1.3.26

Helena Lima e os Fados: Uma Memória!

Helena Lima e os Fados: Uma Memória!

Após a edição de “Barcos no Cais” Helena Lima deu uma entrevista ao jornalista Carvalho Ramos da Revista “Plateia”, estávamos a 12 de Julho de 1972, recordamos aqui esse encontro onde fica bem expresso a forma de estar na vida e no tempo de Helena Lima, mas também a sua forma sonhadora em acreditar que um mundo melhor é sempre possível.

“Até que ponto é que a gravação de um disco comercial poderá influi na carreira de uma artista «ansiosa de fazer coisas», de forma a sobressair e a tornar-se notada num meio onde a «concorrência» é enorme?

A pergunta de «chofre» e sem qualquer espécie de prévia preparação, foi feita pelo «repórter» a Helena Lima, intérprete fadista cuja voz a Rádio muito tem divulgado nos últimos tempos, mercê – precisamente… - da gravação de um disco comercial!

Se não houve preparação para a pergunta, ela também não existiu, também – e implicitamente… -, para a resposta.

Serenamente – com a expressão tranquila que lhe é peculiar…- Helena Lima explicou:

- Um disco é um extraordinário veículo de expansão de qualquer artista, pelo que pode valer como credencial dos seus eventuais méritos…


«Para além do mais, as gravações permitem fazer chegar ao grande público vozes de artistas que muitas vezes, sem essa possibilidade, jamais deixariam de ser ignorados…

- E no que respeita ao seu caso em particular? – Inquirimos.

- Bem… Eu já estava convencida de que era mesmo o meu caso particular que pretendia abordar… - replicou Helena Lima sorridente, para acrescentar:

«É inegável que este disco representa imenso para mim, não só por me ter ajudado a convencer que possuo um mínimo de valor onde posso alicerçar todos os projectos que acalento, como, também, porque me veio demonstrar que as pessoas que formam o meio artístico, não serão tão más e egoístas, como, por vezes, um tanto levianamente se afirma.

E à guisa de explicação:

«Gravar um disco, pura e simplesmente por gravar, é muito pouco e não chega a ter justificação que valha a pena.


«Depois de um disco feito – e com o máximo de cuidados…- é necessário que surja a imprescindível promoção, de maneira que chegue ao público a quem caberá, ao fim e ao cabo, o veredicto decisivo.

«Para tal – quem o ignora? – são necessários o apoio e a colaboração de muita gente ligada ao meio artístico – nomeadamente os homens da Rádio – dado que sem isso, o disco quase que não chega a ser divulgado…

«…E, sinceramente, não posso deixar de reconhecer que o êxito relativo desta gravação comercial se fica a dever, em grande parte, a um apoio que me sensibilizou e que agradeço muito reconhecida:

- Claro que o disco tem valor e sem ele, teria passado despercebido…

- Como já tive oportunidade de afirmar várias vezes noutras entrevistas, os cuidados postos neste disco foram tantos como as esperanças que nele depositei… Ou até talvez mais… Isso não invalida, naturalmente, que reconheça a importância enorme que tem o apoio a que referi, sem o qual o eventual valor que se possa reconhecer agora, continuaria ignorado.

- E agora?


A nossa pergunta teria sido pertinente e oportuna, mas a verdade, reconheça-se, é que estávamos a solicitar uma resposta que teria, invariavelmente de ser difícil.

- Agora… Agora estou a aguardar os reflexos do meu trabalho honesto e cuidado, esperançada em vir a conseguir possibilidades de concretizar alguns dos sonhos que há muito tempo acalento…

«Veremos a resposta do futuro…

Sabedores de que Helena Lima é funcionária de uma prestigiosa empresa há longo tempo, não quisemos deixar de inquirir – antes de «terminar» a agradável conversa que com ela mantivemos – como consideraria a simpática intérprete, a sua actividade de fadista… em «regime livre».

Resposta pronta e absolutamente explícita e coerente:

- Mentiria se não confessasse que em igualdade de circunstâncias – principalmente no respeitante a estabilidade e «segurança»… - preferia uma carreira artística a sério em que poderei fazer uma entrega total à actividade de que tanto gosto.


«Assim, reconhecendo as «incertezas» e «limitações» do nosso panorama artístico, sou forçada a «acumular». Embora procure não pensar no fado quando estou à secretária e esquecer o emprego de todos os dias quando canto.

Era tudo, por agora.

O restante, virá a sabê-lo Helena Lima no futuro, que é como quem diz, através do seu próprio fado.

In Plateia nº.597
(11 de Julho de 1972)

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