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7.8.26

Olivier Assayas - "Vidas Duplas" / "Doubles Vies"


Olivier Assayas
"Vidas Duplas" / "Doubles Vies"
(França - 2018) - (108 min./cor)
Guillaume Canet, Juliette Binoche,
Vincent Macaigne, Nora Hamzawi, Christa Théret.

Olivier Assayas oferece-nos um bem divertido retrato do mundo contemporâneo, onde as redes sociais e a net ditam as modas, com os algoritmos a assumirem o temível papel de "big brothers amiguinhos" dos utilizadores, sempre dispostos a oferecerem-nos mais sugestões de consumo.


Por outro lado temos meia-dúzia de personagens que nos divertem neste "Vidas Duplas" / "Doubles vies", com uns diálogos geniais (Assayas é também o argumentista), que nos oferecem um retrato dos meios intelectuais franceses, mas que se aplicam a um universo sem fronteiras, abordando em particular o universo literário e livreiro, com o surgimento do digital, blogues, facebook e esses enormes "influencers", que circulam pela Galáxia de Gutemberg, pagos por essa entidade sem rosto que são os Mercados.

Já as relações sentimentais das personagens de "Vidas Duplas" / "Doubles Vies", cujo cartaz do filme que reproduzimos fala por si, revelam-se também como um retrato desta época contemporânea:


1 - O editor (Guillaume Canet) que acredita no digital como futuro e vê o fim do livro em papel, mas que será desmentido pelo Mercado, porque as modas passam depressa, mas ainda tem esperança que o audio-livro seja o futuro.

2 - A actriz (Juliette Binoche) casada com o editor à 20 anos, que está farta de fazer séries, mas nos dias de hoje é o que há de melhor, porque ninguém diz mal das séries de televisão e o sucesso é garantido, e cansada irá aceitar fazer de "Fedra" no Teatro.

3 - O escritor destes tempos modernos (Vincent Macaigne), cuja fonte de inspiração dos seus livros é a sua própria vida, relatando a sua trágica vida sentimental, só mudando os nomes dos protagonistas e que até descobre que os "twits" são os "haikus" da modernidade!

4 - A assessora do deputado (Nora Hamzawi), que vive sempre a criar pontes para as areias movediças onde este manobra, até a perdição o atingir nessas roulotes estacionadas no "Bois de Bologne"

5 - A especialista em comunicação (Christa Théret) que conhece bem a profissão, já se fazem livros de sucesso só com "mails", profissão onde está sempre a prazo e não olha a meios para atingir os fins.


Estas são as personagens chave de filme de Olivier Assayas, mas também temos uns secundários inesquecíveis, com umas "tiradas exemplares", que nos oferecem um retrato do universo mediático em que nos movemos, através de um click.


"Vidas Duplas" / "Doubles Vies" é um filme fabuloso, com um ritmo perfeito, não há um fotograma a mais ou a menos, diálogos corrosivos e interpretações acima de qualquer suspeita, todos estão como peixe na água e até a personagem de Juliette Binoche vai telefonar à Juliette Binoche para ela gravar um audiolivro, porque para ter sucesso têm que ser os famosos a fazê-lo e nesta época de loucura mediática só podemos ficar à espera que Olivier Assayas regresse um dia com estes personagens ao nosso convívio.

17.4.26

Christian Carion - “O Caso Farewell” / “L’Affaire Farewell”


Christian Carion
“O Caso Farewell” / “L’Affaire Farewell”
(França – 2009) – (113 min. / Cor)
Guillaume Canet, Emir Kusturica, Alexandra Maria Lara,
Ingeborga Dapkunaite, Fred Ward, Willem Dafoe, Aleksey Gorbunov.

O cineasta francês Christian Carion que se estreou na longa-metragem com “Une hirondelle a fait le printemps” (2001) e que quatro anos depois iria surpreender tudo e todos com o fabuloso “Joyeux Noel” / “Feliz Natal”, decidiu mais uma vez fazer um filme contra a corrente dos tempos, e em boa hora o fez, porque este “L’Affaire Farewell” / “O Caso Farewell”, baseado em factos verídicos, tal como sucedia no seu filme anterior, convida-nos a visitar a famosa guerra-fria entre o Ocidente e o Bloco Soviético, narrando-nos a história dos protagonistas do “Caso Farewell”, que iria promover uma profunda machadada nos serviços de informação do KGB, mais concretamente nos seus agentes a trabalharem ocultos no Ocidente.


A feitura deste filme levantou tanta polémica no interior da Rússia que, durante a pré-produção da película, o Ministro da Cultura Alexander Avdeev proibiu as filmagens que deveriam ser feitas em Moscovo, ao mesmo tempo que aconselhava o cineasta Nikita Milkakov a retirar-se do elenco porque o filme, no seu entender, “tratava de forma heróica um traidor da pátria”. Recorde-se que Alexander Avdeev, na época em que foi conhecido “O Caso Farewell”, trabalhava na Embaixador Soviética em Paris. Por esta mesma razão, a produção da película foi obrigada a deslocar as filmagens previstas para Moscovo para a sua vizinha Ucrânia.

Mais uma vez Christian Carion nos irá surpreender pela sua perfeita “mise-en-scéne”, nunca sendo demais destacar a sobriedade interpretativa do bem conhecido cineasta Bósnio Emir Kusturica, que aqui veste a pele do Coronel Sergei Gregoriev, membro do KGB, que se encontra descontente com o futuro previsível com que se depara a sua nação, decidindo começar a passar informações privilegiadas para o Ocidente para minar assim, por dentro, os poderosos serviços de espionagem de que faz parte.


Ao engenheiro francês Pierre Froment (Guillaume Canet) é pedido, por Paris, para se encontrar com um homem cuja identidade desconhece para receber um pacote contendo documentos, não sabendo este amador de espião que está prestes a protagonizar um dos mais estranhos e famosos casos de espionagem, que irá alterar para sempre a relação de forças dos então dois blocos.

“O Caso Farewell” vai-nos demonstrar como o famoso mundo dos espiões e dos serviços secretos é bem diferente daquele que vimos diariamente no cinema porque, na realidade, os descuidos e as falhas são muitas, assim como a sorte é sempre passageira.


Porém o mais importante do filme, segredo do cineasta, é a forma como ele nos oferece o quotidiano dos dois homens, o russo com um profundo amor por França, onde vivera anteriormente, durante alguns anos, tendo-se apaixonado pela cultura deste país, veja-se aliás a forma como ele fala dos poetas e da música, muito em especial desse enorme vulto chamado Léo Ferre: esse momento sublime da película que dança com a esposa ao som de “La Melancolie”. Já Pierre Forment (Guillaume Canet) luta pelo equilíbrio familiar do seu lar, após a esposa (Alexandra Maria Lara em mais uma magnifica interpretação) saber que ele se encontra envolvido em espionagem, “armado em James Bond, colocando a vida de todos em risco”.

Por outro lado, em contraponto, Christian Carion oferece-nos a estupefacção dos serviços secretos franceses à medida que as informações vão chegando, ao mesmo tempo que, em Washington, Ronald Reagan (Fred Ward) e os seus colaboradores andam perfeitamente alarmados com a vitória nas eleições francesas de François Miterrand (Philippe Magnan), que aceita integrar no seu governo personagens oriundas do Partido Comunista Francês. No entanto a colaboração entre os dois homens, de visões tão diferentes, irá transformar-se um sucesso, comungando ambos das informações inacreditáveis que vão recebendo secretamente da capital soviética. Recorde-se que esta operação foi denominada “Farewell”, para o KGB pensar que se tratava de uma acção da CIA, dando assim algum tempo aos franceses para prepararem a retirada perante um possível revés.


“O Caso Farewell” / “L’Áffaire Farewell” revela-nos um cineasta que gosta de interrogar a história nesses territórios em que a verdade permanece submersa, oferecendo-nos relatos que nos transmitem uma nova visão acerca do mundo em que vivemos. Christian Carion é, sem dúvida alguma, um cineasta a seguir com toda a atenção, porque nele vive a famosa marca do cinema de autor!