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3.9.26

Ernst Lubitsch - “Ninotschka”


Ernst Lubitsch
“Ninotschka”
(EUA – 1939) – (110 min – P/B)
Greta Garbo, Melvyn Douglas, Ina Claire, Bela Lugosi, Sig Roman.

A publicidade dizia que Garbo ria e era verdade e nós com ela, ao dar vida e rosto à camarada “Ninotschka”, perdão à camarada Nina Yakushova, que vai em missão de serviço a Paris para perceber o que se passa com os três “Comissários do Povo” que foram vender as jóias do Czar e que nunca mais deram notícias.


Se existe filme que sirva para ilustrar o famoso “Lubitsch touch”, de que Billy Wilder foi herdeiro, é precisamente o penúltimo filme da Diva Garbo. Os diálogos são bem divertidos e depois temos o confronto entre “Ninotschka” e o Conde Léon (Melvin Douglas), que pretende dar-lhe a conhecer os famosos prazeres Parisienses que tanto cativaram os seus Camaradas Comissários e que mais tarde se irá apaixonar por ela, conseguindo “resgatá-la” de Moscovo!


A última vez que vi este filme num grande écran numa cópia restaurada e numa sessão muito badalada da Cinemateca, as bobines foram trocadas, recordo-me que a sala estava esgotada e a sessão prosseguiu...

17.6.26

Ernst Lubitsch - “O Céu Pode Esperar” / “Heaven Can Wait”


Ernst Lubitsch
“O Céu Pode Esperar” / “Heaven Can Wait”
(EUA – 1943) – (112 min./Cor)
Don Ameche, Gene Tierney, Charles Coburn.

Quando alguns “cinéfilos” conversam sobre “O Céu Pode Esperar”, terminam por vezes por falar apenas no “remake” de Warren Beatty, esquecendo-se do fabuloso original desse artífice chamado Ernst Lubitsch que, em “Heaven Can Wait”, nos oferece o seu refinado bom gosto, mesmo quando estamos às portas do inferno conversando com Lucifer, como irá suceder no início da película com Henry (Don Ameche), que nos irá contar a sua vida desde que nasceu, passando pelo seu encontro fatal com a bela Martha (Gene Thierney) e…


Um dos aspectos mais interessantes desta genial película, para além dos créditos iniciais surgirem em ponto de cruz (algo que a senhora aqui de casa adorou), passa pela caracterização das personagens, muito em especial a passagem dos anos pelo casal Henry e Martha, ao ponto de que quando encontramos Don Ameche já a entrar no “Inverno da vida”, descobrimos o Don Ameche de “Cocoon”!


Numa época em que o cinema clássico anda tão esquecido nos nossos canais televisivos, a memória do cinema bem merecia ter um espaço, em que fosse possível (re)vermos as películas que fizeram do Cinema a Sétima Arte, como sucede com este fabuloso filme de Ernst Lubitsch!

7.6.26

Ernst Lubitsch - “A Oitava Mulher do Barba Azul” / “Bluebeard’s Eighth Wife”


Ernst Lubitsch
“A Oitava Mulher do Barba Azul” / “Bluebeard’s Eighth Wife”
(EUA – 1938) – (85 min. – P/B)
Claudette Colbert, Gary Cooper, Edward Everet Horton e David Niven.

Poderemos dizer que temos neste filme o quinteto perfeito constituído, à frente da câmara, por Gary Cooper, Claudette Colbert e Edward Everet Horton e, por detrás da câmara, pela dupla Ernst Lubitsch e Billy Wilder, respectivamente cineasta e argumentista e se Lubitsch é perfeito já Wilder é genial, na forma como escreve o argumento e cria gags, que 80 anos depois nos deixam estupefactos pela visão deste homem, que foi ”impedido” por Steven Spielberg de realizar “A Lista de Schindler”.


Michael Brandon (Gary Cooper) é um multimilionário que está de férias na Riviera e se cruza com a bela Nicole de Loiselle (Claudette Colbert), uma aristocrata falida, que o ajuda na compra de um pijama em que ele fica com o casaco e ela com as calças, numa sequência memorável em que se fala de tudo: capitalismo e mercados, comunismo e chapéus de palha, deveres e direitos, conhecemos o “bisavô” do telemarketing, até chegar a esse momento crucial em que se descobre que soletrar a palavra “Checoslováquia” em sentido inverso combate as insónias!

Depois há essa famosa banheira de Luis XIV e a entrada em cena do Marquês de Loiselle (Edward Everett Horton) e mais à frente da Psicanálise e do doente que pensa que é galináceo… mas estou a ir demasiado depressa. Michael Brandon (Gary Cooper) é um homem cuja “experiência” lhe ensinou que o dinheiro compra tudo e Nicole de Loiselle (Claudette Colbert), que o adora, pretende demonstrar-lhe precisamente o contrário.


Se ela se casa por amor, ele pensa que ela o aceitou para salvar o pai da falência e o pior é que ele é da estirpe de Henrique VIII, já que ela Nicole é a sua oitava mulher, embora ele nunca tenha assassinado nenhuma das anteriores esposas, apenas lhes ofereceu uma choruda pensão alimentar com o respectivo divórcio, enquanto o amor na sua vida permanece por descobrir.

Entramos assim na famosa guerra dos sexos em que temos uma sequência que nos dias de hoje daria brado, porque se alguns se recordam da bofetada de Glenn Ford a Rita Hayworth em “Gilda”, a que Gary Cooper dá a Claudette Colbert é muito pior (e o ar de espanto dela no filme, revela bem a surpresa da actriz), para de imediato replicar da mesma moeda. E aqui, só pode ter havido um take!


“A Oitava Mulher do Barba Azul” / “Bluebeard’s Eighth Wife” é uma arrojada comédia da dupla Lubitsch/Wilder que, 80 anos depois, permanece extremamente actual e que bem merece ser redescoberta, porque nela habita a genialidade que vivia no saudoso cinema clássico e já agora, para deixar aqui uns “spoilers” (raio de palavra), confesso que a bela Nicole irá conseguir demonstrar que não há dinheiro nenhum no mundo que compre o amor, porque o mais belo sentimento nunca irá conseguir namorar com a especulação bolsista, quanto mais viver e isso irá ela ensinar a Michael Brandon!

25.3.26

Ernst Lubitsch - "Ser ou Não Ser" / "To Be or Not To Be"


Ernst Lubitsch
"Ser ou Não Ser" / "To Be or Not To Be"
(EUA – 1942) - (99 min. - P/B)
Jack Benny, Carole Lombard, Robert Stack, Stanley Ridges.

Em 1942 Ernst Lubitsch decide fazer sorrir as plateias de todo o mundo e cria, com “Ser ou Não Ser” / “To Be or Not To Be”, uma comédia mordaz sobre a ocupação alemã da Polónia, numa altura em que ainda estava bem distante o fim da guerra. E será sempre de recordar que Charles Chaplin, com o seu filme “O Grande Ditador” / “The Great Dictator”, já alertara o mundo desse mesmo perigo em 1940, usando também o humor como arma.


Estamos em Varsóvia, no ano de 1939, nesse imenso palco que é o Teatro e onde a companhia dirigida por Joseph Tura (Jack Benny) leva à cena a sua versão de Hamlet. E sempre que surge esse momento solene da peça, em que o célebre “to be or not to be” é pronunciado, um espectador ainda jovem levanta-se no meio da plateia e sai, perante o espanto de todos os presentes, para se ir encontrar com a bela esposa do actor.


Stanislav Sobinsky (Robert Stack) tem um “affair” com Maria Tura (Carole Lombard) e aquele momento da peça é o sinal combinado para ambos se encontrarem. Com a invasão da Polónia pelas tropas alemãs, o jovem tenente parte para Inglaterra para se juntar aos aliados, deixando o seu amor para trás. Mas no interior da resistência existe um traidor e é necessário eliminá-lo, porque entretanto ele regressara à Polónia com a lista dos nomes dos resistentes que lutavam no país, contra a ocupação. E será com a preciosa “colaboração” (forçada) dos membros do grupo teatral, que será eliminado esse enorme perigo.


Ernst Lubitsch coloca a ridículo as forças ocupantes, muito especialmente o perigoso coronel Erhardt que gosta de contar anedotas sobre Hitler, utilizando um humor verdadeiramente corrosivo, sendo o traído actor Joseph Tuna (Jack Benny) obrigado a desempenhar o papel mais difícil e perigoso da sua carreira ao fazer-se passar pelo perigoso espião, enquanto o pior actor da companhia é “convidado” a fazer-se passar por Hitler, de visita às tropas estacionadas em Varsóvia. E, quando tudo parece perdido, eles conseguem escapar numa fuga verdadeiramente delirante, a caminho de Londres.


Já em terras de Sua Majestade, Joseph Tuna realiza o sonho da sua vida, ao representar Hamlet e quando pronuncia a célebre frase “to be or not to be”, faz uma longa pausa, olhando para Stanislav Sobinsky que se encontra na plateia, mas este permanece sentado, sorrindo para o actor. Nesse preciso momento um outro elemento do público levanta-se e sai da sala, perante a perplexidade de todos. Decididamente a bela e volúvel Maria Tura (Carole Lombard) insiste em não dar descanso ao coração atormentado do marido.


O riso e o humor são muitas vezes a melhor arma para defrontar a triste realidade dos tempos de guerra, como muito bem demonstrou Ernst Lubitsch nesta poderosa comédia intitulada “To Be or Not To Be”.

Nota: Em 1983 Mel Brooks realizou um delicioso "remake" desta comédia.

28.2.26

Ernst Lubitsch - “A Viúva Alegre” / “”The Merry Widow”


Ernst Lubitsch
“A Viúva Alegre” / “”The Merry Widow”
(EUA-1934) – (97 min. - P/B)
Jeanette MacDonald, Maurice Chevalier, Edward Everett Horton, Una Merkel, George Barbier.

Já por aqui escrevemos, por diversas vezes, que a comédia é um dos géneros mais difíceis do cinema e quando se fala nos seus grandes Mestres, sobressai de imediato um dos seus nomes maiores, o alemão Ernst Lubitsch, que um dia trocou a sua terra natal pelo novo mundo.


Por outro lado, quando alguém me fala em Lubitsch, vem-me de imediato à memória essa obra intitulada “To Be or Not To Be” / “Ser ou Não Ser” que o cineasta realizou em 1942, centrando a acção na Varsóvia de 1939, em plena invasão alemã, tendo até sido escrito na Imprensa da época que se Hitler tivesse visto o filme nunca teria dado início à Segunda Guerra Mundial, invadindo a Polónia, tal é o humor corrosivo com que são retratados os invasores alemães.

Mas também há essa inesquecível obra em que Greta Garbo brilhou pela última vez na nossa memória, o célebre “Ninotchka”, em que o alvo da sua arte era a ideologia comunista na terra da perdição do capitalismo e na mais bela cidade do mundo, essa Paris que irá mudar para sempre, a visão da célebre comissária soviética Ninotchka.


Por outro lado temos essa maravilhosa comédia romântica, uma obra-prima do género, intitulada “A Loja da Esquina” / “The Shop Around the Corner”, que até já teve um “remake” bem conhecido da “geração net” intitulado “Você Tem uma Mensagem” / “You’ve Got Mail” com o Tom Hanks e a Meg Ryan nos protagonistas. E se continuarmos por aqui fora a falar dos filmes de Lubitsch, começaremos a falar de “Design for Living” / “Uma Mulher Para Dois” esse filme que quebra todas as barreiras da censura com o célebre “Lubitsch Touch”.

O leitor já está perfeitamente situado, porque conhece certamente um destes delirantes filmes e assim poderemos começar a falar deste cineasta, que se iniciou na profissão de actor pela mão do famoso Max Reinhardt, tendo na época como colegas Emil Jannings (o professor de “O Anjo Azul” de Josef Sternberg) e Conrad Veidt (quem não se lembra dele, na figura do coronel alemão no filme de Michael Curtis “Casablanca”).


Ernst Lubitsch, depois de ter feito a tarimba na Alemanha, de actor passou a argumentista, dando de seguida o inevitável salto para a realização. Em 1922, a convite da então mais que famosa Mary Pickford (conhecida como a namorada da América), partiu para terras americanas sendo a sua primeira obra sonora “The Love Parade”, que lançava um par que se tornaria famoso, formado por Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald, par esse que iremos reencontrar precisamente em “A Viúva Alegre” / “The Merry Widow”, uma adaptação ao cinema da famosa opereta de Franz Leahr que já teve, desde a sua criação, mais três adaptações ao grande écran (os outros responsáveis são Erich Von Stroheim, Ludwig Berger e Curtis Bernhardt).

Se o leitor não viu o filme, pode já ficar a saber que existiu um reino, na Europa Central, chamado Marshovia, governado pelo famoso Rei Achmed (George Barbier) que lá vai dirigindo o pais como pode, mas tendo sempre um problema económico que terá que gerir com todo o seu saber, porque metade do seu reino pertence a uma viúva riquíssima chamada Sónia, que não mostra a cara a ninguém desde que o marido faleceu e anda sempre vestida de preto, com o seu véu cobrindo-lhe o rosto.


Ora com um problema destes sempre na mente, o rei não se apercebe das traições da Rainha Dolores (Una Merkel) com o Conde Danilo (Maurice Chevalier), mas o Conde é um conquistador que não tem mãos a medir e decide um dia invadir o jardim da casa da célebre viúva no intuito de lhe ver o rosto e fazer a consequente corte. Perante os avanços do Conde, esta decide partir para Paris para viver a vida, mas o medo de o Reino cair em mãos pouco recomendáveis leva o Rei Achmed a dar a Danilo a “terrível” missão de se casar com a famosa viúva. Chegado a Paris, Danilo, em vez de ir ter com o embaixador Popoff (Edward Horton perfeitamente hilariante), decide ir até ao célebre “Maxim’s” onde o esperam as famosas meninas que não se esqueceram do galante conquistador. Mas, nessa mesma noite, Sónia também decide ir até lá para conhecer o mais famoso cabaret da “cidade das luzes”. Quando entra é confundida com mais uma caçadora de fortunas a fazer pela vida. E, como não podia deixar de ser, acaba por se cruzar com o Conde Danilo que, desconhecendo a sua identidade, não a perde de vista e se apaixona por ela e após demasiadas taças de champanhe acaba por lhe revelar a sua terrível missão.


Quando se voltam a encontrar no baile preparado pelo Embaixador, Sónia decide ajustar contas com aquele oficial atrevido de sua Majestade, para grande surpresa do Embaixador Popoff, que desconhece o encontro havido. Tudo acabará mais tarde por terminar bem, apesar de Danilo ser condenado à morte por ter falhado na sua importante missão, porque o amor falara mais alto.


Ao longo do filme, Ernst Lubitsch constrói diálogos e situações que nos levam a eleger esta comédia como uma das mais brilhantes da sua carreira cinematográfica, contornando com enorme perícia as célebres imposições do célebre Código Hays (a censura que na época vigorava), tanto na sequência no Maxim’s, como nessa outra sequência em que o Rei Achmed o apanha na cama com a Rainha. Por outro lado, o diálogo construído durante o encontro do par na embaixada com um Popoff a assistir, sem perceber “patavina” do que se passa, é perfeitamente hilariante. Depois a forma como nos é oferecido o quotidiano nesse Reino chamado Marshovia, em que as trocas comerciais se encontram na forma mais “primitiva”, leva-nos a equacionar, com um sorriso nos lábios, as regras porque se rege a economia no mundo contemporâneo.


Ernst Lubitsch soube, como ninguém, tornar a comédia uma forma de Arte em que a palavra tem um papel fundamental e curiosamente teve um herdeiro, no verdadeiro sentido da palavra, em Billy Wilder que seguiu o caminho inaugurado por ele. Mas o célebre “Lubitsch Touch” só a ele lhe pertence. Basta ver ou rever “The Merry Widow”/ “A Viúva Alegre” ou um dos filmes acima referidos para descobrimos que a comédia também possui as suas obras-primas no interior da Sétima Arte.