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4.9.26

Sam Peckinpah - “A Quadrilha Selvagem” / “The Wild Bunch”


Sam Peckinpah
“A Quadrilha Selvagem” / “The Wild Bunch”
(EUA – 1969) – (145 min. / Cor)
William Holden, Robert Ryan, Ernest Borgnine,
Edmond O’Brien, Warren Oates, Ben Johnson, Jaime Sanchez.

O Californiano Sam Peckinpah celebrizou-se pela forma como retratou a violência, nos mais diversos géneros, desde o microcosmo contemporâneo de “Cães de Palha” / “Straw Dogs”, passando pelo filme de guerra “A Grande Batalha” / “Cross of Iron”, até à revisão do “western” clássico com “A Quadrilha Selvagem” / “The Wild Bunch”, utilizando como marca de autor a câmara lenta ou “slow motion” se preferirem, nas cenas de maior violência, oferecida sempre com um rigor absoluto.


E como não podia deixar de ser, a honra dos heróis, sejam eles politicamente correctos ou não, surge como um dado adquirido, porque estamos decididamente num território masculino, onde o mais forte dita a lei.

“A Quadrilha Selvagem” / “The Wild Bunch” narra-nos a história de um perigoso bando que tenta roubar os salários dos trabalhadores dos caminhos-de-ferro, na sequência inicial, mas ao contrário do que pensava Pike Bishop (William Holden) o cérebro da quadrilha, estão prestes a cair numa armadilha, bem montada pelo homem que o conhece melhor, o seu ex-companheiro Dike Thornton (Robert Ryan), que se encontra a trabalhar, forçado, para um magnata dos caminhos-de-ferro.


O resultado do confronto é profundamente mortífero, porque os habitantes da povoação desconhecem o que se irá passar, terminando por serem vítimas do fogo cruzado entre os dois grupos. Iniciando-se então a fuga do bando dizimado e a respectiva perseguição que os irá levar até território mexicano.

Mais uma vez Sam Peckinpah vai-nos demonstrar como a violência e os escrúpulos não possuem rosto, porque será sempre difícil dizer quem é mais selvagem, se os elementos do bando ou os caçadores de prémios que os perseguem.


Por outro lado iremos perceber como são fortes os laços que unem Pike e Dike, através de diversos “flash-back”, ao mesmo tempo que conhecemos a história e as motivações do único elemento mexicano do bando de nome Angel, representando bem a inocência que transporta consigo.

Com a entrada do bando em território mexicano, o cineasta oferece-nos um retrato poderoso do México pré-revolucionário, com os homens do inenarrável general Mapache (Emílio Fernandez) e as forças do célebre Villa apoiadas pela população martirizada, na luta contra o legitimo governo corrupto, que então espalhava o terror no México.


Ao longo de “Wild Bunch” iremos descobrir interpretações fabulosas de um elenco, com provas mais que dadas no cinema e quando a honra fala mais alto, após a morte do jovem Angel às mãos das forças governamentais, percebemos como o destino destes homens, eternamente perseguidos, se encontra decididamente traçado.

O duelo final, verdadeiramente sanguinário, demonstra bem o saber do cineasta, oferecendo-nos um dos momentos mais célebres do filme, muitos anos depois citado por Walter Hill em “Extreme Prejudice” / “A Fronteira do Perigo”.


“A Quadrilha Selvagem” de Sam Peckinpah permanece na história do cinema como uma das obras fulcrais da revisão do “western” clássico, encetada nas décadas de 60/70, oferecendo-nos obras-primas que sobreviveram à passagem dos anos.

21.7.26

Billy Wilder - "Inferno na Terra" / "Stalag 17"


Billy Wilder
"Inferno na Terra" / "Stalag 17"
(EUA – 1953) – (120 min.- P/B)
William Holden, Don Taylor, Otto Preminger, Robert Strauss.

“Stalag 17” é um dos inúmeros campos de concentração espalhados pela Alemanha durante o período da Segunda Guerra Mundial e Billy Wilder vai-nos oferecer o seu retrato desse campo, partindo como em “O Crepúsculo dos Deuses” / “Sunset Boulevard”, através dessa voz-off que nos vai relatar uma das muitas histórias ocorridas naquele campo, porque o narrador que está vivo e não é William Holden, mas sim o seu jovem colega de camarata, farto das histórias que o cinema tem oferecido dos campos de concentração alemães.Com uma entrada destas, Billy Wilder situa o espectador nesse território tão amado que é o “Lubitsch touch”, com a célebre referência ao cinema: mas também descobrimos que a forma como ele nos retrata os alemães é bem diferente do habitual. Até mesmo o Coronel von Scherbach (Otto Preminger) nos surge não como um terrível sanguinário, mas sim um dos oficiais da cavalaria que tinha combatido na Primeira Grande Guerra. Essa mesma cavalaria que via os seus elementos mais novos a serem enviados para as divisões “Panzer”, enquanto os mais velhos, como ele, ficavam a comandar os Campos de Concentração. Por outro lado são inúmeras as semelhanças entre este oficial e o protagonizado por Erich von Stroheim em “A Grande Ilusão” / “La Grande Illusion” de Jean Renoir e poderemos dizer que certamente não é por acaso, porque Billy Wilder, como todos sabemos, é dos Grandes Mestres do Cinema!


Estamos em pleno Inverno no início do filme e de imediato vemos dois homens a preparar uma fuga do campo, fuga essa que não será bem sucedida, terminando estes por ser mortos. E na camarata todos se interrogam como é que os alemães sabiam dos passos deles, iniciando-se um clima de desconfiança entre todos os sargentos que ali se encontram, embora seja Sefton (William Holden) quem se irá encontrar na corda bamba, já que ele apostou que eles não iriam conseguir escapar do campo.

O sargento J. J. Sefton (William Holden) é um homem amargo, que tenta sobreviver o melhor possível no campo, não acreditando em heroísmo e boas vontades, ele melhor do que ninguém sabe como o mundo é cínico e tenebroso e por isso mesmo a sua mordacidade não é muito bem aceite. Depois a facilidade com que ele circula no campo levanta imensas suspeitas e todos pensam que ele é o delator. Mas para complicar mais as coisas os alemães sabem tudo o que se passa naquela camarata, ora é o rádio que é descoberto, ou o tenente-aviador James Dunbar é denunciado ao comandante do campo como o responsável pela sabotagem de um comboio alemão que transportava munições. E aqui, Sefton quase é linchado pelos seus companheiros de infortúnio.


Mais azedo e ácido do que nunca, Sefton (William Holden) jura a si mesmo que irá descobrir quem é o delator, porque naquele lugar só dois homens sabem que ele está inocente: ele próprio e o denunciante.

Escorraçado e ignorado por todos, Sefton tem pela frente a sua mais perigosa missão, descobrir o traidor ou talvez não seja um traidor, mas simplesmente um soldado alemão que se encontra ali infiltrado, para assim transmitir de forma mais segura aos seus superiores o que se passa no campo de detenção.


Billy Wilder oferece-nos o quotidiano do campo, sempre com aquele toque que celebrizou Lubitsch, mas se pensam que estamos perante uma comédia, estão bem enganados. Porque apesar dessa atracção que o Animal (Robert Strauss) sente por Betty Grable, ou pelas prisioneiras bolchevistas que se encontram no campo de concentração feminino, iremos descobrindo lentamente como naquele pequeno mundo o ódio circula por entre os barracões e apesar das diversas atitudes de solidariedade que o cineasta nos retrata, tão comuns nos filmes desta temática, Billy Wilder oferece-nos a sua visão através do sargento Sefton, uma inesquecível interpretação de William Holden, que lhe irá dar o Óscar da Academia de Hollywood, assim como o cineasta Otto Preminger nos surpreende a todos com a sua interpretação, veja-se bem o seu encontro com o enviado da Cruz Vermelha e a forma como ele desdenha a famosa Convenção de Genebra.


Mais uma vez Billy Wilder nos dá uma obra profundamente cativante, neste seu retrato dos campos de concentração. “O Inferno na Terra” / “Stalag 17”é uma película que merece ser recordada por todos.

18.4.26

Billy Wilder - “O Crepúsculo dos Deuses” / “Sunset Boulevard”


Billy Wilder
“O Crepúsculo dos Deuses” / “Sunset Boulevard”
(EUA – 1950) - (110 min - P/B)
Gloria Swanson, William Holden, Erich Von Stroheim.

“Sunset Boulevard”, de Billy Wilder, é o mais célebre filme sobre o universo do cinema até hoje feito, cuja história nos é narrada por um corpo, já morto, a boiar no interior de uma piscina. Iremos assim conhecer através de Joe Gillis (William Holden), esse argumentista em busca de um êxito e os acontecimentos que antecederam a sua morte.


Tudo começou quando o seu carro, ao percorrer a tão famosa avenida “Sunset Boulevard”, interrompe a sua marcha devido a um pneu furado. Ao dirigir-se à casa mais próxima para telefonar, uma luxuosa Mansão que já vira melhores dias, é confundido com o funcionário da agência funerária que vem tratar das exéquias do animal de estimação da dona da casa, essa outrora célebre estrela do cinema mudo, chamada Norma Desmond (Gloria Swanson).

Recorde-se que Gloria Swanson, uma das mais famosas stars do período mudo da Sétima Arte, é na realidade mais nova que a personagem que interpreta, representando o filme de Billy Wilder um verdadeiro regresso à ribalta do universo cinematográfico.


Ao contrário do que se possa pensar, este não é um filme sobre a vida de Gloria Swanson, mas sim uma ficção brilhantemente elaborada por Billy Wilder, que construiu em “O Crepúsculo dos Deuses” / “Sunset Boulevard” um dos mais fascinantes filmes sobre os meandros do mundo do cinema.

E se Gillis (William Holden) é o homem certo para escrever o argumento tão desejado por Norma para o seu “come-back”, verificaremos que esta estrela decadente irá servir-se dele da mesma forma como utiliza essa figura “apagada” chamada Max von Mayerling (um Erich Stroheim extraordinário), que tudo faz para a estrela se sentir a eleita no Olimpo dos Deuses.


Iremos assim, nesta viagem por Hollywood, encontrar o próprio Cecil B. DeMille (que dirigiu Gloria Swanson em cinco películas), a representar o seu próprio papel, quando esta anuncia o seu regresso e o visita nos Estúdios de Cinema onde ele se encontra a rodar um filme. Mas o argumento que Gillis está a escrever não se adequa a ela, mas sim a uma actriz muito mais nova e quando Norma Desmond, que insiste em viver num mundo que já não existe, percebe finalmente o que se passa, não hesita em o matar, porque Gillis estava a liquidar o seu sonho de estrela imortal.

E quando a polícia chega para a prender, Max von Mayerling, esse eterno amante desprezado, num derradeiro gesto de amor e homenagem decide encenar o regresso triunfal da mulher amada, num derradeiro gesto de amor e perdição, que figura na película como uma das sequências mais célebres de “Sunset Boulevard”.


(Re)ver “O Crepúsculo dos Deuses” é entrar pela porta grande do Cinema, levado por esse Mestre da Sétima Arte chamado Billy Wilder, que nos oferece aqui um filme imortal.