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8.8.26

Douglas Sirk - “Imitação da Vida” / “Imitation of Life”


Douglas Sirk
“Imitação da Vida” / “Imitation of Life”
(EUA – 1959) – (125 min. / Cor)
Lana Turner, John Gavin, Juanita Moore, Sandra Dee.

Quando se fala em melodrama, na História do Cinema, o primeiro nome que surge no firmamento é inevitavelmente o de Douglas Sirk, aliás Sierck Detlef (seu nome real), nascido em Hamburgo na Alemanha, filho de pais dinamarqueses.


E dizemos o primeiro, porque logo a seguir encontramos o de John M. Stahl, outro cineasta que levou este género até ao topo da Sétima Arte e curiosamente há uma profunda ligação entre ambos, já que Sirk fez “remakes” dos filmes de Stahl, sendo “Imitation of Life” um deles, tendo até Douglas Sirk adoptado o mesmo título para o seu “remake”; assim, no lugar outrora ocupado por Claudette Colbert, iremos ter Lana Turner, essa mesma Lana Turner que serviu de modelo a um belo poema de Frank O’Hara, já aqui falámos dele e que surpreendeu tudo e todos com a sua interpretação em “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes” de Tay Garnett, também já aqui abordado.

“Imitação da Vida” conta-nos a história de duas mulheres, uma branca e outra negra, ambas sem maridos e ambas com duas filhas, que um dia se encontram na praia de Coney Island. E se a pequena Susie é o rosto de Lora Meredith (Lana Turner), já Sarah Jane não possui os traços da sua mãe Annie Johnson (Juanita Moore), sendo essa diferença de pigmentação o seu maior pesadelo desde tenra idade, porque todos a julgam branca e ela não gosta que se saiba que a sua mãe é negra, porque imediatamente será marginalizada pela sociedade, essa mesma sociedade tão branda de costumes e que cultiva um profundo racismo no seu interior.


Mas nesse encontro na praia há mais uma personagem, o fotógrafo Steve Archer (John Gavin), que irá cruzar a sua vida com aquelas duas mulheres e respectivas filhas, ao longo dos anos, porque Lora (Lana Turner) é uma mulher que lhe desperta os sentidos. E aqui muitos se interrogaram por esta personagem não ser interpretada por Rock Hudson, o actor que o cineasta lançou na ribalta com os seus famosos melodramas. A resposta é simples: este é um filme de mulheres, de quatro mulheres, onde os homens são personagens secundários ou acessórios perfeitos para pontuarem a história delas.

Lora Meredith (Lana Turner), ao longo dos anos, foi uma espécie de assistente do marido, um director teatral, e quando ele morreu ficou sem eira nem beira, numa altura em que a idade já se fazia sentir. Ela decide então enfrentar a vida e entrar novamente na corrida, muitas vezes usando estratagemas, que a levarão a bom porto. Graças à sua beleza e depois ao seu talento, ela irá passar de modelo a actriz consagrada, vendo o sucesso a bater-lhe à porta, mas para conseguir subir a escada ela terá que fazer cedências e ao dedicar todo o seu tempo à sua carreira, entregando a sua filha Susie (Sandra Dee) aos cuidados da sua amiga Annie, que trabalha em sua casa, ao mesmo tempo que vai afastando Steve Archer (John Gavin) do seu caminho, adiando o seu amor por ele.


Já Annie (Juanita Moore) encontra naquela mulher a sua melhor amiga, essa mulher que lhe ofereceu uma casa numa época em que ambas nada tinham e lhe deu um tecto para a sua pequenina filha Sarah Jane, que ao longo dos anos irá cultivar um desprezo pela mãe devido à cor da pele desta, escondendo as suas origens e dizendo a todos que é branca, tornando desta forma a vida da mãe num profundo desgosto que a irá aniquilando lentamente. Iremos assim assistindo a essa luta entre uma mãe que ama profundamente a filha e deseja o melhor mundo para ela, enquanto Sarah Jane despreza a mãe à medida que vai crescendo e será através deste confronto que iremos descobrindo o racismo que habita a sociedade norte-americana dessa época, um racismo subterrâneo e “bem comportado”, mas que quando surge à superfície se torna profundamente violento. Basta ver a forma como Frankie (Troy Donahue), o namorado de Sarah Jane, lhe bate quando descobre que a mãe dela é negra e a abandona caída na rua, ou quando esta é despedida do “night-club” onde trabalha como corista, quando a mãe a vai ver.

Por outro lado Steve Archer torna-se um homem de negócios bem sucedido, mantendo os laços com a família, vendo crescer as duas raparigas, ao mesmo tempo que continua a amar Lora, essa mulher que só tem tempo para a sua carreira. E será durante a ausência de Lora, numas filmagens, que a sua filha Susie começa a cultivar a sua paixão por ele de forma secreta, até que confessa à mãe o nome do homem por quem está apaixonada.


Douglas Sirk constrói desta forma a essência do melodrama: se já tínhamos tido a diferença de classes em filmes anteriores, aqui encontramos o racismo numa extensão até aqui nunca vista no cinema desses anos, criando de forma sublime o vocabulário de que este é feito, o duelo de amor entre uma mãe e a sua filha, fruto de uma sociedade que olha a cor da pele como sinónimo de mundos diferentes e profundamente distantes, quando na verdade todos somos frutos do amor entre duas pessoas.

O cinema de Douglas Sirk andou durante algumas décadas esquecido de todos e foi com o filme de Todd Haynes “Longe do Paraíso” / “Far From Heaven”, sobre o qual já aqui escrevemos, que ele voltou a ser falado, para depois muitos descobrirem como a obra de Rainer Werner Fassbinder se filiava no cinema de Douglas Sirk, tendo até o cineasta alemão assinado um conjunto de três pequenos filmes com Douglas Sirk, aliás os derradeiros do génio do melodrama.


Se não viu o filme em sala quando ele foi reposto em cópia restaurada, veja a edição em DVD de “Imitação da Vida” / “Imitation of Life” porque é soberba e ainda nos oferece como extra o filme de John M. Sthal. (Re)descobrir este filme é encontrar a essência do melodrama no interior da Sétima Arte.

5.8.26

Douglas Sirk - “Tempo de Amar e Tempo de Morrer” / “A Time to Love and a Time to Die”


Douglas Sirk
“Tempo de Amar e Tempo de Morrer” / “A Time to Love and a Time to Die”
(EUA – 1958) – (132 min./ Cor)
John Gavin, Liselotte Pulver, Erich Maria Remarque, Jack Mahoney.

Douglas Sirk, quando realizou “Tempo de Amar e Tempo de Morrer” / “A Time To Love and a Time To Die”, já era considerado por muitos o Mestre do Melodrama e esta película, sobre um amor durante a Segunda Grande Guerra, é a prova provada disso mesmo, que nos seja perdoada a redundância.


Nascido em Hamburgo em 1900 e filho de pais dinamarqueses de nome Sierck Detlef, iniciou a sua carreira na Alemanha mas, como muitos outros com a ascensão de Hitler, trocou o velho continente pelo novo mundo, americanizando o seu nome para Douglas Sirk, passando imediatamente a ser conhecido como um génio do melodrama, fazendo aliás diversos “remakes” desse outro mestre norte-americano chamado John Stahl.

Utilizando a cor como ninguém e usando as cambiantes com um sentido dramático, foi o responsável pela descoberta desse grande actor chamado Rock Hudson, que interpretou alguns dos seus melhores filmes como “Sublime Expiação” / “Magnificent Obsession”, “O que o Céu Permite” / “All That Heaven Allows” e “Escrito no Vento” / “Written on The Wind”.


Douglas Sirk utilizou sempre, nos seus filmes, o plano sequência com uma magia digna de nota, aliás sempre se disse que ele era um dos cineastas que montava os filmes na câmara, para evitar as célebres interferências dos produtores. E nunca é demais recordar a espantosa homenagem que lhe prestou Todd Haynes, no seu sublime filme “Longe do Paraíso” / “Far From Heaven”, em que cita de forma explícita os seus filmes e usa as célebres cores do cineasta e já agora nunca é demais falar nesse outro cineasta chamado Rainer Werner Fassbinder, que nunca escondeu as influências de Douglas Sirk nos seus filmes, tendo aliás escrito diversos textos sobre a sua obra, chegando até a colaborar com ele, numa espécie de homenagem ao Mestre.

“A Time to Love and A Time to Die” inicia-se no final da Segunda Grande Guerra, nesse momento em que as tropas alemães, à beira da derrota na Frente Russa, começam a retirar e quando menos espera Ernst Graeber (John Gavin, que iremos encontrar no filme seguinte de Douglas Sirk “Imitação da Vida” / “Imitation of Life”), irá ter direito a uma curta licença em Berlim. Espantado e satisfeito, irá descobrir a sua cidade completamente destruída e vítima de constantes bombardeamentos. A casa dos seus pais está destruída e o seu paradeiro é desconhecido.


Inicia então diversas buscas para os localizar. E será durante esse período que se irá encontrar com Elizabeth (Liselotte Pulver), a filha do médico da família e sua antiga colega de escola, para então descobrir que o regime por quem oferece a vida se encontra à beira do fim, ao mesmo tempo que a Gestapo continua a sua perseguição aos que colocam em causa as ideias do Fuhrer. Basta uma palavra de critica para se ser imediatamente preso ou destituído de funções, como sucedeu com o seu professor, aqui interpretado pelo célebre escritor alemão Erich Maria Remarque, que também é o autor do livro em que se baseia o argumento do filme.

Recorde-se que Erich Maria Remarque já tinha assinado esse espantoso livro intitulado “A Oeste Nada de Novo”, que mostrava de forma bem crua o sentido da guerra, neste caso concreto a Primeira Guerra Mundial, livro esse que depois do seu enorme sucesso foi adaptado ao grande écran por Lewis Milestone. E em “Tempo de Amar, Tempo de Morrer”, o próprio escritor dá corpo a uma das personagens, esse professor Pohlmann que um dia se atreveu a criticar o sentido da guerra e as opções do regime.


Ernst Graeber (John Gavin) irá encontrar em Elisabeth (Liselotte Pulver) o sentido da vida, durante a sua breve licença, descobrindo amargamente como um dia corresponde a um ano de vida. Este par irá viver os dias que passam juntos como uma última oportunidade de vida, terminando até por se casarem por sugestão dele, porque assim sempre poderá deixar uma pensão à mulher, porque sabe muito bem que aquele breve período é um tempo para amar e depois só lhe resta morrer na frente oriental, porque a sua hora de morrer está à muito anunciada.

Iremos assim acompanhar este par ao longo dos dias, numa Berlim à beira do fim, ao mesmo tempo que ambos vão descobrindo como funciona o regime, com as suas prisões e campos de concentração. Aliás o pai de Elizabeth irá morrer num desses mesmos campos.


“Tempo de Amar e Tempo de Morrer” mantem-se fiel ao melodrama de que Douglas Sirk foi Mestre Cinematográfico. Basta ver como ele nos mostra a partida de Ernst Graeber para a frente de batalha/morte e o olhar submisso de Elizabeth na estação em busca dele, para uma derradeira despedida, sabendo muito bem que nunca mais se irão encontrar. Depois a forma como ele morre na frente, ao ser morto por um dos russos que acabou de libertar das garras do SS, porque já não acredita nos valores daquela guerra, demonstra bem como o seu destino estava traçado, sendo o seu gesto traído por esse ódio de que a guerra se alimenta sempre. “A Time to Love and A Time to Die” é uma das obras mais fascinantes de Douglas Sirk, um cineasta que merece sempre ser recordado como o Grande Mestre do Melodrama.

Muitos do que descobrem este filme do cineasta alemão Douglas Sirk, nos dias de hoje, se interrogam a razão da sua feitura em 1958, mais de uma década depois da guerra ter terminado e a resposta encontra-se no nome de Klaus-Detlef Sierck. Recorde-se que Douglas Sirk se chama Detlef Sierck tendo americanizado o nome ao chegar à América, com a segunda esposa, judia, chamada Hilde Jary, tendo deixado na Alemanha o seu jovem filho Klaus, fruto do seu primeiro casamento, que desde o divórcio do cineasta da sua primeira mulher ficara a viver com a mãe, uma apoiante fervorosa do regime, tendo-se a criança tornado actor de cinema desde “tenra idade”.


Alguns dos seus filmes foram exibidos no nosso país, como o seu último trabalho no grande écran “Der Grosse Koning” / “O Grande Rei”, datado de 1942 e estreado no Cinema Ginásio em 20-01-1944, dirigido pelo cineasta de má memória Veit Harlan (o realizador de “O Judeu Juss” / “Jud Süss”). Na América Douglas Sirk via sempre os filmes protagonizados pelo filho, no silêncio dos dias e quando a guerra terminou partiu para a Alemanha na esperança de o encontrar vivo, mas o jovem Klaus tinha morrido em combate na frente russa em 1944, com apenas 18 anos, depois de ter sido incorporado no regimento de infantaria Grossdeutchland, que viria a ser dizimado, na actual Ucrânia.


Ao revermos esta película de Douglas Sirk, com estes dados ao nosso dispôr terminamos por (re)descobrir “Tempo de Amar, Tempo de Morrer” / “A Time to Love and A Time to Die” com outro olhar.