30.4.26

Ryuichi Sakamoto - "async"


Ryuichi Sakamoto
"async"
Commmons
2019


Ryuichi Sakamoto tinha chegado a esse momento da vida em que as composições nasciam dos seus dedos e eram gravadas na sua editora como simples prazer musical e "async" é precisamente um desses célebres e secretos pequenos prazeres, que o músico decidiu partilhar com o ouvinte, neste mundo contemporâneo a viver uma das suas piores crises. Recorde-se que o genial pianista e compositor nos deixou a 28 de Março de 2023, mas a sua música permanece incontornável.

Leslie Charteris - “O Santo Brinca com o Fogo”


Leslie Charteris
“O Santo Brinca com o Fogo” / “The Saint Plays with Fire”
Colecção Vampiro, nº.26
Páginas: 280
Livros do Brasil

Hesitei hoje um pouco na escolha do livro em que o objectivo é fazer a lista dos livros que li ao longo da vida, mas terminei por optar pelo escritor Leslie Charteris, que apenas descobri este ano, ao encontrar os seus livros editados na colecção Vampiro a serem vendidos nas lojas da MBooks a um euro, com o rótulo “out of stock”.

Em criança, anos sessenta, assistia sempre às aventuras de “O Santo” na televisão, com o Roger Moore a dar cor e vida à personagem e muitos dos episódios eram apresentados por Artur Varatojo, com o seu célebre cachimbo na mão. Mais tarde, já num outro século, revi toda a série na RTP Memória e ao ver estes livros da colecção Vampiro comprei os cinco que estavam disponíveis na loja, desconhecendo que as aventuras de “The Saint” / “O Santo” nasceram em 1930 e que o seu escritor tinha nascido em Singapura em 1907 e falecido no Reino Unido em 1993.


“O Santo Brinca com o Fogo” / “The Saint Plays with Fire” é muito mais que um simples policial, editado pela primeira vez em 1938, surgiu no nosso país em 1949, segundo indica a edição de “Livros do Brasil” e aqui me interrogo se o livro na época terá visto a “luz do dia” ou foi “retirado do mercado”, porque a luta de “O Santo” é contra uma organização de extrema-direita francesa denominada “Os Filhos de França”, que pretende fazer um golpe de estado e tomar conta do país, contando com a cumplicidade de simpatizantes dos camisas negras britânicos e vendo no “cavalheiro” que em 1938 governava a Alemanha num exemplo a seguir, perante uma certa passividade das autoridades britânicas.

Os comentários que Leslie Charteris vai fazendo à situação que se vivia na Europa em 1938, com os políticos a assobiarem para o lado e a ignorarem o que se passava na Alemanha é demolidora, chegando a apelar ao exército alemão para destituir o louco que os governava.

Embora este fosse o segundo livro que li das aventuras de “O Santo” por Leslie Charteris, decidi optar por ele porque nos oferece um retrato do que era o mundo ou a Europa se preferirem em 1938, um livro que ultrapassa as fronteiras do policial e deixa o leitor agarrado da primeira à última página. “O Santo Brinca com o Fogo” de Leslie Charteris é uma pequena pérola que vos convido a ler, caso não conheçam!

Philippe Gautrand - "Jardin des Plantes"

Philippe Gautrand
"Jardin des Plantes"
Ano: 1987

Philippe Gautrand oferece-nos aqui uma das mais belas imagens do famoso "Jardin des Plantes" em Paris, criada no inverno de 1987, revelando-se como uma pintura em que vemos dois vultos na paisagem coberta de neve, caminhando lentamente por entre as árvores, obtendo uma simetria perfeita.

Richard Brooks - “A Última Vez Que Vi Paris” / “The Last Time I Saw Paris”


Richard Brooks
“A Última Vez Que Vi Paris” / “The Last Time I Saw Paris”
(EUA – 1954) – (116 min/Cor)
Elzabeth Taylor, Van Johnson, Walter Pidgeon, Donna Reed, Roger Moore.

Richard Brooks nasceu a 18 de Maio de 1912 em Filadélfia tendo iniciado a sua actividade profissional como jornalista na área do desporto, já a trabalhar na rádio colaborou com Orson Welles, dando depois o salto para o Teatro. O Ano de 1941 marca o seu encontro com Hollywood, como argumentista, cuja actividade se irá dedicar ao longo de uma década, ao mesmo tempo que publica diversos romances. Delmer Daves, John Sturges e Jules Dassin serão alguns cineastas que irão utilizar alguns dos seus argumentos.


Mas como não podia deixar de ser a realização acabaria por ser abraçada por Richard Brooks, assinando em 1950 o seu primeiro filme “Crisis”, com Cary Grant no protagonista,, iniciando assim uma longa carreira cinematográfica, revelando-se como um dos mais importantes nomes da sua geração.

“A Última Vez Que Vi Paris” / “The Last Time I Saw Paris” transporta para o cinema um dos mais famosos contos de Francis Scott Fitzgerald, no qual é de imediato detectado diversos traços autobiográficos do famoso escritor norte-americano, respeitante à sua estadia em Paris, na companhia da sua mulher Zelda Fitzgerald, oferecendo-nos o retrato dessa geração perdida que fez da cidade de Paris o seu reduto.


Charles Welles (Van Johnson) encontra-se num bar de Paris, que bem conheceu num passado recente e depois de ser reconhecido pelo dono do bar, com quem trava uma conversa recheada de memórias, parte numa viagem pelo passado, que o irá conduzir até esse momento de festa, que foi a libertação de Paris do jugo alemão, no final da Segunda Grande Guerra Mundial.

Iremos assim acompanhar os festejos na cidade, com a chegada das forças norte-americanas a serem saudadas efusivamente por uma população e onde Charles Welles (Van Johnson) se irá cruzar com duas mulheres: Helen Ellswirth (Elizabeth Taylor) e Marion Ellswirth (Donna Reed), que por acaso até são irmãs.


Charles Welles acabará por se casar com a primeira, nunca percebendo como a segunda se encontra perdidamente apaixonada por ele, terminando esta por se casar com um seu colega e amigo de armas. Charles Welles irá ficar a viver em Paris, depois de se casar com Helen (Elizabeth Taylor) trabalhando como jornalista e frequentando a vida mundana com a esposa, iniciando uma vida boémia, em que o álcool irá estar bem presente, especialmente quando decide encetar uma carreira de romancista, que tarda em ter sucesso, já que vê os seus livros sempre recusados pelas editoras, dando origem a uma depressão, que o conduzirá inevitavelmente a refugiar-se na bebida e a afastar-se de todos aqueles que lhe são queridos: esposa, filha e amigos.


Ao seguir-mos a história de Charles Welles percebemos de imediato que muitas destas personagens existiram na realidade no universo de Francis Scott Fitzgerald, um dos maiores vultos da Literatura Norte-Americana, que encontrou na bebida o seu escape das contrariedades da vida e a forma como Richard Brooks nos oferece este poderoso melodrama, cativa de forma perfeita o espectador, já que estamos perante uma planificação perfeita e uma direcção de actores surpreendente, onde mais uma vez a interpretação de Elizabeth Taylor é inesquecível.


Ao mergulharmos em “A Última Vez Que Vi Paris” / “The Last Time I Saw Paris” descobrimos a essência do melodrama no cinema, revelada por esse genial cineasta chamado Richard Brooks.

29.4.26

Bennie Maupin - “The Jewel In The Lotus”


Bennie Maupin
“The Jewel In The Lotus”
ECM Records
1974

Bennie Maupin – Reeds, Glockenspiel, Voice.
Herbie Hancock – Piano, Electric Piano.
Buster Williams – Bass.
Frederick Waits – Drums, Marimba.
Billy Hart – Drums.
Bill Summers – Percussion, Water-filled garbage can.
Charles Sullivan – Trumpet.

1 – Ensenada – 8:15
2 – Mappo – 8:30
3 – Excursion – 4:52
4 – Past+Present=Future – 1:52
5 – The Jewel In The Lotus – 10:02
6 – Winds of Change – 1:30
7 – Song For tracie Dixon Summers – 5:19
8 – Past Is Past – 3:57


O nome de Bennie Maupin encontra-se associado a dois nomes incontornáveis do jazz: Miles Davis (o álbum “Bitches Brew” que revolucionou o jazz) e Herbie Hancock, para além de fazer parte do quarteto Almanac, do pianista australiano Mike Nock.

Já este trabalho discográfico, que o tem como líder, intitulado “The Jewell in The Lotus”, é uma verdadeira jóia musical, algo de tão diferente e belo, que nos convida a ficarmos simplesmente a escutar a sua música serena e viajando através da floresta de sons que estes músicos vão desbravando de forma melódica, criando pequenos clareiras onde descansamos desses estranhos ruídos que povoam o quotidiano deste século XXI.

Gostaria ainda de chamar a atenção para o facto de o trompetista Charles Sullivan tocar apenas nos temas “Mappo” e “Excursion”. Como curiosidade refira-se ainda que a bateria de Billy Hart é escutada no canal direito e a bateria de Frederick Waits no canal esquerdo. “The Jewell in The Lotus” revela-se como uma obra-prima da música contemporânea.

Um álbum gravado em Março de 1974 no The Record Plant, New York City, por Dennis Ferrante e remisturado por Jan Erik Kongshaug. Produzido por Manfred Eicher. Fotografia da capa do álbum de Wunsch / Kleis. Design de Sascha Kleis. Este álbum foi remasterizado em Fevereiro de 2007 por Manfred Eicher e Jan Erik Kongshaug, a fim de ser editado em cd de 24 bits. Todas as composições são da autoria de Bennie Maupin.

Tintin - "Os Charutos do Faraó" - Hergé


Tintin
"Os Charutos do Faraó" / "Le cigares du Pharaon"
Arte: Hergé
Argumento: Hergé
Páginas: 62
Verbo

"Os Charutos do Faraó" foi a quarta aventura do célebre repórter Tintin a nascer da prodigiosa imaginação criativa de Hergé (Georges Remi) no ano de 1934, que inicialmente surgiu a preto e branco e posteriormente será colorida pelos Estúdios Hergé, estando publicada em álbum nas duas versões.

Édouard Boubat - "Jardin du Luxambourg"

Édouard Boubat
"Jardin du Luxambourg"
Ano: 1955

Édouard Boubat - (1923 - 1999) - antes de se dedicar à fotografia estudou tipografia e artes gráficas iniciando nesse ramo a sua actividade profissional, mas rapidamente se sentiu atraído pelo universo fotográfico, cujo convívio já fazia parte do seu trabalho quotidiano e será assim que se irá dedicar ao foto-jornalismo, revelando desde logo a sua enorme apetência por este universo que tão bem soube retratar como é possível ver pela imagem que reproduzimos, obtida no inverno de 1955, no célebre "Jardin du Luxemborg", onde as crianças se divertem com a chegada da neve à capital francesa. 

J. C. Chandor - “Quando Tudo Está Perdido” / “All Is Lost”


J. C. Chandor
“Quando Tudo Está Perdido” / “All Is Lost”
(EUA – 2013) – (106 min./Cor)
Robert Redford.

O dia em que fixei o nome de J. C. Chandor, foi quando vi no cinema a película “O Dia Antes do Fim” / “Margin Call”, um espantoso retrato sobre o universo financeiro que governa este planeta, que tinha ainda um elenco de luxo constituído por Jeremy Irons, Kevin Spacey, Stanley Tucci, Paul Bettany, tudo actores de “primeira água”, bem acompanhados por Simon Baker (da série “O Mentalista”) e Zachary Quinto (fixem este nome), já nas senhoras tínhamos uma Demi Moore que surpreendia pela qualidade e Mary McDonnell.


Foi assim que fixei o nome de Jeffrey McDonald Chandor ou J.C.Chandor, como ele prefere e sempre que encontro “Margin Call” revejo o filme, que desde já recomendo a todos. Convém desde já referir que estamos perante um desses argumentistas/realizador, que tem dado excelentes provas quando passam à realização, criando já uma pequena “fornada” de cineastas e após ter visto “Quando Tudo Está Perdido” / “All Is Lost”, filme anterior a “Margin Call”, arrisco-me a chamar-lhe cineasta e digo isto porque J.C. Chandor realiza uma obra única neste século XXI cinematográfico, utilizando apenas um actor, chamado Robert Redford (porque não lhe deram um Oscar pelo seu desempenho neste filme é um mistério?), criando com enorme saber uma película, onde fica bem vincadas as origens do cineasta, oriundo do documentarismo.


Os últimos dias de um navegador que um dia acorda com o seu veleiro a ser atingido por um contentor que lhe faz um rombo no casco revela-se de uma estranha magia cinematográfica, fazendo-nos recordar muitas vezes esse homem e o mar que um dia Hemingway escreveu e se Ernest regressasse dos mortos e nunca tivesse escrito na vida, talvez esta história nascesse na sua escrita, porque em “All Is Lost” nunca saberemos o nome deste navegador, que na ficha técnica surge como “Our Man” e depois apenas lhe escutamos uma dúzia de palavras ao longo do filme, enquanto acompanhamos a sua luta pela sobrevivência e mesmo a origem da introdução em voz off que escutamos no início, iremos perceber mais tarde.


“Quando Tudo Está Perdido” / “All Is Lost” realizado por J. C. Chandor é uma obra cinematográfica exemplar neste século XXI de “vacas bem magras”, onde o cinema anda pelas ruas da amargura, desconhecendo muitos até que ele um dia teve o cognome de Sétima Arte.

28.4.26

Mike Oldfield - “The Orchestral Hergest Ridge"


Mike Oldfield
“The Orchestral Hergest Ridge"


Em 1975 surgiu uma versão de “Tubular Bells” criada por David Bedford e Mike Oldfield a que foi dado o título “The Orchestral Tubular Bells”, mas o que poucos saberão é que Mike Oldfield também fez uma nova versão de “Hergest Ridge”, o seu segundo trabalho discográfico em nome próprio (com o amigo David Bedford) e que foi baptizado como “The Orchestral Hergest Ridge”, embora não tenha sido comercializado e apenas oferecido a alguns felizardos e que, muitos anos depois, se encontra disponível para audição no YouTube.


“The Orchestral Hergest Ridge” não possui a participação de Mike Oldfield na guitarra, mas sim de Steve Hillage, a oferecer-nos solos verdadeiramente espectaculares, no mais famoso instrumento da música rock: a guitarra Recorde-se que “Hergest Ridge” se revelou o álbum mais “pastoral” (se me é permitido usar a expressão) de toda a discografia de Mike Oldfield. Comparar este álbum, desconhecido de muitos, com a versão original ou com o seu “irmão gémeo”, “The Orchestral Tubular Bells” é um belo exercício musical.

"Ciclo Pasolini – Anos 60" - João Bénard da Costa / António-Pedro Vasconcelos / Pier Paolo Pasolini


"Ciclo Pasolini – Anos 60"
João Bénard da Costa
António-Pedro Vasconcelos
Pier Paolo Pasolini
Fundação Calouste Gulbenkian
Páginas: 104

Em Outubro de 1985 foi apresentada uma retrospectiva dedicada a Pier Paolo Pasolini no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo sido editado este catálogo constituído por uma introdução assinada por João Bénard da Costa, seguindo-se o ensaio “O Cinema de Pasolini” da autoria de António-Pedro Vasconcelos.


Depois temos o cineasta na primeira pessoa, com a tradução de uma alocução proferida por ele no Festival de Cinema de Pesaro em 1965 e intitulada “O cinema de poesia”, a que se segue uma viagem pelos seus filmes na primeira pessoa, intitulada “Filmes de Pasolini vistos por Pasolini”, terminando o livro com o respectivo calendário do ciclo.

Izis - "Rue du Louvre"

Izis
"Rue du Louvre"
Ano: 1944

Izis - (1911 - 1980) foi um fotógrafo lituano de origem judia chamado Israëlis Bidermanas que desenvolveu o seu trabalho em França, país onde chegou no ano de 1931, fascinado pela pintura, mas também pela fotografia, dando de imediato nas vistas pela forma bem original como retratava o quotidiano. Quando as tropas alemãs chegaram a Paris, devido ao facto de ser judeu refugiou-se em Limoges, mas seria preso e mais tarde libertado pela resistência, tendo retratado os seus libertadores, tal como os vira pela primeira vez.


Após o fim da guerra o seu convívio com figuras como Brassai, Marc Chagall e Jacques Prévert, que viria a escrever textos para os seus livros de fotografia revelam bem os laços de amizade que os uniam. Ao longo dos anos as suas fotografias retrataram sempre a veracidade da forma mais simples e muitas vezes bem poéticas. Izis apaixonou-se pela bela cidade de Paris e as suas gentes que tão bem retratou.    

Andrzej Wajda - “Um Amor na Alemanha” / “Eine Liebe in Deutscland”


Andrzej Wajda
“Um Amor na Alemanha” / “Eine Liebe in Deutscland”
(França / Alemanha – 1983) – (132 min./Cor)
Hanna Schygula, Piotr Lysak, Armin Mueller-Stahl, Daniel Olbrychski.

Andrzej Wajda é um dos mais conhecidos cineastas polacos, no entanto a maioria dos seus filmes terminam quase sempre por abordarem retratos psicológicos dos seus protagonistas, contando quase sempre com argumentos bem interessantes.


Responsável por duas obras-primas do cinema Polaco, sendo um deles essa obra maior intitulada “Terra Prometida” / “Ziemia Obiecana”, um fresco histórico de três horas, no qual iremos descobrir esse talentoso actor chamado Daniel Olbrychski, que surge também neste “Um Amor na Alemanha” e que é um dos intérpretes favoritos do cineasta, um filme que se estreou no nosso país, no saudoso Cinema Satélite (ao sala estúdio do antigo cinema Monumental) e “O Homem de Mármore” / “Czlowick z Marmuru”, que o irá revelar ao Ocidente, ao oferecer-nos a história da “construção do homem socialista” no leste europeu.


Após o seu sucesso internacional com “O Homem de Ferro” / “Czlowiek z Zeleza”, abordando os acontecimentos na Polónia que irão levar Lech Walesa ao poder, o cineasta polaco irá realizar em terras francesas o célebre “Danton” (1983) e nesse mesmo ano irá dirigir este belo filme intitulado “Um Amor na Alemanha” / “Eine Liebe in Deutschland”, uma pelicula onde a memória de um amor proibido durante a guerra, entre uma alemã e um polaco se irá revelar como o verdadeiro protagonista, sendo o uso de “flash-backs” uma constante no filme, o que termina um pouco por cortar o ritmo ao desenrolar da película.


Ao revermos este filme de Wajda, tantos anos depois, descobrimos nele não só a assinatura do cineasta, mas também o enorme talento dessa actriz inesquecível chamada Hanna Schygula porque, na verdade, ela é o filme!

27.4.26

Keith Jarrett - “Arbour Zena”


Keith Jarrett
“Arbour Zena”
ECM Records
1976

Keith Jarrett – piano.
Jan Garbarek – tenor saxophone, soprano saxophone.
Charlie Haden – bass.
Membros da Radio Symphony Orchestra, Stuttgard, dirigidos pelo Maestro Mladen Gutesha.

1 – Runes – 15:20
2 – Solara March – 9:40
3 – Mirrors – 27:47


Tenho que confessar que este é um dos meus álbuns favoritos de Keith Jarrett e o primeiro vinil que comprei da ECM Records. Descobri “Arbour Zena” no programa de Rádio “Forum”, da responsabilidade do saudoso Jorge Lopes, que para além de ser a mais famosa voz da RTP na área das transmissões de Atletismo, foi também na Rádio o maior divulgador da música da ECM Records no século passado.

Ao iniciarmos a audição deste intemporal trabalho discográfico de Keith Jarrett, datado de 1976 e que recentemente teve uma nova edição, somos invadidos pela cordas da “Radio Symphony Orchestra” de Stuttgart, dirigida por Mladen Gutesha e depois surge-nos o piano de Jarrett pontuando o movimento das cordas, até chegar o contrabaixo de Charlie Haden, que irá convidar a orquestra de cordas a navegar pelas linhas que vai elaborando, sempre acompanhado de forma envolvente e melodiosa pelo piano de Keith Jarrett, ao longo de “Runes”, passando por momentos de um solo mágico e inesquecível, até chegar o saxofone de Jan Garbarek a concluir a primeira viagem deste trabalho discográfico.


Já o segundo tema do álbum “Arbour Zena”, dedicado a Pablo Casals and The Sun e intitulado “Solara March”, surge de forma profundamente melancólica com uma abertura soberba do contrabaixo de Charlie Haden, sempre acompanhado pela orquestra de cordas e só depois nos irá surgir o piano de Jarrett a respirar melancolia por todas as teclas, entrando num soberbo diálogo com Haden, mas quando estamos a chegar a metade deste tema, o piano de Keith Jarrett surge em crescendo e entra o saxofone de Jan Garbarek, repleto de vivacidade e cor, que irá contagiar os restantes intervenientes, sempre numa perfeita harmonia.

A terceira peça deste genial “Arbour Zena” irá contar apenas com a participação de Keith Jarrett no piano e Jan Garbarek nos saxofones soprano e tenor, acompanhados pela respectiva Orquestra de Cordas, dirigida por Mladen Gutesha, que nos irá oferecer ao longo da quase meia-hora do tema “Mirrors” uma inesquecível viagem por um universo neo-romântico, convidando o ouvinte a contemplar o mundo que o rodeia, através de acordes de uma beleza transcendental.


O romantismo que respira das três faixas que compõem “Arbour Zena” levou-nos a elegê-lo como o ponto de partida da viagem musical desta semana: o encontro entre o jazz e a denominada música erudita, nessa bela encruzilhada, que muitas vezes nos conduz a maravilhosas descobertas.

Gravado em Outubro de 1975 no Tonstudio Bauer, Ludwigsburg, por Martin Wieland. Capa de Rolf Liese. Layout de Dieter Bonhhorst. Produzido por Manfred Eicher. Todas as composições são da autoria de Keith Jarrett. Charlie Haden apenas toca nos temas 1 e 2. Todas as faixas são alvo de uma dedicatória do pianista: “Runes” (Dedicated to The Unknown); “Solara March (Dedicated to Pablo Casals and the Sun); “Mirrors” (Dedicated to My Teachers).

Astérix - "A Zaragata" - René Goscinny / Albert Uderzo


Astérix
"A Zaragata" / “La Zézanie"
Argumento: René Goscinny
Arte: Albert Uderzo
Páginas: 48
Asa


Quando a banda desenhada é visionária termina por se revelar o espelho do mundo, como sucede com esta "Zaragata" que opõe Astérix a Obélix!

"Juliette Gréco & Miles Davis" - Jean-Philippe Charbonnier

Jean-Philippe Charbonnier
"Juliette Gréco & Miles Davis"
Salle Pleyel, Paris.
Ano: 1949

Miles Davis em 1949 ainda não tinha gravado nenhum álbum, mas começava a dar nas vistas no universo musical, recorde-se que o seu primeiro álbum data de 1951, mas já tinha surgido em dois singles ao lado de Charlie Parker (1947) e Fats Navarro (1948) e na colectânea intitulada "The Charlie Parker All Stars" (1948).


No que diz respeito à então bela Juliette Gréco, que já era figura bem conhecida da noite parisiense só no ano seguinte irá gravar o seu primeiro single que incluía os temas "Si Tu L' Imagines", "La Fourmi" e "Rue des Blancs Manteaux", embora a sua voz já fosse bem conhecida como algumas das canções do seu reportório.

Jean-Philippe Charbonnier - (1921 - 2004) foi um fotografo francês cuja obra fotográfica se caracterizou por um profundo humanismo, tendo a "2ª Grande Guerra deixado profundas marcas no seu universo artístico. Nesta fotografia tirada na célebre Sala Pleyel em Paris, captou de forma perfeita o olhar fascinado de Juliette Gréco, que observa as notas musicais que nascem do trompete de Miles Davis.

Jacques Tati - “As Férias do Sr. Hulot” / “Les vacances de Monsieur Hulot”


Jacques Tati
“As Férias do Sr. Hulot” / “Les vacances de Monsieur Hulot”
(França – 1953) – (96 min – P/B)
Jacques Tati, Nathalie Pascaud, Lucien Frégis.

Jacques Tati é um nome incontornável no interior da comédia e os seus filmes, de uma originalidade absoluta, falam por si. Se em “Há Festa na Aldeia” / “Jour de Féte” iremos encontrá-lo a vestir a pele desse carteiro sempre tão zeloso do seu trabalho, já em “As Férias de Monsieur Hulot” iremos assistir ao nascimento de uma das personagens mais fascinantes de sempre no interior da Sétima Arte, o Monsieur Hulot, sempre acompanhado do seu cachimbo e chapéu, dois adereços que viveram para sempre com o personagem.


“Les Vacances de Monsieur Hulot” vai-nos convidar a seguir as suas férias na praia na zona de Saint-Marc-sur-Mer. Mas mal o vimos na sua “carripana”, que se desloca com uma certa turbulência e alguma dificuldade nas subidas, de imediato um sorriso irá nascer-nos no rosto, para ali permanecer fascinado com os inocentes “gags” oferecidos por Hulot, sempre perfeitos e “angélicos” e onde a “ingenuidade” vive de mãos dadas com a “simplicidade”, fruto de um árduo trabalho criativo.

A entrada de Monsieur Hulot no Hotel de la Plage é memorável e depois, ao longo da sua estadia na estância balnear, iremos assistir às mais diversas situações burlescas: o pneu que se transforma em coroa de flores no cemitério; o passeio de barco na praia, a explosão do fogo-de-artifício ou o seu convívio com os outros veraneantes, que tantas vezes no faz recordar o Petit Nicolas e as suas “vacances”.


Numa época em que as televisões insistem em apresentar “apanhados” idiotas, no intuito de fazer rir as audiências, talvez fosse melhor oferecerem ao espectador os filmes de Jacques Tati, para todos descobrirem como se faz sorrir de forma inteligente, partindo de situações do quotidiano. E nunca é demais recordar que ele transforma a banda sonora dos seus filmes num intérprete maravilhoso e surpreendente.


Monsieur Hulot é uma personagem única na História do Cinema e o seu criador, esse cineasta/intérprete de nome Jacques Tati, navegou sempre nesse “mar alto” da comédia ao lado de Charles Chaplin e Buster Keaton, oferecendo-nos a magia do sorriso inteligente das suas películas.

26.4.26

Lou Reed / John Cale - "Songs For Drella"


Lou Reed / John Cale
"Songs For Drella"
Sire Records
1990

Um dos mais belos álbuns de homenagem a um criador e à sua época assinado por dois membros dos Velvet Underground: Lou Reed e John Cale. O homenageado chama-se Andy Warhol e este trabalho discográfico é para se escutar quando a noite chega e esta hora de publicação do post é a mais propicia a belas nostalgias.

Steven Jay Schneider - "1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer"


Steven Jay Schneider
"1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer"
"1001 Movies You Must See Before You Die"
Dinalivro

Como se fosse uma moda, de súbito surgiram uma série de livros no intuito de nos alertar para os filmes, livros, música e arte que deveremos ver, ler, escutar e visitar, antes de partirmos. Pessoalmente não considero este género de títulos muito feliz, mas de qualquer forma decidi comprar este volume dedicado ao cinema e ler as suas 960 páginas, um livro bem pesado, mas que se lê com enorme agrado e sentido crítico, porque como não poderia deixar de ser existem títulos que ficam esquecidos e outros, que nem deveriam figurar por aqui.

Mas como todos sabemos, cada um tem os seus critérios e eu também tenho os meus, que presentemente se afastam bastante dos que ditam as novas modas, porque esta ideologia do "politicamente correcto", de memória muito curta, cinematograficamente falando, possui uma grelha bem redutora. "!001 Filmes para ver antes de morrer" termina por se ler com agrado.

Jean-Louis Forain - "Le Jardin Public"


Jean-Louis Forain
"Le Jardin Public"
Óleo sobre tela
54,9 x 45,7 cm.
Ano: 1884

Jean-Louis Forain - (1852 - 1931) - iniciou os seus estudos de arte na juventude, amigo de Rmnbaud irá ter em Manet e Degas duas das suas maiores influências, com quem estabeleceu amizade. Mais tarde irá participar em algumas das famosas exposições dos pintores Impressionistas. Recorde-se que este grupo de artistas decidiram tomar a iniciativa de criar estes acontecimentos artísticos em virtude de as suas obras serem sempre recusadas pelas autoridades culturais.


Em "Le Jadin Public" datado de 1884  é possível verificar a influência de Degas embora Jean-Louis Forain mantenha a sua originalidade ao captar a vivência da época, tendo em destaque uma jovem senhora que olha com curiosidade um indivíduo que passou por ela, sendo curioso que esta última personagem referida surge no lado direito do quadro, mas de forma "cortada" impossibilitando-nos de ver a sua figura na totalidade, em especial o seu rosto, ao contrário da jovem que o olha revelando uma certa curiosidade ou surpresa se preferirem a expressão.

Costa-Gavras - “O Capital” / “Le Capital”


Costa-Gavras
“O Capital” / “Le Capital”
(França – 2012) – (114 min./Cor)
Gad Elmaleh, Gabriel Byrne, Natacha Régnier.

O primeiro filme que vi deste cineasta grego, naturalizado francês, foi em 1970 no cinema Eden, “A Confissão” / “L’aveau”, com Yves Montand no protagonista, tinha eu 11 anos e desconhecia que estava a dar os primeiros passos na cinéfilia, fixei o nome do actor e o estranho nome do realizador, depois quando voltei a “encontrar-me” com Costa-Gavras, o filme chamava-se “Z – A Orgia do Poder” / “Z” e nesse momento percebi que este realizador possuía o estatuto de cineasta, algo que o tempo veio a comprovar, porque a sua assinatura encontra-se nas imagens e no argumento das películas que realiza, sendo bastante interventivo na criação dos argumentos dos filmes que dirige com enorme saber, todos eles a interrogarem o mundo em que vivemos e sempre bastante incómodos para o Poder, seja qual for a sua cor, a única excepção da sua filmografia intitula-se “A Luz da Paixão” / “Clair de femme” com Yves Montand e Romy Schneider.


Neste estranho século XXI, o jornalismo atravessa a pior crise da sua história, como entidade independente dos poderes, seja o político, o económico ou essa entidade denominada redes-sociais, a última película de Costa-Gavras intitulada “O Capital” / “Le Capital”, revela-se uma verdadeira lufada de ar fresco ao nos contar a história de um testa de ferro chamado Marc Tourneuil (espantosa interpretação de Gad Elmaleh), que ao assumir a Presidência de uma importante Instituição Bancária decide tomar o Poder, jogando nos mais diversos tabuleiros da Alta-Finança e dos Mercados, manipulando e traindo, sem dó nem piedade, os seus aliados e “padrinhos”, intitulando-se o “Robin dos Bosques dos Ricos” e terminando por vencer em todas as frentes, incluindo a familiar, logo a primeira a ser conquistada, e contornando com dificuldade as célebres tentações que por vezes atingem fatalmente as suas almas gémeas.


“O Capital” / “Le Capital” de Costa-Gavras, oferece-nos assim um retrato do mundo contemporâneo que, inevitavelmente, nos leva a interrogar não só a informação que temos, mas também o mundo em que vivemos, onde cada vez mais os Mercados, com as suas célebres Agências de Rating, decidem o destino dos países e fazem tremer os seus dirigentes políticos.


Mais uma vez Costa-Gavras assina um filme genial e incontornável, que enriquece decididamente a sua filmografia e que bem merece ser redescoberto, porque se encontra para além de qualquer ideologia!

25.4.26

Steve Kuhn with Strings - “Promises Kept”


Steve Kuhn with Strings
“Promises Kept”
ECM Records
2004

O pianista norte-americano Steve Kuhn, bem conhecido do grande público do jazz e que ao longo de décadas foi gravando para a ECM Records, para além de outras editoras, viu concretizado o seu sonho mais secreto ou seja, gravar peças do seu belo e extenso reportório com uma orquestra de cordas. Se o produtor Manfred Eicher é um dos alicerces deste magnifico álbum intitulado “Promises Kept”, de uma beleza e sonoridades indescritíveis (encontramo-nos no Paraíso), o outro grande responsável pela cor das sonoridades que respiram nesta obra-prima é sem duvida alguma o Maestro e compositor Carlos Franzetti, responsável pelos arranjos sublimes que nos são oferecidos, contando ainda o inesquecível “Promises Kept” de Steve Kuhn, com a colaboração de David Finck no contrabaixo.


A maioria dos temas de “Promises Kept” de Steve Kuhn, são bem conhecidos dos devotos do pianista e “Life’s Backward Glance” ou o famoso “Trance”, que certamente já foram escutados por muitos ao longo dos anos em formação de quarteto, trio ou simplesmente em piano solo, surgem aqui como se tratassem de originais a conhecerem o seu baptismo discográfico e depois temos um álbum profundamente homogéneo, cujos horizontes melódicos se vão expandindo à medida que os vamos escutando e quando terminamos a audição de “Promises Kept” de Steve Kuhn, sentimos de imediato o desejo de escutar de novo este incontornável trabalho do pianista norte-americano, que nos oferece um dos mais belos encontros entre o jazz e a denominada música erudita, demonstrando que neste universo não existem fronteiras. “Promises Kept with Strings” de Steve Kuhn é simplesmente apaixonante!

Blueberry - "O Cavaleiro Perdido" - Jean-Michel Charlier / Jean Giraud


Blueberry
"O Cavaleiro Perdido" / "Le Cavalier Perdu"
Argumento: Jean-Michel Charlier
Arte: Jean Giraud
Pranchas: 46
Álbum: Asa/Público

Jean-Michel Charlier com o quarto volume das aventuras de "Blueberry" surgido em 1968, oferece-nos um novo personagem, Jim McClue, que nutre uma profunda amizade por um bom whisky, tal como o nosso Tenente adora poker, não olhando a meios para obter o naipe perfeito. Mas o que interessa em "O Cavaleiro Perdido" em tentar encontrar chefe Cochise conseguir a paz, mas mais uma vez Blueberry irá encontrar pelo caminho o temível Águia Solitária.

E para aqueles que desconhecem o nome completo do Tenente Blueberry, o herói que vai envelhecendo ao longo das histórias aqui vos deixo: Michael Steven Blueberry.