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20.7.26

Dustin Hoffman - “Quarteto” / “Quartet”


Dustin Hoffman
“Quarteto” / “Quartet”
(Grã-Bretanha – 2012) – (94 min./Cor)
Maggie Smith, Michael Gambon, Bill Connolly, Tom Courtenay, Pauline Collins.

Recentemente nessa cruzada que atingiu Hollywood através do “Me Too”, o actor Dustin Hoffman foi acusado por uma senhora de, na década de 70 do século xx, contar anedotas picantes, mas o célebre actor respondeu à letra e bem a esta anedótica acusação afirmando eram os anos setenta, toda a gente contava anedotas e assim o “caso” morreu.


Esta história vem a propósito da realização deste fabuloso filme realizado por Dustin Hoffman, intitulado “Quarteto”, que deve ter tido um ambiente verdadeiramente carismático nos bastidores, com inúmeras anedotas a serem contadas e bem divertidas, tendo em conta o poderoso elenco deste maravilhoso filme, que se passa numa residência de repouso para músicos e cantores líricos, cujo amor pela música e pelo belo canto continuam bem vivos, para além das suas rivalidades, que por vezes permanecem.


Mas, quando estiver a passar o genérico final deste magnifico “Quarteto”, esteja atento às imagens, pois irá descobrir que todos os secundários deste filme são precisamente músicos e membros desse bel canto, a quem dedicaram uma vida: as fotografias falam por eles.


Dustin Hoffman e o seu elenco fizeram deste “Quarteto” uma pérola cinematográfica e só poderemos dizer que a magia dos anos 70 passou por aqui!

3.7.26

Robert De Niro - “O Bom Pastor” / “The Good Shepherd”


Robert De Niro
“O Bom Pastor” / “The Good Shepherd”
(EUA – 2006) – (167 min. / Cor)
Matt Damon, Angelina Jolie, William Hurt, John Turturro,
Robert De Niro, Billy Crudup, Michael Gambon, Austin Williams, Joe Pesci.

São muitos os casos de actores que passam para detrás das câmaras, nascendo nessa viragem muitos cineastas. Raoul Wash talvez seja um dos primeiros casos, obrigado a trocar a interpretação pela realização, mas um dos casos mais bem-sucedidos é, sem dúvida alguma, Robert Redford um dos grandes actores da História do Cinema que um dia ao realizar o seu primeiro filme “Gente Vulgar” / “Ordinary People” viu o seu esforço coroado de Óscares. Outro nome a seguir é, evidentemente, George Clooney que nos ofereceu na segunda realização em “Boa Noite e Boa Sorte” / “Good Night and Good Luck” uma obra assombrosa. Já Kevin Spacey ao realizar “Bobby Darin”, criou um musical que deve ser descoberto por todos. Poderíamos falar em casos como Stanley Tucci ou John Turturro, actores conhecidos de muitos, que vão construindo uma obra de cineastas pela calada da noite. E só para terminar esta introdução nunca nos poderemos esquecer desse grande actor e cineasta, um dos pais do cinema independente, chamado John Cassavetes, que aplicava o dinheiro ganho nas interpretações em filmes realizados por outros, para investir na execução dos seus projectos cinematográficos, construindo uma das mais belas obras de um cineasta.


Não é a primeira vez que Robert de Niro assina a realização de uma película, já que se estreou atrás das câmaras nesse filme mágico intitulado “Uma Rua em Nova Iorque” / “A Bronx Tale” (1993) escrito e interpretado pelo actor Chazz Palminteri, tendo até mais tarde dado uma ajuda na realização a Frank Oz, no célebre filme “The Score” onde encontrávamos uma tripla chamada Marlon Brando, Robert de Niro e Edward Norton, o retrato perfeito de passagem de testemunhos na interpretação entre três gerações.

Mas chegar até à realização de “O Bom Pastor” não foi fácil. Inicialmente o cineasta pretendido era John Frankenheimer, infelizmente a morte veio buscá-lo e depois Francis Ford Coppola trabalhou durante algum tempo no projecto, sendo nessa altura a personagem de Edward Wilson interpretada por Robert de Niro, daí o facto de Coppola surgir como produtor executivo nos créditos da película. Porém o projecto não avançou e seria o próprio Robert de Niro, ao fim de dez anos, a conseguir concretizá-lo surgindo também como realizador.


“O Bom Pastor” oferece-nos o retrato da fundação da CIA, nascida da criação da OSS durante a Segunda Guerra Mundial e será através de Edward Wilson (Matt Damon) que iremos saber como tudo se passou. Logo no início do filme se percebe que ele é uma personagem cinzenta que procura saber como falhou a primeira grande operação da CIA no exterior, já que o FBI trata dos assuntos internos. Essa operação foi a célebre crise da Baía dos Porcos, com a tentativa da invasão da ilha de Cuba levada a efeito por exilados cubanos, mas preparada e comandada pela CIA. Fidel Castro era uma “persona non grata” (veja-se o filme realizado sobre ele por Oliver Stone já editado em dvd) e teria que ser derrubado rapidamente. Como todos sabemos a operação falhou e iremos descobrir ao longo do filme como o KGB tomou conhecimento da acção, através dessa personagem chamada Ulisses (Oleg Stefan), o agente de serviço do KGB.


Da mesma forma que o MI6 britânico recrutava os seus espiões na elite da Universidade de Cambridge, os americanos escolheram a Universidade de Yale para formarem a sua Agência e será aqui que iremos encontrar o jovem Edward Wilson, através de diversos flashbacks, que irá aceitar a missão de uma vida, tornando-se uma personagem cinzenta, colocando a nação acima da família, chegando mesmo a sacrificá-la. Ele transforma-se num marido e pai ausente, desde o dia do casamento e ao longo da vida a CIA será a sua casa.

As actividades da CIA já foram por diversas vezes documentadas no cinema, basta recordar filmes como “Os Três Dias do Condor” de Sidney Pollack com Robert Redford no protagonista ou o recente “Syriana” de Stephen Gaghan, interpretado por George Clooney, mas nunca até hoje ninguém se tinha debruçado sobre a fundação da Agência de Espionagem e Robert de Niro oferece-nos um olhar perfeito sobre a forma de agir dos serviços de espionagem norte-americanos, através do olhar de Edward Wilson, repare-se na forma como ele conduz a história, dando particular atenção aos pequenos gestos e ao cinismo que se vive entre os membros da Agência, atente-se na forma de agir da personagem criada por William Hurt (Phillip Allen), aliás baseada em parte em Allen Dulles, chefe dos serviços de contra-espionagem, da mesma forma que Bill Crudup, o agente britânico Arch Cummings, se baseia na famosa toupeira Kim Philby. Recorde-se que os serviços de Sua Majestade foram os mais permissíveis à entrada de agentes duplos, aliciados pelo KGB.


No argumento construído por Eric Roth, o mundo da espionagem é um universo masculino, sendo a personagem de Angelina Jolie/Margaret um simples contraponto da solidão em que vive o marido Edward Wilson, a sua solidão é idêntica à do marido, embora na de Edward se corra um risco permanente de vida, repare-se nos encontros entre Ulisses e Edward (The Mother, o nome com que o agente do KGB baptizou Edward) em territórios neutrais para, na troca de impressões, fazerem o seu jogo de chantagem.

“The Good Sheperd” surge assim como uma película perfeita sobre o mundo dos espiões, tão perfeita como esse magnífico livro escrito por John Le Carré, “O Espião Perfeito”, infelizmente nunca adaptado ao grande écran, embora tenha sido adaptado para a televisão (passou em Portugal na RTP-2, bem escondido do grande público).


Nos dias de hoje, ao sabermos de certas actividades desta Agência de Espionagem interrogamo-nos sobre quem efectivamente controla as suas actividades, o Presidente Americano ou o o Congresso dos Estados Unidos? A resposta é-nos dada no final do filme, quando o superior de Edward Wilson o avisa que irão certamente ter visitas para supervisionar o trabalho deles, mas que nem tudo será revelado, porque ali quem mais ordena é o Director. E basta recordar as teses apresentadas por Oliver Stone no seu “JFK” para obtermos algumas respostas.


“O Bom Pastor” é o retrato mais-que-perfeito de uma organização que cresceu no mundo da espionagem, temida e odiada por muitos, oferecendo-nos a sua história através dessa personagem criada por Matt Damon de forma sóbria e contida. Este “The Good Sheperd” surge como o outro lado da moeda do “Jogo de Espiões” / “Spy Games” (de Tony Scott) e revela-nos um cineasta chamado Robert de Niro acima de qualquer suspeita.

2.4.26

Alfonso Cuarón - “Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” / “Harry Potter and the Prisioner of Azkaban”


Alfonso Cuarón
“Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban” / “Harry Potter and the Prisioner of Azkaban”
(Inglaterra/EUA – 2004) – (141 min. / cor)
Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Michael Gambon, Alan Rickman.

Demorei bastante tempo a render-me ao fenómeno Harry Potter (bastava ver, na época, as filas de miúdos à porta das livrarias sempre que saía mais um volume para o classificar como tal).


Rapidamente, após a conquista, devorei todos os livros e ansiei, como todos os fãs, pela saída do volume seguinte.

Os temas do fantástico, quando (bem) transpostos para os “movies”, tornam-se sempre apelativos. E se podemos pensar que a autora, J. K. Rowling, já escreveu estes livros a pensar na sua passagem ao cinema, não vejo mal nenhum nisso. Não me lembro, nos últimos anos, de ver a miudagem tão interessada por livros (e acho que não tenho andado distraída).


Falhei o primeiro e segundo filmes do Harry no cinema, terminando por os ver em DVD (realizados por Chris Columbus, realizador de sucessos como "Sozinho em Casa" / "Home Alone", "Mrs. Doubtfire" / “Papá Para Sempre”, com um espantoso Robin Williams e "Nine Months" / "Nove Meses" entre outros filmes). No entanto, mais uma vez, tenho que dar a mão à palmatória e, após ver "O Prisioneiro de Azkaban", reconhecer que ver filmes em ecrã grande, em sala de cinema, não tem comparação com vê-los em TV, sobretudo os de grande efeito, como sucede com os filmes das aventuras de Harry Potter, embora o dvd sirva sempre para os recordar.

Mais uma vez Harry volta à escola (Hogwarths), após as terríveis férias de Verão com os tios Muggles (humanos, sem poderes). Sem me alongar na história, sobejamente conhecida da maioria, o perigo ronda-o novamente, desta vez devido à fuga de Sirius Black (Gary Oldman) de Azkaban, a prisão para feiticeiros que, de alguma forma, romperam com o código do bem.


Para um apreciador das aventuras do Harry, basta-lhe ver o filme; para um verdadeiro apreciador de bom cinema, acho que o facto de alguns dos maiores actores ingleses estarem envolvidos nesta produção será suficiente para despertar o interesse. Exemplificando: Gary Oldman como Sirius Black; o sempre fabuloso Michael Gambon como Dumbledore (em substituição de Richard Harris, entretanto falecido); Emma Thompson – que afirmou que a filha não lhe perdoava se ela não fizesse uma "perninha" no filme/série mais amada do público juvenil surgindo na pele da míope Professora Trelawney; Maggie Smith como a Professora McGonagall; Alan Rickman – esse espantoso actor – como Professor Snape; e toda uma galeria de secundários sobejamente conhecidos de séries e filmes ingleses. Harry Potter é o ídolo de uma geração, mas os mais velhos como eu também sonhamos a ver as suas maravilhosas aventuras, porque o cinema também nos possibilita o regresso à infância... basta recordar esse general que, em "1941-Ano Louco em Hollywood" / “1941” de Steven Spielberg, chora a ver o "Dumbo" de Walt Disney.


Daniel Radcliffe, o actor que deu vida a Harry Potter tem uma tarefa árdua pela frente com a série terminada, despir a personagem que se lhe colou ao corpo. É verdade que se ele tirar os óculos fica quase irreconhecível e o seu aparecimento na peça de teatro "Eqqus" faz parte já dessa mesma tentativa, embora a nudez exposta em palco possa pretender atingir outros fins, perante as fans do seu trabalho. É certo que poucos deram por ele em "o Alfaiate do Panamá", era um dos filhos do "casal" Geoffrey Rush/Jamie Lee Curtis, para já não falarmos do seu baptismo de fogo na televisão na pele do jovem David Copperfield. Já Emma Watson, a jovem feiticeira Hermione possui uma tarefa ainda mais árdua, ainda por cima depois de a sua relutância em continuar na série, após ter sido perseguida por um fan, a celebridade também possui o outro lado e ela já o descobriu. Veremos o que o futuro reserva a estes dois actores, porque nem todos possuem esse magnetismo cinematográfico desde crianças como sucedeu com Elizabeth Taylor (a menina da Lassie) e Jodie Foster (Bugsy Malone)... que o diga Shirley Temple!


Uma última palavra para o cineasta e argumentista Steve Kloves que assinou em tempo os maravilhosos "The Fabulous Baker Boys" / "Os Fabulosos Irmãos Baker", com uma sedutora Michelle Pfeiffer a cantar maravilhosamente ao lado dos irmãos Bridges, Jeff e Beau, uma obra que recomendamos vivamente. Ele teve um trabalho espantoso na adaptação dos livros ao cinema (os realizadores mudam, ele permanece), revelando-se o verdadeiro responsável pela passagem ao grande écran dos livros de J. K. Rowling, não sendo por acaso que nas entrevistas contidas nos dvds (extras), ele esteja sempre ao lado da escritora que, em tempos que já lá vão, iniciou a escrita da saga por mesas de café, enquanto esperava pela hora de ir dar aulas de inglês, estando hoje multimilionária graças ao enorme sucesso dos seus livros.

Paula Nunes Lima