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30.8.26

Lee Tamahori - “Brigada de Elite” / “Mulholland Falls”


Lee Tamahori
“Brigada de Elite” / “Mulholland Falls”
(EUA – 1996) – (107 min. / Cor)
Nick Nolte, Melanie Griffith, Chazz Palmentieri, Michael Madsen,Chris Penn, Jennifer Connely, Treat Williams, John Malkovich,Andrew McCarthy, Daniel Baldwin.

Lee Tamahori iniciou a sua actividade como fotógrafo, depois passou a director de fotografia e assistente de realização. Durante 10 anos viveu no universo da publicidade, onde foi por diversas vezes premiado. Na televisão aprendeu a arte da realização, como muitos outros e depois foi o estrondoso sucesso do seu filme de estreia “A Alma dos Guerreiros” / “Once Were Warriors” (que surpreendeu tudo e todos quando foi exibido no Festival de Montreal). Aliás, quando Fanny Ardant visitou a Cinemateca Portuguesa, foi-lhe sugerida a escolha de um filme para ser apresentado por ela e a actriz francesa optou precisamente pela obra de estreia do cineasta neo-zelandês, que nesta película nos oferece um retrato espantoso da comunidade Mahori.


Como sabemos, Hollywood nunca brinca em serviço, embora alguns pensem o contrário, e de imediato Lee Tamahori foi convidado a dirigir um filme nos “States”. Desafio aceite pelo cineasta, tendo os Estúdios disponibilizado os meios necessários para ele recriar a atmosfera desses anos cinquenta, em que o “film noir” dava cartas.

Tendo o excelente director de fotografia Haskell Wexler consigo, Lee Tamahori oferece-nos um filme sem falhas, que nos agarra do primeiro ao último fotograma, possuindo um elenco masculino de primeira água, ao mesmo tempo que Melanie Griffith cumpre na personagem que lhe foi destinada e Jennifer Connely surge aqui como um verdadeiro sex-symbol. Se a virmos hoje, não poderemos dizer o mesmo, infelizmente.


Durante a década de cinquenta, os gangsters tudo fizeram para estabelecer os seus negócios nesse paraíso cinematográfico chamado Hollywood mas a polícia local, bem conhecida pela forma violenta como actuava, sempre impediu o estabelecimento do mundo do crime, na capital do cinema. E será precisamente isso que iremos descobrir logo no início da película, quando vemos em acção a brigada chefiada por Max Hoover (Nick Nolte) a invadir um restaurante de luxo e a levar dali um dos senhores de Chicago, conduzindo-o pela célebre Mulholland Drive, até ao cimo das colinas, para de seguida o lançarem pela declive abaixo, dando-lhe desta forma a conhecer a sua Mulholland Falls (que dá o nome ao filme), ou seja, o local predilecto da polícia para inibir as chefias do crime de se estabeleceram na Califórnia, com os resultados positivos que todos sabemos, apesar dos seus métodos infringirem, a maioria das vezes, a própria lei que diziam fazer cumprir.

Esta brigada é chefiada por Max Hoover (Nick Nolte) e tem como seus adjuntos Eddie Hall (Michael Madsen), Arthur Relyea (Chris Penn) e Elleroy Coolidge (Chazz Palminteri), esse polícia que tem sessões de psicanálise para conseguir dormir descansado. Uma manhã esta brigada de elite será chamada a uma zona onde estão a fazer terraplanagens, onde se encontra o corpo sem vida de uma jovem, chamada Allison Pond (Jennifer Connely). A forma como foi morta é um mistério, apresentando o seu belo corpo dezenas de fracturas, por ele espalhadas.


No entanto, este não será mais um crime para investigar pelo detective Max Hoover e a sua equipa, porque ele conhece a rapariga, embora o esconda de todos. Allison, que fora sua amante durante seis meses, não passa de uma das milhares de”girls” que partiram para Hollywood em busca de um lugar ao sol, lugar esse, que as conduziria na maioria das vezes à prostituição encapotada ou bem visível, consoante o sucesso que tinham na captura das presas. Mas no dia em que chega à esquadra uma bobine endereçada a Max Hoover, com imagens de Allison a fazer amor com uma pessoa cuja identidade se desconhece inicialmente, o detective percebe de imediato, que quem lhe enviou o filme possui muito mais imagens dela, com outras pessoas, estando certamente ele próprio na mira da possível chantagem.

Tudo parece encaminhar-se para esse jogo de gato e rato, quando este detective que nos faz recordar os heróis de Raymond Chandler e Mickey Spillane, conhece o autor das filmagens, o jovem Jimmy Fieis (Andrew McCarthy), que as fazia através do habitual espelho falso, sem os protagonistas do quarto ao lado do seu saberem o que se passava.


Numa primeira leitura podemos dizer que estamos perante mais um caso igual a tantos outros, mas lentamente vamos descobrir que naquele filme que foi enviado para a esquadra se encontram imagens mais que proibidas e será precisamente isso que descobrimos quando sabemos que a última pessoa a ver viva a bela Allison Pond, foi o general Timms (John Malkovich), um dos pais da bomba atómica. De imediato o filme muda de registo, conduzindo-nos a esses inícios dos anos cinquenta em que o exército americano fazia experiências nucleares no deserto, com as suas próprias tropas, porque só assim podiam estudar a evolução da radio-actividade no corpo humano.

“Brigada de Elite” transforma-se de um filme policial numa obra com uma mensagem política. Olhando a história recente da América e o célebre segredo militar, em defesa da nação, percebemos as palavras ditas pelo general Timms: “para se salvarem mil temos que sacrificar cem”. Como sabemos a história contemporânea está recheada deste género de acontecimentos, infelizmente.


Lee Tamahori conduz com uma eficácia espantosa este seu primeiro trabalho em território americano, conseguindo oferecer-nos uma reconstituição de época perfeita, com uma boa direcção de actores, sendo sempre de destacar a composição que John Malkovich faz da personagem que interpreta.


Em “Brigada de Elite”, como vemos no final, não há vencedores, todos são derrotados. “Mulholland Falls” de Lee Tamahori é uma película que merece ser revista, para não cair no esquecimento, numa época em que as modas eliminam a memória cinéfila.

15.1.26

Bernardo Bertolucci - "Um Chá no Deserto" / "The Sheltering Sky"


Bernardo Bertolucci
"Um Chá no Deserto" / "The Sheltering Sky"
(Grã-Bretanha / Itália - 1990) - (138 min. / Cor)
Debra Winger, John Malkovich, Campbell Scott, Jill Bennett, Timothy Spall.


Foi num daqueles dias em Paris, com a casa repleta de convidados, que Gertrud Stein chamou Paul Bowles e Jane para junto da janela e recomendou ao compositor e poeta que fosse até ao norte de África, percorrer as estradas, visitar Tânger e descobrir Marrocos em busca do sabor perfeito da Literatura. Eles assim fizeram e nunca mais voltaram, porque não partiram como turistas, mas sim como viajantes: - "um turista só pensa em regressar a casa, enquanto o viajante não sabe se regressa." (1).


E assim Paul Bowles viveu em Tânger desde finais dos anos quarenta, do século passado,  até à sua morte em 1999. A sua casa serviu de ponto de passagem para toda uma geração de escritores e poetas norte-americanos, em busca da sua hospitalidade. Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, foram alguns dos que passaram por sua casa. E quando o seu romance "The Sheltering Sky" / “O Céu que nos Protege” foi publicado, transformou-se de imediato numa referência para inúmeras gerações, terminando por surgir a respectiva adaptação cinematográfica, tendo ainda espaço para navegar no interior do universo musical.


Música, interrogam-se alguns? Sim, meus caros amigos! Um dos mais belos temas instrumentais dos King Crimson, incluído no álbum "Discipline", chama-se precisamente "The Sheltering Sky" e recomendamos vivamente a sua audição. Já o livro, que foi dedicado por Paul Bowles à sua esposa Jane, possui uma bela citação de Eduardo Mallea: "O destino de cada homem só é pessoal na medida em que se assemelhar ao que já existe na sua memória." E se nunca leu o livro, recomendamos a sua descoberta e depois, se desejar, poderá sempre mergulhar na beleza musical criada por Ryuichi Sakamoto para o filme de Bernardo Bertolucci, uma das mais belas bandas sonoras do compositor japonês.


Bernardo Bertolucci tinha recolhido uma mão cheia de Oscars com "O Último Imperador"/”The Last Emperor” e todos sabemos como é difícil partir para o filme seguinte, depois de uma chuva de prémios e consensos. Ora o cineasta italiano seguiu o caminho traçado anteriormente, com o segmento "1900" (obra maior da sua filmografia) e "La Luna", um dos filmes mais intimistas da sua obra cinematográfica, Assim nasce “The Sheltering Sky” / "Um Chá no Deserto", com uma inesquecível fotografia de Vittorio Storaro, revelando-se uma das películas mais belas e perturbantes da sua filmografia.


A história de Pot Moresby (John Malkovich) e Kit Moresby (Debra Winger), assim como o "outro", o intruso consentido, representado por George Tunner (Campbell Scott) percorre o deserto em toda a sua plenitude e intensidade, originando a paixão e a perdição inerente a esse estado supremo do amor. Esta inesquecível história de amor possui como narrador o próprio escritor (Paul Bowles), que surge no início e no final do filme, fisicamente, contemplando os seus personagens, fruto da sua própria carne, já que tal como ele, Pot Moresby é compositor, assim como Kit Moresby é dramaturga, como a sua esposa Jane Bowles. O final é de um esplendor silencioso, quando Kit Moresby se dirige ao escritor em busca de um rumo para a sua existência.


"Um Chá no Deserto" / “The Sheltering Sky” possui, no seu interior, não só a genialidade de Bertolucci, mas também, como referimos anteriormente, a fabulosa fotografia de Vittorio Storaro, de uma sensibilidade extraordinária. É claro que alguns viram nisso exotismo e bilhete-postal de luxo, para europeu ver. No entanto, quem fez essa leitura e lhe chamou um filme falhado, não possui a menor ponta de sensibilidade para ler nas imagens, a tragédia da fuga de dois seres no interior do deserto, narrado de uma forma exemplar. Será talvez o momento de fazermos uma nova leitura do romance e aproveitar a edição em dvd para reencontrar o percurso de Kit e Pot e descobrir essa bela e intensa luz que ilumina a obra literária de Paul Bowles.


"The Sheltering Sky" / “Un Chá no Deserto” é um romance que tem sido amado pelo cinema desde sempre, pois tanto Robert Aldrich como Nicolas Roeg tentaram a sua adaptação para o grande écran e, se inicialmente, os actores apontados para dar rosto aos personagens no filme de Bernardo Bertolucci foram William Hurt e Melanie Griffith, pensamos que a escolha de John Malkovich e Debra Winger foi a mais acertada, já que ela respira sensualidade em cada gesto e ele possui no seu olhar a perdição e a inevitável redenção proporcionada pela imensidão do deserto.


Nota: Se pretendem conhecer a obra literária de Paul Bowles, iniciem a leitura pela novela "Muito Longe de Casa" (editado pela Presença) e depois de estarem familiarizados com o calor do deserto, ataquem "O Céu Que Nos Protege" / "The Sheltering Sky" (editado pela Assírio e Alvim) e comparem com o filme de Bernardo Bertolucci; após terem ficado apaixonados pela escrita de Paul Bowles continuem com "Deixai a Chuva Cair" (editado pela D. Quixote) e então estão preparados para partirem tranquilamente através da obra literária deste fabuloso escritor, que a Editora Quetzal, tem estado a editar no nosso país.


Mas, se desejarem, também podem ler "Duas Senhoras Bem Comportadas" (editado pela Presença) de Jane Bowles. E após estas leituras todas retomem as personagens de Kit e Pot e vejam como elas se confundem com as de Jane e Paul.

No respeitante à banda sonora, aproveitem para escutar a música composta por Ryuichi Sakamoto e se tiverem curiosidade suficiente, após terem escutado os temas da autoria do próprio escritor, procurem a música que Paul Bowles foi compondo ao longo da sua estadia em Marrocos.

(1) - Bruce Chatwin foi outro viajante perfeito.