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8.9.26

Ridley Scott - “Gladiador” / “Gladiator”


Ridley Scott
“Gladiador” / “Gladiator”
(Grã-Bretanha/EUA – 2000) – (155 min. / Cor)
Russell Crowe, Joaquin Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris.

Quando surgiu no écran “Gladiador” / “Gladiator”, foram muitos os que se recordaram de “Spartacus”, realizado pelo cineasta Stanley Kubrick, após o célebre Anthony Mann ter sido despedido pelo produtor Kirk Douglas, que o tinha convidado para a realização, devido ao seu espantoso trabalho nesse outro épico do género intitulado “A Queda do Império Romano” / “The Fall of The Roman Empire”, uma obra espectacular, mas que se encontra hoje um pouco esquecida, infelizmente. Como todos sabemos Kubrick levou a bom porto “Spartacus”, tornando-se um dos filmes de eleição desse género.


Ridley Scott, ao partir para esta aventura numa época em que nada o fazia prever, terminou por ver coroado de êxito os seus esforços de oferecer a sua visão da Roma Antiga, utilizando com saber a tecnologia ao serviço da Sétima Arte, o que lhe proporcionou recriar uma Roma e uma época de forma perfeita, ao mesmo tempo que o número de figurantes ficava bem distante dos utilizados em filmes como “Cleóptera” de Joseph Mankiewicz.

Logo a abrir a película iremos entrar no coração de uma espantosa batalha entre as tropas romanas do Imperador César Marcus Augustus (Richard Harris) e os chamados Bárbaros, assim denominados porque não faziam parte de Roma, essa potência militar que estendia o seu Império pelo mundo fora.


Liderados pelo destemido General Maximus (Russell Crowe), as tropas romanas derrotam os seus oponentes, mas a intriga e a inveja pelo seu sucesso e influência junto do Imperador espreitam a oportunidade de o aniquilar. E será isso mesmo que Commodus (Joaquin Phoenix), filho do Imperador, fará após a morte do pai, perseguindo o célebre General devido à sua influência junto das topas, chegando a mandar matar a família de Maximus quando este se encontra às portas da capital do Império.

O calvário que irá perseguir o célebre General, conduzirá o nosso herói a encetar a sua vingança junto do temível Imperador, tendo como aliada a irmã do seu inimigo, a bela Connie Nielsen, que demonstra aqui todas as suas potencialidades como actriz dramática.


Já Russell Crowe, que vira o Oscar escapar-lhe entre os dedos após a sua espantosa interpretação em “O Informador” / “The Informer” de Michael Mann, irá ver o seu trabalho coroado pelo reconhecimento da Academia de Hollywood, tal é o seu empenhamento na construção da personagem a que dá vida.

A forma como Ridley Scott nos oferece a sequência da batalha a abrir o filme e as lutas entre os gladiadores no circo romano, proporciona-nos momentos de um espectáculo à muito esquecido pelas plateias de cinema, mas o cineasta também mostra essa outra vertente onde o ódio e o amor se cruzam numa outra batalha, conseguindo dar-nos momentos de uma intensidade verdadeiramente cativante, fruto da excelente direcção de actores, mas também ao facto de o director de fotografia se chamar John Mathleson, que conjuga de forma soberba as diversas sequências da película, desde as cenas mais íntimas até ao espaço aberto das grandes batalhas e mesmo quando esse grande actor chamado Oliver Reed faleceu durante as filmagens, esse problema foi contornado graças à acção de um duplo, mas também a esses efeitos especiais, que conduziram esta película a um ponto alto do universo cinematográfico, apesar dos muitos detractores da obra do cineasta Ridley Scott, que insistem em criticar os filmes do realizador, sejam eles quais forem, em virtude de ele ser oriundo do meio publicitário, introduzindo fórmulas oriundas desse meio, nos seus filmes.


“Gladiador” / “Gladiator” representa mais uma vez a genialidade de Ridley Scott, ao mesmo tempo que o actor Russell Crowe começa a surgir como presença constante e inevitável nas suas obras, formando com o cineasta britânico uma verdadeira dupla vencedora, fazendo-nos recordar essa outra dupla, bem conhecida de todos nós, constituída por Martin Scorsese e Robert de Niro, que tantas obras-primas têm oferecido ao Cinema.

2.7.26

George Pan Cosmatos - “Cassandra Crossing” / “The Cassandra Crossing”


George Pan Cosmatos
“Cassandra Crossing” / “The Cassandra Crossing”
(Grã-Bretanha, Itália, Alemanha – 1976) – (129 min,/Cor)
Sophia Loren, Richard Harris, Burt Lancaster,
Ava Gardner, Ingrid Thulin, Martin Sheen, Alida Valli.


Na década de 70 o cinema, perante a invasão da televisão nos lares, descobriu no sub-género “filme catástrofe” um modo de captar as audiências e assim foram inúmeros os filmes que surgiram nesse sentido, desde o célebre “Aeroporto” com as diversas sequelas, até a filmes como este “Cassandra Crossing” / “The Cassandra Crossing”, realizado por George Pan Cosmatos que, a par da intriga política sempre presente, narra a odisseia de um comboio e dos seus passageiros que foram contaminados por um vírus, transportado por um homem em fuga, único sobrevivente de um assalto à Organização Mundial de Saúde, onde se encontravam colheitas de diversos vírus para fins pouco pacíficos.


Como era habitual nesta época, a película possui no elenco diversas estrelas de cinema que viram o seu apogeu em décadas anteriores, mas que não deixam os seus créditos por mãos alheias, por outro lado temos uma eficácia narrativa a par de uma realização de George Pan Cosmatos que consegue manter o suspense, ao longo da película, revelando-se “Cassandra Crossing” como um filme a redescobrir e comparar com certos filmes catástrofes que por aí abundam, reféns dos efeitos especiais.

24.2.26

Clint Eastwood - “Imperdoável” / “Unforgiven”


Clint Eastwood
“Imperdoável” / “Unforgiven”
(EUA – 1992) – (131 min. / Cor)
Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris.

Foi através dos “westerns” de Sergio Leone e Don Siegel que Clint Eastwood manteve bem vivo o género, tendo depois aberto o seu próprio caminho, compondo diversas personagens, geralmente o cow-boy solitário que termina por ir em defesa dos oprimidos, fazendo a inevitável justiça pelas suas próprias mãos, numa caminhada que o conduziria até “Imperdoável” / “Unforgiven”, cujo guião andou durante largos anos pelos corredores dos Estúdios, sem ninguém se interessar por ele. Mas a história daquele velho pistoleiro, tornado agricultor e com duas filhas para criar, que regressa à actividade porque uma prostituta foi esfaqueada, seduziu de imediato o actor/cineasta, que assim nos irá oferecer uma película crepuscular sobre o velho Oeste.


Numa dessas cidades onde a população só se quer manter viva perante a lei do brutal Xerife Little Bill Daggett (Gene Hackman num desempenho extraordinário, que lhe irá dar o Oscar para o Melhor Actor Secundário). Um dia dois cow-boys decidem esfaquear no rosto uma das raparigas que trabalha no saloon e quando elas pedem justiça a Little Bill este simplesmente nada faz, considerando que são riscos da própria profissão e elas decidem oferecer um prémio a quem faça a verdadeira justiça.


Bill Munny (Clint Eastwood) que na sua quinta conhece bem as agruras da terra, perante a insistência de Kid (Jaimz Woolvett) decide ir até à cidade para conhecer o ambiente e será também com o seu antigo companheiro Ned Logan (Morgan Freeman), que ele irá delinear o plano para enfrentar o temível xerife Little Bill e fazer a tão desejada justiça ou a temível vingança das raparigas, se preferirem. No entanto ele deixara a profissão de pistoleiro há longos anos e assim iremos acompanhar o regresso doloroso do pistoleiro Bill Munny ao território das armas, onde não há contemplações nem heróis, mas sim simples justiceiros.


A forma como o argumento de “Imperdoável” / “Unforgiven” nos apresenta o pistoleiro retirado Bill Munny, faz-nos recordar um pouco a personagem de Tom Logan criada por Jack Nicholson em “Duelo no Missouri” / “The Missouri Breaks” de Arthur Penn, no entanto a película dirigida por Eastwood possui uma envolvência e uma ferocidade que terminam por surpreender o espectador, ao mesmo tempo que nos oferece a imagem desse Oeste selvagem que tão bem retratou Michael Cimino, na sua obra-prima “As Portas do Céu” / “Heaven’s Gate”. Porém Clint Eastwood consegue introduzir ao longo da película, de forma genial, o crepuscular do género, na forma como filma esse território, sem heróis, ao mesmo tempo que nos revela personagens atípicas, como esse pistoleiro tagarela e fanfarrão, encarnado por Richard Harris, conhecido por English Bob, que anda sempre acompanhado por esse cobarde “contador de histórias”, chamado Beauchamp (Saul Rubinek, numa boa prestação), cuja função é escrever os seus feitos.


“Imperdoável” / “Unforgiven”, que foi dedicado por Clint Eastwood aos seus Mestres Sergio Leone e Don Siegel, terminou por oferecer a Eastwood a tão desejada consagração pelos seus pares, quando surgiu como o grande triunfador da noite dos Oscars, tendo recebido os Oscars da Academia para Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Montagem e Melhor Actor Secundário, numa noite memorável, que transformou e revigorou, da forma que todos conhecemos, a carreira de Clint Eastwood, considerado hoje em dia, como o último dos cineastas clássicos.