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23.4.26

Martin Scorsese - “A Invenção de Hugo” / “Hugo”


Martin Scorsese
“A Invenção de Hugo” / “Hugo”
(EUA – 2011) – (126 min./Cor)
Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield,
Chloe Grace Moretz, Christopher Lee, Emily Mortimer.

O genial filme de Martin Scorsese, “A Invenção de Hugo” / “Hugo”, que foi nomeado para 11 Oscars, nesse ano de 2011, incluindo o de Melhor Filme e Melhor Realização, terminou a noite a conquistar apenas cinco Oscars técnicos e sinceramente nesse dia percebi como Hollywood é um território sem memória do cinema, porque esta película realizada em 3D, conta-nos uma história destinada a um público de todas as idades (se tem filhos compre o dvd e veja com eles este filme mágico), onde os protagonistas são duas crianças e o genial Méliès, aqui interpretado por um Ben Kingsley soberbo e inesquecível!


Depois temos esse mago do cinema que permanece um apaixonado pela Sétima Arte e a sua Memória, chamado Martin Scorsese. Veja-se a forma como ele fala do cinema, nas entrevistas e nos oferece uma realização ímpar e repleta de Magia em “A Invenção de Hugo” / “Hugo”, porque a forma como ele recria o universo dos filmes de Méliès, esse genial inventor dos primórdios do cinema e nos narra a sua história, revela-se um convite a descobrirmos essa bela e inesquecível época do tempo do mudo, onde a linguagem cinematográfica foi criada e teve em Georges Méliès o artífice perfeito dos efeitos especiais no cinema, alguns até criados por mero acaso e depois desenvolvidos, sempre em busca dessa magia que cativava as audiências.


Como é possível uma obra-prima da Sétima Arte ter sido esquecida pela Academia de Hollywood, revela-nos bem como são turvas as águas onde navegam os Membros da Academia. Desconhecer “A Invenção de Hugo” de Martin Scorsese é imperdoável!

21.2.26

Irwin Winkler - “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”


Irwin Winkler
“Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”
(EUA – 1991) – (105 min./Cor)
Robert de Niro, Annette Bening, George Wendt,
Patricia Wetting, Sam Wanamaker, Chris Cooper, Martin Scorsese.

Foi na segunda metade dos anos 60 que Irwin Winkler iniciou a sua actividade no cinema como produtor e rapidamente iremos fixar o seu nome, especialmente quando começa a produzir os filmes de Martin Scorsese. Mas este homem, bom conhecedor do meio cinematográfico onde se movimentava, decidiu um dia abordar o período mais negro da História do Cinema de Hollywood e assim nasceu “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”, tendo o argumento sido entregue a Abraham Polonsky, mas quando Irwin Winkler leu o trabalho do “ex-black list” não gostou e decidiu reescrevê-lo, alterando a personagem interpretada por Robert de Niro, tendo depois decidido ser ele próprio o realizador da película, tal foi o seu empenho em a concretizar.


Esta película constitui com os filmes “O Testa de Ferro” / “The Front” de Martin Ritt e “Boa Noite e Boa Sorte” / “Good Night and Good Luck” de George Clooney, a trilogia perfeita para conhecermos este período da história do cinema norte-americano. Por outro lado, Irwin Winkler encontrou em Robert de Niro o actor perfeito para encarnar o protagonista, já o amigo Martin Scorsese surge no filme como o cineasta Joe Lesser, evocando o realizador Joseph Losey, que fugiu para Inglaterra, tal como fez Sam Wanamker, que aqui veste a pele de Felix Graff (recorde-se que ele é o responsável pela ideia do teatro “The Globe” em Londres, bem como pai da conhecida Zoe Wanamaker, que interpreta a escritora Ariadne Oliver na série de televisão “Poirot”).


“Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion” encontra-se repleto de referências e revela-se como uma das mais espantosas películas realizadas sobre este negro período da história americana. Só para terminar, aproveito para referir apenas alguns casos relacionados com a perseguição encetada pelo senador Joseph McCarty e “Friends”:


1- Bertold Brecht foi convocado para se apresentar perante a temível comissão e nesse mesmo dia abandonou a América.

2 - O conhecido actor John Garfield (protagonista de “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”), ficou sem trabalho e terminou por se suicidar.

3 - O célebre cineasta Joseph L. Mankiewicz, Presidente da Associação de Realizadores, viu a sua cabeça pedida por Cecil B. de Mille, num tumultuoso plenário de “caça aos vermelhos” em Hollywood e será o grande John Ford a sair em sua defesa e então todas as vozes se calaram.

4 - Elia Kazan, por seu lado, terminou por ceder na Comissão e assinou de cruz, tudo o que pretendiam os “cavalheiros” que o estavam a interrogar, daí o célebre “pandemónio” na cerimónia dos Oscars, quando a Academia de Hollywood lhe atribui um Oscar pela carreira.


Recorde-se que o temível Senador só foi destituído quando “esticou demasiado a corda” e acusou o próprio Presidente Eisenhower, como veremos no filme realizado por George Clooney.


Irwin Winkler, com “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”, encetou uma carreira de realizador, paralela à de produtor, bem interessante, portanto fixem o nome, que nós em breve voltaremos a falar dele e não deixem de (re)ver este filme fabuloso!

7.1.26

Martin Scorsese - “Histórias de Nova Iorque – Lições da Vida” / “New York Stories – Life Lessons”

 

Martin Scorsese
“Histórias de Nova Iorque – Lições da Vida” / “New York Stories – Life Lessons”
(EUA – 1989) – (44 min. / Cor)
Nick Nolte, Rosanna Arquette, Patrick O’Neal, Steve Buscemi.


Durante os anos setenta do século xx (convém não esquecer que vivemos no século XXI), estiveram muito em voga os filmes de “sketches”, em que diversos realizadores abordavam um determinado tema, basta recordar esse maravilhoso “Boccacio 70” ou “Amor e Raiva” / “Amore e Rabbia”, para nos situarmos na época mas, com a passagem do tempo, o género deixou de cativar as audiências, até que em 1989 Woody Allen convidou Martin Scorsese para participar num filme de “sketches”, no qual o tema seria a cidade de Nova Iorque. O terceiro cineasta deveria ser Steven Spielberg, que acabaria por desistir do projecto, sendo substituído por Francis Ford Coppola, nascendo assim essa obra com o título genérico de “New York Stories”. Mas como por vezes sucede, há um abismo entre o filme de Martin Scorsese, “Life Lessons”, e as outras duas películas assinadas por Woody Allen e Francis Coppola.


Na época em que o filme se estreou em Lisboa ainda vigoravam os célebres intervalos e, curiosamente, o filme de Martin Scorsese ocupava a primeira parte da sessão. Nós por aqui apaixonámo-nos por “Life Lessons” e fomos algumas vezes ao cinema só para ver a história do pintor Lionel Dobie (Nick Nolte), saindo depois ao intervalo.

Tínhamos encontrado uma obra-prima que nos convidava a meditar nessa Arte classificada de Sétima. “Life Lessons” é muito mais que lições da vida na relação entre o pintor e a sua obra, já que o artista se encontra dependente da presença da sua assistente/amante, para criar a sua obra.

“Life Lessons” é uma lição de cinema e poderemos dizer que este continua a ser a película que mais vezes visitamos, sempre com um enorme prazer cinematográfico, que nos convida a meditar sobre a forma simples como se pode realizar um filme.


O argumento de Richard Price é soberbo porque nele não existe uma palavra a mais, nem a menos, depois temos uma fotografia inesquecível de Nestor Almendros, que filma o trabalho do artista com uma elegância electrizante, como se sentíssemos o cheiro das tintas, ao vermos ao longo do filme como o quadro vai nascendo, mas também não nos podemos esquecer do trabalho de montagem levado a cabo por Thelma Schoonmaker, colaboradora de Martin Scorsese desde esse dia em que eles se encontraram na “sala escura” de “Woodstock”. E, por fim, temos a realização de Martin Scorsese, que manipula os planos de forma alucinante, numa velocidade vertiginosa, sempre com um raccord mais-que-perfeito, ao som do rock dos Procol Harum, Cream, Bob Dylan (fase eléctrica), chegando a criar uma perfeita magia quando funde o “Conquistador” dos Procol Harum com o “Nessun Dorma” de Puccini, nesse momento em que Lionel Dobie demonstra a Reuben Toro como a sua Arte é superior ao do jovem que acabou de partilhar a cama com a mulher que ele tanto ama.


Lionel Dobie (Nick Nolte) é um pintor famoso que habita um “loft” no Soho, em Nova Iorque e que se encontra artisticamente dependente da presença da sua assistente Paulette (Rosanna Arquette), porque ela representa esse desejo de que tanto necessita para terminar a obra que prepara para uma exposição a inaugurar dentro de dias.

Quando a vai buscar ao aeroporto (numa sequência inesquecível), fica sabendo que ela decidira deixá-lo porque se apaixonara por um jovem artista de “stand-up comedy” chamado Gregory Stark (Steve Buscemi), mas ele é tão lunático que até a deixara nas férias após uma discussão. Ora como Lionel necessita da sua presença para terminar a obra, pede-lhe para ela regressar, dando-lhe a sua palavra de escuteiro de que serão apenas bons amigos. Mas a atracção que sente por ela é superior a tudo e começa a viver um profundo martírio, embora retome o seu trabalho, dando início à criação de um quadro de grandes dimensões de uma beleza pictural absoluta. Será essa mesma criação que iremos acompanhar ao longo da película, ao mesmo tempo que vamos assistindo ao duelo entre ele e Paulette, na busca desse amor perdido.


Ele tudo faz para controlar a vida dela, ao mesmo tempo deixa-se subjugar, até chegar esse momento em que ela desiste de tudo porque percebe que nunca conseguirá ser uma grande pintora, ela nunca irá passar da “miúda” que vive com o grande génio.

Para grande alegria de Phillip Fowler (Patrick O’Neal) que acompanha o pintor há já vinte anos, as obras ficam prontas para a exposição que se revela um grande sucesso e será aqui que ele, ao beber um copo no bar, sente a mão da rapariga, que o serviu, na sua e percebe como a sua Arte apenas depende da presença de uma jovem mulher na sua vida. Tinha acabado de encontrar uma nova aluna a quem poderia dar lições da vida, nessa grande metrópole chamada Nova Iorque… a única cidade.


A beleza pictórica desta obra de Martin Scorsese demonstra bem como o seu génio transforma em Arte tudo em que toca, em apenas 44 minutos ele oferece-nos um filme inesquecível onde os actores são dirigidos de forma exemplar, Nick Nolte aliás tem uma das melhores interpretações da sua carreira e onde ainda temos dois “cameos” de Peter Gabriel e Deborah Harry. Nunca é demais dizer que as personagens que nos surgem no écran são perfeitamente plausíveis, todas elas com os seus desejos e frustrações, em busca da eterna luz da celebridade.


“Life Lessons” é um daqueles pequenos prazeres que leva qualquer espectador de cinema a apaixonar-se pela Sétima Arte.