20.1.26

Robert Doisneau - "Le baiser de l'Hôtel de Ville"


Robert Doisneau
"Le baiser de l'Hôtel de Ville"
Ano: 1950

Estamos perante a mais célebre fotografia de Robert Doisneau - (1912 - 1994), que durante muitos anos se pensou que era uma imagem obtida de forma espontânea, mas que o fotógrafo francês viria a confessar anos mais tarde que fora encenada. Robert Doisneau convidou dois modelos para os fotografar ao longo das ruas da cidade de Paris, n ano de 1950, tendo eleito esta como a favorita. "O Beijo do Hotel de Ville" transformou-se num "icon" do universo fotográfico.

F. W. Murnau - "Aurora" / "Sunrise"


 F. W. Murnau
"Aurora" / "Sunrise"
(EUA – 1927) - (117 min. - P/B - Mudo)
George O’Brien, Janet Gaynor, Margareth Livingstone.

Quando F. W. Murnau chegou aos Estados Unidos, a convite da Fox, foi-lhe de imediato dada carta-branca para filmar e assim nasceria “Sunrise” / “Aurora”, uma das mais admiráveis histórias de amor do cinema. Estamos mais uma vez perante a história da célebre tentação, personificada aqui pela vamp (Margaret Livingstone), que tudo irá fazer para seduzir George O’Brien, esse fiel esposo que um dia decide assassinar a mulher angélica que vive com ele.


Mais uma vez F. W. Murnau usa o travelling e a luz como só ele sabia fazer. Mas ao chegar a esse momento capital em que a vida e a morte se confrontam o marido, enfeitiçado pela vamp, desiste do seu objectivo e mais uma vez será Deus, segundo a visão do cineasta alemão, que irá escrever o destino por portas e travessas, quando ele pensa que a mulher morreu.


A forma “celestial” como nos é oferecido o rosto de Janet Gaynor, essa esposa angélica, ao longo do filme é surpreendente, em contraste com o rosto da vamp e quando o cineasta parte do campo para essa cidade cheia de luz e movimento, retratada de forma sublime, percebemos como o destino daquele par será escrito pelo amor que nutrem um pelo outro.


“Aurora” / “Sunrise” recebeu, na época da sua estreia, o Óscar para a melhor produção de qualidade artística, o equivalente nos dias de hoje ao Óscar para Melhor Filme, na verdade uma das obras-primas do Cinema!

19.1.26

Peter Baumann - "Machines of Desire"


Peter Baumann
"Machines of Desire"
Bureau B
2016

"Machines of Desire" marca o regresso de Peter Baumann, ex-membro dos Tangerine Dream, que desenvolveu um trabalho meritório como produtor na etiqueta "Private Music", ao interior da música electrónica, recordando por vezes precisamente o seu álbum de estreia, a solo, "Romance 76", poderemos dizer que o filho pródigo regressa a casa, bem inspirado, musicalmente falando.


Alex Simmons - (Enrique Sánchez Pascual) - "Frente Este" / " El Frente Este"


 Alex Simmons
(Enrique Sánchez Pascual)
"Frente Este" / " El Frente Este"
Páginas: 106
Distribuidora de Publicações/Palirex

A denominada literatura popular oriunda de Espanha esteve muito em voga no nosso país, no século passado, tendo até tido vários escritores nacionais que se dedicaram a ela. Denominada por muitos como uma "literatura menor", consideramos esse atributo injusto, porque ela terminava por convidar o leitor à descoberta de novos autores e a usufruir desse belo prazer que é a leitura.

Enrique Sánchez Pascual nasceu em Agosto de 1918 em Madrid e era estudante de medicina quando estalou a Guerra Civil; a sua condição de combatente Republicano obrigou-o a refugiar-se em França onde se viria a casar, decidindo depois regressar a Espanha, o que lhe viria a custar ter de cumprir uma pena de prisão devido à sua participação na Guerra Civil.

Mais tarde trabalhou como delegado de propaganda médica e seria um amigo, que conhecia os seus dotes literários, que o iria convencer a encetar uma carreira literária no âmbito da então denominada literatura popular, que tinha um enorme sucesso em Espanha e cujos livros eram também editados em Portugal, com um número bem apreciável de vendas.

A sua escrita irá abordar as mais diversas áreas, desde o policial até ao livro de guerra, passando pelo "western" e a ficção-científica, sendo um entusiasta dos livros de Ray Bradbury e Isaac Asimov. Como não podia deixar de ser a sua editora seria a Bruguera, fundada em 1910, a mais importante nesses anos 50/60 neste género editorial, o que o irá levar a mudar-se com a família de Madrid para Barcelona.

Ao longo da vida escreveu centenas de livros, com os mais variados pseudónimos, como era habitual na época e Alex Simmons é precisamente um deles, sendo bem curioso o facto de os livros que li deste escritor serem possuidores de uma marca de escrita que os diferencia dos restantes (refiro-me aos denominados livros de Guerra), como sucede com este "Frente Este", editado pela Palirex em Portugal, na sua famosa colecção dedicada à Segunda Grande Guerra. Poderemos também encontrar diversos livros deste escritor na colecção "Patrulha de Combate" editados pela Agência Portuguesa de Revistas, confesso que li bastantes livros desta colecção em criança.

Giuseppe De Nittis - "La Place du Carrousel, ruines des Tuileries"

Giuseppe De Nittis
"La Place du Carrousel, ruines des Tuileries"
Óleo sobre tela
45 x 60 cm.
Museu do Louvre
Ano:1882

Neste quadro o pintor impressionista Giuseppe De Nittis (1846-1888) faz do Palácio das Tulherias, devastado pelos incêndios da Comuna, o motivo central de sua pintura. O sol ilumina o fundo enquanto as sombras envolvem o primeiro plano. Vemos um casal a puxar uma carroça, ao mesmo tempo que duas mulheres vestindo de negro atravessam o espaço. Estamos perante uma Paris que estava a desaparecer e que virá dar lugar a uma Paris Moderna que tantas vezes será retratada pelos pintores impressionistas.

Michelangelo Antonioni - “Identificação de Uma Mulher” / “Identificazione Di Una Donna”


 Michelangelo Antonioni
“Identificação de Uma Mulher” / “Identificazione Di Una Donna”
(Itália/França – 1982) – (128 min. / Cor)
Tomas Milian, Daniela Silverio, Christine Boisson, Sandra Montelioni.

No ano anterior ao da saída deste filme, 1981, Michelangelo Antonioni tinha-nos oferecido essa obra-prima intitulada “O Mistério de Oberwald” / “Il Mistério di Oberwald”, com Mónica Vitti na protagonista, sendo este o derradeiro filme do cineasta com a sua musa. E no ano seguinte nasceu “Identificação de Uma Mulher” / “Identificazione Di Una Donna”, que nos narra a história de um cineasta que, divorciado da sua mulher, sendo a ferida ainda recente, procura um rosto para nos contar uma história de amor.


Niccoló Farra (Tomas Milian) é o cineasta possuidor desse desejo, de curar as feridas do amor em busca dessa mulher perfeita que lhe liquide a solidão. Será ao atender um telefonema na clínica da sua irmã que irá ficar a conhecer Mavi (a fascinante Daniela Silverio), de origens aristocráticas, enquanto ele costuma ler em casa o L’Unitá, surgindo assim duas visões do mundo bastantes distantes, como se irá perceber na festa a que vão juntos. Entretanto o cineasta começa a receber ameaças de uma identidade desconhecida, que não gosta da sua nova relação amorosa.


Mavi esconde no seu belo corpo segredos profundos da sua alma e, como tal, irá um dia desaparecer de circulação sem deixar rasto, apesar de todas as diligências de Niccoló. Porém o seu desejo de encontrar a mulher perfeita para o seu filme, para a sua vida, leva-o ao teatro onde Ida (Christine Boisson), uma actriz sua conhecida, é a protagonista. E, como não podia deixar de ser, ele começa a ver nela a mulher ideal para o seu filme, para a sua vida. Decidem então ir um fim-de-semana até Veneza, para ali descobrirem essa lagoa aberta invadida pela neblina, que irá ditar a ambos um falso futuro, precursor da solidão que se avizinha e que Niccoló desconhece.


Ao chegarem ao hotel em Veneza, Ida recebe um telefonema a informá-la que está grávida de um outro homem e de imediato a incerteza toma posse dela, o pedido de casamento feito por Niccoló, na solidão da lagoa encontra-se à beira do naufrágio. E será isso mesmo que ela percebe quando, junto da porta do hotel, enquanto as imagens exteriores são projectadas nos vidros, numa simbiose perfeita, Niccoló reconhece a dificuldade em ser pai, naquelas circunstâncias.

Já Mavi, que tinha desaparecido sem deixar rasto, acaba por ser localizada e Niccoló decide investigar o mundo em que ela agora vive. A zona não é das melhores, como bem vemos e depois, discretamente, Michelangelo Antonioni oferece-nos um dos segredos de Mavi.


Por fim Niccoló Farra percebe como é difícil identificar uma mulher para ser protagonista do seu filme, como é difícil encontrar uma mulher que lhe preencha o vazio da sua vida. Senta-se então no parapeito da janela e começa a reparar no brilho do sol, a solução para o seu desastre sentimental poderá estar ali, bem longe das ilusões terrenas.

Antonioni oferece-nos em “Identificação de Uma Mulher”, uma obra cujo argumento se encontra em perfeita ebulição, ao longo da película, ao mesmo tempo que continua a dar uma importância enorme à composição do plano, em que mais uma vez a cor é o elemento primordial. Por outro lado, consegue oferecer-nos uma banda sonora da autoria de John Foxx que nos deslumbra, ao mesmo tempo que junta excertos de obras conhecidas de Peter Bauman e Tangerine Dream, sendo inesquecível essa sequência final, com Niccoló a olhar fascinado para o sol, imaginando uma nave espacial a dirigir-se na sua direcção, ao mesmo tempo que assistimos à perfeita conjugação entre música e imagens.


“Identificazione di una Donna” oferece-nos um novo retrato desse célebre universo da incomunicabilidade, que Michelangelo Antonioni tão bem dissecou ao longo da sua obra cinematográfica. A mulher permanece para o realizador a mais bela-luz do seu cinema. Descobrir e amar os seus sentimentos foi a sua tarefa de cineasta ao longo dos anos.

18.1.26

Edgar Degas - "Place de la Concorde"


Edgar Degas
"Place de la Concorde"
Óleo sobre tela
78 x 118 cm.
Museu Hermitage, São Petersbourg.
Ano: 1875

Edgar Degas o mestre da composição cria muitas vezes as personagens dos seus quadros como se obtivesse um instantâneo fotográfico e neste quadro intitulado "Place de la Concorde" vemos o Visconde Lepic a passear com as suas duas filhas perante o olhar atento de um transeunte.

17.1.26

Michael Mantler - “The Jazz Composer’s Orchestra”


Michael Mantler
“The Jazz Composer’s Orchestra”
JCOA Records / WATT Records
1968

1 – Communication # 8 – 13:52
2 – Communication # 9 – 8:08
3 – Communication # 10 – 13:26
4 – Preview – 3:23
5 – Communication # 11 – 15:10
6 – Communication “ 12 – 17:47


The Jazz Composer’s Orchestra foi fundada em 1965 por Michael Mantler e Carla Bley para promover o jazz de vanguarda sem fins lucrativos.

A JCOA Records foi criada para divulgar a música dos seus membros e o editor alemão Manfred Eicher decidiu divulgar os trabalhos discográfico de dois dos seus criadores incontornáveis: Michael Mantler e Carla Bley.

Ao longo dos anos a ECM Records irá editar e comercializar, as obras discográficas de Michael Mantler e Carla Bley, mantendo no entanto, os dois artistas a sua total independência criativa através da sua própria etiqueta Watt Works Music.

Este duplo álbum foi sendo gravado ao longo de seis meses, com Michael Mantler a dirigir esta orquestra de jazz e onde surgem como solistas, nomes bem conhecidos como Cecil Taylor, Don Cherry, Roswell Rudd, Pharoah Sanders, Larry Coryell e Gato Barbieri.

Gravado em Janeiro, Maio e Junho de 1968 no RCA Victor’s Studio B, New York City, por Paul Goodman. Design da capa e Layout de Paul McDonough. Produção de Michael Mantler. Todas as composições são da autoria de Michael Mantler, que também dirigiu a orquestra.

16.1.26

Red Canyon - "Sargento Raio - Perigo na Montanha"


Red Canyon
"Sargento Raio - Perigo na Montanha"
Arte: Jim Gary
Argumento: Jim Gary
Mundo de Aventuras nºs. 367 a 381
Ano: 1956


Em Portugal o célebre sargento da Policia Montada do Canadá, Red Canyon, foi baptizado de Sargento Raio e esta aventura publicada no ano de 1956, na revista de banda desenhada "Mundo de Aventuras", no célebre sistema de "em continuação" é bem aliciante, com uma bela e perigosa personagem feminina.

15.1.26

Bernardo Bertolucci - "Um Chá no Deserto" / "The Sheltering Sky"


Bernardo Bertolucci
"Um Chá no Deserto" / "The Sheltering Sky"
(Grã-Bretanha / Itália - 1990) - (138 min. / Cor)
Debra Winger, John Malkovich, Campbell Scott, Jill Bennett, Timothy Spall.


Foi num daqueles dias em Paris, com a casa repleta de convidados, que Gertrud Stein chamou Paul Bowles e Jane para junto da janela e recomendou ao compositor e poeta que fosse até ao norte de África, percorrer as estradas, visitar Tânger e descobrir Marrocos em busca do sabor perfeito da Literatura. Eles assim fizeram e nunca mais voltaram, porque não partiram como turistas, mas sim como viajantes: - "um turista só pensa em regressar a casa, enquanto o viajante não sabe se regressa." (1).


E assim Paul Bowles viveu em Tânger desde finais dos anos quarenta, do século passado,  até à sua morte em 1999. A sua casa serviu de ponto de passagem para toda uma geração de escritores e poetas norte-americanos, em busca da sua hospitalidade. Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs, foram alguns dos que passaram por sua casa. E quando o seu romance "The Sheltering Sky" / “O Céu que nos Protege” foi publicado, transformou-se de imediato numa referência para inúmeras gerações, terminando por surgir a respectiva adaptação cinematográfica, tendo ainda espaço para navegar no interior do universo musical.


Música, interrogam-se alguns? Sim, meus caros amigos! Um dos mais belos temas instrumentais dos King Crimson, incluído no álbum "Discipline", chama-se precisamente "The Sheltering Sky" e recomendamos vivamente a sua audição. Já o livro, que foi dedicado por Paul Bowles à sua esposa Jane, possui uma bela citação de Eduardo Mallea: "O destino de cada homem só é pessoal na medida em que se assemelhar ao que já existe na sua memória." E se nunca leu o livro, recomendamos a sua descoberta e depois, se desejar, poderá sempre mergulhar na beleza musical criada por Ryuichi Sakamoto para o filme de Bernardo Bertolucci, uma das mais belas bandas sonoras do compositor japonês.


Bernardo Bertolucci tinha recolhido uma mão cheia de Oscars com "O Último Imperador"/”The Last Emperor” e todos sabemos como é difícil partir para o filme seguinte, depois de uma chuva de prémios e consensos. Ora o cineasta italiano seguiu o caminho traçado anteriormente, com o segmento "1900" (obra maior da sua filmografia) e "La Luna", um dos filmes mais intimistas da sua obra cinematográfica, Assim nasce “The Sheltering Sky” / "Um Chá no Deserto", com uma inesquecível fotografia de Vittorio Storaro, revelando-se uma das películas mais belas e perturbantes da sua filmografia.


A história de Pot Moresby (John Malkovich) e Kit Moresby (Debra Winger), assim como o "outro", o intruso consentido, representado por George Tunner (Campbell Scott) percorre o deserto em toda a sua plenitude e intensidade, originando a paixão e a perdição inerente a esse estado supremo do amor. Esta inesquecível história de amor possui como narrador o próprio escritor (Paul Bowles), que surge no início e no final do filme, fisicamente, contemplando os seus personagens, fruto da sua própria carne, já que tal como ele, Pot Moresby é compositor, assim como Kit Moresby é dramaturga, como a sua esposa Jane Bowles. O final é de um esplendor silencioso, quando Kit Moresby se dirige ao escritor em busca de um rumo para a sua existência.


"Um Chá no Deserto" / “The Sheltering Sky” possui, no seu interior, não só a genialidade de Bertolucci, mas também, como referimos anteriormente, a fabulosa fotografia de Vittorio Storaro, de uma sensibilidade extraordinária. É claro que alguns viram nisso exotismo e bilhete-postal de luxo, para europeu ver. No entanto, quem fez essa leitura e lhe chamou um filme falhado, não possui a menor ponta de sensibilidade para ler nas imagens, a tragédia da fuga de dois seres no interior do deserto, narrado de uma forma exemplar. Será talvez o momento de fazermos uma nova leitura do romance e aproveitar a edição em dvd para reencontrar o percurso de Kit e Pot e descobrir essa bela e intensa luz que ilumina a obra literária de Paul Bowles.


"The Sheltering Sky" / “Un Chá no Deserto” é um romance que tem sido amado pelo cinema desde sempre, pois tanto Robert Aldrich como Nicolas Roeg tentaram a sua adaptação para o grande écran e, se inicialmente, os actores apontados para dar rosto aos personagens no filme de Bernardo Bertolucci foram William Hurt e Melanie Griffith, pensamos que a escolha de John Malkovich e Debra Winger foi a mais acertada, já que ela respira sensualidade em cada gesto e ele possui no seu olhar a perdição e a inevitável redenção proporcionada pela imensidão do deserto.


Nota: Se pretendem conhecer a obra literária de Paul Bowles, iniciem a leitura pela novela "Muito Longe de Casa" (editado pela Presença) e depois de estarem familiarizados com o calor do deserto, ataquem "O Céu Que Nos Protege" / "The Sheltering Sky" (editado pela Assírio e Alvim) e comparem com o filme de Bernardo Bertolucci; após terem ficado apaixonados pela escrita de Paul Bowles continuem com "Deixai a Chuva Cair" (editado pela D. Quixote) e então estão preparados para partirem tranquilamente através da obra literária deste fabuloso escritor, que a Editora Quetzal, tem estado a editar no nosso país.


Mas, se desejarem, também podem ler "Duas Senhoras Bem Comportadas" (editado pela Presença) de Jane Bowles. E após estas leituras todas retomem as personagens de Kit e Pot e vejam como elas se confundem com as de Jane e Paul.

No respeitante à banda sonora, aproveitem para escutar a música composta por Ryuichi Sakamoto e se tiverem curiosidade suficiente, após terem escutado os temas da autoria do próprio escritor, procurem a música que Paul Bowles foi compondo ao longo da sua estadia em Marrocos.

(1) - Bruce Chatwin foi outro viajante perfeito.

14.1.26

Harold Budd with Zeitgeist - “She Is a Phanton”


Harold Budd with Zeitgeist
“She Is a Phanton”
New Albion
1994

Harold Budd – piano.
Jay Johnson – marimba, percussion.
Heather Barringer – vibraphone, percussion.
Tom Linker – piano, synthesizer.
Bob Semirotto – Woodwind.


Uma pequena pérola contemporânea, onde Harold Budd ainda nos oferece um pouco da sua poesia em quatro temas, que nos convidam a meditar sobre este mundo em que vivemos. Recorde-se que em alguns dos seus trabalhos musicais são incluídos poemas da sua autoria, infelizmente Harold Budd deixou-nos em 2020, mas a sua música é intemporal!

13.1.26

João Mário Grilo - "O Livro das Imagens"


João Mário Grilo
"O Livro das Imagens"
Páginas: 288
Minerva Coimbra


Os primeiros textos de João Mário Grilo que li, na área de crítica de cinema, foram no quinzenário JL, onde ele assinava uma crónica e que rapidamente se tornou de leitura obrigatória, anos mais tarde vieram os filmes, que sempre foram uma voz única na cinematografia deste país. Este livro intitulado "O Livro das Imagens" é muito mais do que uma simples reunião de crónicas publicadas na Imprensa escrita, porque nele encontramos o pensamento de João Mário Grilo sobre esse território em que a imagem nos revela o seu significado e poder.


«Este volume recolhe uma selecção extensa de crónicas escritas para a revista Visão e publicadas numa coluna de opinião que recebeu o título "Imagens".

Ao longo desses anos, procurei que esta escrita fosse merecedora desse título e que a cadência semanal das crónicas fosse restituindo o essencial das dinâmicas do audiovisual na cena portuguesa: da política à estética, passando por alguns dos protagonistas (artistas e instituições) que marcaram a vida cultural do País, nesta área decisiva.».

João Mário Grilo

12.1.26

Luchino Visconti - "O Leopardo" / "Il gattopardo"


 Luchino Visconti
"O Leopardo" / "Il gattopardo"
(Itália / França - 1963) - (186 min./Cor)
Burt Lancaster, Alain Delon, Claudia Cardinale.

“O Leopardo” / “Il Gattopardo” é uma das obras-primas da Sétima Arte e o seu autor, Luchino Visconti, um dos maiores vultos da História do Cinema. Tal como o herói do livro de Lampedusa, também ele pertencia à aristocracia: Luchino Visconti era Príncipe de Modrone, de Milão e desde muito cedo se interessou pelo cinema, iniciando-se nessa actividade como assistente de Jean Renoir. A sua primeira obra “Obsessão” / “Ossessione” adaptava à tela o romance de James Cain, “O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes”, mas como os direitos do romance eram demasiado elevados, Luchino Visconti adaptou-o à realidade italiana, introduzindo desta forma o neo-realismo no cinema, estava-se em 1942, tendo ido ainda mais longe neste terreno quando em 1948 realizou na Sicília “A Terra Treme” / “La Terra Trema”.


Antigo criador de cavalos, Luchino Visconti não escondeu a sua paixão pelo Teatro e a Ópera, bem patente em “Senso” / “Sentimento”, mas seria sempre o cinema a falar mais alto e com “O Leopardo” / “Il Gattopardo”, obra premiada em Cannes, ele falou pela primeira vez do seu próprio universo, esse mundo à beira do abismo, substituído por uma outra classe que despontava, a burguesia, recorde-se a frase do Príncipe de Salina (Burt Lancaster): “nós éramos os leopardos, os leões, agora chegou a hora dos chacais”, referindo-se aos novos senhores da política que despontavam nessa nova Itália de Victor Emmanuel, depois da derrota dos camisas vermelhas de Garibaldi, usados na luta contra os Bourbons.

Curiosamente, “Il Gattopardo”, obra fundamental da Literatura Italiana e Universal, só foi publicado após a morte do seu autor Giuseppe Tomasi di Lampedusa, graças aos esforços do seu filho, depois foi através do cinema que a sua obra adquiriu uma visibilidade enorme, tal como o seu mundo aristocrático onde as alianças de classes surgiam em busca do poder.


Esta obra de Luchino Visconti, para se concretizar, teve que contar com o apoio da indústria americana através da Fox que impôs um actor americano, tendo a escolha do cineasta recaído sobre Burt Lancaster, o “cow-boy” como lhe chamou inicialmente o realizador italiano, depois de os nomes de Laurence Olivier e Marlon Brando terem sido vetados. E como todos sabemos o Príncipe Italiano deu-se muito bem com o americano, oferecendo-lhe muitos anos depois o papel do protagonista de “Violência e Paixão” / “Grupo di famiglia in un interno”, onde ele surge como alter-ego do próprio cineasta.


No entanto, foram muitas as dificuldades para a apresentação da obra no que diz respeito à sua metragem, existindo diversas versões, por essa razão optámos em cima por mencionar a duração da cópia restaurada, que foi apresentada e trabalhada por Giuseppe Rotuno, o seu director de fotografia e a duração do dvd editado pela Costa do Castelo. Por outro lado, para quem se interesse em comparar as versões americana e italiana do filme poderá sempre visioná-las através da edição em dvd da “Criterium” que nos oferece as duas (este dvd é de zona 1). Em ambas há actores dobrados, porque temos três línguas no filme, devido às origens dos seus protagonistas, inglês, italiano e francês, assim como dois tipos de película perfeitamente distintos devido à cor da fotografia, sendo a adoptada por Luchino Visconti a Cor De Luxe.


No primeiro plano de “O Leopardo” / “Il Gattopardo” seguimos o movimento da câmara que se aproxima da residência do Príncipe de Salina (Burt Lancaster) e à medida que ela percorre o edifício através de um travelling lateral, apercebemo-nos que alguém reza, o vento vai batendo nas cortinas da casa e será num "raccord" perfeito que iremos entrar na sala onde a família se encontra a rezar, ao mesmo tempo que começam a surgir gritos do exterior e há esse momento em que alguns membros da família são desviados da oração para o exterior, mas só quando a palavra ámen é pronunciada pelo dono da casa, é que ficamos a saber o que se passa no jardim, onde jaz um soldado morto debaixo de uma árvore. Entramos assim no quotidiano desta família aristocrata e através dela iremos ver como a luta de classes se desenvolve em Itália nesse ano de 1860.


Mas demos a palavra a Luchino Visconti, melhor do que ninguém ele nos poderá falar de “Leopardo”: “O Príncipe de Salina sabe que pertence a uma classe condenada a morrer. Por isso no final, se vê a morte à roda dele. A morte é a única coisa que faz sentido para ele. Compreendo a sua nostalgia, mas o mundo dele tinha que desaparecer e foi isso que quis mostrar no meu filme. Não nasci na Sicília e nós, no Norte, temos uma espécie de remorso face ao Sul: uma grande má consciência. Nunca lhe demos a ajuda que lhe prometemos. O movimento que libertou a Sicília dos Bourbon triunfou, como todas as revoluções, por causa das promessas feitas ao povo. Só que, como sempre, essas promessas não serão cumpridas. Garibaldi agiu com boa-fé, mas os oportunistas latifundiários rapidamente aproveitaram a situação de mudança em benefício próprio, instalando uma nova opressão burguesa. Ao longo de séculos de escravidão, a Sicília continua a jazer numa espécie de torpor e a Máfia persiste como gangrena que alastra. Tudo isto deve mudar, tudo isto irá mudar. Para mim o tema de “O Leopardo” / “Il Gattopardo” é muito semelhante ao de outro filme meu “Sentimento” / “Senso”. Só que desta vez, a visão é menos cruel e os acontecimentos são considerados com mais pathos”.


Em “Senso” / “Sentimento” temos no início do filme os panfletos lançados na Ópera a apelar à revolta e, tal como em “O Leopardo” / “Il Gattopardo”, os fuzilamentos existem por razões de amor, embora em ambos a palavra desertor tenha um denominador comum, só que em “O Leopardo” / “Il Gattopardo” os fuzilamentos, que só escutamos, são perpetrados pela nova ordem, saída da revolução, repare-se na forma como o Coronel no baile fala do trabalho que ainda tem pela frente nessa noite e como relata como capturou Garibaldi, perante a revolta do Príncipe de Salina.


Desde o início sabemos como Don Fabrizio (Burt Lancaster) olha os acontecimentos, apoiando o sobrinho Tancredi (Alain Delon), quando este decide juntar-se aos revoltosos, mas depois da nova ordem ser instituída, ele demonstra uma lucidez incrível, porque sabe que todas as revoluções devoram os seus filhos e daí a máxima “temos que mudar as coisas para que tudo permaneça na mesma”. O poder apenas mudou de mãos e as novas classes tudo farão para se manterem iguais aos antigos detentores do poder. Repare-se nas palavras do enviado do novo governo quando vai convidar o Príncipe para Senador, com ele trás a mensagem de que nada mudou, até a igreja irá manter o seu poder, talvez até maior, oferecendo com a outra mão um mundo melhor aos deserdados da fortuna, sabendo no seu intimo que isso nunca será concretizado.


Já Tancredi Falconeti (Alain Delon) representa o jovem revolucionário aristocrata arruinado que, depois de ter participado na instauração da nova ordem, se alia à nova burguesia nascente, detentora de terras mas isenta de títulos, para originar uma nova aristocracia, tendo em Angélica (Claudia Cardinale) o “salvo-conduto” para partir com sucesso para a nova ordem estabelecida. Ele possui os títulos e as maneiras, ela o dinheiro e a ambição, aliás bem patente na forma como Don Calogero (Paolo Stoppa) recebe o Príncipe em Donnafugata. Será aliás através de Don Calogero que somos introduzidos nessa nova classe nascente, em que o dinheiro é a moeda de troca, mas só o dinheiro, porque títulos não há e quando ele vai desencantar no baú um título, de imediato Tancredi (Alain Delon) lho retira à entrada do baile, porque ele ali não lhe serve para nada.


Nessa longa sequência do baile iremos encontrar a fórmula perfeita para a despedida do Príncipe desse mundo aristocrático que desaparece perante o seu olhar, da mesma forma que ele no final não irá seguir com a família até casa, preferindo seguir a pé, perdendo-se na noite, essa noite que ele tão bem conhece, onde a miséria e o prazer continuam a viver lado a lado. Tal como o professor de “Violência e Paixão” / “Grupo di famiglia in un interno”, o Príncipe de Salina terá sempre o seu mundo, só que ele já não existe, permanecendo apenas como memória de um tempo definitivamente perdido.

11.1.26

Albert Lebourg - "Place de la Concorde"


 Albert Lebourg
"Place de la Concorde"
Óleo sobre tela
40,5 x 65,8 cm.
Museu Marmottan, Paris.
Ano: 1890


Albert Lebourg foi um pintor impressionista francês, que privilegiava as séries de pintura sobre o mesmo tema, o pintor gostava da luminosidade das luzes de inverno e criava um toque fragmentado que lhe devolvia as vibrações, como é possível ver neste quadro intitulado “Place de la Concorde”.

10.1.26

Francis Ford Coppola - “Do Fundo do Coração” / “One From The Heart”


Francis Ford Coppola
“Do Fundo do Coração” / “One From The Heart”
(EUA – 1981) – (107 min./Cor)
Frederic Forrest, Teri Garr, Raul Julia, Nastassja Kinski.

No início da década de 80, século XX, Francis Ford Coppola já atravessava uma determinada crise económica, mas o seu sonho, tal como o de “Tucker”, iria levá-lo à ruína. Ao ser feito no maior segredo, “One From The Heart” / “Do Fundo do Coração”, começou a levantar fortes suspeitas no interior da indústria cinematográfica e, ao ser exibida para a crítica cinematográfica, foi pura e simplesmente trucidada.


A campanha negativa foi de tal ordem, que ao fim de uma semana em exibição, com as salas praticamente desertas de público, o cineasta mandou retirar o filme do circuito de exibição e o sonho “Zoetrope” viu os seus dias contados. Os credores, que já rondavam as portas do Estúdio, não tiveram contemplações com o sonho megalómano do cineasta, embora os apaixonados da Sétima Arte recebessem o mais deslumbrante musical de sempre, de braços abertos. Conjugando o artifício e o espectáculo com a música de Tom Waits, nascia uma das mais belas bandas sonoras de sempre.


Mas Coppola, ao contrário de David Wark Griffith, que acabou os seus dias a “palmilhar” as ruas de Hollywood, esquecido de todos, devido ao insucesso da sua “Babilónia” (nem dinheiro havia para destruir os gigantescos cenários construídos), decidiu partir pela estrada fora e recomeçar tudo de novo!

9.1.26

Rickie Lee Jones - "The Magazine"


 Rickie Lee Jones
"The Magazine"
Warner Bros. Records
1984

O primeiro álbum de Rickie Lee Jones, que adquiri e que permanece um dos meus favoritos, intitula-se "The Magazine" e oferece-nos um tema instrumental a abrir o lado A de uma beleza inesquecível, depois surge a sua voz que nos irá de imediato seduzir pela sua poesia e musicalidade.

8.1.26

Paul Auster - "Mr. Vertigo"


Paul Auster
"Mr. Vertigo"
Páginas: 298
Asa


Nos dias de hoje fala-se muito de sequelas literárias, fruto dos tempos ou da ambição dos editores ou simplesmente o belo desejo de um autor explorar melhor os caminhos da personagem que nasceu da sua escrita. Confesso que não sou a favor de sequelas, mas se me perguntassem qual o livro de que gostaria de ver escrita uma sequela? Diria que esse acto literário teria que ser levado a cabo pelo próprio escritor e não por terceiros, como ultimamente tem sucedido nesses insondáveis caminhos da Edição do século XXI.

O escritor eleito seria Paul Auster, um dos meus escritores de cabeceira, que descobri um dia ao ser publicada em Portugal a famosa “Trilogia de Nova Iorque”, na época editada pela Difusão Cultural e, desde esse dia, li tudo o que ele escreveu ao longo dos anos, fosse em edições nacionais, inglesas ou americanas. Paul Auster que, como muitos sabem, foi um profundo conhecedor do nosso país, passou por aqui diversas vezes, aliás no seu livro escrito a duas mãos, com o escritor sul-africano J.M. Coetzee, “Here and Now – Letters 2008-2011”, ele falava da sua última estadia no Estoril e possivelmente alguns viram-no na Culturgest, já lá vão alguns anos, numa das suas leituras, para além de ter realizado um dos seus filmes, “A Vida Interior de Martin Frost”, por aqui, com produção de Paulo Branco.


Mas para não perder o fio à sequela, direi que o livro eleito seria “Mr Vertigo”, para assim poder conhecer mais aventuras/memórias de Walt o Rapaz Maravilha, e do seu mentor o fabuloso Mestre Yehudi, os sonhos do rapaz maravilha conduzem-no ao voo e ele torna-se um ídolo da América, mas como todos os ídolos, também ele irá cair, mas depois renascerá das cinzas e voltará a conhecer o sabor amargo da perdição e já com a idade a fugir-lhe do corpo, Walt conta-nos as suas aventuras de Rapaz Maravilha e quantas histórias terão ficado por contar, ele que teve o mundo a seus pés, certamente muitas mais ficaram na pena mágica de Paul Auster ou se preferirem numa das suas famosas máquinas de escrever.

Vale a pena descobrir o fabuloso livro de Paul Auster intitulado “Mr, Vertigo”, uma obra-prima da Literatura Mundial e se o escritor norte-americano tivesse um dia retomado numa sequela as aventuras destes seus personagens teria sido simplesmente maravilhoso. Paul Auster deixou-nos em 30 de Abril de 2024.

Rui Luís Lima

7.1.26

Martin Scorsese - “Histórias de Nova Iorque – Lições da Vida” / “New York Stories – Life Lessons”

 

Martin Scorsese
“Histórias de Nova Iorque – Lições da Vida” / “New York Stories – Life Lessons”
(EUA – 1989) – (44 min. / Cor)
Nick Nolte, Rosanna Arquette, Patrick O’Neal, Steve Buscemi.


Durante os anos setenta do século xx (convém não esquecer que vivemos no século XXI), estiveram muito em voga os filmes de “sketches”, em que diversos realizadores abordavam um determinado tema, basta recordar esse maravilhoso “Boccacio 70” ou “Amor e Raiva” / “Amore e Rabbia”, para nos situarmos na época mas, com a passagem do tempo, o género deixou de cativar as audiências, até que em 1989 Woody Allen convidou Martin Scorsese para participar num filme de “sketches”, no qual o tema seria a cidade de Nova Iorque. O terceiro cineasta deveria ser Steven Spielberg, que acabaria por desistir do projecto, sendo substituído por Francis Ford Coppola, nascendo assim essa obra com o título genérico de “New York Stories”. Mas como por vezes sucede, há um abismo entre o filme de Martin Scorsese, “Life Lessons”, e as outras duas películas assinadas por Woody Allen e Francis Coppola.


Na época em que o filme se estreou em Lisboa ainda vigoravam os célebres intervalos e, curiosamente, o filme de Martin Scorsese ocupava a primeira parte da sessão. Nós por aqui apaixonámo-nos por “Life Lessons” e fomos algumas vezes ao cinema só para ver a história do pintor Lionel Dobie (Nick Nolte), saindo depois ao intervalo.

Tínhamos encontrado uma obra-prima que nos convidava a meditar nessa Arte classificada de Sétima. “Life Lessons” é muito mais que lições da vida na relação entre o pintor e a sua obra, já que o artista se encontra dependente da presença da sua assistente/amante, para criar a sua obra.

“Life Lessons” é uma lição de cinema e poderemos dizer que este continua a ser a película que mais vezes visitamos, sempre com um enorme prazer cinematográfico, que nos convida a meditar sobre a forma simples como se pode realizar um filme.


O argumento de Richard Price é soberbo porque nele não existe uma palavra a mais, nem a menos, depois temos uma fotografia inesquecível de Nestor Almendros, que filma o trabalho do artista com uma elegância electrizante, como se sentíssemos o cheiro das tintas, ao vermos ao longo do filme como o quadro vai nascendo, mas também não nos podemos esquecer do trabalho de montagem levado a cabo por Thelma Schoonmaker, colaboradora de Martin Scorsese desde esse dia em que eles se encontraram na “sala escura” de “Woodstock”. E, por fim, temos a realização de Martin Scorsese, que manipula os planos de forma alucinante, numa velocidade vertiginosa, sempre com um raccord mais-que-perfeito, ao som do rock dos Procol Harum, Cream, Bob Dylan (fase eléctrica), chegando a criar uma perfeita magia quando funde o “Conquistador” dos Procol Harum com o “Nessun Dorma” de Puccini, nesse momento em que Lionel Dobie demonstra a Reuben Toro como a sua Arte é superior ao do jovem que acabou de partilhar a cama com a mulher que ele tanto ama.


Lionel Dobie (Nick Nolte) é um pintor famoso que habita um “loft” no Soho, em Nova Iorque e que se encontra artisticamente dependente da presença da sua assistente Paulette (Rosanna Arquette), porque ela representa esse desejo de que tanto necessita para terminar a obra que prepara para uma exposição a inaugurar dentro de dias.

Quando a vai buscar ao aeroporto (numa sequência inesquecível), fica sabendo que ela decidira deixá-lo porque se apaixonara por um jovem artista de “stand-up comedy” chamado Gregory Stark (Steve Buscemi), mas ele é tão lunático que até a deixara nas férias após uma discussão. Ora como Lionel necessita da sua presença para terminar a obra, pede-lhe para ela regressar, dando-lhe a sua palavra de escuteiro de que serão apenas bons amigos. Mas a atracção que sente por ela é superior a tudo e começa a viver um profundo martírio, embora retome o seu trabalho, dando início à criação de um quadro de grandes dimensões de uma beleza pictural absoluta. Será essa mesma criação que iremos acompanhar ao longo da película, ao mesmo tempo que vamos assistindo ao duelo entre ele e Paulette, na busca desse amor perdido.


Ele tudo faz para controlar a vida dela, ao mesmo tempo deixa-se subjugar, até chegar esse momento em que ela desiste de tudo porque percebe que nunca conseguirá ser uma grande pintora, ela nunca irá passar da “miúda” que vive com o grande génio.

Para grande alegria de Phillip Fowler (Patrick O’Neal) que acompanha o pintor há já vinte anos, as obras ficam prontas para a exposição que se revela um grande sucesso e será aqui que ele, ao beber um copo no bar, sente a mão da rapariga, que o serviu, na sua e percebe como a sua Arte apenas depende da presença de uma jovem mulher na sua vida. Tinha acabado de encontrar uma nova aluna a quem poderia dar lições da vida, nessa grande metrópole chamada Nova Iorque… a única cidade.


A beleza pictórica desta obra de Martin Scorsese demonstra bem como o seu génio transforma em Arte tudo em que toca, em apenas 44 minutos ele oferece-nos um filme inesquecível onde os actores são dirigidos de forma exemplar, Nick Nolte aliás tem uma das melhores interpretações da sua carreira e onde ainda temos dois “cameos” de Peter Gabriel e Deborah Harry. Nunca é demais dizer que as personagens que nos surgem no écran são perfeitamente plausíveis, todas elas com os seus desejos e frustrações, em busca da eterna luz da celebridade.


“Life Lessons” é um daqueles pequenos prazeres que leva qualquer espectador de cinema a apaixonar-se pela Sétima Arte.