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18.8.26

Jean-Pierre Melville - “O Denunciante” / “Le Doulos”


Jean-Pierre Melville
“O Denunciante” / “Le Doulos”
(França – 1962) – (108 min. - P/B)
Jean-Paul Belmondo, Serge Reggiani, Jean Desailly, Michel Piccoli.

“Le Doulos” é o homem que usa chapéu, mas em calão o seu significado é, simplesmente, “o bufo”. É precisamente disso que trata este policial de Jean-Pierre Melville. Antes de chegarmos até essa personagem interpretada por Jean-Paul Belmondo, um gangster bufo no interior do submundo do crime, convém referir que, tal como sucedia no “film noir” norte-americano, todos os gangsters usam o inevitável chapéu, não como acessório, mas sim como peça fundamental da sua imagem havendo, como em tudo, a excepção que quebra a regra, neste filme ela chama-se Jean (Aimé de March), cujo ar de bom cidadão engana o próximo.


Esta película revela, para quem desconhecia a sua outra Arte, um actor fabuloso chamado Serge Reggiani na figura de Maurice Faugel, o gangster cujo golpe é denunciado. Curiosamente ele um homem da “chanson”, tal como Charles Aznavour que também é um excelente actor, surge aqui a vestir a pele de uma personagem a quem é estendida a teia mortífera pela aranha Silien (Jean-Paul Belmondo) e tudo devido à perda de um ente amigo, ou seja a amizade como sinónimo de lealdade num mundo de gangsters.

Logo no plano de abertura, um longo “take” do cineasta, que nos oferece de imediato o ambiente em que vai decorrer toda a película, a noite. Ela é o local preferido para os personagens do submundo se movimentarem, algo que “Bob le Flambeur” / “Bob o Jogador” já nos tinha ensinado.


Por outro lado, a forma como a acção vai decorrendo oferece-nos um argumento espantoso, baseado no romance de Pierre V. Lesou, que nos deixa perfeitamente agarrados à cadeira. Depois temos a forma brilhante como Jean-Pierre Melville trata o “flashback”, oferecendo-nos a mentira de forma tão real, que quase acreditamos nas falsas verdades narradas por Silien (Jean-Paul Belmondo) a Faugel (Serge Reggiani).

Ao vermos este “polar” somos obrigados a reconhecer em Jean-Pierre Melville o mais americano dos cineastas franceses, que até possui um filme rodado na Big Apple, “Deux Hommes dans Manhattan” / “Dois Homens em Manhattan”, para tal basta olhar a forma como ele monta o filme de forma rápida e concisa, sem um plano a mais ou a menos, excepto na sequência final, em que a vida das personagens é jogada de forma lenta mas precisa, terminando por o desejo de “Le Doulos” ficar ausente para sempre... “esta noite não irei estar contigo”.


Só para terminar, uma última palavra para a excelente direcção de actores. Serge Reggiani é a grande surpresa deste filme, mas nele existem mais e para tal basta comparar a forma como Jean-Paul Belmondo veste a personagem, bem distante da figura de “O Acossado” / “À Bout de Souffle” de Jean-Luc Godard; depois temos sempre a surpreendente interpretação de Jean Desailly na pele do “manhoso” inspector Clain, ele que seria o protagonista de “Angustia” / “La Peau Douce” de François Truffaut. Quanto a Michel Piccoli está como peixe na água e como “não há polar sem bela”, nunca é demais referir a forma sensual como Jean-Pierre Melville filma o corpo feminino. “O Denunciante” / “Le Doulos” foi um dos maiores sucessos de público de Jean-Pierre Melville.

6.5.26

Jean-Pierre Melville - “Bob o Jogador” / “Bob le Flambeur”


Jean-Pierre Melville
“Bob o Jogador” / “Bob le Flambeur”
(França – 1956) – (110 min. - P/B)
Roger Duchesne, Isabelle Corey, Daniel Cauchy, André Garrett.

Em França, o policial é designado por “polar”. Esta mesma designação surgiu no início dos anos cinquenta, fruto da invasão do cinema americano e dos célebres “film noir”. Ao mesmo tempo, o género policial na literatura renascia das cinzas, através de nomes como Boris Vian e Georges Simenon, recorde-se que Boris Vian assinava os livros através do pseudónimo Vernon Sullivan, alguns dos quais editados em tempos idos em Portugal pela “Regra do Jogo”. E por falar em edição, nunca é demais realçar que seria através de uma colecção de bolso de capa amarela, intitulada “Série Noir”, que muitos cineastas se irão sentir fascinados por este género literário.


Jean-Pierre Melville será talvez aquele que estabeleceu um romance mais duradouro com o género, enquanto outros o irão visitar de quando em quando, como irá suceder com François Truffaut, um dos grandes apaixonados da “Série Noir”, com o seu “Disparem Sobre o Pianista” / “Tirez sur le pianiste”, ou essa homenagem feita por Jean-Luc Godard através de “Alphaville”, recuperando a personagem de Lemmy Caution, interpretado por Eddie Constantin. Tudo isto para chegarmos a essa personagem chamada Bob, nascida em 1956 no cinema através de Jean-Pierre Melville, possivelmente o cineasta francês que mais filmes dedicou ao género policial, oferecendo-nos personagens inesquecíveis através de actores como Lino Ventura e Alain Delon.


“Bob le Flambeur” encontra-se retirado do mundo do crime já lá vão vinte anos, depois de um assalto que correu mal, pagou a sua divida à sociedade e regressou às ruas de Paris para se dedicar ao jogo, pensando sempre na sorte como o perfeito aliado, repare-se nessa moeda que atira ao ar para ver se tem sorte, escolhendo “caras” e ganhando sempre porque as “coroas” não existem na moeda. A zona de Pigalle e os seus bares são a sua casa, por ali vive, de forma distinta, mas ao fim de tantos anos a sorte começa a partir e surge a oportunidade de um grande golpe num Casino. O financiamento para o trabalho é conseguido e o plano é posto em marcha.


Nessa noite fatal, ele sai de casa com o seu ar distinto e parte para Deauville, mas no Casino, enquanto espera pela hora marcada, começa a jogar e a sorte regressa, ganhando uma enorme fortuna, no entanto à medida que o tempo passa e ele ganha, com a frieza digna do grande jogador, esquece-se da principal razão porque ali se encontra. Por outro lado, a mulher de um dos cúmplices denuncia o golpe à polícia, que se prepara então para fazer abortar o assalto. “Bob o Jogador” ganha a partida do jogo e perde a partida da vida, no entanto a sua frieza leva-o a olhar o futuro com esperança, porque com ele vai uma fortuna ganha legalmente e muitas vezes o dinheiro tudo compra.


Jean-Pierre Melville inicia com este filme uma nova etapa na sua filmografia, passando a dedicar-se ao “polar”, oferecendo-nos obras espantosas. Por outro lado, a forma como o filme negro americano é revisitado nesta película, obriga o cinéfilo a descobrir um cineasta perfeito que criou em Montparnasse a sua New York, através da fotografia espantosa de Henri Decae.

26.3.26

Jean-Pierre Melville - “Cai a Noite Sobre a Cidade” / “Un Flic”


Jean-Pierre Melville
“Cai a Noite Sobre a Cidade” / “Un Flic”
(França – 1972) – (99 min. / Cor)
Alain Delon, Catherine Deneuve, Richard Crenna,
Ricardo Cucciolla, Henry Marteau, Jean Desailly.

Ao olharmos para o elenco de “Un Flic” / “Cai a Noite Sobre a Cidade”, deparamos com um nome que, à primeira vista, parece pertencer a um erro de “casting”, referimo-nos ao actor norte-americano Richard Crenna, no entanto ele surge como referência ao “film noir”, tão amado por Jean-Pierre Melville. Temos assim aquele que, anos mais tarde, irá interpretar o superior hierárquico de John Rambo a surgir na figura de Simon, o gangster cerebral e minucioso. Muitos dirão que também se recordam dele como marido da “Femme Fatale/Kathleen Turner” em “Body Heat” / ”Noites Escaldantes” de Lawrence Kasdan..


Mas será que esta crónica não deveria ter começado a ser escrita falando de Alain Delon, aqui a representar o polícia e não o ladrão? A resposta é simples, Jean-Pierre Melville sempre colocou no mesmo plano polícias e ladrões no que diz respeito a métodos, já que no que diz respeito a moral, a superioridade dos gangsters é por vezes mais elevada que a dos “flics”.

Ora Alain Delon a vestir a pele de “un flic” é isso mesmo, um polícia com métodos muito pouco ortodoxos, repare-se que ele ao longo do filme não olha a meios para atingir os fins: a forma como se relaciona com o travesti enquanto necessita dele como informador e depois a violência que exerce sobre ele, tanto física como psicológica; para já não falar do gesto frio e rápido como deixa Paul (Ricardo Cucciolla) suicidar-se, ou a forma como usa Cathy (Catherine Deneuve), porque o destino dela será o do esquecimento, disso não tenham dúvida.


“Cai a Noite Sobre a Cidade”, o título adoptado pela distribuidora do filme, surge como uma espécie de homenagem ao “film noir” ou será que a censura achou o título “Um Chui” demasiado subversivo para a época, recorde-se que o filme se estreou em Portugal em Abril de 1973, ou seja ainda faltava um ano para deixarmos de ver os filmes sem cortes, embora por vezes sejam exibidos uns filmes com “saltos”, a bem da nação, mas isso já é outra história, como diria o barman de “Chez Moustache”, no “Irma, La Douce” de Billy Wilder...

Regressando a “Un Flic”, vamos encontrar logo no início da película uma lição bem aprendida de como filmar um policial, já que toda a acção nos é apresentada em tempo real: chove abundantemente e um carro com quatro passageiros pára naquele fim de tarde, numa rua. Assiste-se então à forma metódica como preparam o assalto à dependência bancária, a forma simples como se introduzem um a um como clientes, para depois quando chega a hora do encerramento darem início ao roubo; tudo irá correr bem até ao momento em que um dos empregados decide ser herói, pagando com a vida o seu gesto inútil.


Os dados do cinema de Melville estão lançados nesta portentosa sequência, quase sem diálogos, porque a acção não precisa de palavras. Por outro lado, vamos assistindo ao deambular pelas ruas de Paris do Inspector Edouard Coleman (Alain Delon), que mais tarde se irá cruzar com o líder do grupo, o eficiente Simon (Richard Crenna), que elaborara este assalto para preparar um golpe mais ambicioso: roubar o correio da Máfia que transporta cocaína nas malas.

Se o inspector Coleman (Alain Delon, mais uma vez brilhante) pretende deslindar o caso do assalto ao banco, já Simon (Richard Crenna) prepara o golpe da sua vida, percorrendo ambos estradas diferentes até que a “maldita encruzilhada da vida” os coloca em lados opostos e desta vez quem ganha não é a personagem com quem se simpatiza, mas sim o “flic”.


Curioso que desta feita Jean-Pierre Melville oferece a Richard Crenna uma morte idêntica à de Alain Delon em “O Samurai”, ambos se encontram desarmados e simulam a existência da arma para morrerem às mãos da polícia, ou seja a moral do gangster permanece no interior do cinema de Melville como ele tão bem nos ensinou através desse outro gangster, “fora-de-moda”, chamado “Gu” ou melhor o Lino Ventura de “O Segundo Fôlego”.

Duas referências a terminar: a espectacular interpretação próxima do “cameo” feita por Jean Desailly, recorde-se que ele é o espantoso protagonista de “Angustia” / “La Peau Douce” de François Truffaut e a presença de Catherine Deneuve, numa interpretação bem diferente do que nos habituou.


“Un Flic” demonstra, mais uma vez, que o policial moderno deve muito à magia do cinema de Jean-Pierre Melville. Este é, sem dúvida alguma, um filme que é urgente descobrir.

18.3.26

Jean-Pierre Melville - “O Exercito das Sombras” / “L’Armée des Ombres”


Jean-Pierre Melville
“O Exercito das Sombras” / “L’Armée des Ombres”
(França – 1969) – (135 min. / Cor)
Lino Ventura, Paul Meurisse, Jean-Pierre Cassel, Simone Signoret, Claude Mann.

A câmara foca o célebre Arco do Triunfo, na Place Étoile, ao mesmo tempo que se escuta o rufar de um tambor e se vê tropas a iniciarem a descida dos Campos Elísios; não são tropas francesas, mas sim o exército alemão que acabara de conquistar Paris perante a indiferença de toda uma população, muitos lhes chamaram “maioria silenciosa”, essa maioria que retomou o seu dia-a-dia, após a rendição das tropas francesas e do acordo assinado pelo Marechal Pétain.


Como alguns recordam, o exército francês tinha construído a célebre “Linha Maginot” para impedir uma invasão do seu território, mas os Panzers alemães vindos das Ardenas tudo esmagaram com a sua velocidade e mobilidade e por essa mesma razão nos recordamos desses célebres documentários com Hitler a descer os Campos Elísios e também a admirar o nosso monumento favorito, a Torre Eiffel, cujos elevadores foram sabotados pela Resistência Francesa, para impedirem o acesso ao topo.

Curiosamente, os franceses ainda construíram uns campos de prisão para os soldados alemães, mas esses mesmos campos acabariam por ter como habitantes os primeiros membros da resistência francesa como relata o polícia que acompanha Philippe (Lino Ventura) rumo ao campo de prisioneiros. E depois iremos encontrar a forma como funciona a hierarquia no interior das camaratas, tudo muito “cavalheiresco”, mas a época não está para cavalheiros, como sabe Philippe. A lei é matar para não morrer e após uma fuga com sucesso (onde Serge Reggiani faz a sua aparição) entramos no interior da casa dos primeiros resistentes franceses.


Quando se fala de resistência e colaboracionismo, temos sempre que ter em conta esse espantoso filme realizado por Louis Malle, intitulado “Lacombe Lucien” / “O Colaboracionista”, para percebermos que as hostes de resistentes só começaram a aumentar de número quando a América entrou na guerra. Muitos foram os nomes que colaboraram com a célebre Polícia de Vichi que, ao sentirem a mudança dos ventos de guerra, mudaram de equipa porque ninguém quer estar do lado dos derrotados e a História, goste-se ou não, é sempre escrita pelos vencedores.

Por isso mesmo uma das cenas mais violentas do filme é a morte de um informador dos alemães no interior da Resistência, em que não há momento para qualquer tipo de piedade, tal como Alfred Hitchcock nos ensinara em “Cortina Rasgada” / “Torn Curtain”, matar um homem não é tão fácil como se pensa e mais uma vez Jean-Pierre Melville nos reafirma essa ideia.


Ao entrarmos no interior da Resistência Francesa dos primeiros anos (recorde-se que o filme se baseia num livro escrito por Joseph Kessell em 1943, quando o final da guerra ainda estava longe), encontramos um grupo pequeno e homens que lutam com fervor, mas com muito pouca organização, já que a coordenação era deficiente, sendo muitos dos seus membros homens comuns e por vezes com um passado obscuro, como Claude “Le Masque” (Claude Mann) com fidelidades muito próximas às que imperavam no então submundo.

Jean-Pierre Melville aborda o tema da Resistência, demonstrando as suas fraquezas e nunca enaltecendo o seu heroísmo, repare-se como ao fazerem-se das fraquezas forças como sucede com Mathilde (Simone Signoret), se termina por ser apanhado através do elo mais fraco, uma simples fotografia da filha, que trás na carteira e que a irá vergar, confessando a identidade dos seus companheiros, pagando com a vida o gesto de salvar a filha de um campo de concentração na Polónia.


Em “O Exercito das Sombras” não há lugar a heroísmos, mas sim a uma luta em que se sabe que mais tarde ou mais cedo, é tudo uma questão de tempo e o melhor é jogar os trunfos todos de uma só vez num gesto heroico e derrotista como faz Jean François (o espantoso Jean-Pierre Cassell), ao deixar-se prender para apenas comunicar com Philippe na cela.

Podemos dizer, por tudo o que atrás foi dito, que este filme de Jean-Pierre Melville foi na época muito mal recebido pelo público, assim como pela crítica cinematográfica, que viu uma transposição do “polar” para o interior da História recente.


Se por vezes certas convenções do género são bem patentes na película, elas surgem como uma espécie de “verdade dos factos” dos primeiros anos de resistência, anos esses em que apenas um punhado de homens e mulheres, com uma organização deficiente, tudo fizeram para manter acesa a chama da liberdade na noite escura que se abatera sobra a França. Recorde-se que todos os membros deste grupo de resistentes serão presos e mortos como nos informa o cineasta no final da película.

Rever hoje “O Exército das Sombras” é entrar no interior da História do Cinema, para descobrir uma película magnífica assinada pela mão de Jean-Pierre Melville.