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2.9.26

Lesli Linka Glatter - “A Proposta” / “The Proposition”


Lesli Linka Glatter
“A Proposta” / “The Proposition”
(EUA – 1998) – (110 min. / Cor)
Kenneth Branagh, Madeleine Stowe, William Hurt,
Blythe Danner, Robert Loggia, Neil Patrick Harris.

No início dos anos sessenta, no interior do cinema Americano assistimos ao final da época de ouro do sistema dos Estúdios, fruto em parte desse desastre financeiro chamado “Cleópatra”, mas também da importância que a caixa que mudou o mundo, conhecida como televisão, começou a ter no quotidiano das pessoas. E por estas duas razões o cinema americano, que sempre teve pernas para andar, renovou-se na área da produção e dos cineastas, recorde-se que os grandes cineastas clássicos terminaram as suas carreiras nesta época, surgindo então uma nova vaga de realizadores, oriundos da televisão e, curiosamente, ao longo dos anos vamos encontrar essa onda gigantesca de realizadores, que farão a sua transição do pequeno para o grande écran, uns com enorme sucesso outros nem por isso.


Lesli Linke Glatter é uma realizadora que se iniciou na televisão com enorme sucesso, mantendo-se ainda por lá, demonstrando as suas qualidades e quando olhamos para algumas das séries que tem dirigido ao longo dos anos fica tudo dito. Mas nada melhor do que deixar alguns títulos onde participou: “Amazing Stories”, produzida por Steven Spielberg, “Twin Peaks”, uma das obras-primas de David Lynch (realizou quatro episódios), “Law & Order”, “NYPD Blue”, “Grey’s Anatomy”, “The Closer” e “ER”, só para referirmos alguns dos seus trabalhos. Mas, em meados dos anos noventa (1995/1998), Lesli Linke Glatter tentou dar o salto para o grande écran, primeiro com o chamado filme de mulheres “Now and Then” / “Amigas Para Sempre”, com um elenco predominantemente feminino e em 1998 com este “The Proposition” / “A Proposta”, contando no elenco com um trio de actores que nunca nos desiludiu: Kenneth Branagh, Madeleine Stowe e William Hurt.

Kenneth Branagh é um actor/cineasta que se tornou conhecido de todos através da sua interpretação/realização de “Henry V” / “Henrique V”, que deixou o mundo cinéfilo perfeitamente deslumbrado, mas a sua carreira entre o velho e o novo mundo acabaria por ser feita de sobressaltos, assim como a sua obra de cineasta. Onde se destacam os filmes “Peter’s Friend” / “Os Maigos de Peter” uma versão “british” dos “Amigos de Alex”, “Dead Again” / “Viver de Novo”, uma tentativa falhada de navegar no universo hitchcockiano ou as suas adaptações shakespearianas, por sinal bem sucedidas de “Muito Barulho por Nada” / “Much Ado About Nothing” e “Hamlet”, onde nos era revelado o talento de Kate Winslet.


Madeleine Stowe tem sido, ao longo de décadas, sempre uma excelente actriz (de uma beleza profunda), embora esse grande sucesso tão desejado por ela nunca tenha sido conquistado, infelizmente, aliás no ano em que participou em “A Proposta” ela iria ser uma das personagens desse espantoso filme “em mosaicos”, intitulado “Playing by Heart” / “Entre Estranhos e Amantes”, ao lado de Sean Connery e Gena Rowlands, entre outros. Dedica-se nestes últimos anos ao trabalho para a televisão, tele-filmes e séries.

William Hurt é um daqueles actores de que todos conhecem a sua arte, cuja apresentação não é necessária, embora nunca seja demais referir que ele continua a trabalhar no cinema a todo o vapor, participando numa média de três filmes por ano. Ora são estes três actores que irão dar rosto aos protagonistas de “A Proposta”, uma obra dramática passada em 1935 na cidade de Boston.


Estamos em plena era Rosevelt e Arthur Barret (William Hurt), um distinto advogado saído de Harvard, é um dos seus proeminentes conselheiros do Presidente, casado com a escritora Eleanor Barret (Madeleine Stowe) que produz obras de sucesso, onde o desejo pela emancipação feminina vive em cada página. Mas como nunca há “bela sem senão”, o casal não tem filhos, porque Arthur é estéril, no entanto a necessidade de um herdeiro é um assunto de primordial importância para esta poderosa família de Boston. Por essa razão ambos decidem contratar os serviços de um jovem licenciado em direito, Roger Martin (Neil Patrick Harris), para conceber o tão desejado fruto.

Olhados como exemplo de sucesso pela igreja local, os Barret entram assim no território do pecado, porém nessa noite programada pelo relógio biológico de Eleanor nada acontece, sendo necessário contratar de novo os “serviços” do jovem Roger Martin, que entretanto se vai apaixonar por ela e, ao saber que Eleanor foi bem sucedida na gravidez, parte para a chantagem, ameaçando reclamar o filho como seu.


Durante este período irá chegar à igreja de Boston o padre Michael McKinnan (Kenneth Branagh), oriundo de Inglaterra, que tudo fará para evitar os convites dos Barret para jantar na mansão, até chegar esse dia em que saberemos que ele é filho do irmão mais velho de Arthur Barret. E aqui também descobrimos que o seu pai é um aliado industrial do nacional-socialismo que então vigora na Alemanha e que teve em Inglaterra, como se sabe hoje, inúmeros simpatizantes, basta recordarmos o Lord Darlington (James Fox) de “Os Despojos dos Dias” de James Ivory e ficamos perfeitamente situados na realidade histórica.

A alegria da gravidez de Eleanor Barret irá transformar-se em tragédia quando ela aborta e, nesse momento capital do filme, o padre McKinnan põe de lado a amargura familiar que habita na sua alma e oferece o conforto espiritual à esposa do seu tio. Mas para complicar ainda mais este melodrama, o jovem Roger Martin aparece morto, sem identificação e será precisamente Eleanor a revelar a sua identidade, passando a olhar o marido como o assassino do amante contratado. McKinnan acabará por se envolver de tal forma na dor sentida por Eleanor, que acabará por se apaixonar por ela perdidamente, numa relação proibida aos olhos de Deus e que dará os seus frutos.


“A Proposta” surge assim como um filme onde o vigor do melodrama se encontra bem presente, embora o argumento por vezes se encontre com falhas, já que a história nos é narrada em “flashback”, embora a reconstituição da época está perfeita, enquanto a interpretação/direcção de actores surge em muito boa forma, ou eles não se chamassem Kenneth Branagh, Madeleine Stowe e William Hurt. Por outro lado, a realização de Lesli Linka Glatter apresenta-se correcta, embora nunca nasça esse golpe de asa que faça o filme sair da mediania de certa produção norte-americana.


Numa época em que, cada vez mais, os filmes oriundos do continente americano, se apresentam completamente consumidos pelos efeitos especiais, será interessante descobrir esta obra, acima de tudo pelo trabalho dos actores, mas também para reflectir neste modelo de produção.

3.7.26

Robert De Niro - “O Bom Pastor” / “The Good Shepherd”


Robert De Niro
“O Bom Pastor” / “The Good Shepherd”
(EUA – 2006) – (167 min. / Cor)
Matt Damon, Angelina Jolie, William Hurt, John Turturro,
Robert De Niro, Billy Crudup, Michael Gambon, Austin Williams, Joe Pesci.

São muitos os casos de actores que passam para detrás das câmaras, nascendo nessa viragem muitos cineastas. Raoul Wash talvez seja um dos primeiros casos, obrigado a trocar a interpretação pela realização, mas um dos casos mais bem-sucedidos é, sem dúvida alguma, Robert Redford um dos grandes actores da História do Cinema que um dia ao realizar o seu primeiro filme “Gente Vulgar” / “Ordinary People” viu o seu esforço coroado de Óscares. Outro nome a seguir é, evidentemente, George Clooney que nos ofereceu na segunda realização em “Boa Noite e Boa Sorte” / “Good Night and Good Luck” uma obra assombrosa. Já Kevin Spacey ao realizar “Bobby Darin”, criou um musical que deve ser descoberto por todos. Poderíamos falar em casos como Stanley Tucci ou John Turturro, actores conhecidos de muitos, que vão construindo uma obra de cineastas pela calada da noite. E só para terminar esta introdução nunca nos poderemos esquecer desse grande actor e cineasta, um dos pais do cinema independente, chamado John Cassavetes, que aplicava o dinheiro ganho nas interpretações em filmes realizados por outros, para investir na execução dos seus projectos cinematográficos, construindo uma das mais belas obras de um cineasta.


Não é a primeira vez que Robert de Niro assina a realização de uma película, já que se estreou atrás das câmaras nesse filme mágico intitulado “Uma Rua em Nova Iorque” / “A Bronx Tale” (1993) escrito e interpretado pelo actor Chazz Palminteri, tendo até mais tarde dado uma ajuda na realização a Frank Oz, no célebre filme “The Score” onde encontrávamos uma tripla chamada Marlon Brando, Robert de Niro e Edward Norton, o retrato perfeito de passagem de testemunhos na interpretação entre três gerações.

Mas chegar até à realização de “O Bom Pastor” não foi fácil. Inicialmente o cineasta pretendido era John Frankenheimer, infelizmente a morte veio buscá-lo e depois Francis Ford Coppola trabalhou durante algum tempo no projecto, sendo nessa altura a personagem de Edward Wilson interpretada por Robert de Niro, daí o facto de Coppola surgir como produtor executivo nos créditos da película. Porém o projecto não avançou e seria o próprio Robert de Niro, ao fim de dez anos, a conseguir concretizá-lo surgindo também como realizador.


“O Bom Pastor” oferece-nos o retrato da fundação da CIA, nascida da criação da OSS durante a Segunda Guerra Mundial e será através de Edward Wilson (Matt Damon) que iremos saber como tudo se passou. Logo no início do filme se percebe que ele é uma personagem cinzenta que procura saber como falhou a primeira grande operação da CIA no exterior, já que o FBI trata dos assuntos internos. Essa operação foi a célebre crise da Baía dos Porcos, com a tentativa da invasão da ilha de Cuba levada a efeito por exilados cubanos, mas preparada e comandada pela CIA. Fidel Castro era uma “persona non grata” (veja-se o filme realizado sobre ele por Oliver Stone já editado em dvd) e teria que ser derrubado rapidamente. Como todos sabemos a operação falhou e iremos descobrir ao longo do filme como o KGB tomou conhecimento da acção, através dessa personagem chamada Ulisses (Oleg Stefan), o agente de serviço do KGB.


Da mesma forma que o MI6 britânico recrutava os seus espiões na elite da Universidade de Cambridge, os americanos escolheram a Universidade de Yale para formarem a sua Agência e será aqui que iremos encontrar o jovem Edward Wilson, através de diversos flashbacks, que irá aceitar a missão de uma vida, tornando-se uma personagem cinzenta, colocando a nação acima da família, chegando mesmo a sacrificá-la. Ele transforma-se num marido e pai ausente, desde o dia do casamento e ao longo da vida a CIA será a sua casa.

As actividades da CIA já foram por diversas vezes documentadas no cinema, basta recordar filmes como “Os Três Dias do Condor” de Sidney Pollack com Robert Redford no protagonista ou o recente “Syriana” de Stephen Gaghan, interpretado por George Clooney, mas nunca até hoje ninguém se tinha debruçado sobre a fundação da Agência de Espionagem e Robert de Niro oferece-nos um olhar perfeito sobre a forma de agir dos serviços de espionagem norte-americanos, através do olhar de Edward Wilson, repare-se na forma como ele conduz a história, dando particular atenção aos pequenos gestos e ao cinismo que se vive entre os membros da Agência, atente-se na forma de agir da personagem criada por William Hurt (Phillip Allen), aliás baseada em parte em Allen Dulles, chefe dos serviços de contra-espionagem, da mesma forma que Bill Crudup, o agente britânico Arch Cummings, se baseia na famosa toupeira Kim Philby. Recorde-se que os serviços de Sua Majestade foram os mais permissíveis à entrada de agentes duplos, aliciados pelo KGB.


No argumento construído por Eric Roth, o mundo da espionagem é um universo masculino, sendo a personagem de Angelina Jolie/Margaret um simples contraponto da solidão em que vive o marido Edward Wilson, a sua solidão é idêntica à do marido, embora na de Edward se corra um risco permanente de vida, repare-se nos encontros entre Ulisses e Edward (The Mother, o nome com que o agente do KGB baptizou Edward) em territórios neutrais para, na troca de impressões, fazerem o seu jogo de chantagem.

“The Good Sheperd” surge assim como uma película perfeita sobre o mundo dos espiões, tão perfeita como esse magnífico livro escrito por John Le Carré, “O Espião Perfeito”, infelizmente nunca adaptado ao grande écran, embora tenha sido adaptado para a televisão (passou em Portugal na RTP-2, bem escondido do grande público).


Nos dias de hoje, ao sabermos de certas actividades desta Agência de Espionagem interrogamo-nos sobre quem efectivamente controla as suas actividades, o Presidente Americano ou o o Congresso dos Estados Unidos? A resposta é-nos dada no final do filme, quando o superior de Edward Wilson o avisa que irão certamente ter visitas para supervisionar o trabalho deles, mas que nem tudo será revelado, porque ali quem mais ordena é o Director. E basta recordar as teses apresentadas por Oliver Stone no seu “JFK” para obtermos algumas respostas.


“O Bom Pastor” é o retrato mais-que-perfeito de uma organização que cresceu no mundo da espionagem, temida e odiada por muitos, oferecendo-nos a sua história através dessa personagem criada por Matt Damon de forma sóbria e contida. Este “The Good Sheperd” surge como o outro lado da moeda do “Jogo de Espiões” / “Spy Games” (de Tony Scott) e revela-nos um cineasta chamado Robert de Niro acima de qualquer suspeita.

5.4.26

Stephen Gaghan - “Syriana”


Stephen Gaghan
“Syriana”
(EUA / Emiratos - 2005) – (128 min./Cor)
George Clooney, Matt Damon, Christopher Plummer, William Hurt.

Quando acendemos a televisão e escutamos os serviços noticiosos ou lemos os jornais, sabemos de antemão que um dos temas forte, seja dia útil ou fim-de-semana, é o Médio-Oriente e este fabuloso filme do cineasta-argumentista Stephen Gaghan é precisamente uma verdadeira “mina de ouro”, porque ao longo de duas horas aborda a questão do Médio-Oriente de todos os ângulos com uma eficácia, que não descura nenhum pormenor.


Mas o leitor estará possivelmente a pensar que não conhece o nome do cineasta, repare que não lhe chamamos realizador, mas sim cineasta ou seja sinónimo de autor. A razão é simples porque este cavalheiro é o argumentista do fabuloso “Traffic – Ninguém Sai Ileso” de Steven Soderbergh e, com este “Syriana”, vai ainda mais longe, visitando todos os intervenientes do complexo Médio-Oriente e precisamente por isso mesmo, esta película, tal como sucedeu com “Traffic”, tendo em conta o manancial de temas abordados, ficou conhecido como um filme “híper-link”!


Depois temos em “Syriana” um conjunto de actores fabuloso e não me estou a referir apenas aos mais célebres, mas também a todos os outros e nunca será demais referir que a interpretação de George Clooney é portentosa, tendo aliás conquistado o Oscar de Melhor Actor Secundário.


Em “Syriana” iremos conhecer todos os interesses que navegam no Médio-Oriente, bem conhecidos dos mais atentos, mas também descobrir os milhões de emigrantes que por ali trabalham, em busca da sobrevivência, algo de que desistiram d procurar nos países de onde são oriundos, trabalhando sem direitos laborais nos poços petróleo, até chegar esse momento fabuloso de “Syriana”, em que iremos assistir ao nascimento de um terrorista, para além de todas as outras vertentes do filme onde se abordam os conflitos e interesses económicos das grandes empresas e das grandes potências, que não olham a meios para atingir os seus fins, porque como todos sabemos o petróleo não é inesgotável.


Por tudo isto “Syriana” é um filme a descobrir! Veja com muita atenção, porque como num filme de Robert Altman, as histórias entrecruzam-se a uma velocidade vertiginosa e obrigam-nos a reconhecer que este foi o melhor filme feito até hoje sobre a realidade do Médio-Oriente e tendo em conta o que se passa por essas paragens com o mundo ocidental à beira do abismo devido ao bloqueio no estreito de Ormuz, devemos ver esta película de Stephen Gaghan, que se revelou um cineasta visionário.