estão ali para se digladiar.


Mas voltemos um pouco atrás no tempo para entrarmos nesta história fabulosa de Ingmar Bergman. Charlotte (Ingrid Bergman) é uma pianista famosa e no dia em que o seu amigo Leonard morre no hospital, recebe uma carta da filha mais velha Eva (Liv Ullmann) a convidá-la para uma estadia na sua casa situada numa pacata aldeia, onde vive com o marido, um pastor protestante (Halvar Bjork), tal como o pai de Ingmar Bergman. Mãe e filha não se falavam, já lá iam sete anos, e mesmo quando o filho de Eva morreu afogado, a avó não teve tempo para visitar a filha. Ficamos assim de imediato a saber como funcionam os sentimentos de Charlotte e a sua relação com a sua arte, verdadeira paixão e fuga do quotidiano.


Quando Charlotte (Ingrid Bergman) se encontra com Eva (Liv Ullmann), tudo nos indica que aquela estadia será benéfica para ambas e nos encontramos no melhor dos mundos, porém lentamente iremos verificar que o passado está bem presente na memória de Eva e esta, por debaixo da sua aparente fragilidade, pretende fazer um ajuste de contas com a mãe, indo buscar todos os acontecimentos perturbantes de uma vida para assim o poder efectuar, de forma consciente.


Assim, nesse momento em que o casal aguarda a descida de Charlotte para jantar, esperando encontrá-la a envergar roupas escuras devido à morte do seu amigo Leonard (Georg Lokkerberg), ela irá surgiu num maravilhoso vestido vermelho e cheia de vida. Começa então o duelo entre ambas. Eva possui um trunfo poderoso, porque na sua casa está a viver a sua irmã Helena (Lena Nyman), que ela foi buscar à casa de saúde onde a mãe a tinha internado anos antes, para cuidar dela. E será no encontro entre Charlotte e Helena que Eva irá começar a sua escala no ajuste de contas de uma vida com a mãe. Essa mesma mãe que a obrigara a fazer um aborto aos dezoito anos, já que não acreditava no amor de adolescentes.


Porém, no interior deste duelo, temos um espectador: o pastor protestante marido de Eva, que no início nos surge como narrador, irá confessar à sogra que o seu casamento com a filha foi uma união onde o amor estava ausente, ele sabia que não era amado e só quando perderam a criança esse amor teve o seu nascimento.


Durante a noite Charlotte, que ficara profundamente chocada com a visão de Helena, embora tenha conseguido disfarçar os seus sentimentos perante todos, acorda no meio de um pesadelo, pensando que a sua filha doente a estava a agarrar na cama, essa mesma filha mais nova que nutre um profundo amor pela mãe como veremos, ao contrário de Eva (Liv Ullmann), que de filha dócil e tímida se transforma numa personagem sedenta de sangue, porque o passado permanece bem presente nela e ao encontrar a mãe na cozinha a meio da noite, decide ali mesmo travar esse ajuste de contas tão desejado ao longo da vida.


Muitos viram este filme como um reflexo da relação que o cineasta teve com o pai, tão bem retratada por ele no seu livro autobiográfica “Lanterna Mágica”, mas o que nos interessa aqui é, na verdade, a forma maravilhosa como Ingmar Bergman nos apresenta estas duas actrizes, numa verdadeira sonata onde o dueto feminino é o movimento principal desta película.


Por outro lado, neste filme, iremos encontrar a arte do grande plano, já que tanto Ingrid Bergman como Liv Ullmann nos surgem em planos espantosos, criados pelo cineasta e com uma contenção maravilhosa, basta recordar como, logo no início, Charlotte (Ingrid Bergman) fala para a câmara sem nunca o seu olhar se cruzar connosco, embora ele esteja em constante movimento. Já Liv Ullmann consegue, ao longo do seu duelo, oferecer-nos uma transformação facial que nos deixa perfeitamente atónitos pelo ódio que vai transparecendo no seu rosto, à medida que as acusações de uma vida aumentam.


No final da película iremos encontrar uma pianista que permanece no seu mundo musical, a viajar de comboio na companhia do seu amigo Paul, enquanto Charlotte regressa ao seu pacato quotidiano, depois de ter expulsado todos os demónios que a atormentavam. E quando a terminar nos são oferecidos os rostos dos três protagonistas, o cineasta consegue o prodígio de nos retratar a alma dos protagonistas. Ingmar Bergman, em “A Sonata de Outono” / “Hostsonaten”, assina mais uma obra-prima do cinema e Ingrid Bergman deixa-nos um dos mais belos testamentos que uma actriz pode oferecer a essa Arte chamada Cinema.

3.2.26

Roberto Rossellini - "Stromboli" / "Stromboli - Terra Di Dio"


Roberto Rossellini
"Stromboli" / "Stromboli - Terra Di Dio"
(Itália – 1950) – (107 min. - P/B)
Ingrid Bergman, Mario Vitale, Renzo Cesana, Mario Spanza.

“Stromboli” surge na cinematografia de Roberto Rossellini como a sua primeira colaboração com a actriz Ingrid Bergman, que trocara Hollywood e o “star-system” por amor a um cineasta do qual muito pouco sabia, mas cuja visão de “Roma Cidade Aberta” / “Roma, cittá aperta” , lhe alterou o sentido da vida.


Karin (Ingrid Bergman) é oriunda da Lituânia e, após a invasão do seu país pelas tropas alemãs durante a Segunda Guerra Mundial, refugia-se na Jugoslávia, partindo depois para Itália com um passaporte falso. Iremos assim encontrá-la detida num campo de refugiados perto de Roma, onde vivem inúmeras mulheres à espera de partir e reconstruir uma nova vida. Mas o pedido de Karin para partir para a Argentina é recusado pelo Cônsul daquele país em terras italianas e esta acaba por se casar com um dos muitos soldados italianos que, à noite, vão até ao campo de detenção cortejar as mulheres que aí habitam, para assim poder fugir daquele espaço que a sufoca lentamente.


António (Mário Vitale) é um soldado oriundo da ilha de Stromboli, uma das mais pobres da Itália, ciclicamente devastada pelas erupções vulcânicas. Antigo pescador, ao regressar à ilha, descobre que o seu barco de pesca se encontra perdido para sempre e recomeça o seu trabalho na pesca na companhia de outros pescadores, num barco que não lhe pertence. Por outro lado a sua casa está praticamente destruída no interior e Karin, estupefacta pela terra que a acolhe, tudo faz para embelezar o seu novo lar. Mas a sua presença de imediato desperta a hostilidade das outras mulheres, que invejam a sua beleza e se recusam a entrar na sua casa, encontrando conforto não no marido mas no faroleiro (Renzo Cesana), que tinha conhecido no barco que a levara para Stromboli.


Um dia em que está junto às águas do mar, a ver as crianças a brincar, decide fazer-lhes companhia até que uma onda a arrasta e será precisamente o faroleiro que se encontrava próximo a segurá-la, perante os olhares rancorosos das outras mulheres da ilha que observam o que se passa.


Nesse mesmo dia, ao regressar a casa, António sabe do sucedido e ao passar pelas ruas ouve vozes que lhe chamam cornudo e de imediato decide encarcerar a mulher em casa, depois de lhe ter batido. E será o faroleiro a ir retirar Karin da sua prisão, oferecendo-se para a levar para o outro lado da ilha onde existe uma outra povoação. Mas Karin, apesar de estar grávida de três meses, não aceita ir de barco com ele embora aceite o seu dinheiro, decidindo subir as montanhas e contornar o vulcão, para fugir do seu destino.


A rodagem de “Stromboli” foi atribulada, já que o argumento de Roberto Rossellini escrito por Sérgio Amidei era mínimo e depois os correspondentes estrangeiros da imprensa internacional decidiram invadir a ilha para acompanhar a rodagem, apesar de esta ser de difícil acesso, porque Ingrid Bergman continuava casada com o marido, embora estivesse a viver com o cineasta italiano, originando um escândalo de grandes dimensões. Por outro lado, os actores que contracenavam com a actriz sueca eram quase todos amadores e Roberto Rossellini tinha imensa dificuldade em os dirigir.


Apesar de todos estes obstáculos, a ex-estrela de Alfred Hitchcock surge em “Stromboli” oferecendo-nos a sua beleza profunda, basta ver os grandes planos de Ingrid Bergman ou a sequência profundamente sensual dela, no mar com as crianças.


As dificuldades e o martírio porque passou a famosa actriz sueca na rodagem da película foram enormes, chegando a queimar os pés na célebre subida para contornar o vulcão. Já o cineasta conseguiu oferecer-nos mais uma obra neo-realista, de cujo género foi o fundador com Luchino Visconti, nunca nos poderemos esquecer do genial “Obsessão” / “Ossessione” que, com “Roma Cidade Aberta” / “Roma, citá aperta”, marcam o nascimento desse género cinematográfico.


“Stromboli” oferece-nos ainda duas sequências que fizeram história: a célebre pesca do atum, que irá aterrorizar Karin, assim como o vulcão em erupção, cujas imagens ficaram na história do cinema e tornaram célebre a película do cineasta italiano.


E quando Karin, em fuga do marido, começa a chegar à zona da erupção, os gases saídos do vulcão impedem a sua caminhada perdendo a mala e o dinheiro que levava consigo, para recomeçar uma nova vida e num acto de desespero ou fé (cada um entende como quer), de joelhos sobre as cinzas do vulcão, ela evoca o nome de Deus e pede a sua ajuda para iluminar o caminho da sua existência.