Mostrar mensagens com a etiqueta Robert De Niro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Robert De Niro. Mostrar todas as mensagens

26.7.26

Sergio Leone - “Era Uma Vez na America” / “Once Upon a Time in America”


Sergio Leone
“Era Uma Vez na America” / “Once Upon a Time in America”
(EUA - 1984) – (229 min. / Cor)
Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Tuesday Weld, Treat Williams.

A América esse Paraíso que nos acorda nas noites de sonho para a Estrada 66 e as viagens “cost to cost” de Jack Kerouac, teve sempre um comportamento original em relação ao desenvolvimento do cinema, desde o seu início, criando teorias e mitos que por vezes o nosso olhar Europeu, e muitas vezes antiamericano, não consegue atingir. E a origem de tudo isto, está necessariamente nesses homens, antigos pesquisadores de ouro, com a fortuna coberta de pó, de mãos rudes, que construíram nas feiras pequenos teatros, onde se exibiam filmes para divertimento do público. Esses homens eram verdadeiros "Vendedores de Sonhos" (1) que ofereciam o espectáculo em troca de um nickel, nascendo assim os "Nickleodeons", repletos de multidões que se deslumbravam com as imagens em movimento.


Fascínio de todos os cineastas Europeus, a América e a sua história têm sido retratados no cinema dos mais variados prismas, (2) surgindo finalmente um dos retratos mais belos e cruéis através do olhar de Sergio Leone.

Criador do Western Spaghetti, onde pontificou Clint Eastwood e mais tarde Charles Bronson no admirável "Era Uma Vez no Oeste" / “Once Upon a Time in The West”, com Henry Fonda a personificar um admirável vilão, Sergio Leone foi sem dúvida alguma o mais americano dos cineastas europeus e não é certamente por acaso que assinou inicialmente, como Bob Robertson a película "Por Um Punhado de Dollars" que o tornaria célebre.


"Era Uma Vez no Oeste" é um dos mais belos e melancólicos westerns realizados, com uma banda sonora que nos ficou no ouvido para sempre e depois temos sempre a beleza de Claudia Cardinalle a perturbar o olhar de Charles Bronson, no seu melhor papel e aqui estamos no território da edificação de uma nação, cuja continuação será de certa forma o portentoso "Era Uma Vez na América" / “Once Upon a Time in America”.

Era uma vez, assim começam todas as histórias que os nossos avós nos contavam. "Era Uma Vez" um filme sobre a América, olhada do outro lado do oceano.


Como todas as histórias, esta é baseada na amizade entre homens, num universo onde as mulheres têm um papel secundário. Sendo um dos segredos da película, as elipses nas passagens do tempo, revelando-se a mais bela de todas, a que nos é oferecida na Central Station: uma elipse de 25 anos!

Viajando no tempo, vertiginosamente e contando com Robert de Niro e James Woods nos protagonistas, numa história de amizade e traição, Sergio Leone constrói uma das mais belas narrativas que o cinema nos ofereceu. E se Robert de Niro um dos maiores actores de sempre está excelente, já James Woods possui aqui uma das suas mais deslumbrantes interpretações.


Quando escutamos em casa a extraordinária banda sonora de Ennio Morricone de imediato as imagens do filme surgem na nossa memória, acompanhando a infância, adolescência e amizade de um grupo de amigos que se irá desmoronar, ao mesmo tempo que o corpo da pessoa amada navega sem destino nos braços de quem detém o poder.

Rever "Era uma vez na América" é um dos momentos mais gratificantes da História do Cinema e graças ao DVD podemos também fazer sessão dupla com as duas Américas de Sergio Leone, a do Oeste e a da “Big Apple”, em ambas navega essa velha questão chamada: o Poder Político.


(1) - Procurem o fabuloso "O Vendedor de Sonhos" / “Nickleodeon” de Peter Bogdanovich.

(2) - "As Portas do Céu" / "Heavens Gate" do Michael Cimino, que levou à falência a United Artists e que nos ofereceu uma visão da América sem contemplações.

(3) - Se gosta de Sergio Leone não perca o livro editado pelos Cahiers du Cinema, sobre a obra do cineasta.

3.7.26

Robert De Niro - “O Bom Pastor” / “The Good Shepherd”


Robert De Niro
“O Bom Pastor” / “The Good Shepherd”
(EUA – 2006) – (167 min. / Cor)
Matt Damon, Angelina Jolie, William Hurt, John Turturro,
Robert De Niro, Billy Crudup, Michael Gambon, Austin Williams, Joe Pesci.

São muitos os casos de actores que passam para detrás das câmaras, nascendo nessa viragem muitos cineastas. Raoul Wash talvez seja um dos primeiros casos, obrigado a trocar a interpretação pela realização, mas um dos casos mais bem-sucedidos é, sem dúvida alguma, Robert Redford um dos grandes actores da História do Cinema que um dia ao realizar o seu primeiro filme “Gente Vulgar” / “Ordinary People” viu o seu esforço coroado de Óscares. Outro nome a seguir é, evidentemente, George Clooney que nos ofereceu na segunda realização em “Boa Noite e Boa Sorte” / “Good Night and Good Luck” uma obra assombrosa. Já Kevin Spacey ao realizar “Bobby Darin”, criou um musical que deve ser descoberto por todos. Poderíamos falar em casos como Stanley Tucci ou John Turturro, actores conhecidos de muitos, que vão construindo uma obra de cineastas pela calada da noite. E só para terminar esta introdução nunca nos poderemos esquecer desse grande actor e cineasta, um dos pais do cinema independente, chamado John Cassavetes, que aplicava o dinheiro ganho nas interpretações em filmes realizados por outros, para investir na execução dos seus projectos cinematográficos, construindo uma das mais belas obras de um cineasta.


Não é a primeira vez que Robert de Niro assina a realização de uma película, já que se estreou atrás das câmaras nesse filme mágico intitulado “Uma Rua em Nova Iorque” / “A Bronx Tale” (1993) escrito e interpretado pelo actor Chazz Palminteri, tendo até mais tarde dado uma ajuda na realização a Frank Oz, no célebre filme “The Score” onde encontrávamos uma tripla chamada Marlon Brando, Robert de Niro e Edward Norton, o retrato perfeito de passagem de testemunhos na interpretação entre três gerações.

Mas chegar até à realização de “O Bom Pastor” não foi fácil. Inicialmente o cineasta pretendido era John Frankenheimer, infelizmente a morte veio buscá-lo e depois Francis Ford Coppola trabalhou durante algum tempo no projecto, sendo nessa altura a personagem de Edward Wilson interpretada por Robert de Niro, daí o facto de Coppola surgir como produtor executivo nos créditos da película. Porém o projecto não avançou e seria o próprio Robert de Niro, ao fim de dez anos, a conseguir concretizá-lo surgindo também como realizador.


“O Bom Pastor” oferece-nos o retrato da fundação da CIA, nascida da criação da OSS durante a Segunda Guerra Mundial e será através de Edward Wilson (Matt Damon) que iremos saber como tudo se passou. Logo no início do filme se percebe que ele é uma personagem cinzenta que procura saber como falhou a primeira grande operação da CIA no exterior, já que o FBI trata dos assuntos internos. Essa operação foi a célebre crise da Baía dos Porcos, com a tentativa da invasão da ilha de Cuba levada a efeito por exilados cubanos, mas preparada e comandada pela CIA. Fidel Castro era uma “persona non grata” (veja-se o filme realizado sobre ele por Oliver Stone já editado em dvd) e teria que ser derrubado rapidamente. Como todos sabemos a operação falhou e iremos descobrir ao longo do filme como o KGB tomou conhecimento da acção, através dessa personagem chamada Ulisses (Oleg Stefan), o agente de serviço do KGB.


Da mesma forma que o MI6 britânico recrutava os seus espiões na elite da Universidade de Cambridge, os americanos escolheram a Universidade de Yale para formarem a sua Agência e será aqui que iremos encontrar o jovem Edward Wilson, através de diversos flashbacks, que irá aceitar a missão de uma vida, tornando-se uma personagem cinzenta, colocando a nação acima da família, chegando mesmo a sacrificá-la. Ele transforma-se num marido e pai ausente, desde o dia do casamento e ao longo da vida a CIA será a sua casa.

As actividades da CIA já foram por diversas vezes documentadas no cinema, basta recordar filmes como “Os Três Dias do Condor” de Sidney Pollack com Robert Redford no protagonista ou o recente “Syriana” de Stephen Gaghan, interpretado por George Clooney, mas nunca até hoje ninguém se tinha debruçado sobre a fundação da Agência de Espionagem e Robert de Niro oferece-nos um olhar perfeito sobre a forma de agir dos serviços de espionagem norte-americanos, através do olhar de Edward Wilson, repare-se na forma como ele conduz a história, dando particular atenção aos pequenos gestos e ao cinismo que se vive entre os membros da Agência, atente-se na forma de agir da personagem criada por William Hurt (Phillip Allen), aliás baseada em parte em Allen Dulles, chefe dos serviços de contra-espionagem, da mesma forma que Bill Crudup, o agente britânico Arch Cummings, se baseia na famosa toupeira Kim Philby. Recorde-se que os serviços de Sua Majestade foram os mais permissíveis à entrada de agentes duplos, aliciados pelo KGB.


No argumento construído por Eric Roth, o mundo da espionagem é um universo masculino, sendo a personagem de Angelina Jolie/Margaret um simples contraponto da solidão em que vive o marido Edward Wilson, a sua solidão é idêntica à do marido, embora na de Edward se corra um risco permanente de vida, repare-se nos encontros entre Ulisses e Edward (The Mother, o nome com que o agente do KGB baptizou Edward) em territórios neutrais para, na troca de impressões, fazerem o seu jogo de chantagem.

“The Good Sheperd” surge assim como uma película perfeita sobre o mundo dos espiões, tão perfeita como esse magnífico livro escrito por John Le Carré, “O Espião Perfeito”, infelizmente nunca adaptado ao grande écran, embora tenha sido adaptado para a televisão (passou em Portugal na RTP-2, bem escondido do grande público).


Nos dias de hoje, ao sabermos de certas actividades desta Agência de Espionagem interrogamo-nos sobre quem efectivamente controla as suas actividades, o Presidente Americano ou o o Congresso dos Estados Unidos? A resposta é-nos dada no final do filme, quando o superior de Edward Wilson o avisa que irão certamente ter visitas para supervisionar o trabalho deles, mas que nem tudo será revelado, porque ali quem mais ordena é o Director. E basta recordar as teses apresentadas por Oliver Stone no seu “JFK” para obtermos algumas respostas.


“O Bom Pastor” é o retrato mais-que-perfeito de uma organização que cresceu no mundo da espionagem, temida e odiada por muitos, oferecendo-nos a sua história através dessa personagem criada por Matt Damon de forma sóbria e contida. Este “The Good Sheperd” surge como o outro lado da moeda do “Jogo de Espiões” / “Spy Games” (de Tony Scott) e revela-nos um cineasta chamado Robert de Niro acima de qualquer suspeita.

21.2.26

Irwin Winkler - “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”


Irwin Winkler
“Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”
(EUA – 1991) – (105 min./Cor)
Robert de Niro, Annette Bening, George Wendt,
Patricia Wetting, Sam Wanamaker, Chris Cooper, Martin Scorsese.

Foi na segunda metade dos anos 60 que Irwin Winkler iniciou a sua actividade no cinema como produtor e rapidamente iremos fixar o seu nome, especialmente quando começa a produzir os filmes de Martin Scorsese. Mas este homem, bom conhecedor do meio cinematográfico onde se movimentava, decidiu um dia abordar o período mais negro da História do Cinema de Hollywood e assim nasceu “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”, tendo o argumento sido entregue a Abraham Polonsky, mas quando Irwin Winkler leu o trabalho do “ex-black list” não gostou e decidiu reescrevê-lo, alterando a personagem interpretada por Robert de Niro, tendo depois decidido ser ele próprio o realizador da película, tal foi o seu empenho em a concretizar.


Esta película constitui com os filmes “O Testa de Ferro” / “The Front” de Martin Ritt e “Boa Noite e Boa Sorte” / “Good Night and Good Luck” de George Clooney, a trilogia perfeita para conhecermos este período da história do cinema norte-americano. Por outro lado, Irwin Winkler encontrou em Robert de Niro o actor perfeito para encarnar o protagonista, já o amigo Martin Scorsese surge no filme como o cineasta Joe Lesser, evocando o realizador Joseph Losey, que fugiu para Inglaterra, tal como fez Sam Wanamker, que aqui veste a pele de Felix Graff (recorde-se que ele é o responsável pela ideia do teatro “The Globe” em Londres, bem como pai da conhecida Zoe Wanamaker, que interpreta a escritora Ariadne Oliver na série de televisão “Poirot”).


“Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion” encontra-se repleto de referências e revela-se como uma das mais espantosas películas realizadas sobre este negro período da história americana. Só para terminar, aproveito para referir apenas alguns casos relacionados com a perseguição encetada pelo senador Joseph McCarty e “Friends”:


1- Bertold Brecht foi convocado para se apresentar perante a temível comissão e nesse mesmo dia abandonou a América.

2 - O conhecido actor John Garfield (protagonista de “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”), ficou sem trabalho e terminou por se suicidar.

3 - O célebre cineasta Joseph L. Mankiewicz, Presidente da Associação de Realizadores, viu a sua cabeça pedida por Cecil B. de Mille, num tumultuoso plenário de “caça aos vermelhos” em Hollywood e será o grande John Ford a sair em sua defesa e então todas as vozes se calaram.

4 - Elia Kazan, por seu lado, terminou por ceder na Comissão e assinou de cruz, tudo o que pretendiam os “cavalheiros” que o estavam a interrogar, daí o célebre “pandemónio” na cerimónia dos Oscars, quando a Academia de Hollywood lhe atribui um Oscar pela carreira.


Recorde-se que o temível Senador só foi destituído quando “esticou demasiado a corda” e acusou o próprio Presidente Eisenhower, como veremos no filme realizado por George Clooney.


Irwin Winkler, com “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”, encetou uma carreira de realizador, paralela à de produtor, bem interessante, portanto fixem o nome, que nós em breve voltaremos a falar dele e não deixem de (re)ver este filme fabuloso!