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30.7.26

Nicholas Ray - "Atrás do Espelho" / "Bigger Than Life"


Nicholas Ray
"Atrás do Espelho" / "Bigger Than Life"
(EUA – 1956) – (95 min. / Cor)
James Mason, Barbara Rush, Walter Matthau.

No início desta película de Nicholas Ray, surge uma América típica dos melodramas de Douglas Sirk, quando vimos o Professor Ed Avery (James Mason) na sala de aula com um aluno. Pouco depois, surge a correr para uma companhia de táxis onde trabalha para poder sustentar a família e assim descobrimos que nesta América não há lugar para as personagens dos filmes de Douglas Sirk. Esta América é muito mais dura e a existência do segundo emprego é escondida da mulher e do filho, representantes de um "Perfect Way ofLlife", pelo Professor Ed Avery.


Quando descobrimos que Ed Avery está doente, a situação agrava-se e nasce a possibilidade da cura através de um medicamento então pouco conhecido e ainda em fase experimental chamado cortisona. Convém aqui referir que o argumento do filme é baseado num artigo da "New Yorker", onde era narrada uma experiência com este medicamento. James Mason, leu e gostou tanto dele que decidiu produzir o filme, escolhendo Nick Ray para o realizar. Na época a morte de James Dean ainda se fazia sentir no cineasta e Clifford Odets foi o argumentista creditado, embora muitos outros tenham colaborado na escrita.


Os efeitos secundários da cortisona, então desconhecidos, vão-se abater sobre a vida de Ed Avery e tanto a sua mulher Lou Avery (Barbara Rush), como o filho, vão ser as vítimas das suas alterações comportamentais. Aparentemente Ed Avery surge no lugar do politicamente correcto, para pouco depois cair no excesso, dizendo muitas coisas incómodas para os ouvidos de terceiros, veja-se a reunião com os pais na escola. Para fugir à dor, faz-se passar por falso médico para conseguir comprar mais comprimidos, que começam a funcionar para ele como verdadeira droga, tornando-o dependente deles para sobreviver. Mais uma vez James Mason oferece-nos um dos mais brilhantes exercícios de interpretação da sua carreira e o "scope" de Nick Ray esmaga-nos com a sua contenção. A vida de Ed Avery é, a pouco e pouco, alterada perante uma mulher passiva no seu lugar de esposa e um filho revoltado, que procura os comprimidos do pai para os deitar fora, já que eles representam para ele o mal de todos os pecados.


Walter Matthau, ainda longe das comédias delirantes que nos ofereceu ao longo da carreira em dupla com Jack Lemmon, surge aqui como o amigo de Ed Avery e confessor de Lou, num papel onde a amizade é fruto de uma certa ambiguidade e a traição espreita em cada esquina. Ele não se interessa pela colega solteira da escola, mas vive para ajudar Lou a resolver os seus problemas com Ed. Quem desejar poderá sempre fazer uma leitura diferente. Quanto a Lou, ela representa a "Mrs. Right", a esposa mais-que-perfeita junto do marido, até ao momento em que entende que, se nada fizer, ele a irá conduzir até à morte, arrastando com eles o seu filho. O mal está simbolizado no medicamento ou estará no próprio homem, nesse ser que muitas vezes vive escondido no nosso interior, esperando o momento para atacar. Ed Avery (James Mason) deseja o melhor dos mundos para a família e a sua luta com o medicamento sai vitoriosa no final. Nicholas Ray oferece-nos um filme brilhante, com interpretações bem marcantes, fruto de uma excelente direcção de actores e embora happy-end possa ser motivo de discordância para alguns, já para nós estas personagens, depois de tanto terem sofrido, bem mereceram a Felicidade reencontrada.

25.7.26

Henry Hathaway - “O Príncipe Valente” / “Price Valiant”


Henry Hathaway
“O Príncipe Valente” / “Price Valiant”
(EUA – 1954) – (100 min / Cor)
James Mason, Janet Leigh, Robert Wagner, Sterling Hayden,
Victor McLaglen, Donald Crisp. Debra Paget, Brian Aherne.

Em criança tinha uma enorme paixão pela banda desenhada e recordo-me de aos domingos descer a rua do Alecrim, em Lisboa, para ir ao Cais do Sodré comprar o jornal “Primeiro de Janeiro”, sendo o motivo todos os domingos serem ali publicadas as aventuras do “Príncipe Valente”, nascido através da pena desse mago da banda desenhada chamado Hal Foster.


Por esta simples razão, foi com enorme expectativa que me encontrei pela primeira vez com o “Príncipe Valente” no cinema, muitos anos depois. O cineasta era uma referência forte, já que Henry Hathway era um dos cineastas que encontrara no grande écran ao longo da minha adolescência e que nunca me deixou insatisfeito, se por um lado tínhamos “Niagara”, por outro havia esse mítico “A Conquista do Oeste” / “How The West Was Won”, passando pela “Velha Raposa” / “True Grit” ou o “Nevada Smith”, para já não falarmos no “Peter Ibbetson” / “Sonho Eterno” ou nesse enorme sucesso chamado “Lanceiros da India” / ´”The Lives of Bengal Lancer”, mas o que nos interessa aqui em concreto é esse “swashbuckler” chamado “Príncipe Valente”.

Todos os que leram as aventuras criadas por Hal Foster se recordam que a história se passa nessa época de brumas onde existia um reino chamado Camelot e um conjunto de Cavaleiros que se reuniam à volta de uma mesa chamada Távola Redonda, tendo Arthur como Rei. O argumento escrito por Dudley Nichols (fixem este nome) inicia-se precisamente com a partida de Príncipe Valente do castelo onde vivem exilados os seus pais, a caminho do castelo do Rei Arthur.


Na sua caminhada ele irá cruzar-se com Sir Gawain (Sterling Hayden, mais conhecido de todos como o Johnny Guitar de Nicholas Ray), indo tornar-se seu escudeiro e, através dele, irá conhecer esse mundo dos torneiros medievais onde as mãos das damas eram muitas vezes oferecidas aos cavaleiros vencedores. Será aqui que iremos encontrar esse belo vilão chamado Sir Brack (James Mason), irmão bastardo do Rei Arthur, que ambiciona apoderar-se do trono ao mesmo tempo que lhe presta a maior das vassalagens.

E nunca como aqui a personagem do vilão assentou como uma luva na figura de James Mason, que mais uma vez nos oferece uma personagem fabulosa, porque ele é também esse Black Knight que prepara o ataque a Camelot, aliado à armada viking. Mas antes teremos as intrigas palacianas e as paixões dignas da época medieval, onde o amor era sussurrado através de véus que escondiam o rosto das damas e os juramentos de fidelidade dados pelos cavaleiros eram levados até às últimas consequências. No meio deste mundo move-se o Príncipe Valente (Robert Wagner, a dar os primeiros passos no cinema).


Ao construir o filme, Henry Hathaway jurou uma espécie de fidelidade à banda desenhada de Hal Foster e isso é bem patente, não só na forma como se expande todo o filme, como nas sequências da batalha e dos duelos, com particular destaque para esse duelo final entre o Príncipe Valente e Sir Drake, após este ter sido desmascarado e provada a sua outra identidade, a do tal cavaleiro misterioso que pretendia tomar de assalto o Reino de Camelot. Alguns viram neste Black Knihgt a figura onde George Lucas se foi inspirar para criar o seu Darth Vader.

Quando falamos neste reino das brumas, criado algures no tempo, com os seus mitos, fadas e bruxas, cavaleiros e damas do lago, somos sempre obrigados a olhar para essa obra espantosa criada por John Boorman e intitulada “Excalibur”, porém chegou o momento de olharmos um pouco para a história do cinema e recuperar este “Príncipe Valente”, nascido da mão de Henry Hathaway e Hal Foster, (*)


(*) – Em 1997 Anthony Hickox realizou uma nova versão de “Prince Valiant” com Stephen Moyer e Katherine Heigl a vestirem a pele de Príncipe Valente e da Princesa Ilene. Comparando esta com a dupla Janet Leigh e Robert Wagner, somos obrigados a preferir sempre os “originais”.