5.6.26

François Truffaut - “A Noiva Estava de Luto” / “La Mariée Était en Noir”


François Truffaut
“A Noiva Estava de Luto” / “La Mariée Était en Noir”
(França – 1967) – (107 min. / Cor)
Jeanne Moreau, Claude Rich, Jean-Claude Brialy, Michel Bouquet,
Michel Lonsdale, Charles Denner, Alexandra Stewart.

Como todos sabemos o nome de François Truffaut é sinónimo de cinema. Ele viveu do cinema e para o cinema, primeiro como crítico e depois como cineasta. Mas se o cinema foi a sua grande paixão, os livros foram sempre, também deste muito cedo, um dos seus alimentos da alma. Os célebres livros de “poche” revelaram-lhe um universo literário que o iria acompanhar ao longo da vida, no interior dos diversos géneros. Encontrou nos célebres policiais de capa amarela uma paixão que decidiu transportar por diversas vezes para o interior do cinema, quase sempre com um sucesso reduzido por parte do público.


“Disparem Sobre o Pianista” / “Tirez sur le Pianiste”, o seu segundo filme com Charles Aznavour no protagonista, baseado num romance de David Goodis foi um fiasco comercial, apesar de excelente, depois adaptou dois romances do célebre William Irish (autor de “Janela Indiscreta”): “A Noiva Estava de Luto”/ “La Mariée était en Noir” e “A Sereia do Mississipi” / “La Sirene du Mississippi” terminando curiosamente a sua obra com esse maravilhoso policial que se chama “Finalmente Domingo” / Vivement Dimanche”.

“A Noiva Estava de Luto”, a obra que nos interessa hoje, possui um elemento muito importante no seu interior chamado banda sonora. E dizemos isso porque o compositor escolhido por François Truffaut foi o célebre Bernard Herrmann, autor de inúmeras bandas sonoras dos filmes de Alfred Hitchcock. Mal se inicia a película, ao som da marcha nupcial, descobrimos a partitura de Bernard Herrmann como um dos mais importantes protagonistas da película, porque as suas notas transmitem de forma soberba o “suspense” pretendido pelo cineasta e, quase sem darmos por isso, entramos numa obra profundamente Hitchcockiana. Basta recordar que iremos sabendo “a conta gotas” os motivos que levam Julie Kohler (a bela Jeanne Moreau, que recentemente nos deixou) a matar aqueles homens.


Estamos assim perante um mistério que se vai revelando à medida que os assassinatos são cometidos. O conquistador Bliss (Claude Rich) é empurrado da varanda, enquanto o solitário Robert Coral (Michel Bouquet) é envenenado, já o industrial Clement Morane (Michel Lonsdale, aqui sem a pêra que o celebrizou) é sufocado numa arrecadação e a terminar (pensamos nós) o pintor Fergus (Charles Denner) é morto por uma seta. Resta assim Delvaux (Daniel Boulanger), que escapou porque a polícia chegou primeiro para o prender. Mas como a vingança se serve fria, numa bandeja de prata, Julie Kohler (Jeanne Moreau) após o quarto assassinato decide deixar-se prender no enterro de Fergus, para ajustar as contas com o sucateiro na prisão e aqui François Truffaut dá-nos um final magnifico, oferecendo-nos a sua morte, sem nunca a vermos, apenas a escutamos: o grito que abala a estrutura da prisão.

Quem não viu o filme deve estar a perguntar o que poderá unir estes homens tão diferentes e distantes entre si? Apenas dois assuntos: as mulheres e a caça. E será precisamente a caça o motivo da tragédia de Julie Kohler que desde tenra idade viveu para se casar com o grande amor da sua vida. A morte de David (Serge Rousseau), como iremos descobrir, é acidental. Mas o medo apoderou-se dos cinco homens que decidem fugir do apartamento onde se encontram e nunca mais se verem, para esconderem essa mancha do seu passado.


Julie Kohler, que encontramos no início do filme a olhar um álbum de fotografias, vestida de negro, fecha o álbum repentinamente e decide suicidar-se, atirando-se da janela abaixo sendo impedida pela mãe. Empreende então uma longa busca, que irá durar alguns anos, até descobrir os assassinos do amor da sua vida e só irá descansar quando o último deixar de respirar.

François Truffaut irá dizer, mais tarde, que a razão do insucesso de “A Noite Estava de Luto” se prende com o facto de ter decidido rodar a película a cores, procurando de certa forma homenagear Alfred Hitchcock. E aqui até lhe damos razão, porque se imaginarmos este filme a preto e branco, iríamos entrar no interior desse universo do “film noir”, como mais tarde o cineasta faria com o maravilhoso “Vivement Dimanche” / “Finalmente Domingo”.


A outra razão apontada por Truffaut pelo insucesso da película figura na escolha da protagonista. Jeanne Moreau não possui a frieza e desencanto pretendida pelo cineasta, apresentando-se um pouco “como uma estátua” (as palavras são dele, não minhas, porque a acho perfeita). Mas também nunca nos poderemos esquecer que, na altura da filmagem de “A Noiva Estava de Luto”, Françoise Dorléac, irmã de Catherine Deneuve e musa de François Truffaut em “Angústia” / “La Peau Douce” iria encontrar a morte num trágico acidente de automóvel. E todos sabemos como o cineasta amava as suas actrizes, no verdadeiro sentido da palavra, aliás foi essa a principal razão que levou ao fim da amizade entre ele e Jean-Luc Godard, quando este lhe escreveu a criticar a sua personagem em “A Noite Americana” / “La Nuit Américaine” acusando-a de falsidade, já que François Truffaut era conhecido por se apaixonar pelas actrizes que dirigia nos filmes, mantendo quase sempre casos com elas ao longo da rodagem(*).

Jeanne Moreau, que fora a estrela dessa obra-prima chamada “Jules e Jim” e em tempos companheira do cineasta, possui aqui uma excelente interpretação, porque ela transporta consigo uma angústia assassina, que só irá desaparecer quando terminar a sua missão vingadora. Repare-se que ela não sucumbe ao fascinante pintor, por momentos até temos essa ideia quando nós e ela nos apercebemos do nascimento de uma certa atracção, mas ela vive imune às palavras de sedução do artista. E não será demais referir que foi aqui que François Truffaut encontrou em Charles Denner o intérprete perfeito para ser o protagonista de “O Homem que Gostava de Mulheres” / “L’Homme Qui Aimait Les Femmes”, esse homem que seguia as pernas de uma mulher perfeitamente seduzido e fascinado, essas mesmas pernas que irão conduzir à sua morte. E por falar em pernas, reparem na forma como Franços Truffaut filma as pernas de Jeanne Moreau, como se as tivesse a acariciar, situação que será recorrente em outras películas do cineasta, bastando recordar a forma como Fanny Ardant mostra as suas pernas a Jean-Louis Trintignant quando este se encontra refugiado na cave em “Finalmente Domingo”.


“A Noiva Estava de Luto” surge assim como um magnifico policial, embora François Truffaut tivesse uma opinião contrária. Descobrir esta película e compará-la com os outros policiais deste grande cineasta é a nossa proposta para hoje e não se esqueçam de escutar com a máxima atenção a banda sonora composta por Bernard Herrmann, porque nela sentimos a linguagem Hitchcockiana do Mestre que François Truffaut tanto admirou ao longo da vida.

(*) - A leitura do livro “François Truffaut” da autoria de Antoine de Baecque e Serge Toubiana é fundamental pata o conhecimento da vida e obra de um dos fundadores da Nouvelle Vague. Um livro que se lê como um romance ao longo das suas 900 páginas, na edição da Folio/Gallimard.

4.6.26

Julian Priester and Marine Intrusion - “Polarization”


Julian Priester and Marine Intrusion
“Polarization”
ECM Records
1977

Julian Priester – trombone, synthesizer.
Ron Stallings – tenor saxophone, soprano saxophone.
Curtis Clark – piano.
Ray Obiedo – electric guitar, acoustic guitar.
Heshima Mark Williams – electric bass.
Augusta Lee Collins – drums.

1 – Polarization (Julian Priester)– 4:31
2 – Rhythm Magnet (Julian Priester) – 7:08
3 – Wind Dolphin (Bruce Horiuchi) – 10:18
4 – Coincidence (Ray Obiedo) – 3:33
5 – Scorpio Blue (Curtis Clark) – 8:25
6 – Anatomy of Longing (Curtis Clark) – 9:32


Quatro anos após a gravação do álbum "Love, Love", Julian Priester regressa à ECM Records para gravar este "Polarization", que dá continuidade ao trabalho iniciado no álbum anterior, mantendo a mesma leitura, por sinal bem pessoal, dos caminhos encetados pelo jazz-rock, onde a sua música, fruto do convívio com nomes como John Coltrabe ou Duke Ellington, assume características bem diferentes e originais no interior desta corrente que teve o seu ponto alto durante a década de setenta, do século XX.

Gravado em Janeiro de 1977 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg por Martin Wieland. Design de Frieder Grindler. Fotografia de Roberto Masotti. Produzido por Manfred Eicher. O músico Heshima Mark Williams também surge em algumas gravações, assumindo o nome de Marc Anthony “Heshima” Williams.

Agatha Christie - "Mrs. McGinty está morta"


Agatha Christie
"Mrs. McGinty está morta" / “Mrs. McGinty's Dead"
Páginas: 224
Asa

O falso culpado é o tema deste surpreendente livro de Agatha Christie, que teve uma excelente adaptação televisiva com o actor David Suchet a dar vida ao famoso detective. Recorde-se que a personagem do falso culpado no cinema foi um dos temas mais vezes abordado pela Sétima Arte e muito em especial por esse Mestre do Suspense chamado Alfred Hitchcock. "Mrs. McGinty está morta" / “Mrs. McGinty's Dead" revela-se como um dos melhores romances policiais saídos da “pena” de Agatha Christie.

Luigi Loir - "Scène de rue"


Luigi Loir 
"Scène de rue"
Óleo sobre tela
Ano: s/data

Luigi Loir - (1845 - 1916) - nesta pintura Luigi Loir oferece-nos uma pintura criada em pleno Inverno em que vemos um céu bem próprio da época carregado de neve que se estende pelos passeios, ao mesmo tempo que podemos ver as janelas iluminadas fruto da vida animada que existe no seu interior, enquanto na rua descobrimos os vendedores de flores em primeiro plano no quadro, enquanto diversos transeuntes percorrem as ruas onde se respira o frio.

Jean Renoir - "A Grande Ilusão" / "La Grande Illusion"


Jean Renoir
"A Grande Ilusão" / "La Grande Illusion"
(França – 1937) – (109 min. - P/B)
Jean Gabin, Erich von Stroheim, Pierre Fresnay, Marcel Dalio, Dita Parlo.

Dois anos antes de realizar o célebre, “A Regra do Jogo”, Jean Renoir decidiu em 1937 oferecer-nos um olhar sobre a Primeira Guerra Mundial, através dessa obra-prima intitulada “A Grande Ilusão” / “La Grand Illusion”, que na época foi recebida com grande entusiasmo por uns e olhada de lado por outros, recorde-se que o filme foi proibido na Alemanha e mesmo quando surgiu no Festival de Veneza não lhe concederam o galardão máximo, sendo no entanto criado um prémio especial para o galardoar e nunca é demais referir que o filho de Mussolini era a entidade mais preponderante nos meios cinematográficos italianos, protegendo os cineastas e críticos de cinema de ideologias opostas à do seu pai, por outro lado o público francês não viu com muito bons olhos o retrato que o cineasta oferecia da convivência entre militares franceses e alemães, porque a memória da Primeira Guerra Mundial ainda estava bem presente, ao mesmo tempo que o regime nascido entretanto na Alemanha já trazia o mundo bastante atormentado.


Curiosamente, este filme sobre a guerra, constrói uma visão do conflito vista através do campo de concentração, ao mesmo tempo que nos oferece um olhar atento sobre a relação de classes.

O Tenente Maréchal (Jean Gabin), piloto da força aérea francesa que trabalha numa patrulha de reconhecimento, é chamado pelo seu superior hierárquico, capitão Boeldieu (Pierre Fresnay), para partir em missão sobre as linhas inimigas, porque as fotografias que este tinha obtido na sua anterior missão não eram suficientemente nítidas sobre os movimentos das tropas alemãs. Nunca é demais recordar que esta guerra foi acima de tudo uma guerra de trincheiras, onde milhares serviram de carne para canhão. E será durante essa missão nocturna que serão abatidos pelo aristocrático Capitão Von Rauffenstein (Erich von Stroheim), que os irá receber com toda a cordialidade, enviando-os depois para o respectivo campo de concentração, mas estes homens irão por diversas vezes tentar evadir-se do cativeiro.


Mal chegam à camarata, descobrem que os seus companheiros estão a escavar um túnel para encetarem a fuga. Iremos assim entrar na atmosfera do campo de concentração, para descobrirmos que eles até recebem encomendas de casa com comida, chegando por vezes a estarem mais bem alimentados que os seus próprios carcereiros. Mas perante as suas diversas tentativas de fuga, sempre sem sucesso, são enviados para uma fortaleza comandada por Von Rauffenstein, que entretanto vira o seu avião abatido em combate e passara a ser o responsável por essa prisão de alta segurança, o único contributo possível que ele ainda poderia dar ao seu país, depois de gravemente ferido, como ele afirma no filme ao encontrar-se com Maréchal e Boeldieu, tratando-os sempre com a maior cordialidade, especialmente Boeldieu que ele considera um aliado de classe.

Como sempre, o desejo de fuga permanece vivo e quando Maréchal e Boeldieu voltam a encontrar o Capitão Rosenthal (Marcel Dalio), decidem preparar uma nova evasão, mas daquela fortaleza é quase impossível fugir e será Boeldieu (Pierre Fresnay) a arquitectar um novo plano oferecendo-se como mártir, para os seus dois companheiros de cárcere encetarem com sucesso a fuga. Temos assim esse acto heroico de um aristocrata que irá morrer às mão de outro aristocrata, porque será precisamente o Capitão Von Rauffenstein a disparar a bala fatal que irá ferir mortalmente o oficial francês que, ao despertar as atenções sobre si de toda a guarnição alemã, irá possibilitar a fuga de Maréchal e Rosenthal (que por sinal até é judeu), o qual durante a fuga nocturna pelos campos rumo à fronteira Suíça irá torcer um tornozelo o que lhe irá impossibilitar caminhar, surgindo então um diálogo entre os dois homens que alguns viram como anti-semita.



Maréchal decide então abandonar o seu companheiro de fuga à sua sorte, para não perder mais tempo, mas acabará por regressar ao lugar onde ele se encontra, para o ajudar e mais tarde se refugiarem numa casa habitada por uma camponesa alemã (Dita Parlo) que, em vez de os denunciar, os irá ajudar porque para ela a guerra não faz qualquer sentido, já que o marido fora morto na frente de combate e ela só deseja o final do conflito.

Durante a estadia na quinta, Elsa (Dita Parlo) e Maréchal (Jean Gabin) percebem que aquilo que os une é muito mais forte (o amor) do que o que os separa (a guerra), mas tanto ele como Rosenthal têm um destino, o de atingir a Suíça, país neutral, para depois seguirem para França para retomarem o combate e terminarem com aquela guerra exterminando de vez todos os conflitos, porque aquela será na sua opinião decididamente a última guerra, uma grande ilusão que a história irá comprovar em 1939, mas aqueles homens em 1917 ainda não sabiam infelizmente o futuro que lhes estava reservado.


Jean Renoir, com “A Grande Ilusão”, oferece-nos um olhar sobre um conflito onde ainda existiam cavalheiros e honras de conduta mas, como todos sabemos, a célebre Linha Maginot criada pelos franceses durante o período que decorreu entre os dois conflitos de nada irá servir, já que a poderosa máquina de guerra alemã irá atravessar as Ardenas e invadir a França pela Bélgica, numa Segunda Guerra Mundial, em que já não havia lugar para Convenções de Genebra.


Rever “A Grande Ilusão” / La Grand Illusion” de Jean Renoir, passados mais de oitenta anos sobre a sua feitura, é na verdade uma maravilhosa aventura cinematográfica, onde o desejo de sobrevivência anda de mãos dadas com os sentimentos e as ideologias.

3.6.26

Roger Eno - "This Floating World"


Roger Eno
"This Floating World"
Recital
2017

A arte musical de Roger Eno passa por aqui, mas o compositor na edição desta obra também decidiu escrever um conjunto de pequenas histórias para acompanhar este trabalho discográfico revelando-nos uma outra faceta da sua arte.

Alix - “As Legiões Perdidas” - Jacques Martin


Alix
“As Legiões Perdidas” / “Les Légions Perdues”
Arte: Jacques Martin
Argumento: Jacques Martin
Páginas: 48
Asa/Público

Foi com o álbum ”As Legiões Estrangeiras” / “Les Légions Perdues”, que Jacques Martin, o criador de Alix, muda por completo o grafismo desta banda desenhada através da alteração da prancha que irá passar a possuir apenas três tiras originando um maior detalhe dos cenários onde se movimentam as personagens, assim como os seus traços anatómicos são mais delineados e precisos, ao mesmo tempo que mantém o rigor histórico e a escrita que caracteriza as aventuras desta personagem incontornável da banda desenhada franco-belga.

Recorde-se que a sexta aventura de Alix surgiu pela primeira vez nas páginas da Revista Tintin (belga) a 20 de Novembro de 1962, estendendo-se a sua publicação até 18 de Junho de 1963, tendo sido publicada em álbum dois anos depois, em 1965.

Henri Le Sidaner - "Place de la Concorde"


Henri Le Sidaner
"Place de la Concorde"
Óleo sobre tela
97 x 147 cm.
Ano: 1909
Musée des Beaux-Arts, Tourcoing.

Henri Le Sidaner - (1862 - 1939) - foi um pintor francês célebre pelos seus quadros que focavam ruas tranquilas. assim como pinturas que retratavam a vida doméstica. Influenciado por pintores como Édouard Manet e Monnet, este pintor revelava nos seus quadros a influência dos célebres pintores Impressionistas e também cultivou a arte do pontilhismo. 

Nesta sua pintura que retrata a célebre "Place de la Concorde" num dia de chuva, vemos como o reflexo da água na rua capta uma certa solidão que navega nesta bela praça da capital francesa.