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7.9.26

Sergey Bondarchuk - “Waterloo”


Sergey Bondarchuk
“Waterloo”
(Itália/EUA/União Soviética – 1970) – (134 min./Cor)
Rod Steiger, Christopher Plummer, Orson Welles, Jack Hawkins.

Vi este filme em criança no Cinema Mundial, no ano de 1970 e nunca mais me esqueci dele! Na época, o que me levou a querer ir ver “Waterloo”, não foi o realizador russo Sergey Bondarchuk, nem Christopher Plummer, que conhecia da “Música no Coração”, mas sim Napoleão!


Quase meio-século depois, consegui rever este filme com outros olhos e fiquei cativado pela interpretação que Rod Steiger faz de Napoleão Bonaparte, depois aqui não há écran verde, nem multiplicação de seres humanos vestidos de militar, mas sim tropas do então Exército Vermelho (no filme a infantaria) que deram o seu contributo à película produzida por Dino de Laurentis, tal como fez um Batalhão dos Granadeiros do Exercito Britânico (no filme a cavalaria) e assim temos sequências da famosa batalha de Waterloo, verdadeiramente memoráveis, para quem gosta de cinema e confesso que senti as mesmas emoções que tive em criança ao rever “Waterloo”.


Já Dino de Laurentis, que gastou uma fortuna a produzir este filme e segundo algumas crónicas da época foi um verdadeiro ditador, na feitura do mesmo, seguindo as regras dos mais famosos produtores de Hollywood, embora tenha vestido o capote de Napoleão, também ele não escapou ao seu “Waterloo” ou seja o seu maior desastre financeiro, como produtor de cinema. Mas este filme realizado por Sergey Bondarchuk é inesquecível e oferece a Rod Steiger uma das maiores interpretações da sua carreira!

1.6.26

Robert Wise - “Música no Coração” / “The Sound of Music”


Robert Wise
“Música no Coração” / “The Sound of Music”
(EUA – 1965) – (174 min. / Cor)
Christopher Plummer, Julie Andrews, Eleanor Parker, Richard Haydn.

“Música no Coração” é aquele musical que todos nós já vimos quando éramos crianças, quanto a mim fiquei perfeitamente emocionado pela história da família do Capitão Von Trapp, na época as sessões esgotavam e o êxito foi enorme como todos sabemos.


“The Sound of Music” tinha a dirigi-lo um homem que andou uma vida de mãos dadas com a Indústria, Robert Wise, já com um célebre musical no curriculum, “West Side Story” / "Amor Sem Barreiras" e mais uma vez ele veria o seu esforço reconhecido através dos Oscars, mas em “Música no Coração” temos o encanto e a frescura de Julie Andrews, a inglesa que fora estrela em “Mary Poppins” de Walt Disney, que lhe ofereceu a oportunidade tão desejada pela actriz depois de ela ter sido recusada para o papel de “My Fair Lady”, porque os Estúdios pretendiam um nome seguro chamado Audrey Hepburn. Julie Andrews não deixou fugir esta oportunidade e depois a história é conhecida de todos, embora no ano seguinte Alfred Hitchcock tenha lamentado o seu cachet altíssimo em “Cortina Rasgada” / “Torn Curtain”. Ao lado de Julie Andrews em Música no Coração” temos Christopher Plummer já com uma carreira segura no cinema e na televisão e a bela Eleanor Parker (Baronesa Elsa Schraeder), que ficou um pouco esquecida neste filme devido à personagem que interpreta, rival de Maria na luta pela posse do capitão Von Trapp.


Maria é uma daquelas raparigas que tem jeito para tudo menos para estar num Convento e como ainda é noviça e se porta muito mal no seu interior, fugindo dele “a sete pés” correndo pelos campos a cantar em vez de se dedicar à oração, a Madre Superiora decide encarregá-la de uma missão, ser a ama dos filhos do Capitão Von Trapp, só que as crianças, Liesl, Friedrich, Louisa, Kurt, Brigitta, Marta e Grett, decidem fazer-lhe a vida negra e quando são sete a tarefa é mesmo difícil, mas Maria a pouco e pouco consegue entrar no coração das crianças e mais tarde há-de chegar a vez do rígido e militar Capitão Von Trapp, para grande alegria das crianças e tristeza da Baronesa. Tudo parece encaminhar-se para aquele “mar de rosas” mas a história, com a chegada dos nazis ao poder na Áustria, provoca profundas alterações na família e no patriotismo do Capitão que não vê com bons olhos a bandeira da cruz suástica ao vento na entrada de sua casa, originando um conflito com a autoridade vigente e aqui só lhe resta aceitar um cargo na Marinha do Terceiro Reich ou pôr-se em fuga, ainda por cima com a filha mais velha apaixonada por um jovem militar hitleriano. Somos obrigados a reconhecer que o argumento de Ernest Lehman, colaborador de Hitchcock, está carpinteirado de forma soberba, apesar de baseado numa história real.


Robert Wise, o homem que aceitou a ordem dos Estúdios para refazer a segunda obra de Orson Welles, “O Quarto Mandamento” / “The Magnificent Ambersons”, dando desta forma o primeiro tiro no Génio, construiu uma obra que irá ficar para sempre na memória de todos. Aliás, temos que reconhecer o seu trabalho de montagem em “Citizen Kane” / "O Mundo a Seus Pés" e depois até como cineasta subiu a escada a pulso, aprendendo todos os passos da arte cinematográfica, embora, apesar de todos os sucessos, na memória dos cinéfilos ele seja sempre recordado como o autor do “happy-end” forçado de “O Quarto Mandamento”. Deixando de parte esta questão somos obrigados a reconhecer que “Música no Coração” é um dos mais belos musicais da História do Cinema, o filme que encheu de dinheiro os bolsos dos produtores e fez a delícia das plateias. Por outro lado convém referir um caso curioso passado na idade do vídeo, quando a película foi lançada na célebre cassete, usando o famoso “pan and scan” para encher o écran do televisor, todos descobrimos como algo de errado estava no processo, dos sete filhos do capitão Trapp, muitas vezes víamos quatro e meio e por aí fora, depois com o nascimento do dvd, esse aspecto foi corrigido e assim podemos usufruir em toda a sua plenitude a película e as suas canções inesquecíveis.


Recordar hoje “Música no Coração” sem "complexos cinéfilos" é um dever, porque estamos perante um musical inesquecível e como iniciámos esta crónica com memórias de infância, terminamos com outra memória já do nosso período cinéfilo, a forma mordaz como Blake Edwards (marido de Julie Andrews) nos ofereceu a visão do início da película no célebre "cartoon" da Pantera cor-de-rosa, a anteceder mais uma aventura do “brilhante” inspector Clouseau, vale a pena ver. Revisionismos à parte, somos obrigados a reconhecer que “The Sound of Music” perdura na memória de todos os cinéfilos, como um musical inesquecível.

5.4.26

Stephen Gaghan - “Syriana”


Stephen Gaghan
“Syriana”
(EUA / Emiratos - 2005) – (128 min./Cor)
George Clooney, Matt Damon, Christopher Plummer, William Hurt.

Quando acendemos a televisão e escutamos os serviços noticiosos ou lemos os jornais, sabemos de antemão que um dos temas forte, seja dia útil ou fim-de-semana, é o Médio-Oriente e este fabuloso filme do cineasta-argumentista Stephen Gaghan é precisamente uma verdadeira “mina de ouro”, porque ao longo de duas horas aborda a questão do Médio-Oriente de todos os ângulos com uma eficácia, que não descura nenhum pormenor.


Mas o leitor estará possivelmente a pensar que não conhece o nome do cineasta, repare que não lhe chamamos realizador, mas sim cineasta ou seja sinónimo de autor. A razão é simples porque este cavalheiro é o argumentista do fabuloso “Traffic – Ninguém Sai Ileso” de Steven Soderbergh e, com este “Syriana”, vai ainda mais longe, visitando todos os intervenientes do complexo Médio-Oriente e precisamente por isso mesmo, esta película, tal como sucedeu com “Traffic”, tendo em conta o manancial de temas abordados, ficou conhecido como um filme “híper-link”!


Depois temos em “Syriana” um conjunto de actores fabuloso e não me estou a referir apenas aos mais célebres, mas também a todos os outros e nunca será demais referir que a interpretação de George Clooney é portentosa, tendo aliás conquistado o Oscar de Melhor Actor Secundário.


Em “Syriana” iremos conhecer todos os interesses que navegam no Médio-Oriente, bem conhecidos dos mais atentos, mas também descobrir os milhões de emigrantes que por ali trabalham, em busca da sobrevivência, algo de que desistiram d procurar nos países de onde são oriundos, trabalhando sem direitos laborais nos poços petróleo, até chegar esse momento fabuloso de “Syriana”, em que iremos assistir ao nascimento de um terrorista, para além de todas as outras vertentes do filme onde se abordam os conflitos e interesses económicos das grandes empresas e das grandes potências, que não olham a meios para atingir os seus fins, porque como todos sabemos o petróleo não é inesgotável.


Por tudo isto “Syriana” é um filme a descobrir! Veja com muita atenção, porque como num filme de Robert Altman, as histórias entrecruzam-se a uma velocidade vertiginosa e obrigam-nos a reconhecer que este foi o melhor filme feito até hoje sobre a realidade do Médio-Oriente e tendo em conta o que se passa por essas paragens com o mundo ocidental à beira do abismo devido ao bloqueio no estreito de Ormuz, devemos ver esta película de Stephen Gaghan, que se revelou um cineasta visionário.