31.5.26

Keith Jarrett - “Eyes of the Heart”


Keith Jarrett
“Eyes of the Heart”
ECM Records
1979

Keith Jarrett – piano, soprano saxophone, osi drums, tambourine.
Dewey Redman – tenor saxophone, tambourine, maracas.
Charlie Haden – bass.
Paul Motian – drums, percussion.

1 – Eyes of the Heart (Part One) – 17:06
2 – Eyes of the Heart (Part Two) – 15:42
3 – Encore (a-b-c) – 18:01


Nos dias de hoje, neste século XXI, o álbum “Eyes of The Heart” de Keith Jarrett regista o derradeiro concerto do célebre quarteto americano do pianista e onde a improvisação é a regra, demonstrando as afinidades que ligavam os membros do quarteto, que sempre produziram uma música repleta de cores e sem fronteiras, onde o calor dos diálogos entre os diversos instrumentos nos conduziam a paisagens únicas como sucede no longo tema intitulado “Eyes of The Heart”, onde Keith Jarrett surge também a tocar saxofone soprano ao lado de Dewey Redman, para além de diversos instrumentos de percussão na abertura do tema.

Recorde-se que a edição em vinil, lançada no mercado na época, surpreendeu os compradores, porque se tratava de um álbum duplo de três lados ou seja os temas 1 e 2 intitulado “Eyes of the Heart” encontravam-se no primeiro LP, enquanto o “Encore (a-b-c)” surgia só no lado A do segundo disco. E esse mesmo encore encontrava-se dividido em três temas, que nos irão captar a atenção, porque são tocados quase sem pausas.

Assim temos primeiro um tema no quarteto habitual: saxofone, piano, contrabaixo e bateria. Já no segundo tema descobrimos Keith Jarrett a tocar apenas saxofone num duelo/diálogo com Dewey Redman, inesquecível, para no final Jarrett largar o instrumento e correr para o piano e nos oferecer um tema em piano solo repleto de lirismo.

“Eyes of The Heart” revela-se o mais belo documento dos concertos ao vivo do célebre quarteto americano de Keith Jarrett, com Dewey Redman, Charlie Haden e Paul Motian!

Registo do concerto realizado em Maio de 1976 no Theater am Kommarkt em Bregenz-Austria. Engenheiro de som Martin Wieland (Tonstudio Bauer). Fotografias de Keith Jarrett, Design de Barbara Wojirsch. Produção de Manfred Eicher. Todos os temas são da autoria de Keith Jarrett.

Alan Rickman - “Nos Jardins do Rei” / “A Little Chaos”


Alan Rickman
“Nos Jardins do Rei” / “A Little Chaos”
(Grã-Bretanha – 2014) – (112 min./Cor)
Kate Winslet, Alan Rickman,Matthias Schoenaerts, Stanley Tucci.

A segunda longa-metragem dirigida por Alan Rickman é um verdadeiro hino de amor ao cinema, pela forma como está realizado, para depois nos oferecer também um desempenho inesquecível de Kate Winslet na criação desse jardim majestoso para o Rei Luis XIV, no Palácio de Versailles.


Tudo é perfeito em “A Little Chaos” / “Nos Jardins do Rei” o derradeiro filme realizado por Alan Rickman, que nos deixou em 2016, mas para além dos seus trabalhos como cineasta, ele merece esta designação, ficam também na mem´ria de todos o seu trabalho como actor tendo abordado os mais diversos géneros cinematográficos, com interpretações que ficaram na memória de todos os cinéfilos.

Agustina Bessa-Luís - "O rato"


Agustina Bessa-Luís
"O rato"
in "Ficções - Revista de Contos nº.1"
Tinta Permanente
Ano: 2000

Luísa Costa Gomes, em Abril de 2000, lançou este revista de contos, em formato de livro, intitulada "Ficções - Revista de Contos", com uma periocidade semestral e cuja aventura iria conseguir viajar por aí durante alguns anos, em duas editoras, tal foi o desejo da escritora e tradutora em divulgar esse género maior que é o conto, segundo os americanos e com razão, mas que nós portugueses até desprezamos, infelizmente.

As edições tinham contos oriundos das mais diversas paragens e estilos e por vezes surgiam inéditos escritos de propósito para verem a luz do dia na "Ficções -Revista de Contos", como sucedeu precisamente com este conto delicioso de Agustina Bessa-Luís, que bem merece ser redescoberto, como gostaria também de ver esta aventura editorial a regressar às bancas, porque adoro o formato de conto.

Para terminar gostaria de referir que todos os números de "Ficções - Revista de Contos" estão disponíveis na net e são verdadeiras pérolas e recordamos que "ler um conto por dia, não sabe o bem que lhe fazia", no intuito de incentivar a leitura, seja em papel ou digital.

John Ford - “O Denunciante” / “The Informer”


John Ford
“O Denunciante” / “The Informer”
(EUA – 1935) – (91 min. – P/B)
Victor McLaglen, Heather Angel, Preston Foster.

Qualquer amante da Sétima Arte, quando decide re(ver) alguns filmes do cinema expressionista, mergulha de imediato no cinema alemão, mas irá terminar sempre por ir ver este filme de John Ford, que possui na fotografia de Joseph H. August alguns dos momentos mais belos do expressionismo no cinema.


Em “O Denunciante” / “The Informer” acompanhamos o calvário desse gigante chamado Gypo Nolan (extraordinário e inesquecível Victor McLaglen), que irá denunciar o chefe do IRA local às autoridades britânicas para receber o prémio da delação e com esse dinheiro partir com a sua amada para a América.

Baseado no livro de Liam O’Flaherty, do qual Dudley Nichols criou um poderoso argumento, que irá prender o espectador do primeiro ao último fotograma, com essa redenção na igreja do protagonista no final da película.


“O Denunciante” / “The Informer”, de John Ford, conquistou quatro Oscars: Melhor Actor: Victor McLaglen; Melhor Realizador: John Ford; Melhor Argumento: Dudley Nichols e Melhor Banda Sonora: Max Steiner.

30.5.26

Joni Mitchell - "Night Ride Home"


Joni Mitchell
"Night Ride Home"
Geffen Records
1991

Em 1991 a canadiana Joni Mitchell grava aquele que será o seu último álbum para a editora "Geffen Records", recorde-se que a célebre "song-writer" gravou quatro álbuns para este editora, terminando por regressar à editora "Reprise Records", onde já gravara anteriormente com enorme sucesso. "O álbum "Night Ride Home" irá revelar-se uma verdadeira pérola musical da década de 90, assinada por Joni Mitchell.

Agnès Jaoui / Jean-Pierre Bacri - “Na Praça Pública” / “Place Publique”


Agnès Jaoui / Jean-Pierre Bacri
“Na Praça Pública” / “Place Publique”
(França – 2018) – (98 min./Cor)
Agnès Jaoui, Jean-Pierre Bacri, Lés Drucker.


O retrato mais-que-perfeito do mundo "civilizado" do século XXI, através da escrita, interpretação e realização do par mais fascinante do cinema francês: Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri!

Alix - "O Túmulo Etrusco" - Jacques Martin


Alix
"O Túmulo Etrusco" / "Le Tombeau Étrusque"
Arte: Jacques Martin
Argumento: Jacques Martin
Páginas: 64
Asa /Público

"O Túmulo Etrusco" / "Le tombeau etrusque" foi a primeira aventura de Alix que li na saudosa Revista Tintin (edição portuguesa), tornando-me de imediato fan desta maravilhosa série de banda desenhada criada pelo francês Jacques Martin (1921-2010).

A primeira publicação de "O Túmulo Etrusco" / "Le tombeau etrusque" iniciou-se a 17 de Novembro de 1967 na Revista Tintin (belga) nº.45 do 22º ano e terminou a 28 de Maio de 1968, no nº.22 do 23º ano, no célebre sistema de "em continuação", muito em voga nas revistas de banda desenhada. Em 1983 esta aventura do jovem Alix foi editada em álbum pelas Edições 70. Meio século depois da sua criação, Alix e o álbum "O Túmulo Etrusco" continuam a maravilhar os seus leitores pelo traço e rigor histórico de Jacques Martin.

John Dahl - “A Última Sedução” / “The Last Seduction”


John Dahl
“A Última Sedução” / “The Last Seduction”
(EUA – 1994) – (110 min. / Cor)
Linda Fiorentino, Peter Berg, Bill Pullman, J. T. Walsh.

John Dahl deu nas vistas quando realizou “Delito em Red Rock West” / “Red Rock West”, a história de um homem que apenas pretende um emprego numa "little town" e se vê envolvido numa trama de enganos, quando é confundido com um assassino contratado e que tudo fará para o evitar, incluindo denunciando a situação à polícia local, para descobrir que foi o próprio xerife (J. T. Walsh), que contratou o assassino (Dennis Hopper), para matar a sua própria mulher.


A razão desta sinopse prende-se pelo facto de John Dahl gostar de ambientar os seus filmes nas “little town”, oferecendo-nos de forma perfeita o microcosmos de uma América profunda, por vezes muito desconhecida de todos nós. E será isso mesmo que fará no seu filme seguinte intitulado “A Última Sedução” / “The Last Seduction”, onde nos oferece o retrato de uma “Femme Fatale”, que nos irá cativar ao longo da película. A escolhida para a protagonista foi Linda Fiorentino que, como devem estar recordados, descobrimos todos nesse filme nocturno de Martin Scorsese “After Hours”, então de cabelo curtinho na figura da escultora. Mas aqui ela é uma mulher impiedosa, que gosta de manipular o marido (Bill Pullman), nunca olhando a meios para atingir os seus fins, porque ela simplesmente adora dinheiro.

Logo no início do filme, ao vermos a forma como ela controla os vendedores que se encontram debaixo da sua alçada percebemos como ela é vil e feroz, arrastando uma perigosa sensualidade no interior do seu corpo. E após o marido ter feito um negócio com uns "dealers", que lhe rende uma quantia de 700.000 dollars, ela não resiste a fugir com o dinheiro.


Deixa assim em fuga a grande cidade e vai estrada fora, terminando por parar numa povoação longe de tudo e de todos e, mal entra no bar da pequena povoação, de imediato desperta as atenções dos presentes, mas será o inocente Mike Swale (Peter Berg, cuja carreira se estendeu depois à realização e argumento), a cair nas suas “boas graças”, que irá ser manipulado a seu prazer, porque de certa forma irá tornar-se seu escravo sexual, depois de ela decidir permanecer na pequena povoação, arranjando de imediato emprego (na empresa onde Mike trabalha), para assim começar a delinear o seu plano perfeito.

Clay Gregory, o marido (Bill Pullman), que é vítima da perseguição de um agiota, decide contratar um detective para a encontrar e reaver o dinheiro mas ela, a mulher fatal, irá saber lidar com a situação quando é localizada. E aqui John Dahl oferece-nos um retrato perfeito da América profunda. Lentamente Mike vai ficando refém nas mãos de Bridget Gregory (Linda Fiorentino), desconhecendo a existência do dinheiro ilícito. Ela decide então saber mais sobre o passado do seu amante divorciado, que poucos dias depois de se casar pedira o divórcio e regressara à povoação que o vira crescer.


Na verdade Mike possui um enorme “esqueleto no armário”, sexualmente falando e quando Bridget lhe conta o que sabe do seu passado, ele simplesmente fica aterrorizado e ela então decide fazer chantagem com ele, “convidando-o” a liquidar o marido.

Swale (Peter Berg) sabe que a divulgação do seu segredo lhe irá arruinar a vida e decidi aceitar a proposta mas, ao chegar a casa de Clay Gregory, tudo lhe sai mal e termina a ser confrontado pelo marido. No entanto Bridget Gregory, a perfeita “Femme Fatale”, tem um plano alternativo e decide agir por sua conta e risco.


Linda Fiorentino possui aqui a sua melhor interpretação de sempre e com a sua voz rouca e sensual e sem complexos, constrói uma personagem que nos deixa perfeitamente, atónitos. Por outro lado John Dahl cria um “suspense” que nos agarra até ao último minuto do filme, porque estamos sempre a ser surpreendidos pelo desenrolar do argumento. Aliás por sinal muito bem carpinteirado, dando sempre uma atenção muito especial aos pormenores, que retratam a localidade onde se passa parte da acção, basta ver a forma como ele nos mostra o racismo subterrâneo que vive nos habitantes daquela cidade, ao verem a cor do detective que segue Bridget.

“A Última Sedução” surge assim como uma obra plena de erotismo e suspense, possuidora de um olhar perfeito sobre a América profunda e onde a direcção de actores é na verdade de primeira água, sendo sempre de destacar o desempenho de Linda Fiorentino, porque na verdade nunca poderemos imaginar este filme com outra actriz.

29.5.26

Paul Motian - “Tribute”


Paul Motian
“Tribute”
ECM Records
1975

Paul Motian – percussion.
Sam Brown – acoustic guitar, electric guitar.
Carlos Ward – alto saxophone.
Paul Metzke – electric guitar.
Charlie Haden – bass.

1 – Victoria (Paul Motian) – 5:25
2 – Tuesday Ends Saturday (Paul Motian) – 6:38
3 – War Orphans (Ornette Coleman) – 7:27
4 – Sod House (Paul Motian) – 9:51
5 – Song For Che (Charlie Haden) – 8:33


O genial Paul Motian surge aqui como líder a dirigir um quinteto onde as cumplicidades são bem conhecidas, desde o amigo Charlie Haden, até ao guitarrista Sam Brown. E se o primeiro foi, tal como ele, membro do famoso trio de Keith Jarrett, já o guitarrista participou no célebre "Treasure Isalnd" do pianista, para além de outras colaborações pontuais. Carlos Ward introduz esse calor bem conhecido do saxofone, com os seus fraseados, que Paul Motian tanto gosta de inserir nos álbuns em nome próprio.

Gravado em Maio de 1974 no Generation Sound Studios, New York City, por Tony May e misturado por Martin Wieland. Produzido por Manfred Eicher. Fotografia de Roberto Masotti e Layout de Sascha Kleis.

O álbum “Tribute” de Paul Motian foi editado também em cd na série “Old and New Masters”, ECM 2260/65, uma box set que reúne seis dos seus álbuns gravados para a editora de Munique e que foi editado em 2013, após o falecimento do célebre baterista.

"Retrospectiva Pier Paolo Pasolini"


"Retrospectiva Pier Paolo Pasolini"
Páginas: 56
Ver Filmes


Retomo hoje a viagem pelo cinema nos livros com um catálogo intitulado "Retrospectiva Pier Paolo Pasolini", mas como o catálogo não refere as datas nem o local onde foram exibidos os filmes de Pier Paolo Pasolini, terei de me socorrer da minha memória, correndo os inevitáveis riscos que a idade transporta e assim escreverei que tudo se passou na segunda metade da década de 70, do século passado, sendo o local de exibição o cinema São Luiz, foi por lá que comprei o catálogo, aquando da exibição da película “Lola Montes” de Max Olphüls.

Poderemos descobrir neste catálogo dedicado ao realizador italiano diversos textos da sua autoria, como um dos seus mais célebres poemas, para além de diversas críticas cinematográficas das mais variadas origens e uma interessante bio-filmografia.

Eram os anos da cinefilia!

Konstantin Korovine - "Boulevard des Capucines"


Konstantin Korovine
"Boulevard des Capucines"
Óleo sobre tela
65 x 80,7 cm.
Ano: 1911

Konstantin Korovine - (1861 - 1939) - foi o mais famoso pintor Impressionista russo e este seu quadro oferece-nos uma maravilhosa perspectiva do famoso "Boulevard des Capucines" em Paris durante a noite repleto de animação, bem característica da zona nesses anos, graças à justa exposição de cores que transformam este quadro num belo retrato da vivência Parisiense.

Ingmar Bergman - "A Força do Sexo Fraco" / “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor”


Ingmar Bergman
"A Força do Sexo Fraco" / “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor”
(Suécia – 1964) – (80 min. / Cor)
Jarl Kulle, Eva Dahlbeck, Bibi Andersson, Harriet Anderson.

Quando vimos pela primeira vez este filme de Bergman, ficámos na verdade surpreendidos, nessa época em que nos cinemas de Lisboa tínhamos quatro a cinco filmes do cineasta todos os anos (entre estreias e reposições). Falamos, claro, desses anos setenta, em que a cinéfilia vivia nas salas e fora delas, com intermináveis discussões nos cafés, após as sessões.


Muitos anos depois, ao revermos “A Força do Sexo Fraco” / “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor” em dvd, voltámos a sentir essa mesma surpresa, porque o cineasta nos oferece uma obra em que o burlesco está bem presente, basta reparar na banda sonora de certas sequências, ao mesmo tempo que descobrimos uma homenagem a esses tempos do cinema mudo.

Também é do conhecimento geral que Ingmar Bergman, nas suas memórias, demonstra não ter grande apreço pela obra, a qual foi um insucesso comercial e da crítica. Mas se olharmos bem para “A Força do Sexo Fraco” / “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor”, iremos descobrir um filme que nos oferece momentos únicos, na obra do grande cineasta sueco.


Tudo começa no velório desse grande músico, mestre do violoncelo, que vivia recluso na sua casa acompanhado por sete mulheres, sendo Adelaide (Eva Dahlbeck) a oficial e as restantes, suas amantes, desde a pupila eleita e desprezada, até à criada (Harriet Andersen). Todas elas irão, no início do filme, prestar a sua homenagem ao falecido músico, pronunciando todas a mesma frase. Por seu lado o crítico musical Cornelius (Jarl Kulle, fabuloso) prepara-se para fazer o seu elogio fúnebre, ele que até pretendia ser o seu biógrafo oficial.

Surge então o flash-back, que nos irá contar os três dias que antecederam a tragédia. Iremos assim descobrir que o crítico visita o célebre músico com o pretexto de pretender escrever a sua biografia, embora a verdadeira razão seja convencê-lo a interpretar uma obra de sua autoria. Uma daquelas obras mais que menores, que caiem no esquecimento após a primeira audição. Cornelius inicia, durante esses três dias, uma longa caminhada para aceder a Félix, do qual nunca vimos o rosto, mesmo quando ele decide hipotecar a sua arte e interpretar a obra do crítico, morrendo nesse momento de ataque cardíaco, porque na verdade tinha decidido vender a sua genialidade e os Deuses não lhe perdoaram o gesto.


Ao longo desses dias, Cornelius irá descobrir o mundo em que Félix vive, à medida que vai conversando com as respectivas mulheres que habitam a casa, ou escondendo-se pela casa para escutar os seus segredos mais íntimos, que navegam pelos quartos e corredores daquela majestosa mansão, percebendo que estas musas inspiradoras existem apenas para oferecer os seus prazeres carnais. Mas o que lhe interessa verdadeiramente é que o músico interprete a sua pequena peça musical. Por outro lado, a figura do crítico surge aqui também como uma espécie de desmistificação dessa personagem que habita todas as Artes.


“A Força do Sexo Fraco” / “For Att Inte Tala Om Alla Dessa Kvinor” surge assim na obra de Ingmar Bergman como uma espécie de “ovni” recorde-se que o seu filme anterior foi “O Silêncio” / “Tystnaden” e o posterior essa obra-prima intitulada “Persona” / “A Máscara”, ao mesmo tempo que nos oferece uma meditação sobre o papel do crítico perante a Arte. Uma verdadeira lufada de ar fresco, com um sorriso nos lábios.

28.5.26

Neil Young - "Decade"


Neil Young
"Decade"
Reprise Records
1976

No ano de 1977 Neil Young lança uma colectânea num triplo álbum reunindo 35 temas do seu reportório em nome próprio, oferecendo uma bela viagem pela sua discografia da década de setenta do século passado.

Valerian - “Os Pássaros do Mestre” - Pierre Christin / Jean-Claude Mézières


Valerian
“Os Pássaros do Mestre” / “Les Oiseaux du Maitre”
Argumento: Pierre Christin
Arter: Jean-Claude Mézières
Pranchas: 46
Asa/Público

A quinta aventura de Valerian, nascida do imaginário de Jean-Claude Mézières, surgiu pela primeira vez no ano de 1973 e mais uma vez o argumentista Pierre Christin convida o leitor de banda desenhada, através de “Os Pássaros do Mestre” / “Les Oiseaux du Maire”, a fazer uma reflexão sobre o poder das ditaduras e a capacidade de revolta dos subjugados, desta feita liderados por Valerian e Laureline, por outro lado é feita uma análise sobre a desistência e o conformismo, que atingem por vezes os habitantes da Galáxia. Este álbum das aventuras de Valerian e Laureline é muito mais do que uma banda desenhada!

Georges Seurat - "Le Cirque"


Georges Seurat
"Le Cirque"
Óleo sobre tela
185 x 152 cm.
Ano: 1891
Musée d'Orsay, Paris.

Georges Seurat - (1859 - 1891) - "Le Cirque" foi a última obra criada por Georges Seurat, que viria a falecer nesse mesmo ano e o famoso mestre do pontilhismo oferece-nos uma pintura tendo por base o célebre circo "Fernando", onde descobrimos no centro do quadro uma imagem repleta de movimento, perante uma assistência que segue estática as acrobacias da jovem, que se eleva do cavalo com enorme elegância e arte.

Frank Capra - "Uma Noite Aconteceu" / "It Happened One Night"


Frank Capra
"Uma Noite Aconteceu" / "It Happened One Night"
(EUA – 1934) - (105 min. - P/B)
Clark Gable, Claudette Colbert, Walter Connoly, Ward Bond.

Frank Capra, melhor do que ninguém, olhou durante anos a sociedade americana, rompendo das mais variadas formas as regras do jogo, sempre com uma visão mordaz e crítica sobre o célebre “american way of life”, que ainda hoje cativa as mais diversas gerações. No entanto, quando deixou de filmar, tornou-se um homem reticente perante os novos caminhos que a América então trilhava, aliás bem patente nessa obra monumental que é a sua autobiografia intitulada “O Nome Acima do Título” / “The Name Above the Title”, publicada em 1971.


Quando em 1934 foi lançado “Uma Noite Aconteceu” / “It Happened One Night”, poucos acreditavam no sucesso da película, apesar dos protagonistas serem Clark Gable e Claudette Colbert. E ao vermos este filme percebemos bem que ele tinha acabado de inaugurar um género que ainda se faz hoje em dia no cinema, o célebre “on the road”, tantas vezes revisitado ao longo dos anos.

Ellie Andrews (Claudette Colbert) é uma jovem herdeira, que decide virar as costas à fortuna e partir para essa grande metrópole que é New York, à boleia. A forma como ela foge do iate é simples e indicadora dos seus desejos. E, como não podia deixar de ser, torna-se de imediato notícia na Imprensa do país.


Nessa sua viagem pela estrada fora, irá cruzar-se com um jornalista (Clark Gable), que irá estar sempre em conflito perfeito com ela. Estamos assim decididamente no interior dessa guerra de sexos, que fez da “screwball comedy” um género delicioso.

Numa das sequências que ficaram famosas no filme, Clark Gable tenta pedir boleia e os automobilistas não param, mas quando a bela Claudette Colbert o substitui nessa “árdua tarefa”, decidindo usar os seus atributos físicos, mostrando as famosas pernas e respectiva liga, de imediato consegue atingir os seus objectivos.


Durante a viagem as peripécias são inúmeras, tal como as discussões constantes entre ambos, mas o amor espreita e quando nessa noite em que ela coloca um cobertor a dividir o quarto, que ambos vão partilhar, para salvaguardar o seu corpo do desejo que mora ao lado, ou seja do galante homem que a acompanha, percebemos que aqueles dois seres de classes antagónicas estão destinados um ao outro.


“It Happened One Night” / “Uma Noite Aconteceu” é uma das comédias mais delirantes que a Sétima Arte nos ofereceu, graças à sabedoria desse Mestre do Cinema chamado Frank Capra.

27.5.26

Ralph Towner / Gary Burton - “Matchbook”


Ralph Towner / Gary Burton
“Matchbook”
ECM Records
1975

Ralph Towner – 12-string guitar, classical guitar.
Gary Burton – vibraharp.

1 – Drifting Petals (Ralph Towner)– 5:14
2 – Some Other Time (Comden/Green/Bernstein) – 6:12
3 – Brotherhood (Gary Burton) – 7:08
4 – Icarus (Ralph Towner)– 5:48
5 – Song For a Friend (Ralph Towner)– 5:05
6 – Matchbook (Ralph Towner)– 4:29
7 – 1x6 (Ralph Towner) – 0:52
8 – Aurora (Ralph Towner) – 5:07
9 – Goodbye Pork Pie Hat (Charlie Mingus) – 4:22


Um dos maiores símbolos do denominado jazz de câmara, criado muito especialmente no continente europeu, embora envolva inúmeros músicos norte-americanos, como sucede precisamente em “Matchbook”, possui o seu ponto máximo nos álbuns de duetos em que encontramos diálogos entre dois instrumentos, improváveis, conduzindo a um romance perfeito.

Em “Matchbook”, Ralph Towner com as suas guitarras clássicas e a famosa de 12 cordas, brilha de forma intensa ao lado de Gary Burton, portador desse seu célebre som cristalino oriundo da vibraharp, que termina sempre por nos invadir a alma.

Embora Ralph Towner assine a maioria dos temas que escutamos em “Matchbook”, alguns já conhecidos de outras gravações, como é o caso de “Icarus”, incluído no álbum “Diary” do guitarrista, temos também o famoso “Some Other Time”, desse grandioso compêndio musical que é o “Great American Songbook” e a fechar com chave de ouro o álbum “Matchbook”, temos o imortal tema de Charlie Mingus “Goodbye Pork Pie Hat”, que também ficou bem famoso através da voz de Joni Mitchel e da guitarra acústica de John McLaughlin, num outro registo.

Gravado nos dias 26 e 27 de Julho de 1074, no Studio Bauer, Ludwigsburg, por Martin Wieland. Fotografias de Paul Maar. Capa do álbum e Design de B & B Wojirsch. Produção de Manfred Eicher.

Isaac Asimov - "Onde Estão Todos?"


Isaac Asimov
"Onde Estão Todos?"
Magazine do Fantástico e Ficção Cientifica nº.5
(The Magazine of Fantasy and Science Fiction)
Matriz / Editorial Império

«Traz-nos-á alguma vantagem detectar uma inteligência extra-terrestre qualquer?
Penso que sim. Deixem-me dar um exemplo da vantagem que nos poderia trazer. O simples facto de uma existir, especialmente se o que se detectar nos puder dizer que está mais avançada tecnologicamente do que nós, provar-nos-á que é possível a uma espécie desenvolver uma civilização avançada e não obstante não se suicidar. Eu, pelo menos, ficaria delirante ao saber disso.»

Isaac Asimov
in "Onde Estão Todos"

…/…

Eu também ficaria feliz como Isaac Asimov, porque, infelizmente, a tendência humana para a destruição do planeta e da vida deixa-me perplexo.

Janine Niepce - "Homme au pain"


Janine Niepce
"Homme au pain"
Ano: 1963

Janine Niepce - (1921 - 2007) - foi uma fotografa e jornalista francesa, que privilegiou o humanismo no seu trabalho, tendo colaborado com a resistência francesa e os movimentos sociais ocorridos nas décadas de 60/70 do século passado. 


Por outro lado o seu trabalho incidiu também sobre as diversas manifestações ocorridas pelos diversos movimentos dedicados à libertação das mulheres e à luta pelos seus direitos, tanto no mundo do trabalho, como na sua relação com o sexo oposto. Já a fotografia que reproduzimos intitulada "Homme au pain", revela-se de um profundo humanismo, surgindo quase como uma pintura.

Joseph Losey - "O Criado" / "The Servant"


Joseph Losey
"O Criado" / "The Servant"
(Grã-Bretanha – 1963) – (115 min. - P/B)
Dirk Bogarde, Sarah Miles, James Fox, Wendy Craig.

No filme “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”, de Irwin Winkler, encontramos Martin Scorsese a interpretar a figura do cineasta Joe Lesser que, perante o avanço do famoso comité de actividades anti-americanas do senador McCarty, decide deixar Hollywood, porque sabe que já ninguém lhe irá dar trabalho, por se encontrar na Lista Negra dos Estúdios, decidindo fugir durante a noite para a Europa para evitar ser preso.


Na realidade, a personagem a quem Martin Scorsese dá vida é o cineasta Joseph Losey, que nunca escondeu nos seus filmes um certo olhar sobre a sociedade americana, que incomodava muita gente, bastando recordar essa película extraordinária que é “O Rapaz dos Cabelos Verdes” / “The Boy With Green Hair”, um poderoso filme anti-racista, que trouxe fama ao cineasta na época da sua estreia. Colocado na lista de homens a abater pelo temível senador, Joseph Losey foi obrigado a partir de Hollywood e a refugiar-se em Itália onde, para sobreviver, teve que trabalhar em diversos filmes de Série-B, escondendo a sua identidade debaixo de pseudónimos. E só seria em Inglaterra, o seu destino seguinte, que voltaria a assinar com o seu nome os filmes que então irá realizar.


“O Criado” / “The Servant” oferece-nos de forma contida a luta de classes, utilizando o microcosmo da relação entre um jovem aristocrata (James Fox, então em início de carreira) e o seu “fiel” criado de quarto (Dirk Bogarde, em mais uma excelente interpretação).

Tony (James Fox) é um jovem aristocrata que está para se casar com a bela Susan (Wendy Craig), também ela possuidora do mesmo estatuto social, que um dia decide contratar o denominado “criado de quarto”, surgindo a responder ao anúncio um homem discreto e culto, que acaba por ser aceite.


Porém Hugo Barrett (Dirk Bogarde) é um homem temível a todos os níveis que, com os seus bons modos e pequenas opiniões “sem importância”, começa a influenciar decididamente o patrão, passando rapidamente de assuntos triviais e mundanos, para a vida particular e social do seu patrão, terminando por dominá-lo interiormente, sem este se aperceber.

Para se apoderar melhor do controlo do seu amo, convence-o a contratar a sua “irmã” Vera (Sarah Miles) para os trabalhos de cozinha, escondendo que ela é na realidade a sua amante. E quando Hugo Barrett (Dirk Bogarde) começa a encontrar a oposição de Susan (Wendy Craig), perante a influência que ele exerce na casa, consegue convencer o patrão que ela nunca será a esposa de que ele tanto necessita, para brilhar ainda mais na alta sociedade, terminando, com os seus “bons modos”, por convencer o patrão a deixar a mulher que ama.


Lentamente, esta dupla perigosa, não só irá tomar conta da casa londrina, como irá manejar o jovem aristocrata a seu belo prazer, transformando-o numa personagem decadente, espelho perfeito dessa sociedade que Hugo Barrett tanto odeia.

“The Servant”/ “O Criado” surge assim como uma película que nos oferece um retrato cínico e feroz das relações sociais e a respectiva luta pelo poder (a que não será alheio o facto de o seu argumentista se chamar Harold Pinter), utilizando um olhar profundamente impiedoso sobre as respectivas personagens. Basta reparar na forma como Hugo no início rodeia Tony, o seu amo, de atenções e sugestões, para no final desprezar o farrapo humano que conseguira criar, quando se encontra já na posse plena da casa, verificando-se uma total e (im)perfeita inversão de estatutos, transformando-se ele no verdadeiro dono e senhor.


“O Criado” / “The Servant”, que já se encontra editado em Portugal, no formato dvd é uma obra que merece bem ser (re)descoberta.

26.5.26

Plumbline / Roger Eno -"Transparency"


 Plumbline / Roger Eno
"Transparency"
Hydrogen Dukebox
2006

Plumbline é um compositor e produtor norte-americano oriundo de Los Angeles e cujo verdadeiro nome é Will Thomas. Usando o pseudónimo de Plumbline irá gravar quatro álbuns, num período de uma década, sendo dois deles com o pianista e compositor Roger Eno, irmão do célebre Brian Eno. 
"Transparency" irá registar o encontro entre estes dois músicos no ano de 2006 e sete anos depois irão voltar a reunir-se para gravar o álbum "Endless City" em 2013.

"Astérix e a Transitálica" - Jean-Yves Ferri / Didier Conrad


Astérix
"Astérix e a Transitálica" 
Argumento: Jean-Yves Ferri
Arte: Didier Conrad
Páginas: .48
Asa

As aventuras de Astérix e Obélix e restantes habitantes gauleses, assim como esses romanos que os cercam, nunca esquecendo César, acompanham-me à mais de meio-século e quando foi anunciado que Albert Uderzo iria passar o testemunho a uma nova dupla, confesso que temi o pior.

Mas felizmente tal não sucedeu com os nomes escolhidos por Albert Uderzo (1927 - 2020), um dos criadores dos temíveis gauleses (o genial Rene Goscinny foi o outro "pai" desta célebre banda desenhada, que infelizmente nos deixou demasiado cedo), constituída por Jean-Yves Ferri como argumentista e Didier Conrad nos desenhos, que deram uma continuidades de excelência às aventuras de Astérix e Obélix, que desta feita se irão envolver num "rali" através do território romano, com participação de inúmeros povos conquistados pela poderosa Roma de Júlio César, incluindo uma dupla de Lusitanos bem divertida!

Richard Avedon - "Carmen in Paris"


Richard Avedon
"Carmen in Paris"
Ano: 1957

Richard Avedon - (1923 - 2004) - foi um fotógrafo norte-americano, que desde cedo introduziu a sua arte no universo da moda, sendo as suas fotos publicadas nas mais célebres revistas como a "Harper's Bazaar", "Vogue" e "Elle". Mas a sua arte expandiu-se também para outras áreas, tendo ficado célebre a forma como ele capturava o movimento como sucede nesta fotografia obtida em Paris no ano de 1957 e intitulada "Carmen in Paris".

Ernest B. Schoedsack / Merian C. Cooper - "King Kong"


Ernest B. Schoedsack / Merian C. Cooper
"King Kong"
(EUA – 1933) - (99 min. - P/B)
Fay Wray, Robert Armstrong, Bruce Cabot.

Quando comparamos o filme “King Kong” de 1933 com o “remake” levado a cabo por Peter Jackson, percebemos de imediato a grandeza da película realizada por Ernest B. Schoedsack e Merian C. Cooper.


E se Naomi Watts é bela e espantosa, a sensualidade de Fray Wray, que veste a pele da actriz desempregada Ann Darrow no filme de 1933, bate-a aos pontos. Depois temos essa luz e sombra que habita o filme e subjuga o espectador de forma perfeita, sempre com o perigo a rondar os participantes da perigosa expedição. E quando Fray Way é levada por King Kong percebemos que estamos perante o velho mito da bela e do monstro. Mas o monstro, esse enorme gorila, também possui os seus sentimentos, protegendo a bela dos perigos que espreitam a cada momento nessa selva inóspita e perigosa, que lhe serve de refúgio.


Usando maquetes e um boneco articulado, Willis O’Brien oferece-nos em todo o seu esplendor a magia do cinema. E quando encontramos King Kong, esse rei dos reis, aprisionado em New York a servir de espectáculo a um público incrédulo e sedento de sangue, percebemos que ele só se poderá revoltar, procurando no alto do Empire State Building a salvação impossível, levando com ele não uma presa, mas sim a mulher que admira pela sua beleza, terminando abatido pela esquadrilha de aviões que o irá defrontar, numa das mais espectaculares sequências do filme.


“King Kong”, que na época custou cerca de 750.000 dollars, uma quantia astronómica e fora do habitual, continua nos dias de hoje a fazer as delícias dos cinéfilos e de todos os amantes da Sétima Arte, demonstrando mais uma vez que a História do Cinema esconde maravilhosas pérolas cinematográficas que bem merecem ser (re)descobertas e (re)avaliadas.