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9.10.26

Nicholas Ray - "Matar ou Não Matar" / "In a Lonely Place"


Nicholas Ray
"Matar ou Não Matar" / "In a Lonely Place"
(EUA - 1950) – (94 min. - P/B)
Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Carl Benton Reid.

A nossa memória do cinema muitas vezes encontra-se ligada a imagens descobertas no pequeno écran e dizemos isso porque foi precisamente o sucedido há mais de vinte anos, com “In a Lonely Place” / “Matar ou Não Matar” de Nicholas Ray, descoberto numa tarde de Verão. Nessa época Nick já era muito mais do que o cineasta de “Fúria de Viver” ou de “Johnny Guitar”.


Produzido pela pequena produtora de Humphrey Bogart, “Santana Productions”, esta película situa-se inevitavelmente na fronteira do “film noir”, navegando as suas personagens no mundo da Sétima Arte, Dixon Steele (Bogart) é um argumentista à beira do abismo, violento e angustiado com o mundo que o rodeia: realizadores, produtores, agentes, actores.

O argumento de Andrew Solt, baseado numa novela de Dorothy Hughes, apresenta-nos uma Hollywood “cheia de tubarões”, em que a última palavra vem de cima. Mas como dizíamos, Dixon Steele um homem amargurado, reticente em aceitar a feitura de um argumento de acordo com as “regras da casa”, vê-se confrontado com uma hipótese de resgatar o seu nome do limbo em que caiu, mas a obra que lhe é oferecida parece-lhe tão má, que convida uma empregada do bar em que se encontra para lhe contar a história, já que ela tinha lido o livro e assim ele não iria perder tempo com algo em que não acreditava. A tragédia nasce então porque a rapariga, após o seu trabalho de leitura, aparece morta caindo de imediato as suspeitas sobre o violento Dixon Steele.


Incrédulo e cínico perante os acontecimentos (Bogart no seu melhor), Dixon acaba por ser ilibado por uma vizinha (Gloria Grahame) que o viu em casa, após a saída da rapariga. Nasce então uma profunda paixão entre Laurel Gray (Gloria Grahame) e Dixon, que inicia o seu trabalho no argumento refazendo a história original, ao mesmo tempo que o seu comportamento violento desaparece, vivendo apenas para o seu trabalho e para a mulher que ama perdidamente. No entanto a polícia continua a suspeitar dele e o cerco que lhe monta irá fazer renascer o seu lado violento, desconfiado e ciumento, perturbando de forma decisiva o amor da sua vida.

Nicholas Ray consegue, nesta película, oferecer-nos um dos filmes mais perfeitos do género, mas todo o ambiente criado de uma cínica Hollywood faz um pouco de futurologia em relação à carreira de Nick Ray. Por outro lado Gloria Grahame, que roubou o papel a Ginger Rodgers (1), oferece-nos momentos de antologia do mais profundo erotismo (2), apetecendo até dizer obrigado ao código Hays, que obrigou os cineastas a contornar a censura, como tão bem fez Hitchcock em “Notorius” / “Difamação” / “Notorious” e a célebre questão do tempo de duração de um beijo.


“In a Lonely Place”, essa obra-prima do Cinema, poderia também chamar-se “In a Lovely Place”, graças à interpretação felina de Glória Grahame e às mudanças de personalidade de Humphrey Bogart em combate constante consigo mesmo. Por outro lado, a genial fotografia a preto e branco joga de forma determinante com a luminosidade, repare-se na sequência em que Dixon (Bogart) reconstitui o assassinato para o casal amigo, como se tivesse vivido o acontecimento, embora seja a sua faceta de argumentista que torna tão excitante o seu relato. Para já não falarmos na soberba montagem do filme e na inesquecível banda sonora.


A escrita vai longa mas não podemos deixar de referir dois aspectos decididamente importantes nesta obra-prima do cinema. Nicholas Ray e Gloria Grahame (3) eram casados no início da rodagem e a meio das filmagens decidiram separar-se, tendo até Nick pedido ao Estúdio para lhe arranjar uma casa próxima do “set”, porque necessitava de trabalhar à noite, omitindo desta forma a sua situação matrimonial. E nunca Gloria Grahame foi filmada com tanto amor, ao ponto de a película ter dois finais, o inicialmente previsto em que ela morre e aquele, por fim optado, em que fica viva por fora, morta por dentro, tal como Humphrey Bogart, numa das suas mais extraordinárias interpretações.

“Matar ou Não Matar" /“In a Lonely Place” é uma das muitas pérolas cinematográficas oferecidas por Nicholas Ray à Sétima Arte, uma descoberta que recomendamos.


(1) - Ginger Rodgers nunca gostou muito dos musicais com Fred Astaire e lutou durante toda uma vida para conquistar papéis dramáticos.

(2) - A troca de cigarros no bar, junto ao piano, entre outros planos, para além do fabuloso guarda-roupa de Mrs. Grahame.

(3) – Muitos anos depois Gloria Grahame foi casada com o filho de Nicholas Ray.

30.9.26

Peter Godfrey - “Inspiração Trágica” / “The Two Mrs. Carrols”


Peter Godfrey
“Inspiração Trágica” / “The Two Mrs. Carrols”
(EUA – 1947) – (90 min. – P/B)
Humphrey Bogart, Barbara Stanwyck, Alexis Smith, Peter Godfrey.

Peter Godfrey nasceu em Inglaterra e decidiu ser actor, tendo-se iniciado no Teatro. Com a chegada do sonoro, partiu para a América e, quando ingressou na Warner Brothers, tentou a realização e gostou tanto que decidiu permanecer por detrás da câmara, embora por vezes decidisse recordar os bons velhos tempos, com pequenas aparições como sucede neste filme intitulado “Inspiração Trágica” / “The Two Mrs. Carrolls”.


Estamos perante uma dessas produções que fizeram com que a série-B seja tão elogiada pelos cinéfilos, com a mestria demonstrada pelo cineasta e a forma como vai introduzindo a dúvida no espectador sobre as reais intenções desse pintor, interpretado por Humphrey Bogart (recorde-se que o actor começou no palco), como um pai dedicado à filha que o adora, até ao seu estranho relacionamento com os quadros que cria, terminando por assistirmos a um Bogart verdadeiramente surpreendente.


Mas também não nos podemos esquecer que este filme, ambientado em Inglaterra, é profundamente “british”, levando-nos a recordar dois nomes do suspense: Agatha Christie e Alfred Hitchcock.

15.7.26

John Huston - “A Rainha Africana” / “The African Queen”


John Huston
“A Rainha Africana” / “The African Queen”
(EUA/Grã-Bretanha – 1951) – (105 min./Cor)
Humphrey Bogart, Katharine Hepburn, Robert Morley.

Como aviso à navegação, convém dizer, desde já, que “A Rainha Africana” / “The African Queen” é um dos filmes mais queridos aqui de casa, pelo argumento, pela realização de John Huston, pela admirável fotografia de Jack Cardiff, mas acima de tudo por esse duelo memorável entre Charlie Allnutt (Humphrey Bogart) e Rose Sayer (Katharine Hepburn), que durante a sua fuga a bordo da Rainha Africana, irão manter um dos mais famosos duelos, entre uma mulher e um homem, que alguma vez o cinema nos ofereceu, para no final decidirem torpedear o navio alemão e depois nadarem felizes e apaixonados para terra, porque o cinema é essa Arte, que nos permite sonhar em Happy-Endings!


Foi com “The African Queen” que Humphrey Bogart viu reconhecido o seu trabalho pela Academia de Hollywood, ao conquistar o Oscar de Melhor Actor, depois de o ter perdido em “Casablanca”, já Katharine Hepburn e John Huston, apenas foram nomeados. “A Rainha Africana”, visto e revisto vezes sem conta, permanece um dos filmes da nossa vida!


Memória: Um filme visto pela primeira vez no Cine 222, numa dessas reposições, em cópia restaurada, de que os verões de antigamente eram férteis.