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31.7.26

Julien Temple - “Absolutamente Principiantes” / “Absolute Beginners”


Julien Temple
“Absolutamente Principiantes” / “Absolute Beginners”
(Inglaterra - 1986) – (108 min, / Cor)
Patsy Kensit, Eddie O’Connell, David Bowie, James Fox, Ray Davies.

Julien Temple estreou-se nas longas-metragens com "The Great Rock'n'Roll Swindle", tendo por base a vida/história dos Sex Pistols, pretendeu na segunda viagem que encetou na Sétima Srte, construir um musical, baseado na novela de Colin MacInnes, onde a memória da Broadway e dos seus filmes se integrassem plenamente.


A Londres de 1958 e o seu Verão explosivo, com as revoltas juvenis em busca de uma juventude eterna e a história/romance do fotógrafo Collin e da modelo Suzette, são o tema de "Absolute Beginners" / “Absolutamente Principiantes”. No entanto, a presença de David Bowie, Sade ou Ray Davies, não conseguem tirar o filme do "limbo" cinematográfico. O que encontramos é uma manta de retalhos, onde a beleza de algumas sequências, acaba sempre por ser aniquilada pelo raccord deficiente, que se vai desenvolvendo perante o nosso olhar, assim como a excessiva narração dos acontecimentos, demonstrando algumas dificuldades encontradas pelo realizador em adaptar o livro de Colin MacInnes.


Julian Temple seguindo os passos dos grandes coreógrafos de Hollywood e tentando conjugar a estética dos video-clips, na qual é mestre, acaba por se afogar nas águas do Tamisa, já que o tão citado Jerome Robbins e o seu "West Side Story" / "Amor Sem Barreiras" estão felizmente a anos-luz desta película. Curiosamente, algumas sequências musicais que nos são oferecidas, ao longo de "Absolute Beginners", vistas isoladamente, acabam por obter uma força e qualidade estética, que simplesmente morrem, quando dadas a ver no contexto da película.


Julien Temple afigura-se-nos, com esta obra, um excelente piloto de fórmula 1, que acelera nas curvas e perde velocidade nas rectas, perdendo evidentemente a corrida. A estética dos video-clips no cinema...não funciona como essas fabulosas coreografias que Busby Berkeley, Gene Kelly ou Vincent Minelli criaram e que nos continuam a encantar perdidamente.


"Absolute Beginners" / “Absolutamente Principiantes” é a prova que a estética dos "video-clips" nunca poderá ser transposta para o cinema como um todo, já que ela funciona como complemento da narrativa cinematográfica, como sucede com o fabuloso filme de Walter Hill, “Street of Fire” / “Estrada de Fogo”, mas não resulta como elemento preponderante e fundamental da obra fílmica, ou seja, um video-clip com duração equivalente ao tempo standard da longa-metragem, nunca será possível, com a qualidade exigida a uma obra cinematográfica, seja ela uma adaptação de um musical da Broadway ou um musical saído directamente dos Estúdios de Cinema. No entanto o filme de Julian Temple acaba por se transformar numa obra para se escutar, devido à escaldante e maravilhosa música de Gil Evans, e muitos dirão então vou optar pelo cd e aí dizemos optem pelo dvd e vejam as sequências musicais de uma forma independente, através da selecção de capítulos e irão descobrir toda a magia e sabedoria de um Mestre do video-clip chamado Julien Temple.

27.5.26

Joseph Losey - "O Criado" / "The Servant"


Joseph Losey
"O Criado" / "The Servant"
(Grã-Bretanha – 1963) – (115 min. - P/B)
Dirk Bogarde, Sarah Miles, James Fox, Wendy Craig.

No filme “Na Lista Negra” / “Guilty by Suspicion”, de Irwin Winkler, encontramos Martin Scorsese a interpretar a figura do cineasta Joe Lesser que, perante o avanço do famoso comité de actividades anti-americanas do senador McCarty, decide deixar Hollywood, porque sabe que já ninguém lhe irá dar trabalho, por se encontrar na Lista Negra dos Estúdios, decidindo fugir durante a noite para a Europa para evitar ser preso.


Na realidade, a personagem a quem Martin Scorsese dá vida é o cineasta Joseph Losey, que nunca escondeu nos seus filmes um certo olhar sobre a sociedade americana, que incomodava muita gente, bastando recordar essa película extraordinária que é “O Rapaz dos Cabelos Verdes” / “The Boy With Green Hair”, um poderoso filme anti-racista, que trouxe fama ao cineasta na época da sua estreia. Colocado na lista de homens a abater pelo temível senador, Joseph Losey foi obrigado a partir de Hollywood e a refugiar-se em Itália onde, para sobreviver, teve que trabalhar em diversos filmes de Série-B, escondendo a sua identidade debaixo de pseudónimos. E só seria em Inglaterra, o seu destino seguinte, que voltaria a assinar com o seu nome os filmes que então irá realizar.


“O Criado” / “The Servant” oferece-nos de forma contida a luta de classes, utilizando o microcosmo da relação entre um jovem aristocrata (James Fox, então em início de carreira) e o seu “fiel” criado de quarto (Dirk Bogarde, em mais uma excelente interpretação).

Tony (James Fox) é um jovem aristocrata que está para se casar com a bela Susan (Wendy Craig), também ela possuidora do mesmo estatuto social, que um dia decide contratar o denominado “criado de quarto”, surgindo a responder ao anúncio um homem discreto e culto, que acaba por ser aceite.


Porém Hugo Barrett (Dirk Bogarde) é um homem temível a todos os níveis que, com os seus bons modos e pequenas opiniões “sem importância”, começa a influenciar decididamente o patrão, passando rapidamente de assuntos triviais e mundanos, para a vida particular e social do seu patrão, terminando por dominá-lo interiormente, sem este se aperceber.

Para se apoderar melhor do controlo do seu amo, convence-o a contratar a sua “irmã” Vera (Sarah Miles) para os trabalhos de cozinha, escondendo que ela é na realidade a sua amante. E quando Hugo Barrett (Dirk Bogarde) começa a encontrar a oposição de Susan (Wendy Craig), perante a influência que ele exerce na casa, consegue convencer o patrão que ela nunca será a esposa de que ele tanto necessita, para brilhar ainda mais na alta sociedade, terminando, com os seus “bons modos”, por convencer o patrão a deixar a mulher que ama.


Lentamente, esta dupla perigosa, não só irá tomar conta da casa londrina, como irá manejar o jovem aristocrata a seu belo prazer, transformando-o numa personagem decadente, espelho perfeito dessa sociedade que Hugo Barrett tanto odeia.

“The Servant”/ “O Criado” surge assim como uma película que nos oferece um retrato cínico e feroz das relações sociais e a respectiva luta pelo poder (a que não será alheio o facto de o seu argumentista se chamar Harold Pinter), utilizando um olhar profundamente impiedoso sobre as respectivas personagens. Basta reparar na forma como Hugo no início rodeia Tony, o seu amo, de atenções e sugestões, para no final desprezar o farrapo humano que conseguira criar, quando se encontra já na posse plena da casa, verificando-se uma total e (im)perfeita inversão de estatutos, transformando-se ele no verdadeiro dono e senhor.


“O Criado” / “The Servant”, que já se encontra editado em Portugal, no formato dvd é uma obra que merece bem ser (re)descoberta.

4.3.26

Arthur Penn - “Perseguição Impiedosa” / “The Chase”


 Arthur Penn
“Perseguição Impiedosa” / “The Chase”
(EUA – 1965) – (133 min. / Cor)
Marlon Brando, Robert Redford, Jane Fonda,
James Fox, Angie Dickinson, E. G. Marshall, Robert Duvall.

Arthur Penn é um cineasta que neste novo século se encontra um pouco esquecido, mas se falarmos que ele é o autor (porque se trata de um verdadeiro autor) de “Bonnie and Clyde”, esse casal de gangsters que fez história, de imediato todos se recordam dele.


Como muitos, iniciou a sua actividade no Teatro, passando depois para a Televisão (NBC), onde na prática fez os seus estudos, tendo tido o seu baptismo de fogo em “Vicio de Matar” / “The Left-Handed Gun” e de imediato ficou associado a uma certa violência no cinema, embora distante daquela que nos iria oferecer Sam Peckinpah, um outro cineasta célebre e pertencente à mesma geração, também ele, infelizmente, um pouco esquecido.

Se olharmos para a filmografia de Arhur Penn, encontramos obras como “O Pequeno Grande Homem” / “Little Big Man”, uma revisão da história do Oeste Americano ou esse “western” nostálgico intitulado “Duelo no Missouri” / “The Missouri Breaks”, para já não falar nessa película espantosa chamada “Quatro Amigos” / “Four Friends”, que maravilhou a minha geração. Com ele trabalharam actores como Marlon Brando, Jack Nicholson, Paul Newman, Warren Beaty, Robert Redford e Dustin Hoffman.


Marlon Brando, o célebre actor do método, foi um dos repetentes e quando o encontramos em “Perseguição Impiedosa” / “The Chase” ele está no auge da sua brilhante carreira, sendo a sua interpretação extraordinária e inesquecível.

“The Chase” é um daqueles filmes que retrata de forma profunda a América interior dos anos sessenta, do século xx, essa América onde o racismo, o ódio e a violência convivem de forma subterrânea e onde um simples fósforo serve para atear a violência, da qual iremos ser espectadores ao longo da película.


Partindo de um argumento de Lilian Hellman, argumentista e dramaturga, companheira de Dashiell Hammett, cuja vida já foi retratada no cinema por Fred Zinneman, no célebre “Júlia”, entramos na vida de uma pequena cidade dominada por um magnata chamado Val Rogers (E. G. Marshall), dono do banco local, mas também de longos territórios onde o petróleo corre e no entanto ele é muito mais do que isso, porque é dono de todas aquelas vidas, até o xerife (Marlon Brando) lhe deve o lugar. E será nesta paz podre que um homem chamado Bubber Reeves (Robert Redford), nascido na cidade, irá servir de rastilho para uma explosão de selvajaria perfeitamente incontrolável.

Bubber Reeves é um daqueles jovens a quem a vida foi sempre madrasta, logo aos seis anos foi acusado de roubar cinquenta dollars, tendo sido enviado para o reformatório, depois de ser obrigado pela mãe a confessar o roubo que não fez, seria o seu amigo Edwin Stewart (Robert Duvall) o autor do pequeno roubo, que irá viver o resto da vida sem remorsos pelo acto praticado. Saído do reformatório, Bubber será sempre um “outsider” e embora conviva com a sua geração na cidade que o viu nascer, acabará por ir para a prisão, porque o seu destino estava traçado à muito, apesar da inocência viver sempre no seu interior.


A fuga de Bubber da prisão e o seu regresso à “pacata” cidade irá despoletar uma série de acontecimentos, que terminarão da pior forma possível, porque a sua presença destabiliza a vida de uma série de famílias. Será este o retrato poderoso que nos é dado ao longo de um dia e de uma noite, oferecido por Arthur Penn. Aqui iremos encontrar a violência e o racismo no seu estado mais “puro”, onde a justiça é feita sempre pelos detentores do capital, e acompanhamos ao longo da película a verdadeira via-sacra de Bubber Reeves.

Marlon Brando representa aqui o homem que pretende impor a lei, mas a sua acção será sempre condicionada por Val Rogers que domina tudo e todos. Inicia-se uma verdadeira caça ao homem quando se sabe da presença do fugitivo na cidade; e se o xerife o pretende proteger e a única forma é a sua prisão, já toda uma população sedenta de sangue irá impedir por todos os meios que isso aconteça.


Anna Reeves (Jane Fonda) é a única pessoa que pode proteger Bubber Reeves, como ele bem sabe, mas até ela o traiu porque mantém uma relação com o filho do magnata. Porém, tanto Anna como Jake Rogers (James Fox) irão fazer tudo para o salvar de ser linchado, pagando o segundo com a própria vida pelo seu gesto, porque a multidão fica incontrolável ao saber que Bubber se encontra refugiado num cemitério de automóveis, uma das sequências mais perturbantes do filme.

Mais uma vez a interpretação de Marlon Brando é espantosa, tendo dado até diversos contributos para a realização, embora por vezes Arthur Penn não tenha aceitado as suas sugestões, ficando célebre a sequência em que o xerife é violentamente agredido na esquadra por três dos homens que pretendem saber o local onde Bubber se esconde e onde descobrimos uma das famosas assinaturas de Arthur Penn.


Depois temos todas as histórias das pequenas e mesquinhas vidas de uma população que vive virada para si própria, desde o adultério à divisão de classes, passando pelo pequeno valor que tem a diferença da cor da pele, (ou seja nenhum, como veremos, já que o xerife Calder é obrigado a prender o negro que esconde Bubber, para lhe salvar a vida). Por outro lado encontramos também aqui aquelas personagens que, com a “melhor das intenções”, vão espalhando a intriga em busca da violência, tudo a bem da comunidade.

E quando o xerife Calder (Marlon Brando) se encaminha para a esquadra, levando preso Bubber, rodeado pela multidão que sedenta de sangue assiste aos acontecimentos, iremos assistir à sua morte por um dos homens que anteriormente tinha agredido selvaticamente o xerife. Assassinato que imita o de que foi alvo Lee Oswald o “assassino oficial” de John Kennedy.


Em “The Chase” Arthur Penn oferece-nos esse sul que tantas vezes serviu de tema a Tennesse Williams e que tão bem Richard Brooks levou ao écran em filmes como “Corações na Penumbra” / “Sweet Bird of Youth ou “Gata em Telhado de Zinco Quente” / “Cat on a Hot Tin Roof”.

Se alguns falaram na época em intervenções do produtor Sam Spiegel (um dos mais importantes dos anos sessenta, recorde-se a sua colaboração com David Lean), ela nunca irá alterar a força que este filme possui, a qual se mantém passado meio-século sobre a sua feitura.

Descobrir “The Chase” / “Perseguição Impiedosa” é entrar pela porta grande do cinema.