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13.6.26

Joel Coen e Ethan Coen - “Irmão Onde Estás?” / “O Brother Where Are Thou?”


Joel Coen e Ethan Coen
“Irmão Onde Estás?” / “O Brother Where Are Thou?”
(EUA/Grã-Bretanha/França – 2000) – (106 min. / Cor)
George Clooney, John Turturro, Tim Blake Nelson,
John Goodman, Holly Hunter, Chris Thomas King, Charles Durning.

“Irmão Onde Estás?” é a mais louca comédia dos irmãos Coen que, partindo da “Odisseia” de Homero, a transpõem para o Sul dos Estados Unidos, em plena época da depressão. Contando com uma fotografia esplendorosa de Roger Deakins, habitual colaborador da dupla, que utilizou todos os meios laboratoriais ao seu alcance para atingir a paleta perfeita, para ilustrar os locais onde a acção se desenrola, mergulhamos assim na aventura de Ulysses Everett (George Clooney, que aqui inicia uma colaboração frutuosa com os irmãos Coen), que decide evadir-se da prisão onde se encontra a cumprir pena, nesse Mississipi profundo. Mas na fuga, ele é forçado a levar consigo dois companheiros de infortúnio: Pete (John Turturro) e Delmar (Tim Blake Nelson), em virtude de se encontrarem acorrentados uns aos outros, no difícil cativeiro, facto que irá fazer fracassar a sua fuga no comboio de mercadorias, numa das sequências mais delirantes da película.


Mas o nosso Ulysses, um verdadeiro fanfarrão, vaidoso até dizer chega, consegue com os seus companheiros livrar-se das correntes que os prendem, apesar de ser perseguido por um temível xerife de óculos escuros, que irá empreender uma feroz caçada, verdadeiramente infernal, não dando tréguas aos fugitivos da penitenciária estadual.

O nosso herói, que só deseja reconciliar-se com a sua bela Penélope e recuperar o seu tesouro bem escondido dos olhares alheios, irá cruzar-se na sua via-sacra com um músico negro chamado Tommy (Chris Thomas King), que vendera, em tempos idos, a sua alma ao diabo na famosa encruzilhada, passando também ele a integrar este estranho grupo de “desperados”.


Ao longo do percurso até à terra prometida, estes homens, que só desejam respirar o doce sabor da liberdade, irão encontrar-se com o perigoso Baby Face Nelson, que lhes dá boleia, durante uma tumultuosa fuga das forças da ordem, após mais um assalto, bem sucedido. No entanto, pior que o encontro com o conhecido gangster será o falso pregador e vendedor de Bíblias Big Dan Teague (John Goodman), que se irá revelar líder dessa poderosa organização racista denominada Klu Klux Klan, construindo os irmãos Coen, neste segmento do filme, uma das mais emocionantes e criativas sequências de “Irmão Onde Estás?”.

Na verdade, o Ulysses dos Coen é bem diferente do herói de Homero, já que não passa de um homem profundamente vaidoso, sempre preocupado com o seu aspecto, enchendo o cabelo de brilhantina, chegando a usar uma rede para o cabelo enquanto dorme. Mas quem não dorme é o grupo perseguidor chefiado pelo temível xerife e quando tudo parece perdido junto da velha cabana e a forca espera pelos fugitivos, um abençoado dilúvio irá salvá-los das forças da lei, só restando a Ulysses reconquistar a sua bela Penny, sempre com o seu rancho de filhos atrás, que ao contrário da bela Penélope, não é dada a tecelagens, sendo possuidora de um feitio difícil de vergar, apesar dos argumentos infrutíferos do seu marido, o aventureiro Ulysses Everett (George Clooney).


Ao longo da película iremos conhecer também como esses longínquos anos da rádio arrastavam multidões e quando o perigoso grupo dá a escutar a sua música, à muito divulgada na rádio, num derradeiro esforço de salvar a pele num comício, consegue deixar a multidão que a este assiste em profundo delírio.

De imediato o Governador (Charles Durning), que tinha a reeleição em maus lençóis, decide aproveitar a seu favor a presença do grupo, oferecendo-lhes o tão desejado indulto, ao mesmo tempo que Ulysses Everett reconquista o coração da sua esposa.


“O Brother Where Art Thou?” oferece ao território da comédia um novo fôlego, ao qual o mais sisudo dos espectadores não consegue resistir, dadas as inúmeras referências históricas e cinematográficas introduzidas pelo argumento dos irmãos Coen, que apesar de não terem lido Homero, segundo confessaram (mas que duvidamos), nos oferecem um retrato da época da depressão, onde o humor é o motor perfeito da ficção.

10.3.26

Joel Coen & Ethan Coen - “Fargo”


Joel Coen & Ethan Coen
“Fargo”
(EUA – 1996) – (98 min. / Cor)
William H. Macy, Frances McDormand, Steve Buscemi,
Peter Stormare, Kristin Rudrud, Harve Presnell.


“Fargo” é sem margens para dúvidas a obra-prima absoluta de Joel e Ethan Coen e logo no início da película mergulhamos no interior da memória do “film noir”, numa perfeita homenagem ao género, ao vermos na neve um carro a aproximar-se com um atrelado, rebocando um outro veículo, ao mesmo tempo que sentimos o ambiente gélido pontuado pela excelente banda sonora de Carter Burwell.


Jerry Lundergaard (William H. Macy) dirige-se a um encontro com dois ex-reclusos, para combinar o rapto da sua própria mulher (Jean Lundergaard, uma típica dona de casa americana), para o respectivo resgate ser pago pelo pai dela, o temível e esperto Wade Gustafson (Harve Presnell), que nunca gostou do genro e desconfia que este se encontra atolado em dívidas. O resgate é um sucesso, mas a violência irá surgir de imediato, com um triplo homicídio: um polícia e um casal de automobilistas que se encontrava num local indesejado para os raptores, à hora e dia errado.


Iremos de imediato perceber como estes dois raptores, enquanto esperam pelo resgate, também não morrem de amores um pelo outro. Já a chefe da polícia local, Marge Gunderson (Frances McDormand, que obteve o Oscar para a Melhor Interpretação Feminina), que se encontra grávida, irá tomar conta do ocorrido iniciando as investigações, junto da população explorando as diversas pistas de forma aparentemente ingénua, mas de uma acutilância bem reveladora do seu cargo, irradiando simpatia e falsa inocência, perante o incauto Jerry Lundergraad (William H. Macy), que termina por se denunciar, ao fugir durante a conversa com a agente.


A forma como Joel e Ethan Coen (Oscar para o Melhor Argumento Original), nos retratam os ambientes das “little towns” e a vida das suas gentes, a acção decorre no Estado do Dakota do Norte, termina por se revelar uma viagem sociologicamente perfeita, ao mesmo tempo que todas as vertentes que caracterizam o denominado “film noir” nos vão surgindo ao longo da película. “Fargo” consegue, desde o primeiro minuto, prender a atenção do espectador, que ao acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, irá ser confrontado com a inépcia dos raptores, que usam a violência de forma gratuita, revelando uma falta de preparação para gerir os diversos acontecimentos.


“Fargo” de Joel e Ethan Coen oferece-nos assim um retrato profundo dos pequenos criminosos e desses delitos, que acontecem no interior da América profunda, tantas vezes retratados no cinema e infelizmente notícia nas cadeias de televisão de todo o mundo, optando os irmãos Coen por introduzir elementos do quotidiano de uma comunidade para pontuar todo o filme, veja-se aliás como nos é dada a relação conjugal entre a Xerife Marge e o marido, passando pelo encontro dela com o antigo colega de escola que se encontra apaixonado.


Com o passar dos anos “Fargo” permanece uma película de uma frescura e de um saber cinematográfico verdadeiramente memoráveis, ao mesmo tempo que conta com interpretações inesquecíveis de todos os seus intervenientes, por mais curto que seja o seu papel. Estamos assim perante uma obra-prima absoluta da dupla Joel Coen e Ethan Coen.

18.2.26

Joel Coen & Ethan Coen - “História de Gangsters” / “Miller’s Crossing”


Joel Coen & Ethan Coen
“História de Gangsters” / “Miller’s Crossing”
(EUA – 1990) – (115 min./Cor)
Gabriel Byrne, Albert Finney, Marcia Gay Harden, John Turturro, John Polito.

Este fabuloso filme intitulado “Miller’s Crossing”, o nome do local onde os gangsters se livram das pessoas incómodas, que ali chegam vivas e depois desaparecem e que deu origem a uma das mais famosas sequências da filmografia dos irmãos Coen, teve em Portugal o título de “Histórias de Gangsters”, o que também não está mal, porque é disso mesmo que trata a película, embora para o cinéfilo, o filme seja sempre conhecido por “Miller’s Crossing”.


Estamos em 1990 e os irmãos Coen partem para a sua terceira longa-metragem, numa bela homenagem ao denominado “Film Noir”, onde logo no primeiro plano sequência do filme, deparamos com um olhar mordaz de citação, ao famoso “The Godfather” / “O Padrinho” de Francis Ford Coppola. Depois iremos entrar pela porta grande do universo de um gangster irlandês, chamado Leo (Albert Finney), que irá entrar em guerra com outro rival do ofício chamado Johnny Caspar (Joe Polito), controlando o primeiro a polícia e no meio deles circula o par fatal: o homem de mão de Leo, o carismático Tom Reagan (Gabriel Byrne), que mantêm uma relação amorosa com a mulher do patrão, a sensual e perigosa Verna (Marcia Gay Harden), que por sua vez tem um irmão que sendo o contabilista do bando irá fazer a famosa golpada.


Estamos assim perante um enredo que se irá tornar muito mais complexo à medida que os acontecimentos se vão sucedendo, sempre filmados com uma fotografia genial e movimentos de câmara que ficaram célebres no cinema, incluindo esse momento mágico em que Tom Reagan (Gabriel Byrne) aponta a pistola à cabeça de Bernie (John Turturro) e dispara e apenas vemos o seu chapéu a rolar pelo bosque fora…


“História de Gangsters” / “Miller’s Crossing” conta-nos a história de Tom Reagan (fabulosa interpretação de Gabriel Byrne), que entre dois fogos: a desconfiança do patrão e da amante, mas querendo manter ambos perto de si, tenta sobreviver às intempéries que se irão abater sobre ele.


“Miller’s Crossing”, apesar da pouca visibilidade que possui, infelizmente, revela-se como o irmão gémeo de “Fargo”, já que um e outro filme, são a cara e a coroa da mesma moeda: a genialidade dos irmãos Coen!


Nota: E foi aqui que todos começamos a fixar o nome de Carter Burwell, o genial compositor das bandas sonoras dos filmes dos irmãos Coen!