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12.2.26

Alfred Hitchcock - "Pobre Pete" / "Manxman"


Alfred Hitchcock
"Pobre Pete" / "Manxman"
(Inglaterra – 1929) – (77 min. / Mudo)
Carl Brisson, Malcolm Keen, Anny Ondra, Randle Ayrtom.

Para muitos “The Manxman” é o último filme mudo de Hitchcock, para outros será “Blackmail” / “Chantagem”, que possui duas versões: a muda (a primeira a ser rodada) e a sonora (a segunda versão, surgida devido ao aparecimento do sonoro), que levou Alfred Hitchcock a refazer o filme, tendo até a voz da protagonista Anny Ondra (famosa actriz checa do cinema mudo) sido dobrada. Polémicas à parte, “The Manxman” é uma das obras-primas do cineasta do período mudo, a par de “O Inquilino Misterioso” / “The Lodger”.


Logo no início do filme parece que vivemos no melhor dos mundos, na famosa Ilha de Man, onde dois amigos de infância Pete e Philip, de condições sociais diferentes (um é advogado e o outro pescador), são como irmãos e será isso mesmo que iremos descobrir no cais. Depois vamos acompanhá-los até ao “Pub”, onde é assinada uma petição por causa das quotas do pescado e aí iremos encontrar pela primeira vez a filha do dono do bar, a bela Kate (Anny Ondra) e de imediato somos obrigados a reparar que aqueles dois homens nutrem um profundo amor por ela.


Se Pete (Carl Brisson) é expansivo, já Philip (Malcolm Keen) é introvertido. E durante a assinatura da petição iremos descobrir o célebre humor hitchcockiano, depois Pete já sozinho com o amigo decide declarar o seu amor por Kate, mas o pai dela é na verdade uma montanha inacessível e será Philip, devido à sua condição social, que irá transmitir os sentimentos do amigo à família de Kate, sendo a reacção do pai dela a pior. Nessa mesma noite, Pete irá encontrar-se com Kate, informando-a que irá partir para África em busca do sucesso, para depois a pedir em casamento e ela decide esperar por ele.


Durante a ausência de Pete, os laços de amizade de Kate e Philip transformam-se em amor, repare-se na forma como Alfred Hitchcock nos informa da transformação dos sentimentos dela, através das páginas da sua agenda/diário (a célebre economia de meios), amor esse, quase proibido devido à promessa dada por Kate a Pete. Quando a notícia da morte de Pete é conhecida, a reacção de Kate surpreende Philip, “estamos livres” diz-lhe ela e assim o seu romance começa a ter pernas para andar. Mas o destino também prega as suas partidas e o falecimento de Pete não passa de um erro, ele estava bem de saúde e rico e iria regressar para os braços da sua amada.


Alfred Hitchcock começa então a explorar, já com mão de Mestre, o sentimento de culpa e traição que invade Kate e Philip, basta reparar em toda a sequência na praia, quando Kate sabe do regresso do Pete, ao mesmo tempo que vamos vendo o aproximar do navio que transporta o pescador. E se esse sentimento de culpa é maravilhosamente trabalhado, já o suspense começa a invadir o espectador quando Kate se encontra com Pete: todos pensamos que ela lhe está a confessar os seus novos sentimentos para, só no final do diálogo, sabermos pelos intertítulos que ela aceitou casar com Pete.


Começa assim uma verdadeira via-sacra para Philip e quando Kate fica grávida já todos sabemos que a criança não é do marido. Nunca é demais recordar que esta película é de 1929 e só de pensar nas reacções dos espectadores de então, temos a noção perfeita de como este filme estava à frente do seu tempo, uma verdadeira pedrada no charco. Iremos assim encontrar mais tarde os dois homens em casa à espera da notícia do nascimento da criança, dois pais esperando pelo nascimento da filha, descobrindo-se nessa espera o contentamento de Pete, ao mesmo tempo que vemos a angústia de Philip.

Alfred Hitchcock sempre teve uma predilecção por louras, como todos sabemos, e Anny Ondra é na realidade a primeira loura hitchcockiana, de uma beleza absoluta, sendo filmada com a mesma intensidade que Grace Kelly em “Chamada para a Morte” / “Dial M for Murder”.


Com o nascimento da criança, o remorso começa a invadir Kate, terminando por fugir de casa, refugiando-se no escritório de Philip. E a mulher que encontramos está no limite das suas forças, a forma como Hitchcock a filma diz tudo e as suas roupas são uma espécie de luto por um amor que nunca chegara a nascer. Mas a carreira de Philip está no auge, tinha acabado de ser nomeado juiz da Ilha de Man e a indecisão apodera-se dele. Kate acaba por se suicidar lançando-se às águas do mar. E aqui temos um dos mais perfeitos “raccords” da obra de Alfred Hitchcock, quando as águas do mar ficam confinadas ao tinteiro do Juiz Philip no seu primeiro dia de trabalho no tribunal.


A culpa surge assim como o protagonista do filme, essa mesma culpa que muitos anos depois irá perseguir Cary Grant em “Notorious” / “Difamação”, depois de ter enviado Ingrid Bergman, a mulher amada, para os braços de Claude Rains, para ela espiar as actividades secretas do marido com quem se casou contra vontade. Será essa expiação da culpa que iremos encontrar no tribunal, quando uma mulher é levada ao juiz para este julgar. Ela tinha-se tentado suicidar e depois de ter sido salva por um polícia recusava revelar a sua identidade.


Quando Philip reconhece Kate, o mundo cai-lhe literalmente aos pés e a sua tortura tem início, aumentando quando Pete entra no tribunal com a família para recuperar a esposa. Porém, esta nega-se a voltar para os braços do marido e mais uma vez o suspense instala-se na(s) sala(s) (a do tribunal e a do espectador), até ao momento em que o pai de Kate aponta o dedo acusador ao Juiz, como o principal responsável dos acontecimentos. Philip, que entretanto de Juiz se transformara em réu, vê-se de repente como condenado, decidindo abandonar o lugar pelo qual tanto tinha lutado e parte com a mulher e a filha rumo ao desconhecido, debaixo dos olhares odiosos de toda a população da aldeia. Pete, o Pobre Pete, regressa à faina da pesca, olhando com tristeza as águas do mar.


Mais uma vez recordamos que este filme é datado de 1929 e embora não seja um dos favoritos do Mestre do Suspense, ele é uma obra-prima do cinema do período mudo, uma daquelas pérolas que merece ser descoberta, já está editado em dvd numa cópia deslumbrante. Por outro lado, toda a realização de Alfred Hitchcock possui todas as coordenadas da sua futura obra cinematográfica, não só através dos planos perfeitamente elaborados, como a magia com que ele trabalha o “raccord”, depois temos sempre a forma como ele filma os sentimentos dos três protagonistas, oferendo-nos uma lição dessa Arte que foi o Cinema Mudo.

“The Manxman” / “Pobre Pete” merece ser descoberto por todos os Hitchcockianos e pelo público amante do cinema, porque só olhando o passado poderemos compreender melhor o presente, cinematograficamente falando.

8.2.26

Alfred Hitchcock - "Chantagem" / "Blackmail"


Alfred Hitchcock
"Chantagem" / "Blackmail"
(Inglaterra - 1929) - (85 min. - P/B)
Anny Ondra, John Langden, Sara Allgood, Charles Paton, Cyril Richard.


"Chantagem” / “Blackmail” ficou conhecido como o primeiro filme sonoro do Mestre do Suspense, embora tenha sido rodado inicialmente como mudo, mas o sonoro que então nascia iria “complicar as coisas” e Alfred Hitchcock, que entretanto já tinha idealizado o filme como sonoro na sua imaginação, decidiu refazê-lo e assim aceitaou de bom grado a chegada do som ao cinema, ao contrário de Charles Chaplin e René Clair, entre outros, que durante muitos anos lutaram contra o sonoro, defendendo a Arte do Cinema Mudo.


Como alguns estão recordados em “Serenata à Chuva” / “Singing in the Rain”, película realizada pela dupla Gene Kelly e Stanley Donen, retrata-se precisamente os tempos conturbados do início do sonoro, onde assistimos à dobragem da voz da actriz principal, ficção tantas vezes tornada realidade neste período de transição e “Blackmail” possui no seu interior esse processo, embora por razões diferentes, já que a voz de Anny Ondra, a protagonista, é dobrada pela voz de Joan Barry. Para terminar esta introdução, convém sempre referir que “Chantagem” / “Blackmail” possui já uma das célebres aparições de Alfred Hitchcock nesta película, sentado num transporte público a ler um livro e a ser incomodado por uma criança traquina do banco da frente que não o deixa sossegado na sua leitura.


Chegamos assim ao filme em si, que nos conta a história de uma chantagem. Alice (Anny Ondra) é namorada de um Inspector da Scotland Yard mas, como todas as namoradas, não gosta de ficar à espera da sua “cara-metade”, especialmente quando o combinado é jantar fora. Mas o dever está primeiro e Frank (John Langden) chega atrasado. Como sucede tantas vezes tudo irá servir de discussão, até que se despedem mal-humorados e ela se deixa seduzir por um galante pintor que lhe pretende mostrar a sua obra artística. E de pretexto em pretexto, sem grande oposição, Alice aceita pousar para o artista no seu apartamento, desconhecendo o seu desejo até que, ao se aperceber das pretensões tão carnais do pintor (Cyril Richard), luta com ele e vendo que as forças lhe faltam, serve-se de uma faca para se defender, acabando por matá-lo. Alice foge para casa dos seus pais, onde vive, mas é vista por um estranho de aspecto duvidoso que, apercebendo-se do sucedido, decide fazer chantagem com ela. Estava encontrado o móbil perfeito do suspense!?


A Scotland Yard começa a investigar o caso, sendo Frank um dos detectives encarregados de o resolver. Percebendo que a namorada está refém do chantagista e nunca querendo acreditar na sua culpabilidade, decide acusar o homem do crime, já que este possui antecedentes criminais. Nasce então uma perseguição belíssima, no interior do Museu Britânico, demonstrando todo o saber de Alfred Hitchcock, terminando com a queda do chantagista de uma das abóbadas, “antecedendo” de certa forma a queda do agente alemão do alto da Estátua da Liberdade ou essa outra célebre perseguição de “Intriga Internacional” no Monte Rushmore.


Sofia, torturada interiormente pela situação criada, decide ir à polícia entregar-se como autora do crime mas, ao saber da morte do chantagista, hesita sendo “arrastada” da esquadra pelo namorado detective, que certamente a irá nessa noite levar a jantar num local sossegado propício para um “casal de namorados”.


No início de “Chantagem” ainda se sente a famosa estética do cinema mudo, mas à medida que os fotogramas vão surgindo, caímos decididamente no início do sonoro, enquanto o “suspense” introduzido por Alfred Hitchcock nos deixa positivamente pregados à cadeira ou diremos agarrados ao sofá sem pestanejar.


“Blackmail” de Alfred Hitchcock oferece-nos já toda a sabedoria do cineasta, essa mesma sabedoria que levou o público a fixar-lhe o nome antes dos actores e arrastou multidões para o interior das salas, simplesmente porque quando um filme com a sua assinatura se estreava, o “suspense” e as emoções fortes estavam garantidas.


Nota: O DVD editado pela Universal oferece-nos também a versão muda de “Chantagem”, sendo a visão das duas películas um excelente exercício comparativo, do nascimento do sonoro em oposição ao cinema mudo.