28.2.26

Crosby, Stills, Nash & Young - "Déjà Vu"


Crosby, Stills, Nash & Young
"Déjà Vu"
Atlantic
1970

David Crosby - rhythm guitar, vocals.
Stephen Stills - guitar, bass guitar, keyboards, vocals.
Graham Nash - rhythm guitar, keyboards, vocals.
Neil Young - guitar, keyboards, harmonica, vocal.

Dallas Taylor - drums, percussion.
Greg Reeves - bass.
Jerry Garcia - pedal steel guitar.
John Sebastian - harmonica.


Parece que foi ontem, mas já passou meio-século sobre a edição deste álbum incontornável do super-grupo CSN&Y. Cada canção é uma pérola musical e se eles gravaram outros álbuns ao longo dos anos, muitas vezes separados por décadas, será sempre o registo discográfico de "Déjà Vú" que perdura na memória de todos os que gostam da Música Popular Norte-Americana.

Paul Auster - “Lulu On The Bridge”


Paul Auster
“Lulu On The Bridge”
Páginas: 234
Edições Asa

“Lulu On The Bridge” é o título do terceiro filme assinado pelo escritor Paul Auster, tendo os dois primeiros, “Fumo” / “Smoke” e “Fumo Azul” / “Blue in the Face”, sido realizados em conjunto com o cineasta Wayne Wang. Este belo livro oferece-nos precisamente o argumento na sua totalidade, tal como foi escrito na origem por Paul Auster ou seja incluiu algumas cenas que terminariam por ser cortadas na mesa de montagem, como sucede sempre após a rodagem de uma película e se parte para a sala de montagem.


Curiosamente, um dos actores pensados para este filme, que se revelou ser o melhor de toda a filmografia do escritor até à presente data, na minha opinião, foi o escritor Salman Rushdie, mas na época pendia sobre a cabeça do autor dos “Versículos Satânicos” a célebre “fatha” iraniana e a Companhia de Seguros pediu a Paul Auster uma verba que se revelou ser superior à que seria despendida na feitura da película, terminando por ser Wilhem Dafoe a vestir a pele da personagem inquisidora do filme. Como alguns devem estar recordados, Salman Rushdie, alguns anos depois, regressou à vida plena e surgiu no primeiro filme de Bridget Jones.


Mas regressando a este “Lulu On The Bridge”, de Paul Auster, estamos perante uma obra que se lê como um romance e que só conseguimos largar ao chegarmos à última página e percebermos o destino que está reservado a Izzy Maurer (Harvey Keitel), um saxofonista de jazz que se encontra a actuar num clube em Nova Iorque e é atingido por uma bala, ficando gravemente ferido e entre a vida e a morte, entrando nesse território em que o sonho antecede a morte, mas por vezes também a vida.


Estamos na verdade perante uma leitura com todos os ingredientes habituais das obras de Paul Auster e este belo livro, que se encontra profundamente ilustrado com imagens do filme, incluindo uma planificação, oferece-nos ainda um conjunto de diversas entrevistas que se revelam um verdadeiro Making of de “Lulu On The Bridge”, temos assim uma longa entrevista com Paul Auster, para além de outras com o director de fotografia Alik Sakharov, a directora artística Kalina Ivanov, a directora de guarda-roupa Adelle Lutz, o responsável pela montagem da película Tim Squyres e o produtor Peter Newman, ou seja num livro terminamos por ter dois livros, um para os leitores de Paul Auster e outro para os cinéfilos.


Ao terminar a leitura de “Lulu On The Bridge”, tenho a certeza que vai desejar ver o filme que dele nasceu com Harvey Keitel, Mira Sorvino, Wilhem Dafoe e Gina Gershon nos protagonistas.


«Voz de Mulher»

«Izzy, atende lá o raio do telefone! É a Hannah, por amor de Deus! Lembras-te de mim? Já estivemos casados. Nos velhos tempos. Quando os cavalheiros eram corajosos e os miúdos eram ousados… e ainda não tinham inventado as balas. (Pausa) Telefona-me, Maurer, quero saber como estás.»

Paul Auster
in “Lulu On The Bridge”

Maxime Maufra - "Place Saint-André-des-Arts, rue Suger"


Maxime Maufra
"Place Saint-André-des-Arts, rue Suger"
Óleo sobre tela
65 x 81 cm.
Ano: 1909
Petit Palais, Genève.

Maxime Maufra - (1861 - 1918) - ao contrário dos seus contemporâneos não se iniciou na pintura, optando por se dedicar aos negócios, só mais tarde se irá lançar nas belas-artes dedicando-se à pintura, gravura e litografia, revelando d imediato uma paixão pela paisagem, em especial pelo espaço marítimo, mas após o contacto com outros artistas irá descobrir o Impressionismo, tendo estado presente na famosa exposição do "Salon de Paris" de 1886.


Como podemos ver nesta obra intitulada  "Place Saint-André-des-Arts, rue Suger" a sua aproximação ao Impressionismo encontra-se bem patente e irá influenciar o seu trabalho.

Ernst Lubitsch - “A Viúva Alegre” / “”The Merry Widow”


Ernst Lubitsch
“A Viúva Alegre” / “”The Merry Widow”
(EUA-1934) – (97 min. - P/B)
Jeanette MacDonald, Maurice Chevalier, Edward Everett Horton, Una Merkel, George Barbier.

Já por aqui escrevemos, por diversas vezes, que a comédia é um dos géneros mais difíceis do cinema e quando se fala nos seus grandes Mestres, sobressai de imediato um dos seus nomes maiores, o alemão Ernst Lubitsch, que um dia trocou a sua terra natal pelo novo mundo.


Por outro lado, quando alguém me fala em Lubitsch, vem-me de imediato à memória essa obra intitulada “To Be or Not To Be” / “Ser ou Não Ser” que o cineasta realizou em 1942, centrando a acção na Varsóvia de 1939, em plena invasão alemã, tendo até sido escrito na Imprensa da época que se Hitler tivesse visto o filme nunca teria dado início à Segunda Guerra Mundial, invadindo a Polónia, tal é o humor corrosivo com que são retratados os invasores alemães.

Mas também há essa inesquecível obra em que Greta Garbo brilhou pela última vez na nossa memória, o célebre “Ninotchka”, em que o alvo da sua arte era a ideologia comunista na terra da perdição do capitalismo e na mais bela cidade do mundo, essa Paris que irá mudar para sempre, a visão da célebre comissária soviética Ninotchka.


Por outro lado temos essa maravilhosa comédia romântica, uma obra-prima do género, intitulada “A Loja da Esquina” / “The Shop Around the Corner”, que até já teve um “remake” bem conhecido da “geração net” intitulado “Você Tem uma Mensagem” / “You’ve Got Mail” com o Tom Hanks e a Meg Ryan nos protagonistas. E se continuarmos por aqui fora a falar dos filmes de Lubitsch, começaremos a falar de “Design for Living” / “Uma Mulher Para Dois” esse filme que quebra todas as barreiras da censura com o célebre “Lubitsch Touch”.

O leitor já está perfeitamente situado, porque conhece certamente um destes delirantes filmes e assim poderemos começar a falar deste cineasta, que se iniciou na profissão de actor pela mão do famoso Max Reinhardt, tendo na época como colegas Emil Jannings (o professor de “O Anjo Azul” de Josef Sternberg) e Conrad Veidt (quem não se lembra dele, na figura do coronel alemão no filme de Michael Curtis “Casablanca”).


Ernst Lubitsch, depois de ter feito a tarimba na Alemanha, de actor passou a argumentista, dando de seguida o inevitável salto para a realização. Em 1922, a convite da então mais que famosa Mary Pickford (conhecida como a namorada da América), partiu para terras americanas sendo a sua primeira obra sonora “The Love Parade”, que lançava um par que se tornaria famoso, formado por Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald, par esse que iremos reencontrar precisamente em “A Viúva Alegre” / “The Merry Widow”, uma adaptação ao cinema da famosa opereta de Franz Leahr que já teve, desde a sua criação, mais três adaptações ao grande écran (os outros responsáveis são Erich Von Stroheim, Ludwig Berger e Curtis Bernhardt).

Se o leitor não viu o filme, pode já ficar a saber que existiu um reino, na Europa Central, chamado Marshovia, governado pelo famoso Rei Achmed (George Barbier) que lá vai dirigindo o pais como pode, mas tendo sempre um problema económico que terá que gerir com todo o seu saber, porque metade do seu reino pertence a uma viúva riquíssima chamada Sónia, que não mostra a cara a ninguém desde que o marido faleceu e anda sempre vestida de preto, com o seu véu cobrindo-lhe o rosto.


Ora com um problema destes sempre na mente, o rei não se apercebe das traições da Rainha Dolores (Una Merkel) com o Conde Danilo (Maurice Chevalier), mas o Conde é um conquistador que não tem mãos a medir e decide um dia invadir o jardim da casa da célebre viúva no intuito de lhe ver o rosto e fazer a consequente corte. Perante os avanços do Conde, esta decide partir para Paris para viver a vida, mas o medo de o Reino cair em mãos pouco recomendáveis leva o Rei Achmed a dar a Danilo a “terrível” missão de se casar com a famosa viúva. Chegado a Paris, Danilo, em vez de ir ter com o embaixador Popoff (Edward Horton perfeitamente hilariante), decide ir até ao célebre “Maxim’s” onde o esperam as famosas meninas que não se esqueceram do galante conquistador. Mas, nessa mesma noite, Sónia também decide ir até lá para conhecer o mais famoso cabaret da “cidade das luzes”. Quando entra é confundida com mais uma caçadora de fortunas a fazer pela vida. E, como não podia deixar de ser, acaba por se cruzar com o Conde Danilo que, desconhecendo a sua identidade, não a perde de vista e se apaixona por ela e após demasiadas taças de champanhe acaba por lhe revelar a sua terrível missão.


Quando se voltam a encontrar no baile preparado pelo Embaixador, Sónia decide ajustar contas com aquele oficial atrevido de sua Majestade, para grande surpresa do Embaixador Popoff, que desconhece o encontro havido. Tudo acabará mais tarde por terminar bem, apesar de Danilo ser condenado à morte por ter falhado na sua importante missão, porque o amor falara mais alto.


Ao longo do filme, Ernst Lubitsch constrói diálogos e situações que nos levam a eleger esta comédia como uma das mais brilhantes da sua carreira cinematográfica, contornando com enorme perícia as célebres imposições do célebre Código Hays (a censura que na época vigorava), tanto na sequência no Maxim’s, como nessa outra sequência em que o Rei Achmed o apanha na cama com a Rainha. Por outro lado, o diálogo construído durante o encontro do par na embaixada com um Popoff a assistir, sem perceber “patavina” do que se passa, é perfeitamente hilariante. Depois a forma como nos é oferecido o quotidiano nesse Reino chamado Marshovia, em que as trocas comerciais se encontram na forma mais “primitiva”, leva-nos a equacionar, com um sorriso nos lábios, as regras porque se rege a economia no mundo contemporâneo.


Ernst Lubitsch soube, como ninguém, tornar a comédia uma forma de Arte em que a palavra tem um papel fundamental e curiosamente teve um herdeiro, no verdadeiro sentido da palavra, em Billy Wilder que seguiu o caminho inaugurado por ele. Mas o célebre “Lubitsch Touch” só a ele lhe pertence. Basta ver ou rever “The Merry Widow”/ “A Viúva Alegre” ou um dos filmes acima referidos para descobrimos que a comédia também possui as suas obras-primas no interior da Sétima Arte.

27.2.26

Arild Andersen - “Shimri”


Arild Andersen
“Shimri”
ECM Records
1977


Arild Andersen – bass.
Juhani Aaltonen – tenor saxophone, soprano saxophone, flutes, percussion.
Lars Jansson – Piano.
Pal Thowsen – Drums, Percussion.

1 – Shimri (Arild Andersen) – 5:48
2 – No Tears (Arild Andersen) – 9:27
3 – Ways of Days (Arild Andersen) – 4:48
4 – Wood Song (Aaltonen / Jansson / Andersen / Thowsen) – 6:02
5 – Vaggvisa For Hanna (Lars Jansson) – 3:45
6 – Dedication (Arild Andersen) – 11:44


Ao contrário do que sucede habitualmente, o contrabaixista norueguês Arild Andersen iniciou a sua actividade musical como guitarrista, no Riverside Swing Group e só três anos mais tarde se decidiu a trocar a guitarra pelo contrabaixo; será no célebre grupo de Jan Garbarek, possivelmente o mais famoso músico de jazz norueguês, que irá dar nas vistas, recorde-se que outro membro desta banda era o guitarrista Terje Rypdal.

E com o passar do tempo e o desejo de expandir as suas composições em quarteto próprio, deu origem ao nascimento do Arild Andersen Quartet embora o músico, ao longo da sua intensa actividade musical, continuasse a colaborar com as mais diversas correntes, em aventuras bem distintas, deixando sempre bem patente a sua maravilhosa interligação com o instrumento que elegeu.

O álbum “Shimri” oferece-nos texturas musicais um pouco diferentes do habitual, num quarteto de jazz tradicional, devido à forma como o saxofonista finlandês Juhani Aaltonen “ataca” os diversos temas, sendo sempre de referir que a introdução da flauta em diversas composições consegue criar melodias verdadeiramente sedutoras, tornando-se um pouco como a marca de água deste quarteto de Arild Andersen. Vale a pena descobrirem!

Gravado em Outubro de 1976 no Talent Studio, Oslo, por Jan Erik Kongshaug. Mastered no Tonstudio Bauer por Henry Riedel. Fotografia da capa do álbum de Lajos Keresztes. Fotografia da contracapa de Rune Myhre. Layout de Dieter Bonhorst. Produção de Manfred Eicher.

Mutt & Jeff - "Benedito e Eneias" - Bud Fisher

Benedito e Eneias
Heróia: Mutt & Jeff
Autor: Bud Fisher
Mundo de Aventuras nº.398 - 1ª Série
Ano: 1956


O inesquecível humor da dupla "Mutt & Jeff" criada por Bud Fisher, que em Portugal foi "baptizada" de "Benedito e Eneias", uma dupla humorística que viu as suas divertidas histórias publicadas nas revistas de banda desenhada "Mundo de Aventuras" e “Condor Popular”.

Maximilien Luce - "Le Pont Saint-Michel et le quai des Orfèvres"


Maximilien Luce
"Le Pont Saint-Michel et le quai des Orfèvres"
Óleo sobre tela
33 x 24,8 cm.
Ano: 1905
Musée Carnavalet, Paris.

Maximilien Luce - (1858 - 1941) ao captar a célebre Ponte Saint-Michel optou pela técnica do "pontilhismo",  no intuito de fazer um jogo de cores que se opõem umas às outras, esculpindo sombras, ao mesmo tempo que acentua o relevo nesta bela obra, que capta a animação nas ruas onde encontramos uma população em movimento, sugerida pelas silhuetas, que oferecem uma imagem cosmopolita da cidade de Paris, junto ao rio Sena, com uma embarcação a passear no famoso rio, símbolo da capital francesa.

Chen Kaige - “Adeus. Minha Concubina” / “Ba Wang Bie Ji” / “Farewell. My Concubine”


Chen Kaige
“Adeus. Minha Concubina” / “Ba Wang Bie Ji” / “Farewell. My Concubine”
China – 1993) – (171 min. / Cor)
Leslie Cheung, Fengyi Zhang, Gong Li, Lu Qi.

Chen Kaige nasceu em Pequim em 1952, sendo filho do cineasta Chen Huai’ai e aos quinze anos, este jovem, tal como muitos da sua geração foi enviado para o campo, em plena Revolução Cultural. Após dois anos a trabalhar numa plantação de borracha, alistou-se no exército para fazer o serviço militar, regressando depois a Pequim onde trabalhou num laboratório de revelação de filmes e será em 1978 que irá concorrer à Escola de Cinema de Pequim, que entretanto reabrira as portas, após o fim da “Revolução Cultural”, sendo um dos candidatos a ser admitido na área da realização, terminando o curso em 1982, revelando-se como um dos futuros membros da denominada quinta geração do cinema chinês, que irá revolucionar, cinematograficamente falando, o cinema deste país.


Depois de diversos trabalhos na televisão, começou a trabalhar como assistente de realização, ao mesmo tempo que trava amizade com o director de fotografia e futuro cineasta Zhang Yimou, um dos nomes mais célebres do novo cinema chinês, como alguns devem estar recordados. Chen Kaige realizou o seu primeiro filme em 1984 para os Estúdios Guangxi e em 1987 parte para os Estados Unidos da América, passando também pela Europa, estando assim ausente de Pequim durante três anos, regressando ao seu país no início de 1990.


Chen Kaige foi descoberto em Portugal, ao oferecer-nos essa deslumbrante película intitulada “ A Vida Por uma Corda” / “Bian zan bian chang” (1991), que foi exibida no cinema King e que nos narrava a vida de um músico cego, para dois anos depois voltar a surpreender o universo cinematográfico ao realizar “Adeus Minha Concubina” / “Ba wang bie ji”, que irá conquistar a Palma de Ouro do Festival de Cannes.


Em ”Adeus Minha Concubina” / “Ba wang bie ji”, o cineasta Chen Kaige oferece-nos uma história de amizade entre dois actores da célebre Ópera de Pequim e curiosamente um dos primeiros nomes falados para protagonista foi o conhecido Jackie Chan, que na sua juventude pertenceu precisamente aos quadros da Ópera de Pequim, mas que acabaria de desistir do papel, terminando por ser a conhecida estrela pop de Hong-Kong, Leslie Cheung, o protagonista, ao lado de Fengyi Zang e da célebre Gong Li, a maior estrela do cinema chinês, cobiçada durante longos anos por Hollywood e que após muitas insistências dos Grandes Estúdios acabaria por surgir na América a ser dirigida por Michael Mann.


Iremos assim ao longo de “Adeus Minha Concubina”, acompanhar os laços de amizade entre dois jovens, sendo um deles ensinado deste muito cedo para interpretar papéis femininos, que lhe irão trazer a celebridade, revelando Leslie Cheung um saber enorme na forma como compõe a personagem de Cheng Dieye, que um dia irá ser surpreendido pelo anúncio do casamento do seu amigo Duan Xiaolau (Zhang Fengyi) com Juxian (Gong Li), uma mulher que ele irá odiar para sempre.


Ao longo da película, Chen Kaige, oferece-nos não só a história da Ópera de Pequim e a vida dos seus dois protagonistas, como nos narra cinquenta anos da história da China, incluindo o período da Segunda Grande Guerra, com a invasão japonesa do território, assim como os anos conturbados da Revolução Cultural, que irá alterar profundamente a vida dos protagonistas.


“Adeus Minha Concubina” / “Ba wang bie ji”, ao receber a Palma de Ouro do Festival de Cannes, proporcionou uma intensa visibilidade ao cineasta Chen Kaige, ao mesmo tempo que deu muitas dores de cabeça aos censores chineses, que nunca viram com bons olhos a película do cineasta, que hoje em dia é um dos nomes incontornáveis da cinematografia chinesa.

26.2.26

Camel - "The Snow Goose"


Camel
"The Snow Goose"
Decca
1975

Andrew Latimer - Electric Guitar, Acoustic Guitar, Slide Guitar, Flute, Vocals.
Peter Bardens - Organ, Synthesizer.
Doug Ferguson - Bass.
Andy Ward - Drums, Vibraphone.
David Bedford - Arranged.


"The Snow Goose" é o mais célebre álbum desta banda de rock progressivo, que viria a ser totalmente instrumental, em virtude de não terem conseguido adquiri os direitos da letra, pode-se dizer que afinal há males que vem por bem e os Camel ficaram certamente muito agradecidos ao "anónimo" responsável por esta decisão.

Philippe Sollers - “Le Cavalier du Louvre – Vivant Denon (1747-1825)”


Philippe Sollers
“Le Cavalier du Louvre – Vivant Denon (1747-1825)”
Páginas: 321
Folio / Gallimard


Após a leitura deste belo livro de Philippe Sollers, só nos apetece regressar rapidamente ao Museu do Louvre, percorrer as salas e ver as obras expostas na companhia de Vivant Denon, esse amante das belas-artes que atravessou os mais diversos regimes sem perder a cabeça: Louis XV, Louis XVI, a Revolução Francesa, o Terror, que teve em Robespierre um obreiro de triste memória; o Consulado, tendo acompanhado Napoleão na Campanha do Egipto; o Império e a Restauração, terminando por morrer aos 68 anos, após ter ido assistir a um leilão de diversos quadros, estava muito frio nesse dia e, pela primeira vez na sua vida, adoeceu com uma congestão pulmonar, tendo falecido no dia seguinte.


“Le Cavalier du Louvre – Vivant Denon (1747-1825)” de Philippe Sollers é um desses livros que respira o célebre prazer da leitura de que falou um dia Roland Barthes.

Frederick Childe Hassam - "Windy Day"


Frederick Childe Hassam
"Windy Day"
Óleo sobre tela
23,8 x 21,9 cm.
Ano: 1889

Frederick Childe Hassam - (1859 - 1935) -  foi com Mary Cassatt e John Henry Twachtman, expoentes do impressionismo norte-americano, seguindo os mestres franceses, revelando uma certa apetência pelas cenas urbanas e costeiras, abrindo as portas dos Museus norte-americanos para a divulgação do Impressionismo.


Na obra intitulada "Windy Day" podemos observar o movimento da população que atravessa a ponte, com o agitar das suas roupas devido ao vento que se faz sentir nesse dia cinzento, certamente de Inverno, com o cinzento a invadir o céu, que banha o espaço circundante.

James Ivory - “The Householder”


James Ivory
“The Householder”
(India - 1963) – (102 min. - P/B)
Shashi Kapoor, Leela Naidu, Durga Khote, Achia Sachdev.

O primeiro filme de James Ivory que vimos no cinema foi o célebre “Verão Indiano” / “Heat and Dust” e desde então decidimos seguir-lhe a carreira. Este americano nascido no Oregon e que estudou na Califórnia, viveu na Índia durante alguns anos, por vezes até vê a sua nacionalidade trocada porque muitos o julgam inglês, devido ao seu estilo, mas também ao facto de ele ter levado ao écran diversas obras de E. M. Forster (“Maurice”, “Quarto com Vista” / “Room With a View” e “Regresso a Howards End” / “Howards End”), assim como obras de Henry James, tendo uma certa apetência por adaptar obras literárias ao cinema, sendo elas clássicas ou modernas, como sucederia com “Escravos de Nova Iorque” / “Slaves of New York”e “Os Despojos do Dia” / “The Remains of the Days”.


Quando realizou “The Householder”, em 1963, apenas possuía no seu curriculum dois filmes: “Venice: Thems and Variations” e “The Sword and The Flute”, este último realizado no continente indiano e com música de Ravi Shankar, na época desconhecido no Ocidente, porque ainda não tinha nascido o seu encontro com o Beatle George Harrison, nem as suas colaborações com John McLaughlin. E seria durante uma projecção desta curta-metragem que James Ivory iria conhecer o homem que irá mudar a sua vida para sempre, o produtor Ismail Merchant (que também irá passar pela realização, sendo a sua obra “The Mystic Masseur” / “O Massagista” uma maravilhosa pérola baseada num livro de V. S. Naipaul, (na época passou numa das salas do cinema Mundial), que irá produzir todos os seus filmes até falecer em 2005. Aliás no dvd do filme “Le Divorce” / “O Divorcio” poderemos ver num dos extras uma entrevista com Ismail Merchant, em que ele nos relata o seu encontro com James Ivory, uma verdadeira delicia.


Nos anos sessenta Satyajit Ray era um cineasta já bem conhecido no Ocidente e James Ivory via nele uma fonte inspiradora, sendo muito importante o seu contributo na montagem final de “The Householder”. Da mesma forma que “The River” / “O Rio Sagrado” de Jean Renoir onde Satyajit Ray foi assistente, foi a outra obra cinematográfica que marcou James Ivory no seu fascínio pela Índia.

“The Householder” irá assim reunir estes dois homens aos quais se irá juntar a argumentista de todos os seus filmes posteriores Ruth Prawer Jhabvala, aliás o argumento baseia-se num livro dela. E o mais curioso nesta película, datada de início dos anos sessenta que nos relata o primeiro ano de vida conjugal de um jovem casal, foi não ter sido vítima da passagem do tempo, devido ao génio de James Ivory.


No início do filme vemos Indu ((Leela Naidu) a ir ter com o marido para o informar que têm um convite para irem a um casamento. Na época, o matrimónio na Índia ainda era arranjado pelas respectivas famílias dos noivos e quando Prem (Shashi Kapoor), ao chegar ao local com a mulher, vê o desalento do amigo que se vai casar, decide contar-lhe como foi o seu primeiro ano de vida em comum e de imediato a película se transforma num longo “flashback” em que nos são narrados os problemas que Prem e Indu tiveram que enfrentar até encontrarem a felicidade.


Iremos assim assistir a essa relação entre dois estranhos que aprenderam a conhecer-se e a amar-se, ultrapassando todos os obstáculos encontrados ao longo do caminho. Dificuldades que continuamos a encontrar tantas vezes nos dias de hoje: a falta de dinheiro, a proteção da mãe e a luta pela felicidade.

Prem, um jovem professor universitário, vê sempre a sua autoridade a ser posta em causa tanto pelos alunos como pelos colegas mais velhos, por outro lado ao pretender encontrar na esposa uma mulher idêntica à mãe que o criou irá descobrir que a sua mulher não é propriamente submissa, tendo direito à sua própria identidade.


Filmado sempre em exteriores devido à falta de dinheiro, “The Householder” relata-nos uma história de sobrevivência, em que o humor não está ausente, basta ver as tentativas de Prem perante o director para pedir aumento de ordenado ou perante o senhorio da casa onde vive para lhe baixar a renda. Depois haverá sempre a chegada da sua mãe para pôr tudo em ordem na casa, criticando sempre a esposa, que acabará por abandoná-lo porque já não tolera mais as intromissões ditatoriais da sogra, acabando por regressar mais tarde por amor ao marido, construindo ambos um plano para “convidar” a mãe a partir para junto de uma das outras filhas, para ir tratar dos netos. E será esse mesmo amor que irá abrir o caminho para a felicidade, tão ambicionada por ambos.


James Ivory oferece-nos um retrato espantoso do quotidiano desses anos na Índia, onde não faltam esses americanos que buscam no território o perfeito encontro espiritual, mas que por outro lado possuem os meios necessários para viverem uma vida sem problemas económicos como sucede com o seu amigo americano.

Descobrir “The Householder” que já se encontra editado em dvd (importação) é a nossa proposta para hoje e nele poderemos sempre aprender mais um pouco sobre o universo desse maravilhoso cineasta chamado James Ivory.

25.2.26

Crimson Jazz Trio - "King Crimson Song Book" - Vol.1


Crimson Jazz Trio
"King Crimson Song Book" - Vol.1
Voiceprint
2005

Jody Nardone - piano.
Tim Landers - bass guitar.
Ian Wallace - drums.


A música dos King Crimson tocada por um trio de jazz, repleta de swing, com o célebre "In The Court of Crimson King" logo a abrir este álbum. De referir que os temas tocados são oriundos das mais diversas formações dos King Crimson e respectivas décadas o que torna ainda mais interessante este álbum.

Pif Le chien - "Pif o Cão" - José Cabrero Arnal


"Pif, o cão"
"Pif, le chien"
Arte: José Cabrero Arnal
Argumento: José Cabrero Arnal
Mundo de Aventuras nºs. 353, 368 e 370 - 1ª Série
Ano: 1956


"Pif, le chien" que em Portugal teve o nome traduzido para "Pif, o Cão", surgiu pela primeira vez no jornal "L'Humanité" em 1948, saído da pena do espanhol José Cabrero Arnal, mais tarde naturalizado francês. Com o passar dos anos Pif, irá passar para a revista Vaillant, que em 1969 se irá transformar em Pif Gadget, tal a popularidade alcançada junto do público mais jovem. Em Portugal as suas aventuras surgiram em diversas revistas incluindo os então célebres "Mundo de Aventuras" e "Condor Popular".

Maximilien Luce - "Le Quai Saint-Michel et Notre-Dame de Paris"


Maximilien Luce
"Le Quai Saint-Michel et Notre-Dame de Paris"
Óleo sobre tela
73 x 60 cm.
Ano: 1901

Maximilien Luce - (1858 - 1941) - foi um pintor impressionista francês que dividiu a sua actividade artística com a política, frequentando na época os círculos anarquistas e o respectivo movimento libertário que nessa época tinha inúmeros adeptos.

Nas obras que nos deixou deu destaque às paisagens mas sempre com composições em que o elemento humano se revelava preponderante como se vê nesta obra com a "Notre-Dame" em destaque, mas onde descobrimos o movimento humano, onde se distinguem diversas classes sociais.


Recorde-se que Maximilien Luce tinha 13 anos durante os acontecimentos da Comuna de Paris que o irão marcar para sempre, conduzindo-o a participar em diversos movimentos, incluindo o famoso caso Dreyfuss que agitou a França, assim como a Primeira Grande Guerra. Poderemos afirmar que o artista viveu numa das épocas mais conturbadas que atingiram a Europa.

Amigo de Georges Seurat, Paul Signac e Camille Pissarro, participou com eles na primeira exposição, na Société des Artistes Indépendants, em 1887 e deixou-nos mais de 4000 obras d pintura, desenho e gravura nos seus 65 anos de actividade artística, que retrataram de forma perfeita a época em que viveu.

Fritz Lang - "O Testamento do Dr. Mabuse" / "Das Testament des Dr. Mabuse"


Fritz Lang
"O Testamento do Dr. Mabuse" / "Das Testament des Dr. Mabuse"
(Alemanha – 1933) – (122 min. - P/B)
Rudolf Klein-Rogge, Oskar Beregi, Otto Wernicke, Wera Liessen, Gustav Diesel.

A personagem do Dr. Mabuse será talvez a mais “amada” por Fritz Lang, de todas as que surgiram nos seus filmes, apesar de ela ser sinónimo do mal, sempre em busca da destruição do mundo em que vive, para melhor estabelecer a sua ordem criminosa.


Mabuse irá atravessar a filmografia de Fritz Lang ao longo de diversas décadas do Cinema, recorde-se que ele surge pela primeira vez ainda no período do Mudo em 1922, na película intitulada precisamente “O Doutor Mabuse” / “Doktor Mabuse der Spieler”, na qual o cérebro do mundo do crime pretende estabelecer o seu império criminoso, encetando uma luta de vida e morte com o Procurador Wrenck que o persegue, terminando este duelo com a prisão do Dr. Mabuse que, “aparentemente”, enlouquece e fica internado num asilo de loucos.

Em 1933, já no período do sonoro, Fritz Lang irá retomar o personagem na película “O Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse”, onde iremos encontrar o perigoso criminoso internado no asilo de loucos, vigiado pelo professor Baum (Oskar Beregi), que vai acompanhando o seu estado de saúde ou loucura se preferirem.


Mas aproveitamos para abrir um parêntesis, para referir que o actor que interpreta o Dr. Mabuse (Rudolf Klein-Rogge) retoma aqui a personagem a que deu vida no tempo do cinema mudo, sendo um dos actores que fez essa difícil transição. Por outro lado, o célebre comissário Lohmann (Otto Wernicke), também é "um nosso conhecido", pois foi o responsável policial que perseguiu Hans Beckert (Peter Lorre), o assassino de crianças, na película anterior do cineasta, o célebre “M-Matou” / “M”, uma das obras-primas do cinema.

Embora preso no asilo, percebe-se que o Dr. Mabuse prepara o seu regresso ao mundo do crime, através dos seus poderes psíquicos, ao mesmo tempo que vai escrevendo o seu testamento que será cumprido à risca pelos seus cúmplices, restabelecendo com o seu poder mental um novo mundo do crime, cuja única finalidade é a destruição da sociedade e o controlo das massas, devidamente manietadas para cumprirem os seus desejos criminosos e de conquista do poder absoluto.


Ao conhecermos a organização terrorista, percebemos que os assaltos são comandados do asilo e no meio dos operacionais existe um homem chamado Kent (Gustav Diesel), que irá travar uma outra luta com a sua consciência ao conhecer a bela Lilli (Wera Liessen) e será este mesmo homem que irá denunciar a estratégia do Dr. Mabuse para se apoderar do poder, encontrando neste duelo como parceiro o destemido Comissário Lohmann. Mas Mabuse, ao ver descobertos os seus intentos, morre fisicamente, passando os seus poderes e controlo para o corpo do director do asilo prisão, o Professor Baum, manobrando-o a seu belo prazer e roubando-lhe a identidade, no sentido de estabelecer a sua nova ordem.

Se nos lembrarmos que este filme foi realizado em 1933, dois meses depois de Hitler chegar ao poder, percebemos logo quem Fritz Lang pretendia retratar e, como não podia deixar de ser, do outro lado, todos perceberam o recado e de imediato o filme foi proibido na Alemanha, só voltando a ser exibido em 1951.


Mas isso não impediu o então todo poderoso Dr. Goebbels de convidar Fritz Lang para dirigir esse Império do Cinema Europeu chamado UFA e aqui surge a famosa história contada por Fritz Lang, de como uma lenda se tornou uma realidade. Fritz Lang conta nas suas memórias que, depois de ter recusado a chefia do cinema germânico oferecida por Goebbels, de imediato se meteu num comboio, nesse mesmo dia, partindo para França, deixando a mulher Thea von Harbou (que nunca escondeu as suas simpatias pelo regime) para trás.

Como sabemos Fritz Lang esteve em França um ano e depois seguiu para a América. Porém a verdade dos factos parece ser um pouco diferente porque Fritz Lang fez diversas viagens entre a Alemanha e a França, após o convite de Goebbels, mas como diria John Ford não há nada como imprimir a lenda, quando ela é mais bela que a realidade. Seja como for, na verdade, este “Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse” não deixa margem de dúvidas sobre os destinatários do filme.


E curiosamente a última película da monumental obra de Fritz Lang, realizada em 1960, “O Diabólico Dr. Mabuse” / “Die Tausend Augen dês Dr. Mabuse”, retoma esta personagem do mal, dando-lhe vida desta vez num hotel onde ele, uma vez mais, através dos seus poderes psíquicos, usa uma rede de televisão para controlar os hóspedes no intuito de reerguer das cinzas o seu império do mal.

“O Testamento do Dr. Mabuse” / “Das Testament des Dr. Mabuse”, passados todos estes anos, possui uma juventude que nos deixa a todos estupefactos, porque como vemos no início do filme, os seus homens preparam-se para destabilizar o universo monetário, pondo a circular dinheiro falso, no intuito de criar o caos nos mercados financeiros.


Tendo em conta as diversas crises que atingem hoje o universo, se Fritz Lang fosse vivo, não iria resistir a fazer um quarto filme sobre esse génio do mal chamado Dr. Mabuse, o ser de mil rostos, que só aspira ao poder, que iriamos certamente encontrar a viver na China. Descobrir este filme à luz da história é, na verdade, uma experiência que nos oferece muito em que pensar.