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16.2.26

Douglas Sirk - “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”


Douglas Sirk
“O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”
(EUA – 1955) – (89 min/Cor)
Rock Hudson, Jane Wyman, Agnes Moorehead,
Conrad Nagel, William Reynolds, Gloria Talbott.

Um dos maiores cineastas do melodrama foi, como todos sabemos, Douglas Sirk, um dos valores mais seguros da Universal Studios durante os anos cinquenta do século xx. E nunca é demais também recordar que foi ele o responsável pela descoberta desse grande actor chamado Rock Hudson, um camionista que um dia decidiu tentar o cinema, tendo-nos oferecido interpretações inesquecíveis, desde as comédias com Doris Day, até aos melodramas de Douglas Sirk, deixando também a sua marca em obras como “O Gigante” / “Giant”, ao lado de Elizabeth Taylor e James Dean.


Quando em 1954 Douglas Sirk juntou Jane Wyman (que foi esposa desse mau actor chamado Ronald Reagan), com Rock Hudson, as plateias da América ficaram em êxtase com o par. E se olharmos bem para Jane Wyman, até nem descobrimos nela essa beleza estonteante que foi marca da idade de ouro do cinema. As mulheres americanas viram na época uma história que as perturbou por um lado, enquanto por outro desejavam vivê-la na vida real. Depois tínhamos também a marca do cineasta, a deixar todas a suspirar por mais filmes do género, de forma a puderem projectar para o écran os seus desejos mais secretos.


Por tudo isto, o produtor Ross Hunter decidiu juntar novamente o par Rock Hudson/Jane Wyman no ano seguinte e convidar Douglas Sirk para realizar “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”, nascendo assim outra obra-prima do melodrama.


Ross Hunter pretendia sempre que o cineasta nos oferecesse o máximo de glamour, fosse através do guarda-roupa dos actores, ou dos interiores das casas habitadas por eles, sempre com as famosas escadas. Basta olhar para Jane Wyman na película e fica tudo dito. Por outro lado Sirk usa o argumento de acordo com as suas necessidades estéticas, controlando sempre a montagem para evitar o corte de terceiros. Recorde-se que uma das marcas do cineasta é fazer a montagem no interior do próprio plano, usando de forma soberba o plano-sequência. E para finalizar temos sempre essa maravilhosa direcção de actores, feita sempre com poucas palavras, mas muita paciência, como nos conta William Reynolds “com Sirk as filmagens eram sempre tranquilas”.


Logo a abrir temos essas cores outonais tão do apreço do cineasta, que nos convidam a visitar uma little town e conhecer o universo de Cary Scott (Jane Wyman), uma viúva com dois filhos que se movimenta muito bem no interior do “jet-set” local (se nos permitem a expressão). Mas lentamente vamos percebendo que aquela mulher vive a sua vida de acordo com o desejo de terceiros, desde os filhos, até aos amigos, habitando uma viuvez eterna. Basta ver a reacção dos filhos, logo no início da película, quando a encontram vestida de vermelho para ir a uma festa. Mas ao saberem que o acompanhante é o velho Harvey (Conrad Nagel), ficam mais tranquilos.


Iremos assim seguir a vida desta mulher de meia-idade, carente de amor, que um dia irá descobrir num homem quinze anos mais novo do que ela, uma razão para renascer das cinzas.


Ron Kirby (Rock Hudson) é o filho do antigo jardineiro, que cuidava das casas da zona e revela-se um homem que vive acima dos preconceitos, optando por uma vida em que é dono da sua própria alma, ao mesmo tempo que possui Walden como referência. Aquele ano será o último em que se dedica a trabalhar nos quintais da zona, porque na escola agrícola descobrira o interesse pela plantação de árvores e decidira investir todo o seu saber nessa nova área, vivendo numa estufa, com os seus pequenos haveres.


A generosidade dele e a sua forma de estar na vida despertam a curiosidade de Cary e, depois de conhecer um casal amigo de Kirby que vive de acordo com os mesmos princípios, Cary deixa-se cair nas malhas do amor, esquecendo-se que os filhos nunca irão aceitar que ela case com um homem bem parecido e muito mais novo do que ela, para além de ser de outra condição social, embora Kirby pretenda viver com Cary no moinho, que está a reparar, junto da estufa.


Se a reação dos filhos é a pior possível, ameaçando-a de nunca mais lhe falarem, já a atitude dos seus famosos amigos é de um cinismo atroz, com a inevitável má-língua a deixar marcas pela cidade fora.


Cary Scott (Jane Wyman) decide então aceitar o destino imposto por terceiros, vivendo exclusivamente para os filhos e as aparências, até que no Natal percebe o erro cometido. Os filhos vão partir para sempre, Ned (William Reynolds) em trabalho, para um outro Estado, enquanto Kay (Gloria Talbott) informa a mãe que se vai casar. E como filhos “perfeitos” que são, não se esquecem da “cereja no topo do bolo”, e oferecem à mãe uma televisão para lhe “aquecer as noites de solidão”.


Finalmente, Cary Scott (Jane Wyman) entende a tragédia da sua vida e decide voltar atrás no tempo, em busca desse amor recusado por ela, em virtude de Ron Kirby (Rock Hudson), pertencer a uma condição social inferior à sua e comungar com a vida, de forma diferente do habitual.


“O Que o Céu Permite”/ “All That Heaven Allows” oferece-nos, deste modo, um dos melodramas mais sublimes da história do cinema. Um filme que nunca nos cansamos de ver, descobrindo sempre, em cada visionamento, um novo elemento da genialidade de Douglas Sirk.

9.2.26

Douglas Sirk - "Sublime Expiação" / "Magnificent Obsession"


Douglas Sirk
"Sublime Expiação" / "Magnificent Obsession"
(EUA – 1954) – (108 min. / Cor)
Rock Hudson, Jane Wyman, Barbara Rush, Agnes Moorehead, Otto Kruger.

Esta obra de Douglas Sirk, realizada em 1954, é um “remake” do filme com o mesmo nome, que John M. Sthal levou ao grande écran em 1935, com Robert Taylor e Irene Dunne nos protagonistas, sendo ambos os filmes oriundos dos mesmos Estúdios “Universal” que, na época, tinham por norma fazer “remakes” de obras que eram grandes sucessos e das quais ainda detinham os direitos, obtendo desta forma lucros bastante elevados.


Dezanove anos depois, Douglas Sirk irá refazer a obra, introduzindo a cor onde outrora vivera o preto e branco, ao mesmo tempo que opta por filmar em exteriores, ao contrário de John Sthal que rodou tudo em Estúdio, uma prática da época. No entanto, a Suiça que Douglas Sirk nos oferece é recriada em Estúdio, sendo curioso o facto de, nesta segunda versão, substituir a Paris da primeira versão, essa eterna cidade dos apaixonados. Nesse país iremos encontrar reunidas três sumidades da ciência, para fazerem regressar a luz aos olhos de Helen Phillips (Jane Wyman).


Nesta nova versão, mais uma vez produzida por Ross Hunter, descobrimos que Douglas Sirk decidiu explorar até ao limite o melodrama, eliminando algumas sequências com humor incluídas na versão de Sthal, ao mesmo tempo que nos oferece a sua marca de autor, através da habitual montagem no interior do plano, explorando ao máximo a composição desse mesmo plano, não descurando o mais pequeno pormenor, jogando mais uma vez de forma assombrosa com as cores. Embora esta marca da importância da cor na composição do plano seja apanágio de Douglas Sirk, também a poderemos encontrar no primeiro filme realizado a cores oito anos antes por John M. Stahl, “Amar Foi a Minha Perdição” / “Leave Her to Heaven”, uma das obras-primas do melodrama.


Por outro lado, a forma como é utilizada a banda sonora, com a introdução de “coros celestiais” a pontuar diversas sequências, como se Deus estivesse ali presente, eleva o sentido melodramático de “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession” até esse território do Divino.


Aliás, Thomas Schatz refere-se a esta questão da seguinte maneira: «Em certo sentido, todos os filmes de Hollywood podem ser caracterizados como melodramáticos. Numa definição (estrita) do termo, o melodrama refere-se às formas narrativas que combinam música (melos) e drama. A utilização hollywoodesca da música de fundo pretendeu sempre dar aos filmes uma dimensão formal que se constituísse como sua auréola, uma pontuação emocional.» E é precisamente isso que faz Douglas Sirk no seu “Magnificent Obsession” / “Sublime Expiação”, nos momentos de maior clímax da película, como se o destino daquelas personagens estivesse dependente da vontade de Deus.


No início do filme iremos conhecer Bob Merrick (Rock Hudson), um playboy rico e mimado, que pretende bater um recorde de velocidade na água, mas o seu barco vira-se depois de passar os 240 km e de imediato vão buscar um aparelho reanimador, que se encontra em casa do Dr. Phillips. Durante o processo de reanimação de Merrick, o médico sofre um ataque cardíaco e morre em virtude de o seu aparelho não se encontrar na sua casa.


O drama fica instalado e quando Bob Merrick se cruza com a viúva do Dr. Phillips (Jane Wyman) desconhece a sua identidade. Mas quando sabe finalmente quem ela é, tudo fará para reparar o seu erro, começando a olhar a vida segundo a doutrina do amável Dr. Phillips, que um dia lhe é contada pelo pintor Edward Randolph (Otto Kruger) mas, como não podia deixar de ser, a tragédia espreita ao virar da esquina, de forma a oferecer-nos um poderoso melodrama.


Rock Hudson, que surge aqui mais uma vez a ser dirigido por Douglas Sirk, entra definitivamente no estrelato, enquanto Jane Wyman, na época casada com Ronald Reagan, cumpre de forma perfeita com o que lhe é exigido. Aliás, foi o enorme sucesso obtido por este par junto do público, que levou o produtor Ross Hunter e Douglas Sirk a juntá-los de novo, no ano seguinte, nessa obra-prima intitulada “O Que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows”. Por outro lado “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession” oferece-nos um conjunto de secundários que não deixam os seus créditos por mãos alheias: Barbara Rush interpretando Joyce Phillips, a filha do Dr. Phillips, que na época já tinha 27 anos, embora na película isso esteja bem camuflado, é excelente na sua composição, recorde-se que ela terá o seu momento alto, dois anos depois, quando fará de mulher de James Mason em “Bigger Than Life” de Nicholas Ray; Agnes Moorehead, na figura da enfermeira e amiga de Helen, não precisa de apresentações porque todos a conhecemos do Mercury Theater de Orson Welles e sabemos o seu valor; enquanto Otto Kruger, a interpretar o pintor Edward Randolph, foi na época um dos mais seguros secundários de Hollywood, certamente lembram-se dele na figura do nazi de “Sabotagem” / “Saboteur” de Alfred Hitchcock.


Mais uma vez, a habitual e serena direcção de actores de Douglas Sirk oferece-nos os seus frutos, tendo em conta a liberdade que dava aos movimentos dos actores no plateau, na composição das suas personagens. Depois de tudo o que escrevemos, só poderemos concluir que “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession” permanece uma das obras incontornáveis da filmografia de Douglas Sirk.