2.3.26

Peter Frampton - "Frampton Comes Alive"

Peter Frampton
"Frampton Comes Alive"
A & M Records
1976


Um álbum ao vivo que vendeu milhões e ainda toca aqui por casa. Recordo-me que tinha capa dupla e abrindo-se Peter Frampton ficava de "corpo inteiro". Cada tema era um "hit". Décadas depois foi editado um cd duplo em edição de luxo que nos oferecia mais alguns temas como extra, mas continuo a preferir o alinhamento original dos temas.

Fernando Meirelles - "Diário de Blindness"


Fernando Meirelles
"Diário de Blindness"
Páginas: 90
Quasi

Fernando Meirelles, como todos sabemos, ficou conhecido do mundo inteiro quando surgiu no Festival de Cannes com o seu filme “Cidade de Deus”, um dos grandes êxitos do cinema brasileiro, que transpôs fronteiras e ofereceu ao cineasta um reconhecimento a nível mundial. E foi assim com naturalidade que a sua obra seguinte foi “The Constant Gardener” / “O Fiel Jardineiro”, baseada numa obra de John Le Carré, com um elenco internacional, como todos devem estar recordados. Mas antes da feitura destes dois filmes o cineasta lera “Ensaio Sobre a Cegueira” de José Saramago, descobrindo de imediato o desejo de levar ao grande écran a obra do Prémio Nobel da Literatura. Porém o escritor, na época, não aceitou vender os direitos do livro para o cinema.


Alguns anos depois o cineasta recebeu um telefonema de um produtor canadiano a perguntar se ele estava interessado em adaptar para o cinema “Ensaio Sobre a Cegueira” e, assim, esse desejo tão secreto do brasileiro tornou-se realidade.

“Diário de Blindness” relata-nos, na primeira pessoa, a aventura que foi a feitura de “Ensaio Sobre a Cegueira”, percorrendo cidades como Lisboa, Toronto, São Paulo e Montevideu, ao mesmo tempo que vamos compartilhando a vida dos actores e técnicos, que concretizaram a feitura desta película.


Iremos assim conhecer o seu encontro com o escritor na “cidade velha” de Lisboa, como ele chama ao Bairro Alto, no conhecido restaurante “Farta Brutos”, um dos mais antigos (conheço-o desde criança). Até à chegada dos actores Mark Ruffalo e Julianne Moore, a sua preparação para as filmagens, os contratempos próprios das rodagens e a concretização do sonho tão acalentado pelo cineasta.

Ler as páginas deste diário de rodagem é na verdade fascinante, não só pela forma como está escrito, mas também pelos dados que nos são oferecidos das dificuldades encontradas, passando pelo famoso “test-screening”, até chegar esse momento da apresentação do filme ao próprio escritor, um momento verdadeiramente comovente deste “Diário de Blindness”, mas o melhor é dar a voz a Fernando Meirelles:


«Depois de uma semana que pareceu uma verdadeira montanha russa, sai de Cannes e fui para Lisboa mostrar o filme “Ensaio Sobre a Cegueira” para José Saramago.

Por meses antecipei o quanto a sessão me deixaria ansioso – e não estava errado.

Infelizmente, o cine São Jorge, que nos foi reservado não tinha projecção digital, então foi improvisado um sistema para passarmos a nossa fita. Pensei em desistir de mostrar o filme ao ver um teste de projecção, mas o escritor já estava na sala de espera e, em respeito ao compromisso achei melhor ir em frente.

Sentei-me ao seu lado, expliquei aos poucos amigos presentes que só havia legendas em francês e começámos a ver o filme. Sofri cada vez que uma imagem não aparecia ou que a música mal soava. Ele assistiu ao filme todo mudo e sem reacção nenhuma.

Ao final da sessão, quando os créditos começaram a subir, sua mulher, Pilar debruçou-se sobre Saramago e me agradeceu emocionada. Silêncio ao meu lado. Antes de terminar os créditos principais, as luzes do cinema foram acesas, eu ousei olhar para o lado e vi que ele fitava a tela sem reacção, como se estivesse interessado no nome dos assistentes de cenografia que passavam.

Deu tudo errado, pensei. Toquei o seu braço levemente e lhe falei que ele não precisava de comentar nada naquele momento, mas, então, com uma voz embargada, ele me disse pausadamente: «Fernando, eu me sinto tão feliz hoje, ao terminar de ver este filme, como quando acabei de escrever o Ensaio sobre a Cegueira».


Se viu o filme “Blindness” / “Ensaio Sobre a Cegueira” de Fernando Meirelles e leu o livro de José Saramago, este diário da feitura do filme, escrito na primeira pessoa pelo próprio cineasta irá revelar-se um excelente complemento à visualização da película, se não conhecer o filme ou o livro do escritor português, estará perante um excelente convite de Fernando Meirelles para descobrir ambos.

William Klein - "Hat and Five Roses"


William Klein
"Hat and Five Roses"
Ano: 1956

William Klein - (1926 - 1992) - tirou esta fotografia em Paris e nela poderemos deslindar como os anos 50 do século passado revolucionaram o papel da mulher na moda e aqui temos o modelo a fumar, algo pouco impensável na época, com o fumo a atingir-lhe o rosto e depois temos o chapéu com a componente das rosas, que virá dar título a esta fotografia intitulada precisamente "Hat and Five Roses". Por outro lado repare-se que as cinco rosas tem diversas tonalidades revelando o artifício desta imagem em que a moda é suplantada pelo gesto da modelo ao fumar o cigarro.

Mike Newell - “Quatro Casamentos e Um Funeral” / “Four Weddings and a Funeral”


Mike Newell
“Quatro Casamentos e Um Funeral” / “Four Weddings and a Funeral”
(Grã-Bretanha – 1994) – (117 min. / Cor)
Hugh Grant, James Fleet, Simon Callow,
Kristin Scott Thomas, John Hannah, Andie McDowell.

“Quatro Casamentos e Um Funeral” de Mike Newell possui um excelente argumento de Richard Curtis e transformou decididamente a Indústria Cinematográfica Britânica, ao instituir a comédia romântica como veículo para o sucesso cinematográfico, já que após o êxito desta película foram inúmeros os filmes saídos das ilhas britânicas seguindo o caminho aberto por este filme. Por outro lado Hugh Grant irá desde então enveredar por uma carreira baseada um pouco na personagem nascida em “Four Weddings and a Funeral”, desistindo das composições dramáticas, como sucedia em “Maurice” de James Ivory.


A deliciosa película de Mike Newell conta-nos a história de um grupo de amigos, que se vai encontrando em diversos casamentos, sendo Charles (Hugh Grant) o padrinho do primeiro casamento, conhecido como eterno atrasado, onde irá encontrar o amor da sua vida, uma americana chamada Carrie (Andie MacDowell), por quem se apaixona.


Iremos assim assistir a diversos acontecimentos ou casamentos, se preferirem, que nos fazem o retrato de uma geração nascida e criada na “high-society”, e onde também não falta o dramatismo, quando assistimos à morte do folião Garet (Simon Callow numa extraordinária interpretação) e descobrimos que ele e Matthew (John Hannah) formavam um casal, algo desconhecido dos restantes amigos, sendo comovente o elogio fúnebre que é feito pelo seu companheiro, num dos mais belos momentos da película. Por outro lado se Charles (Hugh Grant) vê o seu amor casar-se com um rico escocês, também irá demorar a perceber que a sua eterna amiga Fiona (Kristin Scott Thomas) lhe dedica um amor secreto, que será revelado tarde demais.


Mike Newell em “Quatro Casamentos e Um Funeral” oferece-nos de forma perfeita o ambiente vivido nos casamentos, com os seus encontros e desencontros, veja-se a situação de Charles quando se cruza com as suas ex-namoradas ou esse momento em que decide casar com a Miss Bico de Pato, como é conhecida e no momento solene da cerimónia decide dizer Não!, para grande escândalo dos presentes e da própria noiva que reagiu de imediato, para mal do nariz de Charles.


Como não podia deixar de ser ao revermos esta película de Mike Newell, somos obrigados a recordar o famoso filme de Robert Altman “Um Casamento”, em que o cineasta americano nos oferecia uma crítica mordaz da sociedade norte-americana.


O delicioso “Quatro Casamentos e Um Funeral” de Mike Newell, abriu decididamente a estrada, para a comédia romântica se expandir no interior do cinema contemporâneo.

1.3.26

Helena Lima e os Fados: Uma Memória!

Helena Lima e os Fados: Uma Memória!

Após a edição de “Barcos no Cais” Helena Lima deu uma entrevista ao jornalista Carvalho Ramos da Revista “Plateia”, estávamos a 12 de Julho de 1972, recordamos aqui esse encontro onde fica bem expresso a forma de estar na vida e no tempo de Helena Lima, mas também a sua forma sonhadora em acreditar que um mundo melhor é sempre possível.

“Até que ponto é que a gravação de um disco comercial poderá influi na carreira de uma artista «ansiosa de fazer coisas», de forma a sobressair e a tornar-se notada num meio onde a «concorrência» é enorme?

A pergunta de «chofre» e sem qualquer espécie de prévia preparação, foi feita pelo «repórter» a Helena Lima, intérprete fadista cuja voz a Rádio muito tem divulgado nos últimos tempos, mercê – precisamente… - da gravação de um disco comercial!

Se não houve preparação para a pergunta, ela também não existiu, também – e implicitamente… -, para a resposta.

Serenamente – com a expressão tranquila que lhe é peculiar…- Helena Lima explicou:

- Um disco é um extraordinário veículo de expansão de qualquer artista, pelo que pode valer como credencial dos seus eventuais méritos…


«Para além do mais, as gravações permitem fazer chegar ao grande público vozes de artistas que muitas vezes, sem essa possibilidade, jamais deixariam de ser ignorados…

- E no que respeita ao seu caso em particular? – Inquirimos.

- Bem… Eu já estava convencida de que era mesmo o meu caso particular que pretendia abordar… - replicou Helena Lima sorridente, para acrescentar:

«É inegável que este disco representa imenso para mim, não só por me ter ajudado a convencer que possuo um mínimo de valor onde posso alicerçar todos os projectos que acalento, como, também, porque me veio demonstrar que as pessoas que formam o meio artístico, não serão tão más e egoístas, como, por vezes, um tanto levianamente se afirma.

E à guisa de explicação:

«Gravar um disco, pura e simplesmente por gravar, é muito pouco e não chega a ter justificação que valha a pena.


«Depois de um disco feito – e com o máximo de cuidados…- é necessário que surja a imprescindível promoção, de maneira que chegue ao público a quem caberá, ao fim e ao cabo, o veredicto decisivo.

«Para tal – quem o ignora? – são necessários o apoio e a colaboração de muita gente ligada ao meio artístico – nomeadamente os homens da Rádio – dado que sem isso, o disco quase que não chega a ser divulgado…

«…E, sinceramente, não posso deixar de reconhecer que o êxito relativo desta gravação comercial se fica a dever, em grande parte, a um apoio que me sensibilizou e que agradeço muito reconhecida:

- Claro que o disco tem valor e sem ele, teria passado despercebido…

- Como já tive oportunidade de afirmar várias vezes noutras entrevistas, os cuidados postos neste disco foram tantos como as esperanças que nele depositei… Ou até talvez mais… Isso não invalida, naturalmente, que reconheça a importância enorme que tem o apoio a que referi, sem o qual o eventual valor que se possa reconhecer agora, continuaria ignorado.

- E agora?


A nossa pergunta teria sido pertinente e oportuna, mas a verdade, reconheça-se, é que estávamos a solicitar uma resposta que teria, invariavelmente de ser difícil.

- Agora… Agora estou a aguardar os reflexos do meu trabalho honesto e cuidado, esperançada em vir a conseguir possibilidades de concretizar alguns dos sonhos que há muito tempo acalento…

«Veremos a resposta do futuro…

Sabedores de que Helena Lima é funcionária de uma prestigiosa empresa há longo tempo, não quisemos deixar de inquirir – antes de «terminar» a agradável conversa que com ela mantivemos – como consideraria a simpática intérprete, a sua actividade de fadista… em «regime livre».

Resposta pronta e absolutamente explícita e coerente:

- Mentiria se não confessasse que em igualdade de circunstâncias – principalmente no respeitante a estabilidade e «segurança»… - preferia uma carreira artística a sério em que poderei fazer uma entrega total à actividade de que tanto gosto.


«Assim, reconhecendo as «incertezas» e «limitações» do nosso panorama artístico, sou forçada a «acumular». Embora procure não pensar no fado quando estou à secretária e esquecer o emprego de todos os dias quando canto.

Era tudo, por agora.

O restante, virá a sabê-lo Helena Lima no futuro, que é como quem diz, através do seu próprio fado.

In Plateia nº.597
(11 de Julho de 1972)

Nick Halliday - "Capitão Fiúza - Problema Difícil"


Nick Halliday
"Capitão Fiúza - Problema Difícil"
Arte:: Keats E. Petree
Argumento: Keats E. Petree
Mundo de Aventuras nºs. 347 a 359 - 1ªSérie
Ano: 1956


Keats E. Petree nasceu a 21 de Setembro de 1919 e deixou-nos a 26 de Novembro de 1997, tendo criado entre outras personagens de banda desenhada, o célebre Nick Halliday, que em Portugal foi baptizado de "Capitão Fiúza" como era habitual nessa época ou seja anos 50/60 do século XX.

Johan Barthold Jongkind - "Rue de l'Abbé-de-l'Épée"


Johan Barthold Jongkind
"Rue de l'Abbé-de-l'Épée"
Óleo sobre tela
47 x 33,5 cm.
Ano: 1872
Musée d'Orsay, Paris.

Johan Barthold Jongkind - (1819 - 1891) - nesta pintura cria uma obra em que a rua quase nos parece uma paisagem fluvial, onde descobrimos também as árvores que espreitam por detrás do muro, revelando uma vista de Paris que nos invoca uma certa província francesa, ao mesmo tempo que descobrimos os transuntos e até um transporte da época ao fundo do quadro devidamente puxado por cavalos.

Eric Rohmer - “Nadja à Paris”


Eric Rohmer
“Nadja à Paris”
(França – 1964) – (13 min. – P/B)
Nadja Tesich


No início da sua carreira, o cineasta Eric Rohmer assinou diversas curtas-metragens e “Nadja à Paris” é um maravilhoso convite a visitar a cidade das luzes, oferecido pelo olhar de uma estudante nascida em Belgrado, mas que cedo partiu para os Estados Unidos. A sua ida para Paris deveu-se ao facto de se encontrar a preparar uma tese acerca dessa figura incontornável da Literatura chamada Marcel Proust.


Iremos assim, através da câmara de Eric Rohmer, conhecer o dia a dia de Nadja (Nadja Tesich, responsável pelo texto que vamos escutando ao longo do filme). Na universidade onde se encontra existem estudantes oriundos de todas as partes do mundo, e será precisamente ali que a iremos conhecer. Depois saberemos que o primeiro bairro que conheceu foi Saint-Germain des Prés, embora se sinta muito melhor em Montparnasse, a conviver com essa intelectualidade que elegeu o famoso bairro como a sua casa por excelência.


A Paris que nos é oferecida por Rohmer não difere muito da cidade que é possível encontrar hoje em dia quando a visitamos, onde a cultura respira por todos os poros, despertando sempre o interesse dos seus habitantes pelos livros, esses bons amigos que nos abrem os horizontes do mundo em que vivemos.


Nadja adora sentar-se nos cafés simplesmente para observar a vida a passar, como fazem muitos dos parisienses nas suas horas vagas ou lendo aquele livro de “poche”, que nos desperta o interesse.


A descoberta do famoso Parque dos Buttes Chaumont, tranquilo e convidativo ao passeio, revela-se uma experiência inesquecível para Nadja que, depois de sonhar nas suas alamedas, mergulha no bairro popular de Belleville, para conviver com os seus habitantes, sentindo que não é ostracizada pelo simples facto de ser estrangeira, sendo recebia como uma parisiense, revelando-se Paris como a cidade perfeita para nos reencontrarmos com a vida e embora ela saiba que não irá ficar a viver na cidade das luzes para sempre, quando partir irá levá-la no coração, como nos confessa no final da película.


Esta curta-metragem datada de 1964, surge como uma bela e inesquecível homenagem à cidade de Paris, levada a cabo pelo cineasta Eric Rohmer, revelando-se como uma verdadeira pérola no interior da sua filmografia e que bem poderia ombrear com o famoso filme “Os Encontros de Paris” / “Les rendez-vous de Paris”, nascido décadas depois e que mais uma vez nos revela a paixão de Eric Rohmer pela cidade das luzes.


“Nadja à Paris” é a prova de que no território das curtas-metragens existem verdadeiras pérolas cinematográficas, que nos convidam à meditação e ao sonho.