“O Homem Que Veio do Espaço”/“The Man Who Fell to Earth”
(Grã-Bretanha – 1976) – (139 min./Cor)
David Bowie, Rip Torn, Candy Clark.
Foi com este filme intitulado “The Man Who Fell to Earth” / “O Homem Que Veio do Espaço”, realizado por Nicolas Roeg, que David Bowie deu mais nas vistas no cinema, na década de 70 do século passado, ao vestir a pele de um alien que chega à Terra em busca de água para o seu planeta, que se encontra em vias de extinção.
A película de Nicolas Roeg termina por ter como centro de gravidade precisamente a figura de David Bowie, ficando na memória de muitos a sequência em que o alien corta o desejo da visão em frente do espelho, numa referência ao célebre filme de Luis Buñuel, “Un Chien Andalou”, possivelmente um dos maiores estandartes do movimento surrealista no cinema, tendo na época causado o escândalo de uns e as delícias de outros, ao mesmo tempo que tornava famoso o realizador espanhol.
Para quem desconhece o trabalho de actor de David Bowie no Cinema, esta película de Nicolas Roeg permanece como incontornável no interior da filmografia da célebre estrela da pop music, que infelizmente já nos deixou.
Patsy Kensit, Eddie O’Connell, David Bowie, James Fox, Ray Davies.
Julien Temple estreou-se nas longas-metragens com "The Great Rock'n'Roll Swindle", tendo por base a vida/história dos Sex Pistols, pretendeu na segunda viagem que encetou na Sétima Srte, construir um musical, baseado na novela de Colin MacInnes, onde a memória da Broadway e dos seus filmes se integrassem plenamente.
A Londres de 1958 e o seu Verão explosivo, com as revoltas juvenis em busca de uma juventude eterna e a história/romance do fotógrafo Collin e da modelo Suzette, são o tema de "Absolute Beginners" / “Absolutamente Principiantes”. No entanto, a presença de David Bowie, Sade ou Ray Davies, não conseguem tirar o filme do "limbo" cinematográfico. O que encontramos é uma manta de retalhos, onde a beleza de algumas sequências, acaba sempre por ser aniquilada pelo raccord deficiente, que se vai desenvolvendo perante o nosso olhar, assim como a excessiva narração dos acontecimentos, demonstrando algumas dificuldades encontradas pelo realizador em adaptar o livro de Colin MacInnes.
Julian Temple seguindo os passos dos grandes coreógrafos de Hollywood e tentando conjugar a estética dos video-clips, na qual é mestre, acaba por se afogar nas águas do Tamisa, já que o tão citado Jerome Robbins e o seu "West Side Story" / "Amor Sem Barreiras" estão felizmente a anos-luz desta película. Curiosamente, algumas sequências musicais que nos são oferecidas, ao longo de "Absolute Beginners", vistas isoladamente, acabam por obter uma força e qualidade estética, que simplesmente morrem, quando dadas a ver no contexto da película.
Julien Temple afigura-se-nos, com esta obra, um excelente piloto de fórmula 1, que acelera nas curvas e perde velocidade nas rectas, perdendo evidentemente a corrida. A estética dos video-clips no cinema...não funciona como essas fabulosas coreografias que Busby Berkeley, Gene Kelly ou Vincent Minelli criaram e que nos continuam a encantar perdidamente.
"Absolute Beginners" / “Absolutamente Principiantes” é a prova que a estética dos "video-clips" nunca poderá ser transposta para o cinema como um todo, já que ela funciona como complemento da narrativa cinematográfica, como sucede com o fabuloso filme de Walter Hill, “Street of Fire” / “Estrada de Fogo”, mas não resulta como elemento preponderante e fundamental da obra fílmica, ou seja, um video-clip com duração equivalente ao tempo standard da longa-metragem, nunca será possível, com a qualidade exigida a uma obra cinematográfica, seja ela uma adaptação de um musical da Broadway ou um musical saído directamente dos Estúdios de Cinema. No entanto o filme de Julian Temple acaba por se transformar numa obra para se escutar, devido à escaldante e maravilhosa música de Gil Evans, e muitos dirão então vou optar pelo cd e aí dizemos optem pelo dvd e vejam as sequências musicais de uma forma independente, através da selecção de capítulos e irão descobrir toda a magia e sabedoria de um Mestre do video-clip chamado Julien Temple.
Em boa hora a Philips decidiu editar em cd duplo os dois trabalhos discográficos de Philip Glass dedicados à música de David Bowie e Brian Eno, que se encontravam à muito esgotados. Já o terceiro da famosa trilogia de Berlin de Bowie/Eno irá também ser revista pelo compositor norte-americano que assim a irá rebaptizar de "Symphony nº.12 Lodger" em 2018.
Philip Glass oferece novas roupagens musicais a temas de David Bowie e Brian Eno oriundos do célebre período de Berlin dessa longínqua década de 70, que bem merece ser recordada!
A segunda viagem de Philip Glass pelo interior da música de David Bowie e Brian Eno intitulada "Heroes Symphony" revelou uma ultrapassagem bem distinta em relação a "Low Symphony", álbum também dedicado ao período de Berlin destes dois génios da música rock, revelando-se o mais-que-perfeito desta dupla de álbuns dedicados à música de Brian Eno e David Bowie pelo compositor minimalista Philip Glass.
"All Saints" - (Collected Instrumentals 1977 - 1999)
EMI
1993
Quando a notícia da partida de David Bowie chegou estávamos todos maravilhados a descobrir o seu último trabalho discográfico intitulado “Blackstar” e a ver e rever o fabulosos vídeo-clip de que era protagonista no tema “Lazarus”, retirado daquele que viria a ser o seu derradeiro trabalho. O mundo ficou mais pobre, com a sua partida física, mas a sua Música e a sua Arte permanecem bem vivas entre todos nós.
Hoje decidimos recordar um dos trabalho mais inovadores da sua carreira, que embora seja uma colectânea de temas gravados num período temporal que vai de 1977 a 1999, surge como uma obra homogénea e bem estruturada, eliminando por completo as características que definem uma colectânea, já que o que temos aqui é a reunião do material instrumental produzido durante o denominado período de Berlin, em que David Bowie e Brian Eno criaram dois dos álbuns mais marcantes da década, referimo-nos a “Low” e “Heroes”, cujos lados B do vinil eram totalmente instrumentais tendo até, aquando da sua passagem para CD, os dois músicos acrescentado mais algumas faixas que não tinham sido incluídas quando a obra viu a luz do dia.
Aos temas do período de Berlin, David Bowie, que esteve sempre à frente do seu tempo musicalmente falando, incluiu em “All Saints” duas faixas da banda sonora de “Buddha of Suburbia” / “O Buda dos Subúrbios”, terminando “All Saints” – (Collected Instrumentals) com o tema “Some Are”, revisto pelo músico minimalista Philip Glass.
Recorde-se que o compositor norte-americano quis prestar a sua homenagem a David Bowie e Brian Eno, criando a partir das suas composições a “Low Symphony” e “Heroes Symphony”, tendo até Twyla Tharp criado uma coreografia fabulosa a partir de “Heroes Symphony”, que veio a Portugal, ao CCB, através da sua Companhia de Ballet.
Mas “All Saints” – (Collected Instrumentals 1977 – 1999), encerra também duas histórias no seu interior, uma tem a ver como nasceu a edição desta obra-prima da discografia de David Bowie, que bem merece ser (re)descoberta:
No Natal de 1999, David Bowie decide criar este álbum para o oferecer como prenda Natalícia ao seu núcleo de amigos mais próximos, terminando por os surpreender, ao mesmo tempo que nos círculos musicais se comentava a obra intemporal que se revelava “All Saints” e dois anos depois em 2001 a editora de David Bowie com o seu próprio consentimento lançava no mercado discográfico este magnifico trabalho musical.
A outra história que “All Saints” possui no seu interior tem a ver com a forma como os temas instrumentais nasceram em Berlin, nessa época em que a cidade ainda tinha o muro a dividir as duas Alemanhas e do lado ocidental do muro a vanguarda dava cartas em todas as áreas artísticas, revelando-se um verdadeiro oásis que atraia um universo enorme de pessoas, que encontrava naquele território uma verdadeira lufada de ar fresco e assim David Bowie decidiu também ele partir para Berlin. Ora precisamente nesse momento Brian Eno, encontrava-se a trabalhar com o grupo Harmonia, no Estúdio de Moebius, Rodelius e Rother, situado na Floresta Negra e quando David Bowie lhe telefonou a perguntar se ele não queria trabalhar com ele em Berlin, Brian Eno decidiu partir para a cidade dividida e desse encontro iria nascer a célebre trilogia de Berlin, constituída pelos álbuns “Low”, Heroes” e “Lodge”.
Redescobrir a magia desse período e a face menos conhecida de compositor de David Bowie é o que nos proporciona este magnifico álbum intitulado “All Saints” – (Collected Instrumentals – 1977 – 1999), em que assistimos ao casamento perfeito entre a música pop com a música electrónica apadrinhada pela “avant-garde” alemã, tendo até Bowie e Eno dedicado o tema “V-2 Schneider” aos Kraftwerk.
“All Saints” revela-se, nos dias de hoje, uma obra intemporal, que testemunha a genialidade de David Bowie, que permanece bem viva no universo musical.