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27.8.26

Luiza Neto Jorge - "Poesia 1960-1989"


Luiza Neto Jorge
"Poesia 1960-1989"
Páginas: 320
Assírio & Alvim

A rua era do Mundo e o café "A Parisiense" do senhor Gouveia, numa das esquinas do Largo do Camões, e ali ía com a minha avó, foi assim, com a idade de um digito, que me cruzei várias vezes com a Luíza Neto Jorge, desconhecendo como era bela a sua poesia.

Anos mais tarde descobri a palavra poética e surrealista e assim a poesia de Luíza Neto Jorge, passou a conviver com as minhas leituras.


IV

Gasto-me à espera da noite
impraticável

fiel
sugo os lábios da noite

invariável caio
nos poços da noite

Gasto-me à espera da noite alheia
amassada de gargalhadas doces e areia

Amor anoitecido vem
tecer-me um vestido
nocturno

Atraiçoo os anúncios luminosos
até a lua nova sabe a ausente
- e eu anavalhei-te com naifas de ansiedade -

Estou à espera da noite contigo
venham as pontes ruindo sob os barcos
venham em rodas de sol
os montes os túneis e deus

Estou à espera da noite contigo
livre de amor e ódio
livre
sem o cordão umbilical da morte
livre da morte

estou
à espera
da noite

Luiza Neto Jorge,
in "A noite vertebrada"

1.8.26

Tom Waits - "Nocturnos"


Tom Waits
"Nocturnos"
Páginas: 104
Colecção: Rei Lagarto
Assírio & Alvim

Tom Waits nasceu a 7 de Dezembro de 1949 em Ponoma, Califórnia e será em 1973 que o mundo irá escutar a sua voz ainda pouco rouca e a sua genial poesia, acompanhada por esse piano que, como ele disse numa song, esteve a beber, não ele pianista, mas sim essas teclas onde os blues navegam de forma sublime e assim nascia "Closing Time" o seu álbum de estreia; depois, bem depois Tom Waits seguiu on the road, tal como Jack Kerouac, essa boa influência, cuja memória termina sempre por navegar nos inesquecíveis poemas de Tom Waits e onde a música também possui uma voz única. Aqui vos deixo o belo poema "Muriel" incluído no seu trabalho discográfico "Foreign Affairs" e incluído nos seus livros de poesia.


Muriel

Desde que deixaste a cidade, Muriel, os clubes fecharam
E há mais um candeeiro fundido na rua principal
Ali onde costumávamos passear.
Muriel, ainda assombro os meus velhos antros
E tu segues-me sempre onde quer que vá
Muriel, vejo-te num sábado à noite na casa de jogos
Com o cabelo apanhado, atrás
E aquele brilho de diamante no olhar
É a única aliança que alguma vez te comprarei Muriel.
E, Muriel, quantas vezes abandonei esta cidade
Para me esconder da tua memória
Que me persegue
Mas nunca vou além do bar mais próximo
Onde compro outro charuto barato e te encontro em cada noite
Muriel, Muriel...
Olá amigo, tem lume?

Tom Waits
(Tema incluído no álbum "Foreign Affairs”)

20.4.26

E. E. Cummings - “XIX Poemas”


E. E. Cummings
“XIX Poemas”
Colecção: Gato Maltez nº.27
Paginas: 80
Assírio & Alvim


O filme “Ana e as Suas Irmãs” / “Hannah and Her Sisters”, realizado por Woody Allen em 1986, oferece-nos diversas histórias, mas a mais fascinante de todas, para mim, é o caso amoroso passado entre Elliott (Michael Caine) e Hannah (Barbara Hershey) e quando ele se faz encontrado por ela, “por mero acaso”, numa rua da Big Apple, terminam por irem a uma dessas livrarias em que só nos apetece nunca mais dali sair e então ele procura na estante o livro de poemas de E. E. Cummings e profundamente apaixonado pela irmã da sua mulher, lê-lhe este poema VIII de E. E. Cummings.


VIII

algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que eu não posso tocar de tão próximas que estão

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me
embora eu me tenha cerrado como dedos,
tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera
(tocando hábil, misteriosamente) a primeira rosa

mas se teu desejo for encerrar-me, eu e
minha vida fecharemos em beleza, de repente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve em tudo cuidadosa descendo;

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala
o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura
me submete com a cor dos seus domínios,
representando a morte e para sempre em cada alento

(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre; apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos.

E. E. Cummings
(Tradução de Jorge Fazenda Lourenço)

19.4.26

Helena Lima - "Teu Amor Fez-me Mulher"


"Teu Amor Fez-me Mulher"

Meu Amor, não tenhas dó
Por me veres assim tão só
Quase no mundo perdida
Bendita seja esta dor
Que me fez saber a Amor
Um pouco da minha vida

Saudade não dói sequer
Teu amor fez-me mulher
E a vida tem mais sentido
Numa ânsia de amor maior
Das horas do nosso amor
Nem um minuto perdido

O que conta em nossos dias
Muito mais que as alegrias
É tudo o que tem verdade
As jóias de mais valor
São os momentos de Amor
Mesmo que deixam saudade!

Nota: Poema incluído no disco "Barcos no Cais" de Helena Lima.

Helena Lima
in "Poesia"

12.4.26

Helena Lima - "Sózinha Pensando"


"Sózinha Pensando"

Numa festa de mansinho
Sem paixão nem ânsia louca
Há por vezes mais carinho
Que em beijos de muita boca

Dia, noite, madrugada.
Claridade, escuridão
Quando a mulher é amada
A vida tem mais razão

À mulher que tem amor
Que importa ser pobrezinha
Tendo de tudo o melhor
Mais pobre é quem está sózinha

Amor é um frio que aquece
e quando aquece - revive...
Quem ama muito - padece.
Quem ama pouco - não vive.

Nota: Poema incluído no disco "Barcos no Cais" de Helena Lima.

Helena Lima
in "Poesia"

29.3.26

Helena Lima - "Gosto de Te Ver Zangado"


"Gosto de Te Ver  Zangado"

Gosto de te ver zangado
Mas se é só um bocadinho
Esse teu ar amuado
Parece pedir carinho

Acho graça ver-te assim
Esse teu ar tem poesia
E dou-te em beijos de mim
O que tenho de alegria

Se estás zangado a valer
Sem teus olhos a falar
Então não sei que dizer
Só me apetece chorar

Não te voltes a zangar
Fica o mundo triste e eu
Sem te poder abraçar
Fico mais triste que tu!

Nota: Poema incluído no disco "Barcos no Cais" de Helena Lima.

Helena Lima
in "Poesia"

23.3.26

John Ashbery - “Uma Onda e Outros Poemas”


John Ashbery
“Uma Onda e Outros Poemas”
Páginas: 65
Quetzal


A Edição de poesia em Portugal está repleta de pequenas colecções extremamente importantes e aliciantes, mas por vezes muito difíceis de encontrar, em virtude de as suas tiragens serem bastante pequenas e a sua divulgação escassa. No entanto há disponível em Bibliotecas um enorme acervo de obras bem interessantes, à espera de serem descobertas. É precisamente o caso desta bela colecção editada pela Editora Quetzal em 1992, de pequeno formato e intitulada Poetas em Mateus, respeitante ao encontro havido entre os autores e os seus tradutores. Um desses trabalhos que viu a luz do dia foi precisamente “Uma Onda e Outros Poemas”, do poeta norte-americano John Ashbery, do qual oferecemos um pequeno excerto, já que o poema em questão é bastante longo, algo habitual na sua obra poética. John Ashbery é um nome incontornável da poesia norte-americana.


"Uma Onda"

(...) E embora essa outra pergunta que fiz e de que não consigo 
Lembrar-me vá deslocar-se ainda mais para cima, lançando 
Enormemente a sua sombra sobre o lugar onde fico, não a entendo. ]
Basta saber apenas que em breve terei respondido por mim mesmo, ]
Terei sido levado para novas averiguações e trazido depois de volta ]
Ao quarto extraordinariamente silencioso em que toda a minha vida teve lugar. ]
Vê como vai e volta; as paredes, como véus, nunca são as mesmas, ]
Mas a sede permanece idêntica, ser sempre entretido 
E olhado com admiração. E por fim somos nós quem acaba com isso, }
Põe a andar o hóspede que parte, para que nenhuma pergunta fique ]
Por fazer, e portanto sem resposta. Por favor, quase 
Parece dizer, leva-me contigo, tenho idade para isso. Exactamente. ]
E assim cada um de nós tem de ficar sozinho,consciente do outro 
Até ao dia em que a guerra nos absolva das nossas diferenças. Diremos ]
Qualquer coisa. Assim eles fizeram, a toda a hora. (...)

John Ashbery
in "Uma Onda e Outros Poemas"
(Tradução de João Barrento)

22.3.26

Helena Lima - "Barcos no Cais"

 

"Barcos no Cais"

Mais um barco a partir e tu agora
Adeus, só mais um desejo, adeus Manuel
Tens uma mulher forte que não chora
Serei ao teu amor sempre fiel.

Parece tão vazia a nossa rua
Parece tão sombria esta cidade
Sei que sou menos triste por ser tua
Mas sinto-me mais só por ter saudade,

Mais um barco a chegar. É Primavera
no coração dos homens a cantar
E em cada mulher no cais à espera
Quanto carinho e beijos para dar.

Barcos no cais. Lisboa canta agora,
Ainda te quero mais do que já quiz
A gente de alegria também chora
E eu choro Manuel, por ser feliz!

Nota: Poema incluído no disco "Barcos no Cais" de Helena Lima.

Helena Lima
in "Poesia"

15.3.26

Helena Lima - "Andorinha que Não Voa"


"Andorinha que Não Voa"

Como aquela Andorinha que nasceu
De asas cortadas sem saber voar
Dentro do ninho a contemplar o céu
Querendo viver para o poder olhar

Como a mulher perdida, apaixonada
Que um passado infeliz quer esquecer
Coração feliz, alma atormentada
Ganhando amor com medo de o perder

Sonhos, esperanças, carinho, desejo
Erros, desgostos, lágrimas, saudades.
Nosso amor proibido, em cada beijo
Vivendo de mentiras - é Verdade!

Helena Lima
in "Poesia"

Nota: Poema incluído no disco "Fados por Helena Lima".

13.3.26

D. H. Lawrence - "Gencianas Bávaras e Outros Poemas"


D. H. Lawrence
"Gencianas Bávaras e Outros Poemas"
Páginas: 112
A Regra do Jogo

David Herbert Lawrence, ou melhor D. H. Lawrence, muito conhecido pelos seus romances, alguns abordando temas tabu para a época em que viveu, foi também um magnífico poeta, bastante influenciado por esse génio americano chamado Walt Whitman, a quem Álvaro de Campos dedicou o famoso poema “Saudação a Walt Whitman”. Ao editar o livro “Gencianas Bávaras e Outros Poemas”, com tradução de João Almeida Flor, a Editora “A Regra do Jogo”, oferece ao leitor uma oportunidade sublime de descobrir esse outro lado, poético, do célebre D. H. Lawrence, revelando uma faceta pouco divulgada de um dos nomes incontornáveis da Literatura Europeia.


Não Ser

As estrelas que se fecham e abrem
Caem na superfície do meu peito
Como estrelas num charco.

O vento suave a soprar fresco
Lança pequenas cristas uma a uma
De ondas sobre o meu peito.

E as ervas escuras sob os meus pés
Parecem flutuar em mim
Como ervas num riacho.

Oh! Como é bom
Ser essas coisas todas
Já não ser eu.

É que, vê bem,
De mim sinto o cansaço.

D. H. Lawrence

8.3.26

Helena Lima - "O que o bom tem de melhor"


 "O que o bom tem de melhor"

Estou contente, sou feliz
Um minuto ao pé de ti
Compensa as horas vazias
Dos anos que eu já vivi.

Minha vida foi de mau
O que o mau tem de pior
Hoje contigo é de bom
O que o bom tem de melhor.

O que nasce há-de morrer
Se o teu amor acabar
Não mintas, vem-me dizer
Que eu prometo não chorar...

Direi amor - Obrigado!
Tal como um cego dizia
Se pudesse abrir os olhos
E ver a terra um só dia.

Helena Lima
in "Poesia"

Nota: Poema incluído no disco "Fados por Helena Lima".

27.1.26

Lawrence Durrell - "Collected Poems 1931 - 1974"


Lawrence Durrell
"Collected Poems 1931 - 1974"
Páginas: 352
Faber and Faber


Este livro dedicado à poesia de Lawrence Durrell, editado pelo canadiano James A, Brigham, reúne todos os poemas escritos pelo célebre autor de "O Quarteto de Alexandria" e teve uma preciosa ajuda na sua feitura de Alan G. Thomas, que dedicou uma vida a reunir e a criar a mais completa bibliografia de Lawrence Durrell, reunindo tudo o que foi escrito e publicado ao longo dos anos, desde as mais pequenas edições de livros, até às revistas de reduzida circulação, onde a arte de Lawrence Durrell foi navegando, desde esse dia em que decidiu ser escritor.


Este extraordinário volume, que finalmente consegui adquirir na Amazon, reúne todos os poemas do escritor, mas não inclui poemas que surgiram em obras literárias, como sucede com os poemas que fazem parte do belo "Carrossel Siciliano", nem a dramaturgia do escritor, escrita em verso. Como curiosidade, de referir que Lisboa surge num dos seus poemas, tal como o Funchal e será talvez de nos interrogarmos sobre o silêncio editorial nacional, que continua a esquecer-se de um dos maiores escritores do século XX.