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14.8.26

Fritz Lang - "M - Matou" / "M"


Fritz Lang
"M - Matou" / "M"
(Alemanha – 1931) - (99 min. - P/B)
Peter Lorre, Otto Wernicke, Gustav Grundgens.

Em 1931 Fritz Lang irá oferecer-nos um dos seus filmes mais famosos, partindo de um caso que ficou conhecido na Imprensa como “O Vampiro de Dusseldorf” e, como não podia deixar de ser, a sua mulher Thea von Harbou, habitual colaboradora nos argumentos do filme do cineasta, dissecou o estado de uma nação a partir deste caso do quotidiano.


Peter Lorre irá vestir a pele do assassino de crianças Frantz Becker, que gosta de assobiar uma melodia cativante, enquanto passeia pelas ruas da cidade, em busca das suas pequenas vítimas indefesas. O rosto do assassino é o de uma criança crescida, quase inofensiva, escondendo o mal que lhe vai na alma. Elisa Beckmann será mais uma das suas vítimas e a polícia chefiada pelo célebre comissário Lohmann (Otto Wernicke) começa a prender todos os suspeitos que vivem na cidade, atormentando o organizado mundo do crime.

E serão precisamente estes elementos, que vivem na sombra da cidade, que irão efectuar uma verdadeira caça ao homem, para não verem a sua organização desmantelada. No dia em que um deles descobre finalmente a identidade do homem mais procurado na cidade, desenha nas suas costas a letra M, com um pedaço de giz, para os seus acólitos o identificarem. Perseguido de forma impiedosa e finalmente encurralado, Frantz Becker acaba por ser apanhado pelos malfeitores, que decidem fazer o seu julgamento, segundo a sua própria justiça, condenando-o de imediato à morte.


Durante o julgamento vimos o medo estampado no rosto de Frantz Becker, que ingenuamente se defende das acusações, proclamando a sua inocência. E aqui Fritz Lang oferece a Peter Lorre o mais célebre momento cinematográfico da sua carreira de actor. Mas quando o temido assassino de crianças está prestes a ser linchado pelos malfeitores, a polícia invade o esconderijo e prende-o.

Na época, esta película atormentou muito “boa gente”, porque o filme fala precisamente de um poder que estava prestes a nascer desse ovo da serpente, que Ingmar Bergman tão bem caracterizou no filme com o mesmo nome. Mais uma vez, o genial cineasta alemão filma o mal da mesma forma com que tinha criado o célebre Dr. Mabuse que irá incomodar o próprio poder nascente.


(Re)ver “M – Matou” é na verdade entrar pela porta grande da Sétima Arte e descobrir no écran, uma das mais espantosas criações desse grande actor chamado Peter Lorre.

23.3.26

Fritz Lang - "Feras Humanas" / "Man Hunt"


Fritz Lang
"Feras Humanas" / "Man Hunt"
(EUA -1941) – (102 min. - P/B)
Walter Pidgeon, George Sanders, Joan Bennett, John Carradine.

Quando Goebbels convidou Fritz Lang para dirigir o cinema do Terceiro Reich, Fritz Lang não disse que não nem que sim, percebendo perfeitamente o pretendido e nesse mesmo dia partiu de comboio para França, deixando para trás tudo e todos, incluído a sua mulher e colaboradora de tantos filmes, a famosa Thea von Harbour. Mais tarde partiu para a América, em busca de um refúgio mais seguro.


“Feras Humanas” / “Man Hunt”, realizado em 1941, foi o seu primeiro filme anti-nazi seguindo-se logo depois o famoso “Os Carrascos Também Morrem” / "Hangmen Also Die" em que Brecht colaborou, o célebre Brecht que tão mal se deu em Hollywood, que até teve de depor perante uma das célebres comissões do senador McCarthy, afirmando por três vezes que não era nem nunca fora comunista, o segredo de Brecht era um bilhete que tinha no bolso para partir da América, o que fez no dia seguinte. A guerra já tinha terminado e a RDA esperava por ele.


Regressando a “Man Hunt” / “Feras Humanas”, encontramos na película de Fritz Lang o jogo da caça, só que neste caso concreto a caça é humana. Quando, no início do filme, o capitão Thorndike (Walter Pidgeon) aponta a sua carabina de precisão com mira telescópica a Hitler, sente um prazer absoluto ao ter o poder de eliminar o homem que irá mergulhar o mundo em guerra. Esse mesmo homem que em jovem pretendia seguir o curso de belas-artes e que viu chumbado o seu acesso à escola de belas-artes, se tivesse sido admitido a história do mundo talvez tivesse sido diferente. Mas quando Thorndike dispara, verificamos que nada aconteceu simplesmente porque não tinha colocado nenhuma bala na arma, estava perante o prazer supremo do caçador com a presa em seu poder, somente esse prazer não se prolongou por muito tempo, porque quando decidiu colocar a bala na arma e disparar era tarde demais. A guarda de Hitler tinha-o descoberto e imobilizara-o, levando-o preso.


Vamos conhecer então o famoso vilão do filme, outro caçador amante da caça, mas também amante fervoroso do Terceiro Reich, Quive Smith (um George Sanders no seu melhor) tenta convencer Thorndike a assinar um testemunho onde este confessa ter sido enviado pelo governo britânico para assassinar Hitler, a fim de a Alemanha ter um motivo plausível para declarar guerra à Inglaterra. O duelo de palavras entre os dois homens é simplesmente sublime. Mais tarde, Thorndike consegue evadir-se e fugir para Inglaterra, dando-se início à célebre caça ao homem pelos agentes alemães, onde para além de George Sanders, que é o cérebro da operação, encontramos o então ainda jovem John Carradine.


Perseguido no seu próprio país, Thorndike até parece ser uma presa fácil, mas o seu encontro com uma rapariga que ganha a vida nas ruas, chamada Jenny (Joan Bennett), tudo irá alterar. Ela será o seu amor e a sua salvadora nos momentos mais difíceis, acabando por se oferecer como cordeiro às mãos dos seus perseguidores. Será sempre de referir que Joan Bennett, que sempre vimos no início de carreira loura, surge aqui morena e morena permaneceu depois ao longo da carreira, por obra e arte do seu marido, o produtor Walter Wangler, um dos responsáveis de “Cleópatra” e obreiro da carreira da actriz, até ao momento em que a apanha em pleno adultério e dispara sobre o amante, tendo sido preso. Mas regressemos a “Man Hunt”, nunca um título conseguiu descrever melhor uma película como este de Fritz Lang.


Thorndike acaba por ser encurralado no seu refúgio por Quive-Smith e quando este lhe passa a pequena seta que ele tinha oferecido a Jenny para ela usar na boina, com a confissão para ele assinar, descobre como a arte da caça do alemão se reside apenas ao puro assassínio, sem olhar a meios para atingir os seus fins. E será essa mesma seta que será depois de forma artesanal lançada contra o alemão, vingando desta forma o amor perdido. No final do filme, encontramos o capitão Thorndike a lançar-se de pára-quedas em pleno território alemão com a sua carabina de precisão, partindo em busca da presa deixada fugir no início do filme, ao mesmo tempo que a mensagem de propaganda aliada se faz ouvir na luta contra o nazismo.


Fritz Lang entra assim na história do cinema anti-nazi, de “mansinho”, para depois nos oferecer um testemunho muito mais eloquente com “Os Carrascos Também Morrem” / “Hangmen Also Die”. No entanto, “Man Hunt” oferece-nos de forma perfeita uma imagem do terror que iria cobrir o mundo durante 1939-45, tão perfeita e sublimada como o seu “M” / “M - Matou”. Curiosamente Fritz Lang não foi a primeira escolha para a dirigir esta película, o nome falado anteriormente foi o de John Ford, mas devido à impossibilidade deste, seria o alemão a contribuir com o seu talento para o esforço de guerra, a que os Estúdios Americanos ofereceram obras de primeira grandeza.

Esquecido por muitos nos dias de hoje, “Man Hunt” / “Feras Humanas” ensina-nos como muitas vezes o animal acossado é muito mais perigoso do que o caçador, quando este se torna a verdadeira fera humana.

25.2.26

Fritz Lang - "O Testamento do Dr. Mabuse" / "Das Testament des Dr. Mabuse"


Fritz Lang
"O Testamento do Dr. Mabuse" / "Das Testament des Dr. Mabuse"
(Alemanha – 1933) – (122 min. - P/B)
Rudolf Klein-Rogge, Oskar Beregi, Otto Wernicke, Wera Liessen, Gustav Diesel.

A personagem do Dr. Mabuse será talvez a mais “amada” por Fritz Lang, de todas as que surgiram nos seus filmes, apesar de ela ser sinónimo do mal, sempre em busca da destruição do mundo em que vive, para melhor estabelecer a sua ordem criminosa.


Mabuse irá atravessar a filmografia de Fritz Lang ao longo de diversas décadas do Cinema, recorde-se que ele surge pela primeira vez ainda no período do Mudo em 1922, na película intitulada precisamente “O Doutor Mabuse” / “Doktor Mabuse der Spieler”, na qual o cérebro do mundo do crime pretende estabelecer o seu império criminoso, encetando uma luta de vida e morte com o Procurador Wrenck que o persegue, terminando este duelo com a prisão do Dr. Mabuse que, “aparentemente”, enlouquece e fica internado num asilo de loucos.

Em 1933, já no período do sonoro, Fritz Lang irá retomar o personagem na película “O Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse”, onde iremos encontrar o perigoso criminoso internado no asilo de loucos, vigiado pelo professor Baum (Oskar Beregi), que vai acompanhando o seu estado de saúde ou loucura se preferirem.


Mas aproveitamos para abrir um parêntesis, para referir que o actor que interpreta o Dr. Mabuse (Rudolf Klein-Rogge) retoma aqui a personagem a que deu vida no tempo do cinema mudo, sendo um dos actores que fez essa difícil transição. Por outro lado, o célebre comissário Lohmann (Otto Wernicke), também é "um nosso conhecido", pois foi o responsável policial que perseguiu Hans Beckert (Peter Lorre), o assassino de crianças, na película anterior do cineasta, o célebre “M-Matou” / “M”, uma das obras-primas do cinema.

Embora preso no asilo, percebe-se que o Dr. Mabuse prepara o seu regresso ao mundo do crime, através dos seus poderes psíquicos, ao mesmo tempo que vai escrevendo o seu testamento que será cumprido à risca pelos seus cúmplices, restabelecendo com o seu poder mental um novo mundo do crime, cuja única finalidade é a destruição da sociedade e o controlo das massas, devidamente manietadas para cumprirem os seus desejos criminosos e de conquista do poder absoluto.


Ao conhecermos a organização terrorista, percebemos que os assaltos são comandados do asilo e no meio dos operacionais existe um homem chamado Kent (Gustav Diesel), que irá travar uma outra luta com a sua consciência ao conhecer a bela Lilli (Wera Liessen) e será este mesmo homem que irá denunciar a estratégia do Dr. Mabuse para se apoderar do poder, encontrando neste duelo como parceiro o destemido Comissário Lohmann. Mas Mabuse, ao ver descobertos os seus intentos, morre fisicamente, passando os seus poderes e controlo para o corpo do director do asilo prisão, o Professor Baum, manobrando-o a seu belo prazer e roubando-lhe a identidade, no sentido de estabelecer a sua nova ordem.

Se nos lembrarmos que este filme foi realizado em 1933, dois meses depois de Hitler chegar ao poder, percebemos logo quem Fritz Lang pretendia retratar e, como não podia deixar de ser, do outro lado, todos perceberam o recado e de imediato o filme foi proibido na Alemanha, só voltando a ser exibido em 1951.


Mas isso não impediu o então todo poderoso Dr. Goebbels de convidar Fritz Lang para dirigir esse Império do Cinema Europeu chamado UFA e aqui surge a famosa história contada por Fritz Lang, de como uma lenda se tornou uma realidade. Fritz Lang conta nas suas memórias que, depois de ter recusado a chefia do cinema germânico oferecida por Goebbels, de imediato se meteu num comboio, nesse mesmo dia, partindo para França, deixando a mulher Thea von Harbou (que nunca escondeu as suas simpatias pelo regime) para trás.

Como sabemos Fritz Lang esteve em França um ano e depois seguiu para a América. Porém a verdade dos factos parece ser um pouco diferente porque Fritz Lang fez diversas viagens entre a Alemanha e a França, após o convite de Goebbels, mas como diria John Ford não há nada como imprimir a lenda, quando ela é mais bela que a realidade. Seja como for, na verdade, este “Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse” não deixa margem de dúvidas sobre os destinatários do filme.


E curiosamente a última película da monumental obra de Fritz Lang, realizada em 1960, “O Diabólico Dr. Mabuse” / “Die Tausend Augen dês Dr. Mabuse”, retoma esta personagem do mal, dando-lhe vida desta vez num hotel onde ele, uma vez mais, através dos seus poderes psíquicos, usa uma rede de televisão para controlar os hóspedes no intuito de reerguer das cinzas o seu império do mal.

“O Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse”, passados todos estes anos, possui uma juventude que nos deixa a todos estupefactos, porque como vemos no início do filme, os seus homens preparam-se para destabilizar o universo monetário, pondo a circular dinheiro falso, no intuito de criar o caos nos mercados financeiros.


Tendo em conta as diversas crises que atingem hoje o universo, se Fritz Lang fosse vivo, não iria resistir a fazer um quarto filme sobre esse génio do mal chamado Dr. Mabuse, o ser de mil rostos, que só aspira ao poder, que iriamos certamente encontrar a viver na China. Descobrir este filme à luz da história é, na verdade, uma experiência que nos oferece muito em que pensar.

10.2.26

Fritz Lang - "A Mulher na Lua" / "Frau Im Mond"


Fritz Lang
"A Mulher na Lua" / "Frau Im Mond"
(Alemanha - 1929) - (156 min. - P/B - Mudo)
Willy Fritsch, Gerda Maurus, Klaus Pohl.



A primeira vez que vi este filme foi numa sessão no Palácio Foz em 1975 dedicada a Fritz Lang, na qual descobri vários filmes do cineasta, vi todos os que foram exibidos nesse ciclo e fiquei apaixonado por este "A Mulher na Lua" / "Frau Im Mond", que já revi por diversas vezes com enorme agrado, excepto a última vez em que o público da sala da Cinemateca, apesar de reduzido, teve um comportamento estranho porque havia uns senhores que achavam que ninguém podia respirar, não fosse, não conseguirem escutar convenientemente os intertítulos deste genial filme mudo.