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9.6.26

John Ford - "Cavalgada Heróica" / "Stagecoach"


John Ford
"Cavalgada Heróica" / "Stagecoach"
(EUA – 1939) – (96 min. - P/B)
John Wayne, Claire Trevor, Thomas Mitchell,
John Carradine, Louise Platt, Donald Meek, George Bancroft.

No cinema de John Ford há um antes e um depois, nesse género que ele cultivou como ninguém, chamado o “western”, ficando célebre a sua réplica a Peter Bogdanovich: “My name is Ford, I make westerns.” Esse ponto charneira foi um território chamado “Monument Valley”, que ele filmou e amou como ninguém, já a película que marca esse acontecimento é “Cavalgada Heróica” / “Stagecoach”, depois dela o “western” nunca mais foi o mesmo.


Em Monument Valley, John Ford irá rodar nove “westerns” ao longo da vida e muitas vezes foi visto como o “pai” que matava a fome aos seus “filhos”, oferecendo-lhes emprego nas filmagens, sendo muito conhecido o seguinte episódio: um dia alguém informou o irlandês da fome que atacava a nação índia e ele não hesitou, foi até lá e rodou mais um “western”.

“Cavalgada Heróica” / “Stagecoach” também é uma obra charneira, porque nela nasce um dos maiores nomes cinematográficos do “western”, um género muitas vezes considerado injustamente menor, falamos de John Wayne que aqui interpreta Ringo Kid. Porém a obtenção do papel afigurou-se extremamente difícil para o então jovem actor, já que Walter Wangler, o produtor, pretendia Gary Cooper para o papel, enquanto o poderoso David O’Selznick desejava o mesmo Gary Cooper, mas com Marlene Dietrich na figura da escorraçada Dallas.


Na época John Wayne ainda andava pela Série-B, porque a sua estreia como protagonista em “The Big Trail”, de Raoul Walsh, foi um verdadeiro desastre de bilheteira e todos sabemos como os produtores são ciosos do seu dinheiro. Quem conheceu John Ford também sabe como ele por vezes era teimoso, levando sempre a dele avante. Assim aconteceu e John Wayne iria conquistar o reconhecimento dos seus pares com “Stagecoach”, já Claire Trevor (a bela Dallas) na época era, apenas, a actriz mais bem paga em Hollywood, sendo com naturalidade que encontramos o seu nome antes do de John Wayne, “fruto da época”.

Sean Aloysus O’Fearna mais tarde conhecido como John Ford nasceu a 1 de Fevereiro de 1895 na Irlanda, a sua terra mais amada. A infância foi dura e a fome um elemento preponderante no quotidiano dos irlandeses, motivando a partida de muitos para esse Novo Mundo, visto como a Terra Prometida. Seguindo as pisadas dos seus conterrâneos, o jovem Sean partiu para solo americano e pouco depois chegava a essa “granja” na Califórnia, situada num território nascente e repleto de luz, chamado Hollywood, onde executou as mais diversas tarefas no Mundo do Cinema.


Nessa época o Cinema ainda era mudo e o ano de “O Cantor de Jazz” / “The Jazz Singer” vinha longe. Começou a realizar “westerns” para Harry Carey, nascendo um cineasta com “Iron Horse”. John Ford será talvez o realizador com mais filmes perdidos do período mudo. Na época assinava os “movies” como Jack Ford até nascer em 1923, no seguimento da feitura de “Cameo Kirby”, a assinatura que ficaria célebre na História do Cinema: John Ford.

E em 1939, John Ford decide colocar no interior de uma diligência uma mulher expulsa da cidade pela “liga da moralidade”, um jogador de tiro traiçoeiro, a mulher grávida de um oficial da cavalaria, um médico bêbado, que encontra num pacato vendedor de whisky o seu melhor companheiro de viagem, mas este não podia ser o quinteto perfeito porque, às portas da cidade, um novo elemento espera por eles. Nada menos do que o banqueiro, depois de feita a sua golpada. Mais tarde será “pescado” das areias do deserto o “foragido” Ringo Kid. Por outro lado o condutor da diligência leva a seu lado o xerife, constituindo desta forma um número ímpar de mau agoiro. E dizemos isto porque os Comanches de Gerónimo andam pelos mesmos caminhos da diligência, por isso mesmo um destacamento da cavalaria os irá acompanhar até à primeira troca de cavalos no habitual posto das diligências, tantas vezes usado pelos homens da West Fargo. Porém, aí tudo se irá complicar.


Visitamos assim, pela primeira vez, esse universo Fordiano chamado Monument Valley e ao longo dele vamos conhecendo o retrato psicológico de cada um dos passageiros da diligência. Dallas (Claire Trevor) e Doc (Thomas Mitchell) são os indesejados, expulsos da cidade a caminho de outra vida, já Ringo Kid (John Wayne), ao ser recolhido no deserto, fica imediatamente sobre prisão para impedir o duelo desejado com os homens que lhe mataram o pai e o irmão. Enquanto Hatfield (John Carradine) surge como o jogador impiedoso e protector de Lucy Mallory (Louise Platt), esposa grávida de um oficial de Cavalaria. No meio desta gente vai o pacato vendedor de whisky Peacock (Donald Meek), ninguém na diligência acerta com o seu nome, que só pretende regressar a casa são e salvo, por outro lado o banqueiro sempre a pregar a moral e os bons costumes, transporta com ele o dinheiro dos depositantes, após a “golpada” bancária.

Ao longo da viagem John Ford irá analisar, um a um, todos os ocupantes da diligência, usando com mestria o grande plano, utilizando esse espaço tão pequeno e fechado, para criar um clima de angústia, sufoco e suspeição, demonstrando como o individualismo, fruto do egoísmo, é a nota dominante naquela diligência.


A forma como, desde o início, Dallas e Ringo são tratados pelos outros passageiros, repare-se na impossibilidade sentida por Lucy em estar em frente de Dallas, uma esposa de um oficial junto de uma mulher que “trabalhava no saloon” não é possível e a solidariedade oferecida por Ringo a Dallas, companheiro de infortúnio, com a frase “esta senhora também bebe a água pelo copo”.

Durante toda a viagem iremos sendo confrontados pelos aspectos psicológicos constituintes de cada personagem e através deles nos será oferecido o retratado do verdadeiro Oeste. Nele iremos ter a diligência, o foragido, a cavalaria, os índios e por fim o famoso duelo, filmado com uma economia de meios e uma luz próxima do expressionismo, repare-se aliás como aquela noite no “far-west” está tão próxima da noite irlandesa de “O Denunciante” / “The Informer”.


Terão sido, possivelmente, estas algumas das razões que levaram Orson Welles a ver “Stagecoach” / “Cavalgada Heróica” cerca de quarenta vezes, durante a preparação de “Citizen Kane” / “O Mundo a Seus Pés”. O génio, celebrizado pelo enorme sucesso da transmissão radiofónica de “A Guerra dos Mundos”, tinha Hollywood aos seus pés e procurou, através da visão de outro Mestre, obter todos os ensinamentos necessários à construção da biografia de Charles Foster Kane ou se preferirem Randolph Hearst, uma das mais poderosas figuras da América. Se Orson Welles tivesse ido na diligência conduzida por Buck (Andy Devine), qual seria a personagem que escolheria para interpretar?

Muitos anos depois, ao (re)vermos “Stagecoach” / “Cavalgada Heróica”, no grande écran ou mesmo no conforto do lar, sentimos a nostalgia do Oeste e a memória do “western”, que termina sempre por nos conduzir a Monument Valley, essa outra pátria de John Ford, que tivemos um dia a felicidade de pisar, sentindo a bela imensidão do espaço, com as suas mesetas vermelhas.

31.5.26

John Ford - “O Denunciante” / “The Informer”


John Ford
“O Denunciante” / “The Informer”
(EUA – 1935) – (91 min. – P/B)
Victor McLaglen, Heather Angel, Preston Foster.

Qualquer amante da Sétima Arte, quando decide re(ver) alguns filmes do cinema expressionista, mergulha de imediato no cinema alemão, mas irá terminar sempre por ir ver este filme de John Ford, que possui na fotografia de Joseph H. August alguns dos momentos mais belos do expressionismo no cinema.


Em “O Denunciante” / “The Informer” acompanhamos o calvário desse gigante chamado Gypo Nolan (extraordinário e inesquecível Victor McLaglen), que irá denunciar o chefe do IRA local às autoridades britânicas para receber o prémio da delação e com esse dinheiro partir com a sua amada para a América.

Baseado no livro de Liam O’Flaherty, do qual Dudley Nichols criou um poderoso argumento, que irá prender o espectador do primeiro ao último fotograma, com essa redenção na igreja do protagonista no final da película.


“O Denunciante” / “The Informer”, de John Ford, conquistou quatro Oscars: Melhor Actor: Victor McLaglen; Melhor Realizador: John Ford; Melhor Argumento: Dudley Nichols e Melhor Banda Sonora: Max Steiner.

15.4.26

John Ford - “Os Dominadores” / “She Wore a Yellow Ribbon”


John Ford
“Os Dominadores” / “She Wore a Yellow Ribbon”
(EUA – 1949) – (104 min./Cor)
John Wayne, Joanne Dru, John Agar, Ben Johnson, Harry Carey Jr., Victor McLaglen.

A obra cinematográfica de John Ford pode ser revista através de ciclos temáticos e um desses ciclos é, precisamente, o famoso ciclo da Cavalaria, constituído pelos filmes “Forte Apache”, “Rio Grande” e “Os Dominadores” / “She Wore a Yellow Ribbon”, o meu favorito desta trilogia, que nos relata os últimos dias de um Capitão de Cavalaria (John Wayne) e a sua vida no Forte que terá que deixar, embora os índios continuem a fazer os seus estragos, talvez menores que os que a jovem Olivia (Joanne Dru), presente no Forte, faz no coração de dois dos seus oficiais (Tenente Cohill e Tenente Pennell), que aspiram a conquistar os “favores” daquela que usa a célebre fita amarela da Cavalaria a prender o seu cabelo, mas também nunca nos poderemos esquecer do famoso Sargento Quincannon (Victor McLaglen).


A acção da película situa-se após a célebre batalha de Little Big Horn, onde o controverso General Custer perdeu a vida, acompanhado pelos seus homens do 7º Cavalaria, revelando-se este “She Whore a Yellow Ribbon” / “Os Dominadores” uma das mais belas películas realizadas por esse bom gigante do cinema chamado John Ford, que um dia se referiu nestes termos sobre a sua paixão pelo western:


“Sou de origem irlandesa, mas de cultura “western”. Interesso-me pelo folclore do Oeste, porque me interessa mostrar o real, num quase documentário. Eu próprio já fui “cow-boy”. Gosto do ar livre, dos grandes espaços. O sexo, a obscenidade, os degenerados são coisas que não me interessam.” Percebemos assim as razões que levaram Ford a fazer de Monument Valley o principal cenário dos seus “westerns”, incluindo este fabuloso “She Wore a Yellow Ribbon”!

12.4.26

John Ford - “Forte Apache” / “Fort Apache”


John Ford
“Forte Apache” / “Fort Apache”
(EUA – 1948) – (128 min. – P/B)
John Wayne, Henry Fonda, Shirley Temple, Ward Bond,
Victor McLaghen, Pedro Almendariz, George O’Brien.

“Forte Apache” é o primeiro filme do denominado “ciclo da cavalaria” de John Ford, sendo os outros dois filmes, “Os Dominadores” / “She Wore a Yellow Ribbon” e “Rio Grande” e pela primeira e única vez ao longo da filmografia de John Ford, iremos ter juntos os dois actores que por diversas vezes lhe ofereceram o seu enorme talento tornando-se figuras incontornáveis, quando se fala do cinema do cineasta irlandês: Henry Fonda e John Wayne.


E se o Tenente-Coronel Owen Thursday (Henry Fonda) é um homem amargurado e rígido nas regras militares, pelo facto de ter sido desterrado para o Forte Apache, onde existem problemas com os índios de Cochise, já o Capitão Kirk York (John Wayne) possui um outro olhar sobre a forma como se deve resolver o problema com os peles-vermelhas.


Mas este fabuloso filme onde iremos encontrar muita dessa “gente de Ford”, como um dia lhes chamou Luís de Pina, como Ward Bond, Victor McLaghen, George O’Brien e até mesmo Pedro Armendariz, iremos ter uma Shirley Temple, já adulta a dar corpo a uma personagem fulcral deste “Forte Apache”, Philadelphia Thurday, a filha do Tenente-Coronel Thursdey (Henry Fonda), que se irá apaixonar pelo Tenente Michael O’Rourke (John Agar), filho do Sargento O’Rourke (Ward Bond), que embora seja oficial, para o seu pai irá ser sempre olhado como alguém de uma condição social inferior e de imediato proibido de namorar com a jovem, levando-nos até esse território do conflito de classes.


“Forte Apache” não é só um filme sobre a célebre Cavalaria, mas também um magnifico “Western” de primeira grandeza com interpretações memoráveis, onde também não falta o humor através do Sargento Mulcahy (Victor McLaghen) e esse olhar tão Fordiano sobre a intolerância, que irá conduzir um regimento ao desastre.

17.2.26

John Ford - “A Taberna do Irlandês” / “Donovan’s Reef”


John Ford
“A Taberna do Irlandês” / “Donovan’s Reef”
(EUA – 1963) – (109 min./Cor)
John Wayne, Lee Marvin, Elizabeth Allen, Jack Warden,
Cesar Romero, Dorothy Lamour, Marcel Dalio.


”A Taberna do Irlandês” / “Donovan’s Reef” surge na filmografia de John Ford situado entre dois “westerns” de primeira água: “O Homem Que Matou Liberty Valance” / “The Man Who Shot Liberty Valance” e “O Grande Combate” / “Cheyenne Autumn”, e certamente por serem dois filmes trágicos, no primeiro a tragédia de um homem no segundo a tragédia de uma nação, esta película rodada nos Mares do Sul e com um filme irmão em “O Homem Tranquilo” / “The Quiet Man”, bem merece ser redescoberta, porque estamos perante uma das mais deliciosas comédias realizadas pelo cineasta irlandês, que mais uma vez conta com a presença do amigo John Wayne neste maravilhoso filme, rodado nos Mares do Sul e onde a história de três amigos do período da Segunda Grande Guerra se cruza com a vida de três crianças e um segredo bem guardado.


Pelo meio desta história iremos conhecer uma galeria de personagens inesquecíveis e situações memoráveis, que nos conduzem a um dos mais diveidos filmes da longa e genial filmografia de John Wayne.