19.2.26

Alfred Hitchcock - “Jogo Fraudulento” / “The Skin Game”


Alfred Hitchcock
“Jogo Fraudulento” / “The Skin Game”
(Inglaterra – 1931) – (78 min. - P/B)
Edmund Gwenn, Phyllis Konstam, Jill Esmond, C.U. France, Helen Haye, Edward Chapman.

“The Skin Game” é o quarto filme sonoro de Alfred Hitchcock, se contarmos a segunda versão de “Blackmail” / “Chantagem” (existe uma primeira inteiramente muda) e nesta matéria de sonoro o cinema ainda estava a dar os primeiros passos na época, como é possível observar ao longo do filme, através das diversas soluções optadas pelo cineasta para contornar esses obstáculos que ainda surgiam na captação dos diálogos.


Estamos assim em mais uma adaptação cinematográfica de uma peça de teatro, tanto “Juno and The Paycock” como “The Farmer’s Wife” eram provenientes da mesma área e Alfred Hitchcock muitas vezes olhava de lado para estes objectos fílmicos. Neste caso concreto, estamos perante uma adaptação de uma peça de John Galsworthy (o famoso autor da “Família Forsythe”), seria o próprio Hitchcock, com a sua mulher Alma, a assinarem o argumento cinematográfico. Vamos assim entrar pela porta grande do Teatro, na sala de Cinema, para conhecermos um duelo entre duas famílias pela posse da mesma terra. A família de um Industrial, os Hornblower, e a família Aristocrática, os Hillcrest, que não irão olhar a meios para atingir os seus fins, num verdadeiro jogo de gato e do rato.


Edmund Gwenn (Hornblower) é um industrial que pretende adquirir o máximo de terras para implantar as suas indústrias, vendo nelas uma forma de progresso e civilização, mas também é um homem de poucos escrúpulos, porque pretende despejar das terras as famílias camponesas que sempre ali viveram, para depois construir casas para os seus operários.


Já os Hillcrest começam a ver o seu “território sagrado” a ser invadido por uma civilização que irá aniquilar a sua forma de vida, decidindo lutar pelos seus direitos, quando uma parcela de terreno é posta à venda pela proprietária, venda essa que será efectuada em leilão. E como sucede sempre nestes casos de disputa, dois membros das duas famílias amam-se, longe dos olhares dos respectivos pais, Jill Hillcrest (Jill Desmond) namora com um dos filhos de Hornblower, sendo a disputa entre os respectivos pais por vezes um tema de discussão.


Logo no início do filme iremos assistir a uma discussão de Hornblower com o casal Hillcrest (onde a mulher parece ter o controlo da situação da casa) e de imediato percebemos que o leilão da propriedade será um verdadeiro campo de batalha. O longo diálogo travado, entre eles, leva-nos até ao interior do Teatro, mas quando Hitchcock nos envia para a sala onde iremos assistir ao leilão, oferece-nos todo o seu saber cinematográfico na forma como filma toda a sessão, com a câmara a procurar entre o público os diversos responsáveis pelos lances, como se estivéssemos a assistir em directo aos acontecimentos. Seguimos assim o jogo de cada um dos oponentes, ambos com os seus homens de mão na assistência. Neste jogo diabólico, uma propriedade que vale 6000 libras termina por ser comprada por 9000 libras, fruto de jogadas no escuro, para descobrirmos mais tarde que quem ganha, por vezes acaba por perder.


Chloe (a bela Phyllis Konstam, de uma sensualidade absoluta) tem um passado a esconder do sogro, mas Dawker (Edward Chapman) o homem de mão dos Hillcrest descobre e divulga o seu passado ao patrão e de imediato a chantagem tem início, sendo perfeito o título português de “Jogo Fraudulento”.


À “beira do abismo”, Chloe vai a casa dos Hillcrest, numa última tentativa para estes nada dizerem ao sogro, mas é demasiado tarde, porque os valores da terra estão acima dos valores da vida. E, quando furibundo pela difamação, Hornblower vai pedir uma satisfação e ameaça com o tribunal, surgem as testemunhas do passado de Chloe na sala. Ao esconder a jovem atrás da cortina, Alfred Hitchcock oferece-nos um dos momentos sublimes do filme, porque essa cortina torna-se protagonista como irá suceder em alguns filmes posteriores, caso de “Chamada para a Morte” / “Dial m for Murder” ou “Pavor nos Bastidores” / “Stage Fright”.


Iremos assim acompanhar o pesadelo de Hornblower, ao mesmo tempo que a mão de Jill na cortina sente os passos da morte cada vez mais perto, terminando por se suicidar, quando descobre que o marido sabe as suas origens.


Se inicialmente não temos qualquer simpatia por essa família de industriais, que não olha a meios para atingir os seus fins, no final somos obrigados a emendar a mão porque os aristocratas não olharam também eles a jogadas muito baixas para reclamar os terrenos, já que antes da difamação montada por Dawker, recuperaram os terrenos por um preço muito abaixo, fazendo um pacto de silêncio, que não seria cumprido.


As regras deste jogo fraudulento ultrapassaram essa época em que a palavra dada era cumprida, se isso sucede devido a uma personagem externa à família é de menor importância, porque ao vermos a forma como a Sra. Hillcrest (Helen Haye) despreza Jill, acabando por mais tarde ou mais cedo fazer circular na aldeia o passado da jovem, tendo em conta a forma como domina e altera as decisões do marido, porque ela é a verdadeira voz de comando, essa voz invisível que habita tantas famílias, manobrando na sombra.


“Jogo Fraudulento” surge assim perante nós como mais uma bela surpresa na obra de Alfred Hitchcock dos anos trinta, década tão pouco visível ao longo dos anos e onde já se encontram as traves mestras do seu cinema.

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