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4.6.26

Jean Renoir - "A Grande Ilusão" / "La Grande Illusion"


Jean Renoir
"A Grande Ilusão" / "La Grande Illusion"
(França – 1937) – (109 min. - P/B)
Jean Gabin, Erich von Stroheim, Pierre Fresnay, Marcel Dalio, Dita Parlo.

Dois anos antes de realizar o célebre, “A Regra do Jogo”, Jean Renoir decidiu em 1937 oferecer-nos um olhar sobre a Primeira Guerra Mundial, através dessa obra-prima intitulada “A Grande Ilusão” / “La Grand Illusion”, que na época foi recebida com grande entusiasmo por uns e olhada de lado por outros, recorde-se que o filme foi proibido na Alemanha e mesmo quando surgiu no Festival de Veneza não lhe concederam o galardão máximo, sendo no entanto criado um prémio especial para o galardoar e nunca é demais referir que o filho de Mussolini era a entidade mais preponderante nos meios cinematográficos italianos, protegendo os cineastas e críticos de cinema de ideologias opostas à do seu pai, por outro lado o público francês não viu com muito bons olhos o retrato que o cineasta oferecia da convivência entre militares franceses e alemães, porque a memória da Primeira Guerra Mundial ainda estava bem presente, ao mesmo tempo que o regime nascido entretanto na Alemanha já trazia o mundo bastante atormentado.


Curiosamente, este filme sobre a guerra, constrói uma visão do conflito vista através do campo de concentração, ao mesmo tempo que nos oferece um olhar atento sobre a relação de classes.

O Tenente Maréchal (Jean Gabin), piloto da força aérea francesa que trabalha numa patrulha de reconhecimento, é chamado pelo seu superior hierárquico, capitão Boeldieu (Pierre Fresnay), para partir em missão sobre as linhas inimigas, porque as fotografias que este tinha obtido na sua anterior missão não eram suficientemente nítidas sobre os movimentos das tropas alemãs. Nunca é demais recordar que esta guerra foi acima de tudo uma guerra de trincheiras, onde milhares serviram de carne para canhão. E será durante essa missão nocturna que serão abatidos pelo aristocrático Capitão Von Rauffenstein (Erich von Stroheim), que os irá receber com toda a cordialidade, enviando-os depois para o respectivo campo de concentração, mas estes homens irão por diversas vezes tentar evadir-se do cativeiro.


Mal chegam à camarata, descobrem que os seus companheiros estão a escavar um túnel para encetarem a fuga. Iremos assim entrar na atmosfera do campo de concentração, para descobrirmos que eles até recebem encomendas de casa com comida, chegando por vezes a estarem mais bem alimentados que os seus próprios carcereiros. Mas perante as suas diversas tentativas de fuga, sempre sem sucesso, são enviados para uma fortaleza comandada por Von Rauffenstein, que entretanto vira o seu avião abatido em combate e passara a ser o responsável por essa prisão de alta segurança, o único contributo possível que ele ainda poderia dar ao seu país, depois de gravemente ferido, como ele afirma no filme ao encontrar-se com Maréchal e Boeldieu, tratando-os sempre com a maior cordialidade, especialmente Boeldieu que ele considera um aliado de classe.

Como sempre, o desejo de fuga permanece vivo e quando Maréchal e Boeldieu voltam a encontrar o Capitão Rosenthal (Marcel Dalio), decidem preparar uma nova evasão, mas daquela fortaleza é quase impossível fugir e será Boeldieu (Pierre Fresnay) a arquitectar um novo plano oferecendo-se como mártir, para os seus dois companheiros de cárcere encetarem com sucesso a fuga. Temos assim esse acto heroico de um aristocrata que irá morrer às mão de outro aristocrata, porque será precisamente o Capitão Von Rauffenstein a disparar a bala fatal que irá ferir mortalmente o oficial francês que, ao despertar as atenções sobre si de toda a guarnição alemã, irá possibilitar a fuga de Maréchal e Rosenthal (que por sinal até é judeu), o qual durante a fuga nocturna pelos campos rumo à fronteira Suíça irá torcer um tornozelo o que lhe irá impossibilitar caminhar, surgindo então um diálogo entre os dois homens que alguns viram como anti-semita.



Maréchal decide então abandonar o seu companheiro de fuga à sua sorte, para não perder mais tempo, mas acabará por regressar ao lugar onde ele se encontra, para o ajudar e mais tarde se refugiarem numa casa habitada por uma camponesa alemã (Dita Parlo) que, em vez de os denunciar, os irá ajudar porque para ela a guerra não faz qualquer sentido, já que o marido fora morto na frente de combate e ela só deseja o final do conflito.

Durante a estadia na quinta, Elsa (Dita Parlo) e Maréchal (Jean Gabin) percebem que aquilo que os une é muito mais forte (o amor) do que o que os separa (a guerra), mas tanto ele como Rosenthal têm um destino, o de atingir a Suíça, país neutral, para depois seguirem para França para retomarem o combate e terminarem com aquela guerra exterminando de vez todos os conflitos, porque aquela será na sua opinião decididamente a última guerra, uma grande ilusão que a história irá comprovar em 1939, mas aqueles homens em 1917 ainda não sabiam infelizmente o futuro que lhes estava reservado.


Jean Renoir, com “A Grande Ilusão”, oferece-nos um olhar sobre um conflito onde ainda existiam cavalheiros e honras de conduta mas, como todos sabemos, a célebre Linha Maginot criada pelos franceses durante o período que decorreu entre os dois conflitos de nada irá servir, já que a poderosa máquina de guerra alemã irá atravessar as Ardenas e invadir a França pela Bélgica, numa Segunda Guerra Mundial, em que já não havia lugar para Convenções de Genebra.


Rever “A Grande Ilusão” / La Grand Illusion” de Jean Renoir, passados mais de oitenta anos sobre a sua feitura, é na verdade uma maravilhosa aventura cinematográfica, onde o desejo de sobrevivência anda de mãos dadas com os sentimentos e as ideologias.

18.4.26

Billy Wilder - “O Crepúsculo dos Deuses” / “Sunset Boulevard”


Billy Wilder
“O Crepúsculo dos Deuses” / “Sunset Boulevard”
(EUA – 1950) - (110 min - P/B)
Gloria Swanson, William Holden, Erich Von Stroheim.

“Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, é o mais célebre filme sobre o universo do cinema até hoje feito, cuja história nos é narrada por um corpo, já morto, a boiar no interior de uma piscina. Iremos assim conhecer através de Joe Gillis (William Holden), esse argumentista em busca de um êxito e os acontecimentos que antecederam a sua morte.


Tudo começou quando o seu carro, ao percorrer a tão famosa avenida “Sunset Boulevard”, interrompe a sua marcha devido a um pneu furado. Ao dirigir-se à casa mais próxima para telefonar, uma luxuosa Mansão que já vira melhores dias, é confundido com o funcionário da agência funerária que vem tratar das exéquias do animal de estimação da dona da casa, essa outrora célebre estrela do cinema mudo, chamada Norma Desmond (Gloria Swanson).

Recorde-se que Gloria Swanson, uma das mais famosas stars do período mudo da Sétima Arte, é na realidade mais nova que a personagem que interpreta, representando o filme de Billy Wilder um verdadeiro regresso à ribalta do universo cinematográfico.


Ao contrário do que se possa pensar, este não é um filme sobre a vida de Gloria Swanson, mas sim uma ficção brilhantemente elaborada por Billy Wilder, que construiu em “O Crepúsculo dos Deuses” / “Sunset Boulevard” um dos mais fascinantes filmes sobre os meandros do mundo do cinema.

E se Gillis (William Holden) é o homem certo para escrever o argumento tão desejado por Norma para o seu “come-back”, verificaremos que esta estrela decadente irá servir-se dele da mesma forma como utiliza essa figura “apagada” chamada Max von Mayerling (um Erich Stroheim extraordinário), que tudo faz para a estrela se sentir a eleita no Olimpo dos Deuses.


Iremos assim, nesta viagem por Hollywood, encontrar o próprio Cecil B. DeMille (que dirigiu Gloria Swanson em cinco películas), a representar o seu próprio papel, quando esta anuncia o seu regresso e o visita nos Estúdios de Cinema onde ele se encontra a rodar um filme. Mas o argumento que Gillis está a escrever não se adequa a ela, mas sim a uma actriz muito mais nova e quando Norma Desmond, que insiste em viver num mundo que já não existe, percebe finalmente o que se passa, não hesita em o matar, porque Gillis estava a liquidar o seu sonho de estrela imortal.

E quando a polícia chega para a prender, Max von Mayerling, esse eterno amante desprezado, num derradeiro gesto de amor e homenagem decide encenar o regresso triunfal da mulher amada, num derradeiro gesto de amor e perdição, que figura na película como uma das sequências mais célebres de “Sunset Boulevard”.


(Re)ver “O Crepúsculo dos Deuses” é entrar pela porta grande do Cinema, levado por esse Mestre da Sétima Arte chamado Billy Wilder, que nos oferece aqui um filme imortal.