20.4.26

E. E. Cummings - “XIX Poemas”


E. E. Cummings
“XIX Poemas”
Colecção: Gato Maltez nº.27
Paginas: 80
Assírio & Alvim


O filme “Ana e as Suas Irmãs” / “Hannah and Her Sisters”, realizado por Woody Allen em 1986, oferece-nos diversas histórias, mas a mais fascinante de todas, para mim, é o caso amoroso passado entre Elliott (Michael Caine) e Hannah (Barbara Hershey) e quando ele se faz encontrado por ela, “por mero acaso”, numa rua da Big Apple, terminam por irem a uma dessas livrarias em que só nos apetece nunca mais dali sair e então ele procura na estante o livro de poemas de E. E. Cummings e profundamente apaixonado pela irmã da sua mulher, lê-lhe este poema VIII de E. E. Cummings.


VIII

algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que eu não posso tocar de tão próximas que estão

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me
embora eu me tenha cerrado como dedos,
tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera
(tocando hábil, misteriosamente) a primeira rosa

mas se teu desejo for encerrar-me, eu e
minha vida fecharemos em beleza, de repente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve em tudo cuidadosa descendo;

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala
o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura
me submete com a cor dos seus domínios,
representando a morte e para sempre em cada alento

(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre; apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos.

E. E. Cummings
(Tradução de Jorge Fazenda Lourenço)

Willy Ronis - "Relojoeiro entre a Place d'Aligre e a Rue de Charenton, Paris"

 

Willy Ronis
"Relojoeiro entre a Place d'Aligre e a Rue de Charenton, Paris"
Ano: 1952

Willy Ronis (1910 - 2009) foi um dos mais importantes fotógrafos franceses, tendo a sua obra ficado conhecida pela forma bem pessoal como caracterizou o quotidiano na cidade de Paris. Neste foto vemos o trabalho de um relojoeiro no interior da sua casa, ao mesmo tempo que descobrimos o ambiente quotidiano que se vive na rua, perante o seu olhar. Estamos perante uma profissão que cada vez mais desaparece neste século xxi.

Sylvester Stallone - “Os Mercenários” / “The Expendables”


Sylvester Stallone
“Os Mercenários” / “The Expendables”
(EUA – 2010) – (103 min. / Cor)
Sylvester Stallone, Jason Stathan, Jet li, Dolph Lundgren,
Eric Roberts, Mickey Rourke, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger.

Longe vão os tempos em que Sylvester Stallone entrou no escritório de Woody Allen em busca de um papel, para surgir num dos filmes do então famoso cineasta nova-iorquino, e é assim que o iremos descobrir em “Annie Hall”, na famosa sequência do metropolitano, tentando roubar o actor-cineasta. Anos depois nasceria o famoso Rocky Balboa, que faria a fama do actor, seguindo-se esse inadaptado do pós-guerra chamado John Rambo. E apesar de todas as críticas surgidas em redor do actor, ele lá foi subindo as escadas da glória.


Numa época em que se pretendem reinventar os filmes de acção, o actor-realizador Sylvester Stallone decidiu convocar os mais famoso rostos deste género de películas nos anos 80/90 para refazer a história, oferecendo-nos nomes bem conhecidos de todos, só faltando à chamada Jean-Claude Van Damme e Steven Seagal, que na altura não puderam dar o seu contributo, em virtude de estarem a trabalhar noutros projectos, nascendo assim “The Expendables”, surgindo o próprio título original como um verdadeiro retrato do que iremos encontrar, já que o título em português “Os Mercenários”, infelizmente, não consegue transmitir toda a essência deste projecto.


Estamos perante um filme de acção, feito no século XXI, mas com a memória dos anos oitenta a pairar sobre ele, revelando-se a própria acção como um verdadeiro protagonista. E será na Somália, no famoso Golfo de Aden, onde a pirataria contemporânea vive dos resgates pedidos pelos navios apreendidos e respectivas tripulações, que iremos conhecer este grupo de mercenários comandado por Barney Ross (Sylvester Stallone), percebendo-se de imediato, como o humor se irá infiltrar de forma perfeita no interior da acção, pontuando a violência das sequências.


Após o sucesso deste empreendimento, o resgate dos prisioneiros, iremos conhecendo um pouco da vida de cada um deles, descobrindo até como um ex-membro chamado Tool (Mickey Rourke) trocou as armas pela arte da tatuagem, abrindo o seu próprio negócio. Mas quando um desconhecido de nome Mr. Church (Bruce Willis), tudo levando a crer que se trata de um agente da CIA, se reúne com Barney (Sylvester Stallone) e Trench (Arnold Schwarzenegger), outro elemento carismático do meio, serão oferecidos ao espectador os mais deliciosos diálogos da película, repletos de humor e irreverência e onde iremos perceber que Trench desiste do projecto porque aspira um dia ser Presidente dos Estados Unidos da América, não querendo manchar o seu novo percurso político ao regressar à sua antiga actividade de “exterminador implacável”. Encontramos assim o conhecido ex-Governador da Califórnia a dar o seu contributo perfeito a este filme, no qual os heróis estão já um pouco velhos para a acção, mas continuam a lutar contra as ditaduras, vestindo a pele do bem contra o mal.


Vilena, uma pequena ilha no golfo do México, é o seu destino onde o ex-agente da CIA James Munroe (Eric Roberts) controla a Junta Militar no poder, criando nesse território o seu império da droga, que exporta depois para território americano.

Iremos assim acompanhar os preparativos da acção e a chegada à ilha do grupo de mercenários, cuja missão é destruir o negócio ali montado, ao mesmo tempo que irá recuperar das garras dos “mafiosos” a filha do general, ou não existisse uma mulher nisto tudo, que se opõe às actividades ilícitas do pai, tendo sido aprisionada pelo diabólico e charmoso James Munroe (Eric Roberts), entrando-se assim pela porta grande do cinema de acção, com as inevitáveis explosões e metralha, que todos irá ceifar, até à inevitável vitória final do bem sobre o mal.


“Os Mercenários” / “The Expendables” conduz o espectador do século XXI até ao interior do filme de acção dos anos 80/90, do século passado, sem ter vergonha do seu passado, ao mesmo tempo que nos oferece uma certa memória desses tempos, gozando os protagonistas com o seu próprio estatuto, aliás o humor é a sua principal arma, contribuindo desta forma para o enorme sucesso que a película obteve originando novos filmes com os mesmos protagonistas e outros “velhos conhecidos” dos filmes de acção, que também decidiram entrar neste projecto.

19.4.26

Itzhak Perlman /André Previn / Jim Hall / Shelly Manne / Red Mitchell - “A Different Kind of Blues”


Itzhak Perlman / André Previn / Jim Hall / Shelly Manne /  Red Mitchell
“A Different Kind of Blues”
Warner Bross. Records
1980

Itzhak Perlman – Violin.
André Previn – Piano.
Jim Hall – Guitar.
Red Mitchell – Bass.
Shelly Manne – Drums.

1 – Look at Him Go – 3:48
2 – Little Face – 4:10
3 – Who Reads Reviews – 4:10
4 - Night thoughts – 6:18
5 – A Different Kind of Blues – 6:20
6 – Chocolate Apricot – 5:00
7 – The Five of Us – 2:55
8 - Make Up Your Mind – 3:40


“A Different Kind of Blues” é uma pérola que descobri quando o Valentim de Carvalho “morava” na Rua Nova do Almada e, na cave, tínhamos o Rui Neves e às vezes o Paulo Gil a darem umas sugestões preciosas à malta que ía para lá ouvir discos. Estávamos na idade do vinil e ali escolhíamos o álbum e sentávamos a uma mesinha com dois pratos e escutávamos a música entre dois dedos de conversa, sempre bem saburosa. Por ali o jazz e a clássica conviviam lado a lado, e "A Diferent Kind of Blues" é o retrato disso mesmo, reparem bem na formação deste quinteto de jazz.

Itzhak Perlman deixou o auditório para trás e a sinfónica e o seu maestro não encontram o solista, já André Prévin decidiu fazer um compasso de espera na banda sonora que estava a escrever e juntou-se ao célebre violinista, levando-lhe oito secretas composições, por sua vez Jim Hall também quis dar um som da sua guitarra e nada melhor do que, para tudo correr bem, arranjar uma secção rítmica sábia e com provas dadas composta por Red Mitchell no contrabaixo e Shelly Manne na bateria.

Helena Lima - "Teu Amor Fez-me Mulher"


"Teu Amor Fez-me Mulher"

Meu Amor, não tenhas dó
Por me veres assim tão só
Quase no mundo perdida
Bendita seja esta dor
Que me fez saber a Amor
Um pouco da minha vida

Saudade não dói sequer
Teu amor fez-me mulher
E a vida tem mais sentido
Numa ânsia de amor maior
Das horas do nosso amor
Nem um minuto perdido

O que conta em nossos dias
Muito mais que as alegrias
É tudo o que tem verdade
As jóias de mais valor
São os momentos de Amor
Mesmo que deixam saudade!

Nota: Poema incluído no disco "Barcos no Cais" de Helena Lima.

Helena Lima
in "Poesia"

Blake & Mortimer - "O Mistério da Grande Pirâmide" - Vol.2


Blake & Mortimer
"O Mistério da Grande Pirâmide" - Vol.2 / "Le mystère de la Grande Pyramide"- Tomo II
Arte: Edgar P. Jacobs
Argumento: Edgar P. Jacobs
Pranchas: 54
Asa/Público

Edgar Pierre Jacobs sempre fugiu ao padrão das aventuras para 44 páginas, como outros criadores de banda desenhada e assim muitas vezes as aventuras dos célebres "Blake & Mortimer", estendiam-se por mais do que um volume como sucede neste caso!

Recorde-se que os álbuns das aventiuras de “Blake & Mortimer” continuam a surgir, embora com outros criadores tanta no desenho como no argumento, mas que se manteram sempre fiéis ao traço e à escrita do seu criador: Edgar Pierre Jacobs.

Eric Rohmer - “A Mulher do Aviador” / “La femme de l’aviateur”


Eric Rohmer
“A Mulher do Aviador” / “La femme de l’aviateur”
(França – 1981) – (104 min. / Cor)
Marie Rivière, Philippe Marland, Mathieu Carrière, Philippe Carot, Arielle Dombasle.

Com “A Mulher do Aviador” / “La Femme de l’aviateur”, Eric Rohmer inaugurou uma nova série de filmes, após a conclusão da anterior série intitulada, genericamente, “Contos Morais”. Desta feita a nova série, constituída por seis longas-metragens, foi denominada “Comédias e Provérbios” e, como não podia deixar de ser, o autor aposta neste primeiro filme no famoso jogo de enganos, usando o jovem François (Philippe Marlaud), que trabalha no turno da noite nos Correios e se encontra apaixonado por Anne (Marie Rivière), que por sua vez possui um horário de trabalho normal, para nos servir como um verdadeiro cicerone da película.


Tudo começa numa manhã bem cedo, quando Charles vê a sua amada na companhia de um aviador (Mathieu Carriére), a saírem do prédio onde vive Anne, de imediato cheio de ciúmes decide seguir o piloto até uma gare, onde o irá perder de vista, porque entretanto adormece sentado à mesa do café. Louco de ciúmes, procura Anne, mas esta não lhe dá qualquer explicação, após uma longa discussão.


Irá o destino no entanto fazer com que François volte a encontrar o aviador na companhia de uma outra mulher, decidindo segui-los de forma pouco discreta e aqui Eric Rohmer aproveita para nos convidar a percorrer Paris e muito em especial a célebre zona verdejante dos Buttes-Chaumont, onde François irá conhecer uma jovem liceal chamada Lucie (Anne-Laure Meury), que o irá ajudar a obter uma fotografia do aviador e da mulher que o acompanha, numa das sequências mais hilariantes da película.


Este jogo de pequenos acasos, conduzidos de forma perfeita por Eric Rohmer, convida o espectador a repensar como a vida se encontra repleta de encontros fortuitos, assim como as relações entre as pessoas são constituídas por uma poderosa teia de conhecimentos, em que A conhece B e C, mas desconhece que C é amigo de B, e assim sucessivamente numa viagem infinita de relações, já que como iremos saber quase no final do filme, um colega de trabalho de François é namorado/amigo de Lucie e a mulher que acompanha o aviador não é a sua esposa.


“A Mulher do Aviador” / “La Femme de l’aviateur” revela-se assim um saboroso e perfeito jogo de pequenos enganos, que prende o espectador do primeiro ao último minuto, demonstrando mais uma vez o imenso saber desse cineasta que foi sempre eternamente jovem chamado Eric Rohmer.

18.4.26

Roger Eno - "Between Tides"


Roger Eno
"Between Tides"
Opal Records
1988

Roger Eno surge neste álbum a tocar piano sendo acompanhado por um conjunto de cordas que pontua de forma sublime as notas musicais que nascem no seu piano transformando o álbum "Between Tides" na obra-prima da sua discografia. basta escutarmos o tema "Field of Gold" para ficarmos rendidos à genialidade deste compositor, irmão de Brian Eno.