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21.8.26

Billy Wilder - "Irma La Douce"


Billy Wilder
"Irma La Douce"
(EUA – 1963) – (142 min. / Cor)
Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Lou Jacobi, Bruce Yarnell, Hersch Bernardi.

Todos nós, ao longo da vida, vamos mantendo determinadas relações com os filmes como sucede com as pessoas, conhecemos e apaixonamo-nos, mas por vezes sucedem aqueles amores que duram uma vida inteira ou melhor dizendo que permanecem até aos dias de hoje. Isto para dizer que a primeira vez que me encontrei com “Irma La Douce” foi no cinema S. Jorge, certamente já numa reposição, nessa época havia uma enorme cinefilia a correr pelas ruas.


Naquele dia, na sessão da tarde, travei conhecimento com aquela habitante de Les Halles conhecida por todos como a bela “Irma La Douce” (Shirley MacLaine) e nunca mais me esqueci dela, naquela conhecida rua onde florescia o famoso “Hotel Casanova”, ao lado do não menos famoso bistrot “Chez Moustache”, dirigido pelo mais célebre contador de histórias, Moustache “himself” (Lou Jacobi), governando com profunda sabedoria esse local frequentado por turistas (que adoravam a sua sopa de cebola), polícias, meninas e respectivos “protectores” (“não fosse alguém meter-se com elas”), tudo girava sobre rodas naquele pequeno mundo situado no bairro de Les Halles. De todas as meninas, havia uma que trazia sempre o seu cãozinho ao colo, enquanto fumava gitanes atrás de gitanes, o seu olhar verde confundia-se muitas vezes com a cor das suas meias e roupas, e não havia homem no universo que não desejasse estar com ela, “para escutar as histórias da sua infância”, alteradas de acordo com o cliente. Repare-se na forma genial como Billy Wilder nos vai oferecendo, logo no início do filme, os diversos relatos da “triste vida” de Irma La Douce, ao mesmo tempo que o genérico vai passando.


Naquele quarteirão de Paris onde, como já dissemos, tudo girava sobre rodas, chega o dia em que o jovem Nestor (Jack Lemmon) surge de serviço na zona. Ele que era um polícia condecorado por ter salvo uma criança, estava agora numa área bastante diferente da cidade e por isso mesmo quando encontra Irma La Douce aconselha-a a não andar por ali. Os diálogos travados são de uma perfeição absoluta, graças também a esse grande nome da comédia chamado I.A.L. Diamond (fixem-lhe o nome porque ele merece).

Estamos assim a viver no melhor dos mundos, sem “atropelos”, até ao momento em que Nestor decide alterar as regras do jogo e fazer uma rusga no Hotel Casanova prendendo as meninas e tomando nota da identidade dos clientes (entre os quais se inclui o próprio Inspector Lefevre). Começa então a caminhada rumo ao abismo do jovem polícia, muito pouco habituado a relacionar-se com o sexo oposto, como veremos durante a viagem até à esquadra, onde todas se metem com ele excepto Irma La Douce.


Chamado ao seu chefe, reconhece no Inspector um dos clientes levados na rusga e repara no erro cometido. Como se não chegasse, ao tirar o chapéu da cabeça, começam a cair notas de francos no chão da esquadra. De imediato é expulso da polícia, acusado de corrupção e como não tem para onde ir, dirige-se até ao local onde tinha feito as detenções. Desta feita não se trata do ladrão que regressou ao local do crime, mas sim ao início de uma das mais belas histórias de amor contadas pelo cinema, em jeito de comédia, porque a comédia é a vida. Começa aqui a história que irá mudar a vida de Irma La Douce.

Billy Wilder apresenta-nos uma galeria de personagens imbatível, desde o famoso Hippolyte a quem todos respeitam, passando pela Lolita e os seus famosos óculos, a Amazona, a Cossaca, chegando até essas irmãs, gémeas em tudo e como não podia deixar de ser o famoso Moustache e as suas histórias.


Devido aos seus bons sentimentos, Nestor defende Irma La Douce do bruto Hippolyte e quando este fica fora de combate, o ex-polícia ocupa o seu lugar de “protector” e vai viver para casa de Irma, que lhe promete deixar de fumar, mas com o passar do tempo ele não consegue desempenhar o papel que ela lhe oferece na sociedade, ao trabalhar na mais antiga profissão do mundo para ele. Um dia, em desespero de causa, Nestor decide criar uma personagem que irá alterar a vida de ambos, o célebre Lord X, um “inglês de gema”, que irá passar a pagar-lhe 500 francos em vez dos habituais 50 transformando-se no seu único cliente.

E aqui Billy Wilder constrói uma das mais delirantes sequências, quando Lord X começa a contar a sua vida usando como base os filmes ingleses que tinha ido ver ao cinema para treinar a célebre pronúncia, é um perfeito delírio de “Gunga Din e os lanceiros da Índia, até ao “Lawrence da Arábia”, passando pela “Ponte do Rio Kwai”, que lhe caiu em cima, tudo aconteceu ao distinto Lord X, mas agora que eles se encontraram o seu destino está traçado.


Desta forma, Billy Wilder oferece-nos o conflito que vai opor Lord X a Nestor, um conflito interior, que só pode terminar com a morte de um deles já que Nestor, para continuar a pagar uma soma tão elevada a Irma La Douce, trabalha no célebre mercado de Les Halles, como um escravo, entrando e saindo pela varanda enquanto ela dorme.

Depois de ter sido apanhado num dos seus regressos a casa, Nestor e Irma La Douce começam a viver de costas voltadas e após Lord X desaparecer de circulação nas águas do Sena, o nosso herói é acusado e condenado, devido a esse grande mestre da advocacia que se chama Moustache!


Mas como Billy Wilder nos ensinou, uma história de amor como esta, em jeito de comédia, só poderá ter um final feliz, porque tudo é permitido e plausível. Depois da fuga da prisão Nestor refugia-se na casa de Irma La Douce, o primeiro local onde a polícia o vai procurar, criando o cineasta a mais delirante de todas as sequências do filme, com ele vestido de polícia à procura de si mesmo.

Esta crónica, que se tornou um perfeito divertimento para quem a escreve, está à beira do fim e depois de Lord X ter ressuscitado nas margens do Sena, noutra sequência inesquecível e Nestor ser ilibado pela polícia, não há nada como esse casamento seguido de parto para prazer de todos os participantes, excepto um tal Lord X que permaneceu sentado na igreja e aqui Moustache, esse fabuloso contador de histórias, deixou-nos a meio do seu raciocino perante tal aparição porque isso, meus caros amigos, é outra história.


E àqueles que tiveram a coragem e paciência de passearem comigo através das ruas de Les Halles, escutando a história maravilhosa de Irma La Douce, procurem este filme se não o conhecem, porque ele, de certeza, irá fazer parte dessa dvdteca ideal, que todos ambicionamos possuir um dia.

16.4.26

Hal Ashby - “Bem-Vindo Mr. Chance” / “Being There”


Hal Ashby
“Bem-Vindo Mr. Chance” / “Being There”
(EUA – 1979) – (130 min. / Cor)
Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas,
Jack Warden, Richard Dysart, Richard Basehart.

Hal Ashby nasceu em Ogden em 1933 nos Estados Unidos da América e iniciou a sua actividade cinematográfica nos Estúdios Walt Disney na área de Montagem, tendo conhecido e trabalhado com o Grande Mestre da Animação. Anos mais tarde irá chamar as atenções sobre si ao realizar “Ensina-me A Viver” / “Harold and Maude” em 1971 e ao longo da sua carreira de cineasta nunca mais parou de nos surpreender. “O Último Dever” / “The Last Detail” com Jack Nicholson no protagonista, o portentoso “Caminho da Glória” / “Bound for Glory” e essa espantosa obra sobre o Vietname intitulada “O Regresso dos Heróis” / “Coming Home”, com Jon Voight e Jane Fonda são alguns dos filmes que destacamos na sua filmografia e como não podia deixar de ser, juntamos a este trio de películas esse maravilhoso filme intitulado “Being There” / “Bem-Vindo Mr. Chance”, que proporcionou a Peter Sellers uma das mais espantosas interpretações da sua longa carreira.


Chance (Peter Sellers) é um homem simples, que viveu desde criança na pequena propriedade de um homem de quem nada saberemos, apenas que ele morreu, não deixando qualquer testamento, sendo assim o pobre Chance obrigado a deixar a casa de onde nunca saiu e onde sempre viveu. Este simples homem que vive rodeado de televisões e para quem a imagem que possui do universo é a transmitida pelo pequeno écran não sabe ler, nem escrever. Durante toda a sua vida Chance (Peter Sellers) apenas tratou do jardim e como tal é o único tema de que ele sabe falar.


Ao sair para o mundo, não sabe onde dirigir-se e decide então caminhar pelas ruas ao encontro do seu destino e será esse mesmo destino que o irá conduzir a casa de um dos mais poderosos homens da América, Benjamim Rand (Melvyn Douglas) um conselheiro do Presidente Americano, após Chance ter sido atropelado pela viatura onde se encontrava a esposa do magnata, Eve Rand (Shirley MacLaine).


Temendo um pedido de indemnização pelo sucedido, decidem levá-lo para a sumptuosa residência para receber os devidos cuidados médicos e ao descobrir uma casa onde ficar Chance, com a sua ingenuidade, vai permanecendo por ali dando respostas pouco convencionais às questões que lhe são colocadas, falando sempre do tempo e da jardinagem. Com o passar dos dias a curiosidade aumenta entre todos aqueles que o rodeiam e no dia em que fala com o Presidente e este o cita mais tarde na Casa Branca, afirmando tratar-se de um conselheiro de Benjamim Rand, todas as atenções dos Media incidem sobre ele e os convites para se pronunciar sobre a economia e o Estado da Nação surgem de todos os lados.


Usando as palavras de Chance como metáforas, o argumento genial de Jerzy Kosinski, arranca imensas gargalhadas ao espectador e recordamos bem do ambiente na sala de cinema aquando da estreia do filme em Portugal, mas esta obra-prima de Hal Ashby é também uma poderosa crítica corrosiva aos Media sempre em busca das notícias e das audiências. Quando um dia Chance vai a uma festa na embaixada soviética perguntam-lhe quais os seus jornais preferidos e ele responde que não lê jornais, apenas gosta de ver televisão e imediatamente a imprensa refere que ele é um político corajoso que não teve medo de dizer o que pensa. A partir de então todos escutam as suas palavras e até no próprio partido governamental se começa a pensar que este será o homem indicado para ocupar a Casa Branca.


“Bem-Vindo Mr. Chance” / “Being There” surge assim como o mais poderoso dos filmes realizados por Hal Ashby que, através de um homem simples e educado, interroga não só o comportamento dos Media, muitas das vezes de forma bem corrosiva, mas também esse estranho e pantanoso terreno da política, revelando-se um filme a redescobrir. A finalizar nunca é demais realçar a poderosa interpretação de Peter Sellers, sempre contido e oferecendo a perfeita inocência deste homem pela forma como olha e fala com os outros protagonistas. Bem-Vindo Mr. Peter Sellers, nunca te esqueceremos!