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10.9.26

Clint Eastwood - “Destinos nas Trevas” / “Play Misty For Me”


Clint Eastwood
“Destinos nas Trevas” / “Play Misty For Me”
(EUA – 1971) – (102 min. / Cor)
Clint Eastwood, Jessica Walter, Donna Mills, John Larch.

Nos dias de hoje muitos são aqueles que referem Clint Eastwood como o último cineasta clássico do cinema norte-americano e ao olhar a sua já extensa obra como cineasta, somos obrigados a concordar com o título, mais que merecido. Três obras da sua filmografia, por vezes esquecidas, são disso exemplo, falamos de “Bird”, “Caçador Branco, Coração Negro” e “As Pontes de Madison County”. Mas se partirmos para inícios dos anos setenta ao encontro do intérprete Clint Eastwood, ninguém poderia prever que um grande cineasta iria nascer, apadrinhado pelo bom amigo Don Siegel.


Estávamos no ano de 1971 e Clint Eastwood decidiu passar para detrás das câmaras e realizar a sua primeira película “Play Misty For Me” / “Destino nas Trevas”, cuja acção se desenrola na sua cidade, Carmel onde seria Governador durante uns anos, oferecendo-nos uma história de amor, que se irá revelar uma verdadeira atracção fatal. Aliás o argumentista do filme de Andrian Lyne, “Fatal Attraction”, viu de certeza a película de Clint Eastwood, tendo em conta tantos traços idênticos ao longo das duas obras.


Mas regressando ao filme há célebre frase/pedido telefónico de Evelyn (Jessica Walter) a Dave (Clint Eastwood) no seu programa de rádio, em Carmel, "Play Misty For Me" e assim o locutor responde positivamente ao pedido da ouvinte. Depois lentamente Evelyn irá cultivar o seu amor com Dave, através de uma fragilidade aparente, que a pouco e pouco se transforma em violência.


De um pequeno “flirt” transformado em simples “affair” nasce a destruição e a vingança. Evelyn após o fim do amor passageiro instala-se na casa da namorada de sempre de Dave Garland, usando outra identidade, dando assim início à sua chantagem e manipulação do locutor de rádio, perante a inocente Tobie (Donna Mils), imagem perfeita de uma geração. Por falarmos em geração será sempre de salientar a longa sequência do Festival de Jazz de Monterey introduzida por Clint Eastwood na película, já fruto do seu amor por este género musical, servindo ao mesmo tempo como a bonança que antecede a tempestade, como veremos no final do filme.


“Play Misty For Me” não é um filme datado, embora todos os tiques dos anos setenta, do século xx, estejam lá. E dizemos isto porque o cineasta Clint Eastwood nasceu com este filme. Ele oferece-nos o primeiro capítulo da obra de um grande autor de cinema e não podemos nunca olhar “Destinos nas Trevas” como uma obra-menor, porque se ele é o primeiro filme de um cineasta, que iria evoluir ao longo do tempo surpreendendo tudo e todos, nele encontramos todos os elementos característicos do cinema de Clint Eastwood. Descobrir “Play Misty For Me” é uma agradável surpresa, ao mesmo tempo que encontramos a ponte que ligou o intérprete dos filmes de Don Siegel ao cineasta Clint Eastwood.

24.2.26

Clint Eastwood - “Imperdoável” / “Unforgiven”


Clint Eastwood
“Imperdoável” / “Unforgiven”
(EUA – 1992) – (131 min. / Cor)
Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris.

Foi através dos “westerns” de Sergio Leone e Don Siegel que Clint Eastwood manteve bem vivo o género, tendo depois aberto o seu próprio caminho, compondo diversas personagens, geralmente o cow-boy solitário que termina por ir em defesa dos oprimidos, fazendo a inevitável justiça pelas suas próprias mãos, numa caminhada que o conduziria até “Imperdoável” / “Unforgiven”, cujo guião andou durante largos anos pelos corredores dos Estúdios, sem ninguém se interessar por ele. Mas a história daquele velho pistoleiro, tornado agricultor e com duas filhas para criar, que regressa à actividade porque uma prostituta foi esfaqueada, seduziu de imediato o actor/cineasta, que assim nos irá oferecer uma película crepuscular sobre o velho Oeste.


Numa dessas cidades onde a população só se quer manter viva perante a lei do brutal Xerife Little Bill Daggett (Gene Hackman num desempenho extraordinário, que lhe irá dar o Oscar para o Melhor Actor Secundário). Um dia dois cow-boys decidem esfaquear no rosto uma das raparigas que trabalha no saloon e quando elas pedem justiça a Little Bill este simplesmente nada faz, considerando que são riscos da própria profissão e elas decidem oferecer um prémio a quem faça a verdadeira justiça.


Bill Munny (Clint Eastwood) que na sua quinta conhece bem as agruras da terra, perante a insistência de Kid (Jaimz Woolvett) decide ir até à cidade para conhecer o ambiente e será também com o seu antigo companheiro Ned Logan (Morgan Freeman), que ele irá delinear o plano para enfrentar o temível xerife Little Bill e fazer a tão desejada justiça ou a temível vingança das raparigas, se preferirem. No entanto ele deixara a profissão de pistoleiro há longos anos e assim iremos acompanhar o regresso doloroso do pistoleiro Bill Munny ao território das armas, onde não há contemplações nem heróis, mas sim simples justiceiros.


A forma como o argumento de “Imperdoável” / “Unforgiven” nos apresenta o pistoleiro retirado Bill Munny, faz-nos recordar um pouco a personagem de Tom Logan criada por Jack Nicholson em “Duelo no Missouri” / “The Missouri Breaks” de Arthur Penn, no entanto a película dirigida por Eastwood possui uma envolvência e uma ferocidade que terminam por surpreender o espectador, ao mesmo tempo que nos oferece a imagem desse Oeste selvagem que tão bem retratou Michael Cimino, na sua obra-prima “As Portas do Céu” / “Heaven’s Gate”. Porém Clint Eastwood consegue introduzir ao longo da película, de forma genial, o crepuscular do género, na forma como filma esse território, sem heróis, ao mesmo tempo que nos revela personagens atípicas, como esse pistoleiro tagarela e fanfarrão, encarnado por Richard Harris, conhecido por English Bob, que anda sempre acompanhado por esse cobarde “contador de histórias”, chamado Beauchamp (Saul Rubinek, numa boa prestação), cuja função é escrever os seus feitos.


“Imperdoável” / “Unforgiven”, que foi dedicado por Clint Eastwood aos seus Mestres Sergio Leone e Don Siegel, terminou por oferecer a Eastwood a tão desejada consagração pelos seus pares, quando surgiu como o grande triunfador da noite dos Oscars, tendo recebido os Oscars da Academia para Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Montagem e Melhor Actor Secundário, numa noite memorável, que transformou e revigorou, da forma que todos conhecemos, a carreira de Clint Eastwood, considerado hoje em dia, como o último dos cineastas clássicos.