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12.5.26

Claude Chabrol - “Um Vinho Difícil” / “Le Beau Serge”


Claude Chabrol
“Um Vinho Difícil” / “Le Beau Serge”
(França – 1958) – (98 min. - P/B)
Gérard Blain, Jean-Claude Brialy,
Bernardette Laffont, Claude Cerval, Edmond Beauchamp.

“Le Beau Serge”, em Portugal com o título “Um Vinho Difícil”, marca a estreia na realização de Claude Chabrol, que graças a uma herança conseguiu reunir os meios financeiros necessários para iniciar uma das mais perfeitas carreiras cinematográficas.


Antigo crítico da revista “Cahiers du Cinema”, Claude Chabrol, ao longo da sua cinematografia, irá debruçar-se sobre o quotidiano francês, analisando de forma perfeita as vivências de gente anónima que atravessa a sociedade de forma silenciosa e imperfeita e será isso mesmo que iremos encontrar em “Le Beau Serge”, quando assistimos à chegada de Francois (Jean-Claude Brialy) à aldeia que o viu nascer, para aí passar o Inverno, após ter tido um problema de saúde.

Mal sai do autocarro que o transporta, irá encontrar na praça um verdadeiro farrapo humano chamado Serge (Gerard Blain, numa interpretação extraordinária), seu antigo colega de escola e amigo, que sonhara com grandes voos em criança e cujo destino irá conduzir à bebida, esse mau vinho que consome logo ao pequeno-almoço, para passar o resto do dia ébrio, até cair para o lado, sempre na companhia do sogro Glomaud (Edmond Beauchamp), seu eterno companheiro de copos.


Claude Chabrol oferece-nos de imediato um retrato de uma aldeia, onde a pobreza vive em cada esquina e onde as vidas se consomem muito devagar, como se tratassem da chama de um fósforo, que se extingue lentamente.

Após se instalar na pensão, em virtude da sua antiga casa não possuir condições de habitabilidade, François decide saber mais sobre o que se passou com Serge e, após ter ficado a par da sua história trágica, decide ajudá-lo. Na realidade Serge vive na miséria conduzindo um camião, enquanto a sua esposa se encontra grávida, sendo vítima do desprezo dos seus conterrâneos.


François irá conhecer durante a sua estadia a cunhada de Serge, a bela Maria (Bernardette Lafont), terminando por se envolver com ela, mas também ela possui um passado rodeado de segredos, já que o homem de quem cuida não é o seu próprio pai. Entramos assim num território onde as aparências iludem e lentamente François irá perceber que ali não há lugar para ele, apesar da vontade que possui em ajudar os outros.

Serge vira as suas ambições perderem-se no tempo ao engravidar a filha de Glomaud e quando nasce a criança irá verificar que ela é mongolóide, morrendo poucos dias depois, o que o levará a refugiar-se na bebida, tornando-se num farrapo humano, curando as bebedeiras nos galinheiros. Ao receber a notícia de uma nova gravidez, pensa que a história se irá repetir, desprezando a mulher que o conduziu ao abismo, chamando-lhe gorda e velha. Mas François que não desiste de o ajudar irá lutar com todas as suas forças, para alterar o destino trágico daquele casal e após o nascimento da criança, depois de um parto difícil, iremos encontrar pela primeira vez o sorriso e a alegria no rosto de Serge.


Claude Chabrol traça-nos neste filme um retrato arrepiante do interior da França e das suas gentes, com uma planificação perfeita, sem falhas, ao mesmo tempo que revela uma forte direcção de actores que vestem as personagens que interpretam com um rigor fora do vulgar, sendo de destacar Gérard Blain (Serge), numa composição que deixa o espectador estupefacto, pelo seu realismo.

“Le Beau Serge” / “Um Vinho Difícil” faz-nos recordar por diversas vezes a obra de Jean Renoir, na caracterização de um microcosmos de uma França tantas vezes escondida, pelas histórias das grandes cidades.


Este membro da “nouvelle vague”, chamado Claude Chabrol, iniciou assim com “Le Beau Serge” uma obra de autor, que nos tem revelado ao longo dos anos a genialidade de um cineasta, possuidor de olhar único no interior do cinema francês, tornando-se numa das suas figuras de proa, sempre a interrogar a sociedade francesa, o que por vezes lhe trouxe alguns dissabores.

10.4.26

Wim Wenders - "O Amigo Americano" / "Der Amerikanische Freund"


Wim Wenders
"O Amigo Americano" / "Der Amerikanische Freund"
(Alemanha/França – 1977) – (125 min. / Cor)
Dennis Hooper, Bruno Ganz, Lisa Kreuzer, Gerard Blain, Nicholas Ray, Samuel Fuller, Daniel Schmid, Peter Lilienthal, Jean Eustache.

Foi com “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund” que Wim Wenders se tornou conhecido e amado por muitos cinéfilos, este cineasta alemão oriundo da crítica, convoca para este filme Nicolas Ray, um cineasta por quem tem uma enorme admiração, oferecendo também pequenos papéis a outros realizadores como Samuel Fuller, Jean Eustache, Daniel Schmid, Peter Lilienthal e Gerard Blain (lembram-se dele em “Hatari!” de Howard Hawks?), para além de Dennis Hopper também ele cineasta (recordam-se de “Easy Rider” ou “Out of the Blue?), embora seja mais conhecido como actor.


Por outro lado, foi nesta película que descobrímos o enorme talento desse actor chamado Bruno Ganz que, embora seja suíço, fez a sua carreira no denominado “Novo Cinema Alemão” e, certamente, muitos se recordam dele nessa “Cidade Branca” chamada Lisboa, que Alain Tanner nos ofereceu um dia, para já não falar nessa sua espantosa interpretação de Hitler em “A Queda”.

Depois nunca é demais mencionar a presença de Lisa Kreuzer, um dos grandes nomes femininos do Cinema Alemão Contemporâneo que com Hanna Schygulla, Eva Mattes e Barbara Sukowa, deram rosto a inúmeras personagens desse cinema que nos maravilhou desde que nasceu através do célebre Manifesto de Oberhausen, onde foram traçadas as linhas pragmáticas do que se viria a chamar o “Novo Cinema Alemão”.


Partindo de um romance de Patrícia Highsmith, recorde-se que ela é a autora do famoso “O Desconhecido do Norte-Expresso” que Hitchcock adaptou ao cinema, Wim Wenders deu vida a essa personagem imoral chamada Tom Ripley (Dennis Hopper), havendo mais dois filmes nascidos desse anti-herói, onde John Malkovich e Matt Damon também nos ofereceram o rosto da célebre personagem do romance policial.

Iremos assim encontrar Tom Ripley nessa Nova Iorque onde ainda viviam as famosas Torres Gémeas, no apartamento de Derwatt (Nicolas Ray), a ver como decorrem os trabalhos do famoso pintor, para mais tarde o encontrarmos em Hamburgo, numa das suas actividades favoritas, a especulação e vigarice no mundo da Arte, vendendo quadros deste pintor que o mundo da Arte julga ter falecido. Mas a vista do pintor já não é a mesma e Jonathan Zimmermann, um pequeno restaurador de Hamburgo que assiste ao leilão, percebe que aquele azul (o célebre azul cobalto que o tornou célebre) já não é o mesmo.

Ripley, na sala, escuta o comentário de Zimmermann e, depois de lhe ser apresentado, toma a decisão de o usar nos seus outros negócios escuros, por onde anda a mão da máfia.


Jonathan tem uma doença no sangue incurável, sendo o seu tempo de vida muito reduzido e Tom Ripley decide, através de um gangster francês, torná-lo num assassino, em troca de o levar a outros especialistas para analisarem o seu estado de saúde, ao mesmo tempo que lhe paga pelos trabalhos efectuados, garantindo Jonathan desta forma uma “almofada económica” para a sua família.

Mas, como sucede nestas coisas, nada corre como previsto e Tom Ripley será forçado a ajudar o restaurador nos seus trabalhos muito pouco artísticos, nascendo desta forma uma espiral de violência que irá mudar para sempre a vida de todos os intervenientes.


Usando o seu habitual director de fotografia, Robby Muller, e com montagem de Peter Przygodda (outro nome forte da equipa), Wim Wenders oferece-nos um retrato de Hamburgo e da sua noite, com uma cor que nos deixa surpreendidos, ao mesmo tempo que a banda sonora de Jurgen Knieper (fixem o nome), vai dramatizando a acção da película pontuando de forma soberba o desenrolar dos acontecimentos, basta repararem nas sequências passadas no Metro Parisiense para ficar tudo dito.

Mais uma vez, como é regra em Tom Ripley, ele encontra sempre o inocente que vai usar em proveito próprio, saindo sempre ileso desse mundo do crime em que é um verdadeiro Príncipe Perfeito.


Recordar “O Amigo Americano” / “Der Amerikanisch Freund” não é só encontrar o melhor cinema de Wenders, mas também mergulhar nesse universo criado por Patrícia Highsmith, em que o herói é o assassino, esse mesmo assassino que irá sempre sobreviver a todos os seus planos maquiavélicos, como o que delineou para usar o pacato Jonathan Zimmermann.

Redescobrir o período alemão de Wim Wenders é uma aventura profundamente fascinante que recomendamos.