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19.9.26

Walerian Borowczyk - "Contos Imorais" / "Contes Immoraux"


Walerian Borowczyk
"Contos Imorais" / "Contes Immoraux"
(França - 1973) - (96 min./Cor)
Paloma Picasso, Fabrice Luchini, Lise Danvers,
Charlotte Alexandra, Liesbeth Hummel.

Na época da sua estreia este filme arrastou multidões e pela parte que me toca confesso que o fui ver ao cinema Castil na época da sua estreia, a sala estava esgotada, sendo a primeira película que vi de Walerian Borowczyk, que aqui tinha como chamariz do público, a presença da filha de Pablo Picasso, como protagonista deste filme erótico.


Na época Paloma Picasso era capa de diversas revistas, incluindo a célebre "Paris Match" com as suas célebres jóias, e embora o filme seja composto por diversas históriasatravés do tempo e ela figurar apenas na da condessa húngara, será a sua presença no filme de Walerian Borowczyk, que irá marcar estes "Contos Imorais" / "Contes Immoraux", já que Fabrice Luchini, protagonista do episódio contemporâneo, nesta época ainda era um desconhecido para a maioria do público cinematográfico.


Quando terminou a montagem desta película, o cineasta polaco Walerian Borowczyk decidiu retirar o episódio intitulado "The True Story of the Beast of Gevauder", para mais tarde o incluir no filme "La bête" / "O Monstro" e só em 2013 no New Horizons Film Festival na Polónia foi apresentada a versão original, que viria a ser editada em dvd em 2014.

22.8.26

Eric Rohmer - “A Árvore, o Presidente e a Mediateca” / “L’Arbre, Le Maire et Le Médiathéque”


Eric Rohmer
“A Árvore, o Presidente e a Mediateca” / “L’Arbre, Le Maire et Le Médiathéque”
(França – 1993) – (105 min. / Cor)
Pascal Grehhory, Arielle Dombasle, Fabrice Luchini,
Clémentine Amouroux, François-Marie Banier.

“A Árvore, o Presidente e a Mediateca”, de Eric Rohmer, é um verdadeiro “ovni” no interior da filmografia deste cineasta francês, tendo sido realizado logo a seguir à feitura de “Conto de Inverno”. Nesse ano de 1993 Eric Rohmer decidiu oferecer-nos a sua visão do interior da França, partindo da célebre oposição cidade/campo.


Julien Dechaumes (Pascal Greggory) é um Presidente de Câmara Socialista, que sabe não ter hipóteses de ser célebre em Paris, decidindo permanecer na província, onde desenvolve a sua actividade partidária, embora passe a maior parte do tempo na capital Parisiense, pretendendo instalar na cidade onde exerce funções uma enorme Mediateca, símbolo do progresso, num terreno onde se encontra uma árvore milenária.


Iremos assim assistir aos preparativos da construção desse grande empreendimento, que até possui financiamento do Governo, graças aos seus bons conhecimentos no interior do Partido, porém uma voz irá levantar-se contra esse projecto: Marc Rosignol (Fabrice Luchini) professor na pequena cidade.


Embora saiba que a sua luta para impedir a descaracterização da região se encontra votada ao fracasso, Marc Rosignol não desiste de defender os seus pontos de vista e quando é entrevistado por uma jornalista de uma revista, convidada pelo próprio Presidente de Câmara, a sua mensagem surge muito mais sedutora, acabando por se transformar na vedeta da publicação dedicada ao assunto, relegando para plano secundário a outra entrevista dada por Julien Dechaumes, fruto desses anos em que o movimento ecologista dava os primeiros passos.


Em “A Árvore, o Presidente e a Mediateca” / “L’Arbre, le maire et la médiathèque”, Eric Rohmer oferece-nos o confronto entre duas visões do denominado progresso, tomando o cineasta partido pelo campo, em oposição à cidade, ao mesmo tempo que nos apresenta uma película de ficção, que vai beber a sua essência ao documentarismo, veja-se aliás a forma como o Arquitecto nos apresenta o projecto numa conversa com o Presidente de Câmara ou as entrevistas que a jornalista Blandine Lenois (Clémentine Amouroux), faz aos habitantes da pequena cidade de província.


Mais uma vez Eric Rohmer mantém-se fiel ao seu estatuto de autor, construindo um filme com um argumento mínimo, mas bastante “palavroso”, no bom sentido da palavra, como é seu hábito, ou não fosse ele conhecido como o cineasta da palavra, oferecendo-nos uma reflexão sobre os caminhos do denominado progresso e as lutas que ele desperta.

10.5.26

Eric Rohmer - “4 Aventuras de Reinette e Mirabelle” / “4 Aventures de Reinette et Mirabelle”


Eric Rohmer
“4 Aventuras de Reinette e Mirabelle” / “4 Aventures de Reinette et Mirabelle”
(França – 1987) – (95 min. / Cor)
Joelle Miguel, Jessica Forde, Philippe Loredenbach,
Béatrice Romand, Marie Rivière, Fabrice Luchini.

Esta Película de Eric Rohmer, surgida em 1987 reflecte um pouco o amor do cineasta à vertente das pequenas histórias ou se preferirem curtas-metragens, transformando as quatro histórias que nos são narradas numa longa-metragem.


Eric Rohmer encontrava-se na época a concluir a série intitulada “Comédias e Provérbios”, realizando no ano seguinte, 1988, o derradeiro capítulo intitulado “O Amigo do Meu Amigo” e com “4 Aventuras de Reinette e Mirabelle”, uma película fora do contexto da série, iremos mergulhar no confronto entre a rapariga criada no campo, Reinette, que até fez os seus estudos por correspondência e a jovem citadina Mirabelle, que num dia de férias se irão encontrar e desenvolver uma amizade, que as irá conduzir a compartilharem uma casa em Paris.

Se a primeira aventura trata desse mesmo encontro entre Reinette e Mirabelle, em que a primeira irá dar a conhecer à segunda esse momento mágico em que a noite chega com os seus silêncios apenas interrompidos pelo respirar da natureza, um simples minuto puro e mágico em que os seres humanos e o universo dormem tranquilamente, já na segunda história iremos descobrir as duas raparigas em Paris, para acompanharmos a aventura de Reinette num café a digladiar-se com o empregado que, ao ver uma nota de 200 francos para pagar um simples café, deduz que a jovem o pretende enganar, no intuito de beber o café e na primeira oportunidade fugir do local, mal o veja virar costas. Por um lado Reinette revela-se uma jovem séria, perplexa com a atitude de empregado (como todos sabemos, Paris é a capital dos cafés, onde podemos passar umas boas horas na companhia de um livro sem sermos incomodados). Já o empregado, com a sua desconfiança no que diz respeito aos jovens, exerce um poder desmedido que se irá voltar contra si próprio, como saberemos no final.


Na terceira aventura, Mirabelle ao ir a um supermercado para comprar umas bolachas, irá acompanhar os roubos levados a cabo por uma cleptomaníaca no interior do estabelecimento que, sem saber, se encontra a ser vigiada por dois funcionários disfarçados de simples clientes. Quando junto à caixa, por razões que a própria razão desconhece, Mirabelle decide ajudar a mulher, ao recolher o saco com o produto do roubo, saindo pela porta fora, para depois o entregar à cleptomaníaca, fora da porta do supermercado a jovem mulher é detida e solta em virtude de não ter consigo nenhum dos produtos roubados.

Por seu lado a ingénua Reinette irá ser burlada numa estação de comboios por uma mulher bem vestida que lhe conta que acabou de ser roubada, pedindo-lhe dinheiro para comprar um bilhete. Reinette não hesita em ajudá-la, mas mais tarde irá perceber que se tratava de um estratagema, ao descobri-la a contar a mesma história a outra pessoa, provocando-lhe tal uma enorme irritação que a irá conduzir a confrontar a mulher acerca do seu modo de vida.


No final do dia, quando as duas amigas se encontram na casa que compartilham, os acontecimentos do dia irão mais uma vez demonstrar os diferentes pontos de vistas de cada uma acerca do quotidiano que respiramos diariamente.

Ao chegarmos à última das aventuras de Reinette e Mirabelle, iremos descobrir que a jovem provinciana se encontra sem posses para manter a sua estadia em Paris, mas como tem uma certa apetência pela pintura, algo que sabemos desde o primeiro episódio, decide levar as suas obras até uma galeria, fingindo-se muda, conforme sugestão da amiga, para ali tentar realizar o dinheiro necessário para permanecer em Paris.


Os diálogos desta última aventura de Reinette e Mirabelle são simplesmente fascinantes, de um humor soberbo, ao mesmo tempo que a célebre paixão do cineasta pela pintura se reflecte nesses mesmos diálogos, sendo de destacar a prestação de Fabrice Luchini na figura do Marchand, numa fabulosa composição.

Eric Rohmer em “4 Aventures de Reinette et Mirabelle” demonstra com a sua conhecida subtileza a maneira simples como são construídos os seus filmes, fruto de diálogos verdadeiramente saborosos, investindo sempre todo o seu saber numa planificação e direcção de actores que se revelam como os principais alicerces do seu cinema.


Seja qual for o formato optado por Eric Rohmer para os seus filmes, o brilhantismo da planificação do seu cinema revela-nos a eterna juventude deste cineasta imortal.