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21.3.26

Bernardo Bertolucci - “A Estratégia da Aranha” / “La Strategia Del Ragno”


Bernardo Bertolucci
“A Estratégia da Aranha” / “La Strategia Del Ragno”
(Itália – 1970) – (100 min. / Cor)
Giulio Brogi, Alida Valli, Pippo Campanini,
Franco Giovanelli, Tino Scotti.

“A Estratégia da Aranha” surge na obra de Bertolucci como um filme feito contra o sistema de Hollywood, recorde-se que o cineasta rodava então a sua quarta película, aos trinta anos de idade e certamente nessa época ainda estariam longe no seu horizonte as co-produções internacionais e os Oscars, embora o militantismo de esquerda que o caracterizou e teve o seu ponto alto em “1900”, seja já possível de detetar nesta película.


Partindo de um conto de José Luís Borges, intitulado “Tema do Traidor e do Herói” publicado no livro “Ficções”, um dos mais célebres do autor argentino, Bernardo Bertolucci decidiu passar a acção para a Itália dos anos 30 e 60 (sec.xx), enquanto no livro de Borges o escritor colocava várias hipóteses de cenário: “a Polónia, a Irlanda, um Estado Sul-Americano ou Balcânico”, demonstrando desta forma como o tema do traidor na política possui um espaço universal.


Por outro lado Bernardo Bertolucci não resistiu a introduzir uma referência de peso, alterando o nome da povoação onde o filme foi rodado, cuja designação é Sabbionata para Tara, numa espécie de homenagem a “E Tudo o Vento Levou” / “Gone With the Wind”, aliás as duas casas são possuidoras dos mesmos traços arquitectónicos, filmados com mestria pelo genial Vittorio Storaro, que aqui inicia a sua colaboração com o cineasta e cujos frutos futuros serão extremamente saborosos, como todos sabemos.


Encontramo-nos assim num território cinematográfico em cuja acção se irá passar em duas épocas distintas: os anos 30 em que viveu esse traidor político e os anos sessenta em que o filho desse mesmo homem pretende saber o que se passou na realidade, optando Bertolucci por nos oferecer um relato em que os dois períodos convivem de mãos dadas e onde iremos descobrir como um pacto de silêncio por vezes é profundamente duradouro. E aqui temos a história de um militante político que um dia decide trair a sua causa e os seus companheiros de ideologia, sendo descoberto por estes. E, ao saber que será morto, propõe aos companheiros um modelo de morte em que sairá como herói e nunca como traidor, para não quebrar a moral e a luta dos outros militantes do partido.


E assim a história será escrita por Athos (Giulio Brogi) e por aqueles que traiu quando, à saída da Ópera onde assistiu ao “Rigoletto”, será morto por “desconhecidos”, sendo o crime de imediato apontado às forças que ele e os seus companheiros combatiam. Curiosamente Bernardo Bertolucci optou pelo mesmo actor, Giulio Brogi, para representar os dois papéis, o do traidor e o do filho que pretende saber a verdade dos factos, mas existe o pacto de silêncio cumprido pelos habitantes da aldeia, apesar da passagem dos anos, onde Draifa (Alida Valli) a mulher que tão bem conheceu Athos tem um papel de relevo na preservação da memória, transformando desta maneira para sempre a traição em heroísmo. Porque, como um dia nos demonstrou John Ford, quando a lenda se transforma em realidade que se publique a lenda, porque ela passou a ser fidedigna e a história, como sabemos, termina sempre por falar nos vencedores e nunca nos vencidos.


A “A Estratégia da Aranha” / "La strategia del ragno", surge assim como uma bela entrada para o conhecimento do período inicial de um jovem cineasta, onde pontificam obras com "Antes da Revolução" / "Prima della rivoluzione" e "O Conformista" / "Il conformista", que anos mais tarde irá fazer uma das obras mais belas e politizadas do cinema italiano: o célebre “1900”.

15.1.26

Bernardo Bertolucci - "Um Chá no Deserto" / "The Sheltering Sky"


Bernardo Bertolucci
"Um Chá no Deserto" / "The Sheltering Sky"
(Grã-Bretanha / Itália - 1990) - (138 min. / Cor)
Debra Winger, John Malkovich, Campbell Scott, Jill Bennett, Timothy Spall.


Foi num daqueles dias em Paris, com a casa repleta de convidados, que Gertrud Stein chamou Paul Bowles e Jane para junto da janela e recomendou ao compositor e poeta que fosse até ao norte de África, percorrer as estradas, visitar Tânger e descobrir Marrocos em busca do sabor perfeito da Literatura. Eles assim fizeram e nunca mais voltaram, porque não partiram como turistas, mas sim como viajantes: - "um turista só pensa em regressar a casa, enquanto o viajante não sabe se regressa." (1).


E assim Paul Bowles viveu em Tânger desde finais dos anos quarenta, do século passado,  até à sua morte em 1999. A sua casa serviu de ponto de passagem para toda uma geração de escritores e poetas norte-americanos, em busca da sua hospitalidade. Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, foram alguns dos que passaram por sua casa. E quando o seu romance "The Sheltering Sky" / “O Céu que nos Protege” foi publicado, transformou-se de imediato numa referência para inúmeras gerações, terminando por surgir a respectiva adaptação cinematográfica, tendo ainda espaço para navegar no interior do universo musical.


Música, interrogam-se alguns? Sim, meus caros amigos! Um dos mais belos temas instrumentais dos King Crimson, incluído no álbum "Discipline", chama-se precisamente "The Sheltering Sky" e recomendamos vivamente a sua audição. Já o livro, que foi dedicado por Paul Bowles à sua esposa Jane, possui uma bela citação de Eduardo Mallea: "O destino de cada homem só é pessoal na medida em que se assemelhar ao que já existe na sua memória." E se nunca leu o livro, recomendamos a sua descoberta e depois, se desejar, poderá sempre mergulhar na beleza musical criada por Ryuichi Sakamoto para o filme de Bernardo Bertolucci, uma das mais belas bandas sonoras do compositor japonês.


Bernardo Bertolucci tinha recolhido uma mão cheia de Oscars com "O Último Imperador"/”The Last Emperor” e todos sabemos como é difícil partir para o filme seguinte, depois de uma chuva de prémios e consensos. Ora o cineasta italiano seguiu o caminho traçado anteriormente, com o segmento "1900" (obra maior da sua filmografia) e "La Luna", um dos filmes mais intimistas da sua obra cinematográfica, Assim nasce “The Sheltering Sky” / "Um Chá no Deserto", com uma inesquecível fotografia de Vittorio Storaro, revelando-se uma das películas mais belas e perturbantes da sua filmografia.


A história de Pot Moresby (John Malkovich) e Kit Moresby (Debra Winger), assim como o "outro", o intruso consentido, representado por George Tunner (Campbell Scott) percorre o deserto em toda a sua plenitude e intensidade, originando a paixão e a perdição inerente a esse estado supremo do amor. Esta inesquecível história de amor possui como narrador o próprio escritor (Paul Bowles), que surge no início e no final do filme, fisicamente, contemplando os seus personagens, fruto da sua própria carne, já que tal como ele, Pot Moresby é compositor, assim como Kit Moresby é dramaturga, como a sua esposa Jane Bowles. O final é de um esplendor silencioso, quando Kit Moresby se dirige ao escritor em busca de um rumo para a sua existência.


"Um Chá no Deserto" / “The Sheltering Sky” possui, no seu interior, não só a genialidade de Bertolucci, mas também, como referimos anteriormente, a fabulosa fotografia de Vittorio Storaro, de uma sensibilidade extraordinária. É claro que alguns viram nisso exotismo e bilhete-postal de luxo, para europeu ver. No entanto, quem fez essa leitura e lhe chamou um filme falhado, não possui a menor ponta de sensibilidade para ler nas imagens, a tragédia da fuga de dois seres no interior do deserto, narrado de uma forma exemplar. Será talvez o momento de fazermos uma nova leitura do romance e aproveitar a edição em dvd para reencontrar o percurso de Kit e Pot e descobrir essa bela e intensa luz que ilumina a obra literária de Paul Bowles.


"The Sheltering Sky" / “Un Chá no Deserto” é um romance que tem sido amado pelo cinema desde sempre, pois tanto Robert Aldrich como Nicolas Roeg tentaram a sua adaptação para o grande écran e, se inicialmente, os actores apontados para dar rosto aos personagens no filme de Bernardo Bertolucci foram William Hurt e Melanie Griffith, pensamos que a escolha de John Malkovich e Debra Winger foi a mais acertada, já que ela respira sensualidade em cada gesto e ele possui no seu olhar a perdição e a inevitável redenção proporcionada pela imensidão do deserto.


Nota: Se pretendem conhecer a obra literária de Paul Bowles, iniciem a leitura pela novela "Muito Longe de Casa" (editado pela Presença) e depois de estarem familiarizados com o calor do deserto, ataquem "O Céu Que Nos Protege" / "The Sheltering Sky" (editado pela Assírio e Alvim) e comparem com o filme de Bernardo Bertolucci; após terem ficado apaixonados pela escrita de Paul Bowles continuem com "Deixai a Chuva Cair" (editado pela D. Quixote) e então estão preparados para partirem tranquilamente através da obra literária deste fabuloso escritor, que a Editora Quetzal, tem estado a editar no nosso país.


Mas, se desejarem, também podem ler "Duas Senhoras Bem Comportadas" (editado pela Presença) de Jane Bowles. E após estas leituras todas retomem as personagens de Kit e Pot e vejam como elas se confundem com as de Jane e Paul.

No respeitante à banda sonora, aproveitem para escutar a música composta por Ryuichi Sakamoto e se tiverem curiosidade suficiente, após terem escutado os temas da autoria do próprio escritor, procurem a música que Paul Bowles foi compondo ao longo da sua estadia em Marrocos.

(1) - Bruce Chatwin foi outro viajante perfeito.