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22.7.26

Otto Preminger - “Vidas Inquietas” / “Angel Face”


Otto Preminger
“Vidas Inquietas” / “Angel Face”
(EUA – 1952) – (90 min. - P/B)
Robert Mitchum, Jean Simmons, Herbert Marshall,
Mona Freeman, Leon Arnes, Barbara O’Neil.

Otto Preminger, esse cineasta austríaco, que fez a maior parte da sua carreira cinematográfica na América, sempre gostou de não ficar preso dos produtores dos Grandes Estúdios e daí o vermos quase sempre a produzir os seus próprios filmes, única maneira de na época conseguir controlar todas as fases da produção, impedindo assim a intromissão de terceiros. E “Vidas Inquietas” / “Angel Face” não foge a essa regra sagrada do cineasta.


No início da película, em plena noite, uma ambulância parte do hospital, rumo às célebres colinas que rodeiam Los Angeles, essas mesmas colinas onde todos sabemos habitarem essas famílias detentoras de dinheiro e poder. E quando entramos na residência de Charles Tremayne (Herbert Marshall), percebemos de imediato que algo se passa naquela casa: a sua esposa, verdadeira detentora do capital, inalara inadvertidamente gás no seu quarto, situação, essa, que quase lhe provocara a morte. E só depois de toda sequência terminar iremos encontrar Diana Tremayne (Jean Simmons) a filha do escritor, que se encontra na sala a tocar piano, tratando-se evidentemente desse “Angel Face”, que dá título ao filme.

Na época alguns apontaram como um erro de casting a presença de Jean Simmons no elenco, já que ela não possuía visualmente esses atributos característicos da mulher fatal, mas todos estavam enganados! Porque na verdade Otto Preminger pretendia uma actriz, que revelasse no rosto, esse célebre olhar de anjo, tão desejado pelo realizador.


Ao fazer-se encontrada nessa mesma noite, no bar frequentado pelo condutor da ambulância, Diana (Jean Simmons) pretende conquistar o homem, que momentos antes a esbofeteara, quando ela tivera um ataque de histerismo, tendo ela replicado da mesma maneira. E rapidamente, o par se irá envolver, conseguindo Diana que Frank Jessup (Robert Mitchum) deixe a sua namorada e troque o seu emprego pelo de motorista da família.

Na verdade Diana possui uma profunda ligação ao pai, que concorda sempre com as suas opções, um escritor bloqueado na sua arte, a viver à custa da milionária com quem se casara em segundas núpcias, ao mesmo tempo que ela odeia a madrasta, detentora do capital que sustenta aquela casa.


Rapidamente Frank Jessup torna-se numa verdadeira marioneta nas mãos de Diana e quando ela descobre como será fácil matar a madrasta, coloca em acção o seu plano, que se irá revelar trágico, porque ao contrário do que ela supunha, o pai irá acompanhar a mulher, nesse arranque fatal em marcha atrás, rumo ao abismo.

De imediato tanto ela como Frank são acusados de assassínio premeditado, iniciando Diana, herdeira de uma fortuna enorme, um complexo jogo, assumindo as culpas perante o advogado de defesa, ao mesmo tempo que clama a inocência do homem que ama.


Tendo ao seu dispor um advogado famoso, Diana e Frank serão absolvidos, por um júri, que clama a sua inocência, perante os factos apresentados no tribunal, bastante influenciado por os dois acusados se terem casado na prisão, apesar das reticências de Frank, que percebe o jogo da jovem e, quando finalmente abandonam a sala do tribunal, regressando a casa, a Angel Face irá perceber, que o ser amado, nunca irá ficar ao seu lado e nesse preciso momento, decide agir, numa sequência memorável, bem demonstrativa do saber do cineasta.

Otto Preminger na época afirmou que “o argumento era um factor essencial nos seus filmes”, aliás bem demonstrativo nesta película, mas as interpretações também são memoráveis, conseguindo como o cineasta referiu numa entrevista “ajudar os intérpretes a descobrir formas de expressão sempre novas e a sair das tipificações convencionais, o que em Hollywood não é coisa fácil”, aliás bem demonstrou nesta película memorável, alcançando com eficácia os objectivos pretendidos ao realizar este filme.


“Angel Face” oferece-nos uma Jean Simmons de cabelo comprido, ainda muito nova, a fugir das interpretações, a que irá habituar as plateias de todo mundo, ao mesmo tempo, que esses secundários, em que Hollywood foi pródiga na época de ouro do cinema norte-americano, nos oferecem sempre o seu enorme talento, por muito breves que sejam as suas aparições e linhas de diálogo. Já Robert Mitchum encontra-se como peixe na água, como sempre nos habituou ao longo da sua memorável carreira.

“Vidas Inquietas” surge assim na filmografia de Otto Preminger, como uma das suas obras maiores, fruto da genialidade de um Mestre, que soube mergulhar no “film noir” oferecendo-nos sempre a sua essência.

2.5.26

Charles Laughton - “A Sombra do Caçador” / “Night of the Hunt"


Charles Laughton
“A Sombra do Caçador” / “Night of the Hunt"
(EUA – 1955) – (97 min. - P/B)
Robert Mitchum, Shelley Winters, Lilian Gish,
Billy Chaplin, Sally Jane Bruce.

Charles Laughton, quando realizou este filme, já era bastante famoso como actor, sempre interpretando as suas personagens “no fio da navalha”. O seu Henrique VIII ficou famoso. Mas ao passar para detrás da câmara, construiu uma obra que se distanciou de tudo o que fora feito até então.


Tendo a seu lado o grande director de fotografia Stanley Cortez, o cineasta vai-nos narrar a odisseia das duas crianças, perseguidas por um psicopata, optando por um expressionismo que deixou o universo cinematográfico boquiaberto, já que em “A Sombra do Caçador” / “The Night of the Hunter”, existe esse mundo dos sonhos próprio dos mais pequenos, em confronto com a violência que insiste em os engolir. A forma como Charles Laughton nos oferece a viagem no rio é profundamente poética, embora repleta de elementos góticos que perturbam os dois irmãos.

Harry Powell (um Robert Mitchum que compõe de forma extraordinária a personagem que interpreta) conhece na prisão um homem que está condenado à morte e a quem restam poucos dias de vida. O condenado acaba por lhe confessar que o fruto do roubo porque foi condenado se encontra escondido na casa onde vivia com a mulher e os filhos. E Harry, mal sai da prisão, parte disfarçado de pregador, no intuito de se apoderar do produto roubado.


Possuidor de uma eloquência e um poder sedutor, rapidamente conquista o coração da viúva (Shelley Winters), mas nem tudo corre como tinha planeado e termina por matá-la.

As duas crianças fogem num pequeno bote ao longo do rio, acabando por serem recolhidas por uma velha senhora (Lilian Gish), que dá guarida às crianças que vagueiam pelos campos, nessa terrível época da recessão. Mas como não poderia deixar de ser, o falso pregador, que tem tatuado nos dedos as palavras hate (ódio) e love (amor), acaba por descobrir o seu paradeiro, e quando tudo parecia perdido para elas, as autoridades impedem o pior, terminando Harry Powell por ser preso e condenado à morte.


Charles Laughton, cineasta de um filme e autor no verdadeiro sentido da palavra, referiu na época que “A Sombra do Caçador” / “The Night of the Hunter” era a sua homenagem a esse glorioso período mudo, onde se destacou esse criador da linguagem cinematográfica chamado David Wark Griffith. Aliás não é por acaso que Charles Laughton convidou Lilian Gish para interpretar a velha senhora, já que desta forma a sua homenagem também se estendia a essa grande actriz, um dia descoberta pelo autor de “Intolerância”.


Amado por poucos e desconhecido de muitos “Night of the Hunter” / “A Noite do Caçador” permanece uma obra-prima que merece ser descoberta.

Nota: Quando vimos o filme, na época da sua reposição comercial, éramos os únicos espectadores na sala de cinema. Encontra-se editado no nosso país em dvd numa cópia aceitável.