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4.7.26

Alfred Hitchcock - “O Caso Paradine” / “The Paradine Case”


Alfred Hitchcock
“O Caso Paradine” / “The Paradine Case”
(EUA – 1947) – (125 min. - P/B)
Gregory Peck, Alida Valli, Louis Jordan, Ann Todd, Charles Laughton.

Como a maioria sabe, deve-se a David O’Selznick a ida de Alfred Hitchcock para a América, estreando-se com o célebre “Rebecca” e nem sempre foi fácil a colaboração entre estes dois homens, mas ofereceram-nos filmes inesquecíveis. “O Caso Paradine” / “The Paradine Case” encerra a associação entre o poderoso produtor e o Mestre do Suspense. Estamos no ano de 1947 e mais uma vez é Selznick que impõe os actores, aliás veja-se a forma como o nome de Alida Valli surge em destaque no genérico, simplesmente com um Valli de grafia diferente, que se destaca de imediato dos restantes nomes do elenco, embora nem venha em primeiro lugar.


O argumento de “O Caso Paradine” nasce de uma novela escrita pela esposa do cineasta, Alma Reville, tendo Alfred Hitchcock investido todo o seu saber neste filme em que logo de início nos deparamos com a figura sedutora de Alida Valli, mas que nos transmite também uma certa inocência, perante a tranquilidade com que recebe a acusação que lhe é feita pela polícia: ter morto o marido, o Coronel Paradine, um homem muito mais velho do que ela e cego, de quem ela era os olhos.


O caso é entregue a um advogado famoso pelos seus resultados em tribunal de seu nome Anthony Keane (Gregory Peck), cuja vida familiar com a esposa Gay (Ann Todd) é o retrato perfeito da harmonia conjugal. Porém, quando Anthony Keane conhece na prisão Mrs. Paradine, todos os alicerces em que se baseia a sua vida conjugal parecem ceder e depois de lhe prometer que irá conseguir provar a sua inocência, recorde-se que ela é acusada de ter envenenado o marido, decide construir uma defesa em que acusa Andre Latour (Louis Jourdan), o antigo criado e homem de confiança do Coronel Paradine, com quem este serviu no Exército, como o autor do envenenamento.


E aqui desde logo percebemos como o advogado Anthony Keane (Gregory Peck) se encontra fascinado, tal como o espectador, por aquela mulher que clama inocência, mas que possui no seu interior um segredo que pretende esconder de todos.


Durante a visita que Keane faz à casa onde viviam os Paradine tenta falar com o criado, para saber um pouco mais e assim o poder incriminar, mas Andre Latour esquiva-se à conversa, desaparecendo. Ao regressar a Londres, recorde-se que a acção da película se passa em Inglaterra, Anthony Keane transmite à sua cliente o que pretende fazer: apresentar Latour como responsável da morte do Coronel Paradine.


Para sua grande surpresa, e de imediato, Maddalena-Anna Paradine recusa-se a aceitar essa opção e ordena que Latour não seja chamado a depor. A partir de então Anthony Keane (Gregory Peck), perdidamente apaixonado pela mulher acusada, percebe que tem de lutar em duas frentes, conquistar Mrs. Paradine e incriminar André Latour (Louis Jordan) no tribunal, ao mesmo tempo que se afasta cada vez mais da esposa, que de imediato percebe o fascínio que o marido sente pela acusada.

A forma como Alfred Hitchcock joga com a luz, onde as sombras das diversas personagens surgem como a sua própria consciência em dilema profundo e a maneira como nos mostra, num plano sequência genial, a entrada de André Latour (Louis Jordan) no tribunal (1), marcam esteticamente “O Caso Paradine” / “The Paradine Case”, ao mesmo tempo que o olhar de Alida Valli fala o tempo todo com o advogado durante o julgamento, implorando primeiro para deixar em paz Latour, para depois o fuzilar quando este acusa Latour de ser o responsável pela morte do coronel Paradine, numa derradeira tentativa de Keane para salvar a mulher por quem se apaixonou, esquecendo tudo o que aprendeu nos tribunais, ao mesmo tempo que abandona a sua esposa (Ann Todd), que sofre sentada nas galerias a assistir ao julgamento


À medida que o tempo passa, percebemos como é complexa a relação de Mrs. Paradine com André Latour (num excelente desempenho de Louis Jourdan), mas para o que ninguém estava preparado, nem o próprio Anthony Keane, é para a revelação de Maddalena-Anna Paradine, quando tem conhecimento do suicídio de Latour. E aqui Alfred Hitchcock oferece-nos a auto-destruição da carreira de um homem, com o discurso que Anthony Keane faz (fabuloso Gregory Peck), após Mrs. Paradine confessar ser ela a autora do crime.


Maddalena-Anna Paradine e André Latour estavam apaixonados e eram amantes, mas ele nunca concordou em eliminar o Coronel Paradine das suas vidas. Por outro lado ela transforma-se de Ré em Acusadora, quando condena, perante o tribunal, o seu advogado Anthony Keane de se encontrar apaixonado por ela e de ter destruído a vida de um inocente, no supremo clímax da película, onde o ódio e a impotência são bem visíveis no rosto dos protagonistas.

Durante largo tempo “O Caso Paradine” / “The Paradine Case” foi um dos filmes menos falados de Alfred Hitchcock, o que na verdade se trata de uma enorme injustiça, porque nele descobrimos uma das mais complexas histórias de amor que nos foi dado ver por Alfred Hitchcock em toda a sua carreira, basta recordar “Vertigo” ou “Notorious”, mas só para vermos o desempenho verdadeiramente felino de Alida Valli, a queda no abismo de Gregory Peck e o remorso de Louis Jordan, vale a pena descobrir esta película.


(1) – Alfred Hitchcock contou desta forma a François Truffaut a construção do célebre plano: “Filmei esse plano em dois takes. A câmara está sobre Alida Valli e, por cima do ombro dela vê-se ao longe Louis Jourdan que entra e passa por trás dela, dirigindo-se para o banco das testemunhas. Comecei por fazer uma panorâmica de 360 graus, a mostrar Jourdan a andar da porta até ao banco, mas sem Alida Valli. A seguir filmei o grande plano de Alida Valli diante dum écran de transparência, sentando-a numa cadeira giratória para conseguir o “revolving effect”. Quando a câmara a abandona para voltar a Louis Jourdan, tive que a fazer desaparecer da tela. Foi complicadíssimo de filmar, mas muito interessante”.

1.7.26

Alfred Hitchcock - "Difamação" / "Notorious"


Alfred Hitchcock
"Difamação" / "Notorious"
(EUA – 1946) – (101 min. – P/B)
Ingrid Bergman, Cary Grant, Claude Rains, Louis Calhern, Leopoldine Konstantin.

“Notorious” / “Difamação”, como todos sabemos, é uma das obras-primas de Alfred Hitchcock e, nesta história de espionagem, vive uma das mais belas histórias de amor do cinema. Como não podia deixar de ser não se trata de um par, mas sim de um triângulo, composto por Devlin (Cary Grant), Alicia (Ingrid Bergman) e Sebastian (Claude Rains). E o célebre MacGuffin, como explicou Hitch, é uma amostra de urânio escondida numas garrafas de vinho. E nunca é demais referir que na época poucos sabiam a que se destinava o célebre urânio, chegando-se a falar que Hitchcock foi vigiado por agentes do FBI, quando se conheceu o argumento. Estamos assim perante um verdadeiro enredo de um filme de espionagem, género tão do agrado do Mestre do Suspense.


Alicia Huberman (Ingrid Bergman) assiste, no início do filme, ao julgamento do pai, um espião nazi entretanto descoberto e preso pelas autoridades americanas. Este tipo de relação familiar já nos tinha sido oferecida em “Correspondente de Guerra” / “Foreign Correspondent” (1942), porque na verdade todos sabemos que, durante a Segunda Guerra Mundial, foram muitos os espiões alemães a fazerem o seu trabalho no território do adversário, como Alfred Hitchcock nos mostrou também nessa outra película intitulada “Sabotagem” / “Saboteur” (1942). Iremos assim assistir à condenação de Huberman e à saída da sua filha do tribunal tentando, por todos os meios, fugir às perguntas dos jornalistas.


A condenação do seu pai leva-a a tentar encetar uma nova vida e será assim que a iremos encontrar a dar uma festa em sua casa para os amigos, refugiando-se no álcool para esquecer a perda do pai. Será também aqui que iremos encontrar Devlin (Cary Grant) pela primeira vez, cuja identidade desconhecemos. Alicia abandona a festa e decide andar pela estrada fora no seu carro e Devlin faz-lhe companhia, seguindo todos os seus gestos com a máxima atenção, porque ela acelera demasiado e está perfeitamente ébria, até que são detidos por um polícia e só então ficamos a saber, tal como Alicia, a verdadeira identidade de Devlin: um agente do governo encarregado de a vigiar. Mas com a passagem do tempo ambos se apaixonam, embora Devlin coloque o dever acima do amor e quando ele a informa que necessita dos seus serviços para vigiar um grupo de nazis suspeitos, que se encontram no Brasil, ela irá aceitar essa missão.


Alexander Sebastian (Claude Rains), antigo amigo do pai de Alicia, nutre uma profunda paixão por ela e quando se encontram ele não esconde os seus desejos. E será assim que Devlin irá mandar a mulher que ama para os braços de outro homem, depois dela ter aceite a perigosa missão. Iremos então assistir ao conflito interior que irá tomar conta de Devlin, que tal como Alicia aceita as sugestões dadas por Paul Prescott (Louis Calhern), o responsável pela espionagem americana no Rio de Janeiro, mantendo-se Devlin como o agente de ligação de Alicia.


Mas ao contrário de Devlin (Cary Grant), Sebastian (Claude Rains) não esconde o seu amor pela jovem e quando ele lhe propõe casamento tudo se irá complicar, embora Alicia (Ingrid Bergman) cumpra à risca as ordens que lhe são dadas: casar com o homem que não ama para descobrir o que se passa naquela casa em que se reúnem nazis. E nunca é demais lembrar o esforço de guerra feito pelos americanos na chamada política de boa vizinhança com os países da América Latina, onde algumas simpatias pelo regime de Hitler eram por vezes bem visíveis. E será assim que Alfred Hitchcock irá introduzir a chave do mistério que rodeia aquela casa, onde cientistas alemães se reúnem.


Alfred Hitchcock irá introduzir o “suspense” de forma lenta e gradual ao longo da película, ao acompanharmos o percurso de Alicia pela casa, sempre vigiada pela possessiva mãe de Sebastian (Leopoldine Konstantin), que segue a nora para todo o lado, em busca do segredo que desconhece. E será numa festa dada pelos Sebastian que Alicia revela a Devlin, então presente como amigo dela, que algo se encontra escondido na adega da casa, as célebres garrafas com urânio, e será nesta longa sequência, em busca do célebre MacGuffin, tratada por Hitchcock com enorme sabedoria, que Sebastian irá perceber que a sua mulher é uma espia. Decide então confessar o sucedido à mãe, ao mesmo tempo que esconde dos restantes cúmplices alemães a terrível descoberta porque, melhor do que ninguém, ele sabe que eles não irão ter contemplações com Alicia nem mesmo com ele, porque por ali não se olha a meios para atingir fins e cometer um erro dessa envergadura é imperdoável.


Até aqui a forma de agir de Devlin, para o espectador, é verdadeiramente antipática, porque se trata de um homem que trocou o amor por uma causa, mas quando ele percebe que a mulher que ama nunca irá sair daquela casa, tudo muda de figura, porque ela até está a ser envenenada, lentamente, com arsénico. Hitchcock cria então o verdadeiro clímax do filme nesse momento em que Devlin (Cary Grant) entra na casa para levar Alicia (Ingrid Bergman) dali para fora. E aqui Hitchcock, mais uma vez, decidiu sabotar a censura e o famoso código Hays, quando infringe as regras da duração de um beijo, estipuladas pelo infelizmente célebre censor, pondo Devlin a beijar de forma ininterrupta a bela e doente Alicia, no cimo das escadas, enquanto a tenta arrastar para fora da Mansão.


O par de amantes, ao ser descoberto, consegue no entanto sair daquele antro onde se encontram reunidos os conspiradores nazis, simplesmente porque Sebastian se recusa a confessar aos seus cúmplices que a sua mulher é uma espia, deixando-a por amor seguir o seu caminho, levada pelo seu rival, porque é mesmo disso que trata “Notorius” / “Difamação”: a luta de dois homens pela posse do corpo amado. E mais uma vez Alfred Hitchcock nos oferece a essência do seu cinema, criando ao longo de toda a película um suspense gradual, que irá atingir o seu clímax na sequência final.


“Difamação” / "Notorious" surge assim, como um dia afirmou François Truffaut, como “a quintessência de Hitchcock”. Uma obra que nos fascina cada vez mais com a passagem do tempo e onde a câmara do cineasta filma, como ninguém, os sentimentos das diversas personagens, basta ver como o olhar de cada um deles nos é oferecido para descobrirmos como muitas vezes o cinema consegue filmar a alma.

11.6.26

Alfred Hitchcock - "Correspondente de Guerra" / "Foreign Correspondent"


Alfred Hitchcock
"Correspondente de Guerra" / "Foreign Correspondent"
(EUA – 1940) – (120 min. - P/B)
Joel McCrea, Laraine Day, Herbert Marshall, George Sanders, Albert Basserman.

Quando alguém programa um ciclo de cinema sobre o papel do jornalismo no mundo, há sempre um filme que figura na lista e esse filme chama-se “Foreign Correspondent” / “Correspondente de Guerra” e ele é assinado por Alfred Hitchcock ou melhor o Hitch americano, porque se trata da sua segunda película em Hollywood, a primeira como se devem recordar foi “Rebecca”. E aqui o cineasta partiu mesmo da América, em rodagem pela Holanda e Inglaterra, essa mesma Inglaterra que já lutava sozinha contra a poderosa máquina de guerra alemã. Estamos assim perante uma contribuição do Mestre para o esforço de guerra dos seus compatriotas, recorde-se que a América nesta época, 1940, ano da produção do filme, ainda cultivava o seu famoso isolacionismo, só entrando no conflito após o ataque japonês a Pearl Harbour.


Mas a América sempre seguiu atentamente os acontecimentos e a nossa história trata disso mesmo: quando o Director do jornal “Globe”, farto das notícias recebidas dos seus diversos correspondentes, decide enviar um repórter criminal para o terreno, transformando-o no verdadeiro correspondente de guerra, porque para tal tarefa é necessário um homem de acção e nada melhor do que Johnny Jones (Joel McCrea), que possui um curriculum cheio de atritos, sempre em busca da informação preciosa, ele até se tinha envolvido numa reportagem anterior numa cena de pugilato com a autoridade.


Será este homem, que bateu num polícia, que irá partir para Londres na véspera do início da guerra, para fazer a cobertura dos acontecimentos. Na mala Johnny Jones leva já marcado um encontro com Stephen Fischer (o espantoso Herbert Marshall), líder de uma Organização Pacifista, que lhe irá dar indicações preciosas para a sua missão de correspondente. Ao chegar a Londres descobre que o seu colega de jornal, residente na cidade, apenas envia os relatórios do governo e pouco mais, dedicando-se a uma vida pacata e desinteressante. Será a caminho de um jantar/conferência que irá conhecer o famoso diplomata holandês Van Meer (Albert Basserman), aproveitando uma boleia de táxi que forçou, seguindo as suas regras de jornalista intrometido à caça de uma história, explosiva de preferência.


Durante o jantar irá conhecer a bela Carol (Laraine Day), filha do dirigente pacifista, ao mesmo tempo que descobre que o célebre diplomata desapareceu do jantar, apesar dele lhe ter dado boleia e de ter entrado com ele na sala. Por ali algo não bate certo.

Após uma viagem à famosa terra das túlipas, irá assistir ao assassínio do diplomata, mesmo na sua frente e aqui temos logo uma das mais belas sequências do filme, com a fuga do assassino e a sua perseguição por Jones (Joel McCrea), que o irá levar a uma zona de moinhos, terminando por descobrir que o morto era um sósia do diplomata e que este fora raptado por uma organização desconhecida que pretende saber o teor de uma cláusula secreta, existente na alínea 27 de um Tratado, nascendo aqui o célebre MacGuffin de Alfred Hitchcock, porque nunca iremos saber o teor da célebre cláusula secreta.


A pouco e pouco, iremos percebendo que a Organização Pacifista esconde uma célula terrorista, chefiada pelo “bem-falante” Stephen Fischer (Herbert Marshall), que perante a presença incómoda de Jones (Joel McCrea) decide dar ordem para o eliminarem. Se por um lado iremos ter as diversas tentativas levadas a cabo pelos homens de Fischer, por outro lado a sua filha, que não suspeita das actividades do pai, começa a apaixonar-se pelo intrépido correspondente americano. Mas Jones não irá estar só na sua luta, porque um outro jornalista, Herbert Folliott (magnifico George Sanders), que há muito seguia as actividades do grupo pacifista decide juntar-se a ele. Estes dois homens tudo farão para encontrar Van Meer, acabando por descobrir o próprio Fischer a interrogar o diplomata, usando métodos “dignos” da Gestapo.

Alfred Hitchcock consegue, com este “Correspondente de Guerra” / “Foreign Correspondent”, oferecer uma obra perfeita de espionagem, mas também de propaganda pela causa aliada e nunca será demais fixar o final da película quando Jones, já numa Londres a ser bombardeada pela aviação nazi, lança o apelo à intervenção americana. Mas antes deste final, iremos assistir a uma das mais espantosas sequências do cinema de Alfred Hitchcock, quando o avião que transporta para a América, Fischer e a filha e com Jones e Folliott também a bordo é abatido por um navio alemão.


Toda a sequência é filmada de uma forma espantosa, com a queda do avião no oceano e a luta pela sobrevivência dos seus passageiros e aqui o falso líder pacifista, espião alemão, decide mergulhar no oceano, impedindo a asa do avião de se afundar, salvando desta forma os poucos sobreviventes que se encontram nela, sendo profundamente curioso o retrato que Hitchcock nos oferece do espião alemão, um homem com uma certa moral, conhecedor do mal. que se esconde por detrás da ideologia que comandava o seu país.

Recolhidos por um navio americano, Johnny Jones e Herbert Folliott irão dar uma lição de jornalismo, relatando a notícia via telefone, iludindo o capitão do navio que tinha proibido a transmissão do sucedido. Iremos assim entrar nesse território que o cineasta cultivou, a pontuação do humor no interior da tragédia, para mais tarde, já no final, surgir esse esforço de guerra que já referimos, com a presença de Johnny Jones junto aos microfones da rádio relatando os acontecimentos de uma guerra que iria durar longos anos, para mal de milhões de pessoas.


Mais uma vez Alfred Hitchcock revelou todo o seu saber de cineasta, oferecendo em “Correspondente de Guerra” / “Foreign Correspondent” uma das suas obras-primas, por sinal muito pouco conhecida.

21.5.26

Alfred Hitchcock - “Ricos e Estranhos” / “ Rich and Strange”


Alfred Hitchcock
“Ricos e Estranhos” / “ Rich and Strange”
(Inglaterra – 1931) – (79 min. - P/B)
Henry Kendall. Joan Barry, Betty Amann, Percy Marmont.

Até os grandes cineastas tem a sua obra “menor” e aqui, Alfred Hitchcock, não foge à regra, fruto também da época e das condições em que o filme foi rodado, já que ao longo da película o cineasta irá apontar sempre em diversas direções, nunca optando por nenhuma em particular, ficando sempre a meio caminho


Porém, se julgam que não irão encontrar aqui a mão do Mestre do Suspense, estão muito bem enganados, porque logo no plano sequência com que abre o filme, esse escritório quase kafkiano onde trabalha Fred Hill (Henry Kendall), é-nos oferecido desde logo um olhar profundo durante esses segundos que antecipam a chegada do fim de mais um dia de trabalho, assim como a forma como nos é mostrada a saída dos funcionários, depois passamos para essa aventura de Fred que se chama abrir o chapéu-de-chuva, até que mergulhamos com ele no metropolitano e durante essa viagem para casa iremos entrar no território do burlesco.

Ao chegarmos a casa, na companhia do protagonista, conhecemos a sua esposa Emily (Joan Barry) e percebemos de imediato que por ali se vive com algumas dificuldades económicas mas com muito amor. O desejo de viajar de Fred Hill é um daqueles sonhos constantemente adiados e quase inalcançáveis, até ao momento em que uma carta da sua tia lhe chega às mãos, informando da decisão de lhe enviar antecipadamente o dinheiro da herança a que ele teria direito após a sua morte. De imediato toda a atmosfera daquela casa se transforma e o casal Hill decide partir para Paris. E na cidade das luzes eles irão desfrutar de todos os prazeres mundanos, seguindo depois em cruzeiro para o Oriente, sendo a bordo do navio que toda a intriga, digamos amorosa, se irá desenvolver.


Fred, no início da viagem, irá revelar-se um verdadeiro marinheiro de água doce, sendo invadido de imediato pelo enjoo que o irá perseguir nos primeiros dias, obrigando-o a permanecer na cama e será precisamente durante esse período que Emily irá conhecer um distinto cavalheiro, o Comandante Gordon, que lhe irá fazer companhia ao longo da viagem, começando ambos a sentir uma certa atração. E aqui, mais uma vez, Alfred Hitchcock vai alterando o registo, consoante os protagonistas, introduzindo uma personagem feminina, que irá andar ao longo da viagem em “caça” de companhia, pontuando com a comédia o possível melodrama.

Começa-se então a desenhar o esboço do adultério, quando Emily e Gordon se beijam na ponte longe dos olhares dos outros passageiros. Mais tarde, quando Fred regressa à vida do cruzeiro e descobre uma Princesa a bordo, deixa-se fascinar por ela, começando a esquecer-se da mulher, ao mesmo tempo que Gordon (Percy Marmont) se vai aproximando com a máxima diplomacia, percebendo perfeitamente o que se está a passar e nunca revelando a verdadeira identidade da Princesa (Betty Amann) à sua amada. Poderemos dizer assim que o par inicial do filme acaba por arranjar novos parceiros, começando a olhar o presente como uma memória.


Na véspera de chegarem ao seu destino, Singapura, os dados estão lançados e se Fred está disposto a seguir a sua vida com a Princesa, já Emily permanece indecisa em relação ao amor do Comandante e mesmo quando este lhe confessa os seus sentimentos, ela decide regressar para o marido para o reconquistar, porque já sabe que a Princesa não passa duma simples aventureira. Enganado e roubado, Fred reconcilia-se com a mulher e decide regressar a Londres, mas a viagem irá correr bastante mal, o navio afunda-se, sendo depois recolhidos por um junco chinês. E aqui Alfred Hitchcock oferece-nos, mais uma vez, a sua mordacidade, porque a comida que os chineses dão a comer aos dois náufragos e que eles adoram é o gato que estava a bordo.


E com o regresso do casal Hill ao seu quotidiano de sempre, nessa Londres escura e chuvosa, termina este “Rich and Strange” / “Rico e Estranho” de Alfred Hitchcock onde a moral “ainda é uma criança”.

Nota: A edição disponível em dvd no nosso país apresenta-se em cópia restaurada.

17.5.26

"Hitchcock - Calafrios" / "Stories To Make Your Blood Run Cold"


"Hitchcock - Calafrios" / "Stories To Make Your Blood Run Cold"
"Alfred Hitchcock's Mystery Magazine"
Páginas: 216
Vários Autores
Impala

Na verdade sempre que terminamos de ler um dos vinte e um contos que constituem este volume organizado por Alfred Hitchcock temos um calafrio e assim o título em português é perfeito, porque nem sentimos o sangue correr nas veias, apenas desejamos nunca estar no lugar dos protagonistas, sejam eles heróis ou vilões.


Mas a Arte da escrita destas "short-stories" convida-nos a que elas sejam lidas de forma moderada e sei que me estou a repetir, mas é sempre convidativo fazer uma pausa, seja para beber um café, fumar um cigarro, nestes tempos do politicamente correcto ou dar uma "cachimbada", caso ainda tenha dentes para isso, porque muitas vezes ao terminarmos a leitura de um destes contos, como sucede com o genial "Resgate em Crying Woman", que abre o volume, somos levados a reler os últimos parágrafos e ficamos perplexos, para não dizer gelados!

Alguns destes contos tiveram adaptação televisiva nas famosas séries do Mestre do Suspense: "Alfred Hitchcock Apresenta" e "Alfred Hitchcock Hour".

3.4.26

Alfred Hitchcock - "A Casa Encantada" / "Spellbound"


Alfred Hitchcock
"A Casa Encantada" / "Spellbound"
(EUA – 1945) – (111 min. - P/B)
Ingrid Bergman, Gregory Peck, Michael Chekov, Leo G. Carroll.

“A Casa Encantada” / “Spellbound” foi um dos filmes mais rentáveis de toda a carreira de Alfred Hitchcock; recorde-se que foi feito logo a seguir ao final da Segunda Grande Guerra. Anteriormente o cineasta realizara em Inglaterra dois documentários sobre o denominado esforço de guerra dos aliados, “Aventure Malgache” e “Bon Voyage”, um género a que não regressaria, como todos sabemos.


A escolha dos protagonistas para esta película recaiu sobre a bela Ingrid Bergman e Gregory Peck, ambos no auge das suas carreiras, e mais uma vez temos o poderoso produtor David O Selznick a ter a última palavra. Dizemos isso porque a película aborda o tema da psicanálise e Alfred Hitchcock decidiu ter como colaborador na sequência do sonho o célebre Salvador Dali, esse sonho que irá abrir muitas portas para a bela Dra. Constance Peterson (Ingrid Bergman) compreender o passado recente de John Ballantine (Gregory Peck). A famosa sequência ficou célebre e tinha uma extensão de 25 minutos mas Selznick decidiu, por razões de economia narrativa, reduzi-la para os cinco minutos que hoje em dia são conhecidos.


“Spellbound” / “A Casa Encantada” conta-nos a história de John Ballantine (Gregory Peck), que um belo dia surge numa clínica assumindo a identidade do novo director, o Dr. Anthony Andrews, ficando desde logo fascinado pela beleza da fria Dra. Constance Peterson (Ingrid Bergman), que esconde de forma bem subterrânea os seus desejos de todos, como iremos assistir logo no início do filme, mas que irá sucumbir nos braços de John Ballantine, para grande espanto dos seus colegas incluindo o Dr. Murchinson, que vai deixar a clínica e reformar-se, sendo substituído por Anthony Andrews. Mas no dia em que Andrews é chamado para uma operação, termina por desmaiar perante o espanto de todos e será a partir daqui que Constance percebe que algo se passa na mente dele, porque já anteriormente num almoço ele tinha revelado sintomas estranhos ao olhar as linhas paralelas que ela tinha feito na toalha branca da mesa com o talher. E no dia em que ela decide comparar a assinatura dele com a existente num livro de sua autoria, percebe que ele não é quem afirma ser.


As razões que levam a médica a seguir John Ballantine (Gregory Peck), que entretanto foge da clínica deixando-lhe uma carta, revelam-se como o fruto dessa paixão que ela sente por ele e quando se encontram no hall do hotel em New York, já a polícia está no seu encalço. Temos aqui uma sequência muito digna do Mestre, entre o caçador de beldades, a médica e o detective do hotel, não faltando a célebre aparição do cineasta a sair do elevador ao lado de Gregory Peck.

Em “A Casa Encantada” / “Spellbound”, Ingrid Bergman é o espelho perfeito da beleza e quando partimos com o par rumo à cidade onde habita o antigo professor de Constance, uma personagem bem sábia e cujos traços físicos se aproximam bastante do célebre Sigmund Freud, percebemos que em breve iremos descobrir as razões da amnésia de John Ballantine.


E nada melhor como regressar ao local onde este esteve, na companhia do verdadeiro médico, situado numa estância de ski, sendo aqui que a verdade irá sair das profundezas da sua mente, para a luz da vida iluminar o amor para sempre. Iremos ter então a leitura do significado do sonho criado por Salvador Dali e saberemos então onde se esconde a verdade. Essa verdade e conhecimento que Constance Peterson (Ingrid Bergman) irá levar ao verdadeiro responsável pela morte do Dr. Anthony Andrews.

Na época da sua estreia, “Spellbound” / “A Casa Encantada” arrastou multidões de espectadores e devido ao tema tratado, a psicanálise (segundo alguns de forma bem ligeira), passou a andar nas “bocas do mundo”, levando-a para o interior da Sétima Arte que irá dar vida cinematográfica às célebres teorias de Sigmund Freud, aliás bem presentes logo no início da película com a sequência da ninfomaníaca.


“A Casa Encantada” / “Spellbound” permanece, nos dias de hoje, como uma das obras-primas da filmografia de Alfred Hitchcock.

22.2.26

Alfred Hitchcock - “Número 17” / “Number Seventeen”


Alfred Hitchcock
“Número 17” / “Number Seventeen”
(Inglaterra- 1932) – (63 min - P/B)
Anne Grey, Leon M. Lion, John Stuart, Donald Calthrop, Barry Jones.

Mais uma vez Alfred Hitchcock decide adaptar ao cinema uma peça teatral, compartilhando esse trabalho com a sua esposa Alma Reville, cuja importância ao lado do marido na escrita cinematográfica ainda está por fazer. “Número 17” não esconde as suas origens teatrais, já que a acção se passa em dois locais precisos: a casa abandonada e a perseguição no comboio, sendo de referir o uso de maquetes e miniaturas eléctricas, no segundo local da acção, como antepassados dos actuais efeitos especiais, por sinal bem notórios durante a perseguição, mas que não tiram de forma alguma o valor à arte e engenho deste filme de Alfred Hitchcock.


No início da película, numa noite ventosa, descobrimos um chapéu a rodar pelo passeio levado pelo vento que só irá concluir a sua viagem junto de uma porta de uma casa que se encontra para alugar, que possui o número 17. A noite já se tinha instalado e quando vemos um vulto a apanhar o chapéu não lhe vemos o rosto. Mas uma luz percorre as diversas janelas do prédio e o homem “curioso” decide entrar para ver o que se passa no seu interior, acabando por encontrar um cadáver e um mendigo (um marinheiro sem barco), que se encontra ali refugiado do frio e da noite.


Desconhecemos a identidade destas três estranhas personagens e só quando surge uma quarta personagem, uma rapariga que cai no interior da casa através de uma abertura no telhado, ficamos a saber que o morto é o seu pai. Se o mendigo só pretende fugir dali, já o homem enigmático que entrou na casa recusa-se a chamar a polícia, até que lhe batem à porta e surge um casal que, à meia-noite, vem visitar a casa, adensando ainda mais o enigma, já que com eles entra uma outra personagem desconhecida de todos e que irá permanecer no interior da misteriosa casa, ao mesmo tempo que o cadáver desaparece.


Alfred Hitchcock, ao não nos fornecer a identidade dos diversos protagonistas, convida-nos a entrar neste jogo de "suspense", obrigando-nos a entrar nele como se fosse uma charada, porque quase todos escondem a sua identidade real e não seremos nós aqui a desvendar o segredo da história porque não há nada como ver o filme, já que está disponível no nosso país numa excelente edição em dvd. Mas não resistimos a dar algumas pistas, porque por aqui existe um polícia, um grupo de ladrões e alguns inocentes.


Durante a primeira parte da película, Alfred Hitchcock joga de forma excelente com as sombras projectadas pelos diversos protagonistas da história, ao andarem no interior da casa sem luz, à luz de velas, num trabalho espantoso do director de fotografia John Cox, onde o expressionismo fica bem patente. Durante a segunda parte do filme nasce a célebre perseguição, por sinal muito pouco ortodoxa em que, num autocarro cheio de passageiros, o detective persegue os ladrões que vão num comboio para apanharem um barco para atravessar o Canal da Mancha.


“Número 17” / “Number Seventeen” tratou-se de uma encomenda da British International e Alfred Hitchcock saiu-se muito bem desta adaptação teatral, repare-se que durante a perseguição os diálogos são escassos porque a acção fala por si e a forma como é feita a montagem é reveladora dos intuitos do cineasta, por outro lado Hitchcock não hesita em pontuar com diversos momentos de humor o desenvolvimento da história, ao longo da primeira parte. Por aqui iremos pois descobrir elementos que irão surgir muitos anos depois na obra do cineasta: o morto (Terceiro Tiro), a escada sinónimo de abismo (Vertigo), o comboio (A Desaparecida) e o autocarro (Cortina Rasgada). “Número 17” de Alfred Hitchcock possui todos os elementos que fizeram do cineasta britânico o inconfundível Mestre do Suspense!

19.2.26

Alfred Hitchcock - “Jogo Fraudulento” / “The Skin Game”


Alfred Hitchcock
“Jogo Fraudulento” / “The Skin Game”
(Inglaterra – 1931) – (78 min. - P/B)
Edmund Gwenn, Phyllis Konstam, Jill Esmond, C.U. France, Helen Haye, Edward Chapman.

“The Skin Game” é o quarto filme sonoro de Alfred Hitchcock, se contarmos a segunda versão de “Blackmail” / “Chantagem” (existe uma primeira inteiramente muda) e nesta matéria de sonoro o cinema ainda estava a dar os primeiros passos na época, como é possível observar ao longo do filme, através das diversas soluções optadas pelo cineasta para contornar esses obstáculos que ainda surgiam na captação dos diálogos.


Estamos assim em mais uma adaptação cinematográfica de uma peça de teatro, tanto “Juno and The Paycock” como “The Farmer’s Wife” eram provenientes da mesma área e Alfred Hitchcock muitas vezes olhava de lado para estes objectos fílmicos. Neste caso concreto, estamos perante uma adaptação de uma peça de John Galsworthy (o famoso autor da “Família Forsythe”), seria o próprio Hitchcock, com a sua mulher Alma, a assinarem o argumento cinematográfico. Vamos assim entrar pela porta grande do Teatro, na sala de Cinema, para conhecermos um duelo entre duas famílias pela posse da mesma terra. A família de um Industrial, os Hornblower, e a família Aristocrática, os Hillcrest, que não irão olhar a meios para atingir os seus fins, num verdadeiro jogo de gato e do rato.


Edmund Gwenn (Hornblower) é um industrial que pretende adquirir o máximo de terras para implantar as suas indústrias, vendo nelas uma forma de progresso e civilização, mas também é um homem de poucos escrúpulos, porque pretende despejar das terras as famílias camponesas que sempre ali viveram, para depois construir casas para os seus operários.


Já os Hillcrest começam a ver o seu “território sagrado” a ser invadido por uma civilização que irá aniquilar a sua forma de vida, decidindo lutar pelos seus direitos, quando uma parcela de terreno é posta à venda pela proprietária, venda essa que será efectuada em leilão. E como sucede sempre nestes casos de disputa, dois membros das duas famílias amam-se, longe dos olhares dos respectivos pais, Jill Hillcrest (Jill Desmond) namora com um dos filhos de Hornblower, sendo a disputa entre os respectivos pais por vezes um tema de discussão.


Logo no início do filme iremos assistir a uma discussão de Hornblower com o casal Hillcrest (onde a mulher parece ter o controlo da situação da casa) e de imediato percebemos que o leilão da propriedade será um verdadeiro campo de batalha. O longo diálogo travado, entre eles, leva-nos até ao interior do Teatro, mas quando Hitchcock nos envia para a sala onde iremos assistir ao leilão, oferece-nos todo o seu saber cinematográfico na forma como filma toda a sessão, com a câmara a procurar entre o público os diversos responsáveis pelos lances, como se estivéssemos a assistir em directo aos acontecimentos. Seguimos assim o jogo de cada um dos oponentes, ambos com os seus homens de mão na assistência. Neste jogo diabólico, uma propriedade que vale 6000 libras termina por ser comprada por 9000 libras, fruto de jogadas no escuro, para descobrirmos mais tarde que quem ganha, por vezes acaba por perder.


Chloe (a bela Phyllis Konstam, de uma sensualidade absoluta) tem um passado a esconder do sogro, mas Dawker (Edward Chapman) o homem de mão dos Hillcrest descobre e divulga o seu passado ao patrão e de imediato a chantagem tem início, sendo perfeito o título português de “Jogo Fraudulento”.


À “beira do abismo”, Chloe vai a casa dos Hillcrest, numa última tentativa para estes nada dizerem ao sogro, mas é demasiado tarde, porque os valores da terra estão acima dos valores da vida. E, quando furibundo pela difamação, Hornblower vai pedir uma satisfação e ameaça com o tribunal, surgem as testemunhas do passado de Chloe na sala. Ao esconder a jovem atrás da cortina, Alfred Hitchcock oferece-nos um dos momentos sublimes do filme, porque essa cortina torna-se protagonista como irá suceder em alguns filmes posteriores, caso de “Chamada para a Morte” / “Dial m for Murder” ou “Pavor nos Bastidores” / “Stage Fright”.


Iremos assim acompanhar o pesadelo de Hornblower, ao mesmo tempo que a mão de Jill na cortina sente os passos da morte cada vez mais perto, terminando por se suicidar, quando descobre que o marido sabe as suas origens.


Se inicialmente não temos qualquer simpatia por essa família de industriais, que não olha a meios para atingir os seus fins, no final somos obrigados a emendar a mão porque os aristocratas não olharam também eles a jogadas muito baixas para reclamar os terrenos, já que antes da difamação montada por Dawker, recuperaram os terrenos por um preço muito abaixo, fazendo um pacto de silêncio, que não seria cumprido.


As regras deste jogo fraudulento ultrapassaram essa época em que a palavra dada era cumprida, se isso sucede devido a uma personagem externa à família é de menor importância, porque ao vermos a forma como a Sra. Hillcrest (Helen Haye) despreza Jill, acabando por mais tarde ou mais cedo fazer circular na aldeia o passado da jovem, tendo em conta a forma como domina e altera as decisões do marido, porque ela é a verdadeira voz de comando, essa voz invisível que habita tantas famílias, manobrando na sombra.


“Jogo Fraudulento” surge assim perante nós como mais uma bela surpresa na obra de Alfred Hitchcock dos anos trinta, década tão pouco visível ao longo dos anos e onde já se encontram as traves mestras do seu cinema.