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22.3.26

Steven Soderbergh - “Traffic – Ninguém Sai Ileso” / “Traffic”


Steven Soderbergh
“Traffic – Ninguém Sai Ileso” / “Traffic”
(EUA/Alemanha – 2000) – (147 min. / Cor)
Michael Douglas, Catherine Zeta-Jones, Benicio delTtoro, Tomas Milian,
Luis Guzman, Don Cheadle, Miguel Ferrer, Steven Bauer, Dennis Quaid, Jacob Vargas.

Quando William Friedkin realizou “French Connection” / “Os Incorruptíveis Contra a Droga”, ofereceu-nos um olhar perfeito sobre o tráfego de droga e os seus tentáculos. Com o passar dos anos o comércio e a difusão/variedade de estupefacientes existentes no mercado, atingiram níveis perfeitamente alarmantes e no virar de página de mais um século, o cineasta Steven Soderbergh decidiu oferecer-nos o seu olhar, sobre o circuito por onde navega o produto que vai enriquecendo a vida de alguns, à custa da destruição da vida de muitos.


“Traffic – Ninguém Sai Ileso” nasceu a partir da série televisiva “Traffik”, situando-se a acção do filme no continente americano, utilizando meios de produção enormes, só possíveis graças ao empenhamento do Estúdio, que viria coroado de sucesso o seu trabalho, após o êxito obtido junto do grande público, ao mesmo tempo que cativava a crítica cinematográfica, tendo ainda sido galardoado de forma eficaz numa memorável noite dos Oscars: Melhor Realização, Melhor Montagem, Melhor Argumento e Melhor Actor Secundário – Benicio Del Toro.

Javier Rodriguez (Benicio Del Toro) e Manolo Sanchez (Jacob Vargas) são dois polícias mexicanos que dedicam a sua vida a combater o tráfego de droga e logo no início da película iremos assistir ao sucesso de mais uma operação levada acabo por ambos, mas rapidamente iremos perceber, como são longos e misteriosos os tentáculos do polvo, ao conhecermos o general Arturo Salazar (Tomas Milian), responsável máximo pela luta anti-droga no México.


Do outro lado da fronteira, nos Estados Unidos da América, um juiz do Ohio é nomeado pela Casa Branca, como o novo responsável da luta contra o crime organizado, que obtém o seu financiamento no comércio de estupefacientes. O juiz Robert Wakefield (Michael Douglas), enquanto inicia o seu combate em território americano de forma feroz, utilizando todos os recursos da DEA ao seu dispor, irá descobrir com o passar do tempo, que a sua luta se irá tornar mais que pessoal, ao descobrir que a célebre cocaína e o famoso crack tomaram conta da vida da sua filha Caroline (Erika Christensen), sendo o “dealer” um colega de escola, visita habitual de sua casa.

Steven Soderbergh ao construir uma película em forma de mosaico, em que todas as peças se encaixam de forma perfeita, irá conduzir-nos até um respeitável e influente homem de negócios chamado Carlos Ayala (Steven Bauer), que controla o negócio em território americano, com mão de ferro e que acabará por ser preso, iniciando a sua mulher, Helena Ayala (Catherine Zeta-Jones), que até então desconhecia a actividade do marido, uma luta feroz e mortífera, para obter a sua libertação, não olhando a meios para atingir os fins pretendidos.


Por outro lado iremos acompanhar a luta dos homens da DEA com os traficantes, onde a denúncia é sempre paga com a morte, por mais bem guardados que estejam aqueles que decidem colaborar com as forças policiais, ao denunciarem os seus mentores.

Se Javier Rodriguez (Benicio Del Toro) consegue obter esse campo de futebol, para as crianças jogarem à bola, mantendo-as assim afastadas deste flagelo, já o juiz Robert Wakefield (Michael Douglas) irá perceber como a sua luta é demasiado dramática e pessoal, para continuar a desempenhar as funções para que fora indigitado.


“Traffic” de Steven Soderbergh possui ainda a curiosidade de ser o primeiro filme em que o casal Michael Douglas e Catherine Zeta-Jones participam no mesmo filme, embora nunca haja nenhuma sequência em que os dois estejam presentes em simultâneo, nunca se tendo cruzado nos bastidores, como foi confessado pelo actor numa entrevista.

Contando com um lote enorme de actores e utilizando meios até então nunca vistos num filme do género, o cineasta Steven Soderbergh, consegue oferecer-nos uma imagem contundente deste drama, de forma acutilante e não moralista, sendo ele próprio o responsável pela fotografia, utilizando o pseudónimo de Peter Andrews.


A fragmentação da montagem do filme e a utilização da luz e da cor de forma realista, transformam muitas vezes esta obra de ficção, quase num documentário, filmado à flor da pele, oferecendo ao espectador uma narrativa onde são expostos os tentáculos do polvo que controla o comércio dos estupefacientes, expansão essa que atinge todos os lugares da sociedade, desde o mais baixo, até chegar ao topo da pirâmide, ao mesmo tempo que se infiltra e alicia aqueles que se encontram destinados a combatê-lo.

“Traffic” surge assim, não como uma denúncia, mas sim como um observador atento, que coloca questões pertinentes, aos responsáveis pela luta contra o tráfego de droga, ao mesmo tempo que nos oferece uma magistral lição de cinema, sendo impossível ficarmos indiferentes perante a acutilância deste magnifica película e a genialidade do seu autor: o cineasta Steven Soderbergh.

19.1.26

Michelangelo Antonioni - “Identificação de Uma Mulher” / “Identificazione Di Una Donna”


 Michelangelo Antonioni
“Identificação de Uma Mulher” / “Identificazione Di Una Donna”
(Itália/França – 1982) – (128 min. / Cor)
Tomas Milian, Daniela Silverio, Christine Boisson, Sandra Montelioni.

No ano anterior ao da saída deste filme, 1981, Michelangelo Antonioni tinha-nos oferecido essa obra-prima intitulada “O Mistério de Oberwald” / “Il Mistério di Oberwald”, com Mónica Vitti na protagonista, sendo este o derradeiro filme do cineasta com a sua musa. E no ano seguinte nasceu “Identificação de Uma Mulher” / “Identificazione Di Una Donna”, que nos narra a história de um cineasta que, divorciado da sua mulher, sendo a ferida ainda recente, procura um rosto para nos contar uma história de amor.


Niccoló Farra (Tomas Milian) é o cineasta possuidor desse desejo, de curar as feridas do amor em busca dessa mulher perfeita que lhe liquide a solidão. Será ao atender um telefonema na clínica da sua irmã que irá ficar a conhecer Mavi (a fascinante Daniela Silverio), de origens aristocráticas, enquanto ele costuma ler em casa o L’Unitá, surgindo assim duas visões do mundo bastantes distantes, como se irá perceber na festa a que vão juntos. Entretanto o cineasta começa a receber ameaças de uma identidade desconhecida, que não gosta da sua nova relação amorosa.


Mavi esconde no seu belo corpo segredos profundos da sua alma e, como tal, irá um dia desaparecer de circulação sem deixar rasto, apesar de todas as diligências de Niccoló. Porém o seu desejo de encontrar a mulher perfeita para o seu filme, para a sua vida, leva-o ao teatro onde Ida (Christine Boisson), uma actriz sua conhecida, é a protagonista. E, como não podia deixar de ser, ele começa a ver nela a mulher ideal para o seu filme, para a sua vida. Decidem então ir um fim-de-semana até Veneza, para ali descobrirem essa lagoa aberta invadida pela neblina, que irá ditar a ambos um falso futuro, precursor da solidão que se avizinha e que Niccoló desconhece.


Ao chegarem ao hotel em Veneza, Ida recebe um telefonema a informá-la que está grávida de um outro homem e de imediato a incerteza toma posse dela, o pedido de casamento feito por Niccoló, na solidão da lagoa encontra-se à beira do naufrágio. E será isso mesmo que ela percebe quando, junto da porta do hotel, enquanto as imagens exteriores são projectadas nos vidros, numa simbiose perfeita, Niccoló reconhece a dificuldade em ser pai, naquelas circunstâncias.

Já Mavi, que tinha desaparecido sem deixar rasto, acaba por ser localizada e Niccoló decide investigar o mundo em que ela agora vive. A zona não é das melhores, como bem vemos e depois, discretamente, Michelangelo Antonioni oferece-nos um dos segredos de Mavi.


Por fim Niccoló Farra percebe como é difícil identificar uma mulher para ser protagonista do seu filme, como é difícil encontrar uma mulher que lhe preencha o vazio da sua vida. Senta-se então no parapeito da janela e começa a reparar no brilho do sol, a solução para o seu desastre sentimental poderá estar ali, bem longe das ilusões terrenas.

Antonioni oferece-nos em “Identificação de Uma Mulher”, uma obra cujo argumento se encontra em perfeita ebulição, ao longo da película, ao mesmo tempo que continua a dar uma importância enorme à composição do plano, em que mais uma vez a cor é o elemento primordial. Por outro lado, consegue oferecer-nos uma banda sonora da autoria de John Foxx que nos deslumbra, ao mesmo tempo que junta excertos de obras conhecidas de Peter Bauman e Tangerine Dream, sendo inesquecível essa sequência final, com Niccoló a olhar fascinado para o sol, imaginando uma nave espacial a dirigir-se na sua direcção, ao mesmo tempo que assistimos à perfeita conjugação entre música e imagens.


“Identificazione di una Donna” oferece-nos um novo retrato desse célebre universo da incomunicabilidade, que Michelangelo Antonioni tão bem dissecou ao longo da sua obra cinematográfica. A mulher permanece para o realizador a mais bela-luz do seu cinema. Descobrir e amar os seus sentimentos foi a sua tarefa de cineasta ao longo dos anos.