31.1.26

Brian Eno - "Small Craft on a Milk Sea"


Brian Eno
"Small Craft on a Milk Sea"
Warp Records
2010


Quando o cineasta neo-zelandês Peter Jackson decidiu realizar a película “Lovely Bones” / “Visto do Céu”, que ofereceu a Stanley Tucci um dos seus mais difíceis e extraordinários desempenhos da sua carreira, surgindo quase irreconhecível na película, ao mesmo tempo que nos dava a conhecer o enorme talento dessa jovem actriz chamada Saoirse Ronan, decidiu entregar a banda sonora do filme a Brian Eno que, de imediato, iniciou o respectivo trabalho de composição contando com a colaboração do guitarrista Leo Abrahams, que tinha participado com ele no tour de promoção do álbum “Everyting That Happens Will Happen Today” assinado a duas mãos com David Byrne, o ex-lider dos Talking Heads. “. No entanto alguns dos temas compostos por Brian Eno para “Lovely Bones” não foram incluídos na banda sonora por decisão do cineasta, que optou por juntar outros temas anteriormente gravados pelo músico.


Entretanto Brian Eno deixa a editora All Saints Records e assina contrato discográfico com uma nova editora, a “Warp” que tem optado no seu catálogo por divulgar muita da música electrónica que tem surgido no século XXI, surgindo assim Brian Eno como uma das mais-valias da editora.

“Small Craft on a Milk Sea” irá ser o álbum de estreia de Brian Eno na “Warp” contando com a colaboração de Leo Abrahams e Jon Hopkins e decide gravar a totalidade dos temas que tinha composto para “Lovely Bones”, juntando-se a estes três músicos Jez Wiles, que irá surgir nas faixas 4,5,6 e 8 de “Small Craft on a Milk Sea”, a deixar a sua marca techno neste magnifico e surpreendente trabalho de Brian Eno, que aqui regressa a esse Olimpo Musical a que sempre pertenceu.


Ao escutarmos “Small Craft on a Milk Sea” sentimo-nos a navegar de novo nesse universo musical que Brian Eno foi desenvolvendo ao longo dos anos oitenta, com os célebres registos da série genericamente intitulada “Music for Films”, mas com o rigor e a textura de trabalhos como “Apollo” ou “On Land / Ambient 4” em que é possível acompanhar a interligação entre os diversos temas, oferecendo uma continuidade bem homogénea, que nos leva a sentir essa viagem de sonho, pesadelo e eternidade, descobrindo mais uma vez a genialidade deste músico de eleição que não para de nos surpreender.


“Small Craft on a Milk Sea” encerra com chave de ouro a contribuição musical de Brian Eno para a primeira década do século XXI, um trabalho discográfico que é urgente não deixar cair no esquecimento.

Susan Minot - "Miudagem"


Susan Minot
"Miudagem" / "Monkeys"
Páginas: 128
Edições 70


Um livro fantástico e bem original que na época revelou ao universo literário esta escritora norte-americana chamada Susan Minot. Se não leram o livro na época, ainda estão a tempo, porque ele tornou-se visionário; um retrato do futuro tornado presente! Este romance oferece-nos o retrato de uma família abastada de Nova Inglaterra e conquistou em França o Prémio Femina, para a melhor obra estrangeira editada em França, tndo oa New York Times Book Review considerou este livro como subtil e extremamente comovente.


«No Verão, as refeições tomavam-se cedo, toda a gente voltava para casa como os refluxos da maré. Quando caía a noite, já a maior parte das pessoas tinha desaparecido da marina e o porto de North Eden ficava calmo, a água no canal corria tão plana como uma placa de granito. Esta noite,aproximava-se nevoeiro.

Era em fins de Agosto e todos os sete filhos de Vincent estavam lá no Maine.»

Susan Minot
in "Miudagem"

Andy Warhol - "Self-Portrait"

Andy Warhol
"Self-Portrait"
Acrílico e serigrafia sobre tela
106 x 106 cm.
Ano: 1978

 Andy Warhol - (1928 - 1987) ao longo dos anos criou inúmeros "Self-Portrat" e este datado de 1978 será dos menos conhecidos. Ainda me recordo da grande primeira exposição de arte contemporânea norte-americana realizada na Fundação Calouste Gulbenkian na década de setenta do século passado em que a primeira obra que era possível encontrar era precisamente uma enorme "Self-Portrait" mais famosa do artista em seis reproduções de tonalidades diferentes. 

Andy Warhol que nasceu em Pittsbourg, estudou história da arte, sociologia e psicologia no Carnagie Institute of Technology e em 1949 foi viver para New York tendo realizado a sua primeira exposição individual em 1952 na Hugo Gallery, vindo a tornar-se o mais famoso artista da sua geraç~~ao e um nome incontornável no interior da "Pop Art".

João Canijo - (1957 - 2026)


João Canijo - (1957 - 2026)

João Canijo nasceu na cidade do Porto, cidade onde frequentou o curso de História, mas a sua paixão pelo cinema levou a que iniciasse a sua actividade na sétima arte como assistente de realização, trabalhando com cineastas como Manoel de Oliveira, Paulo Rocha e o alemão Wim Wenders, que rodou no nosso país e mais tarde decidiu partir para a realização estreando-se com a curta-metragem  "O Meu Amor" em 1984.

Quatro anos mais tarde surge a longa-metragem "Três Menos Eu", com Rita Blanco como protagonista e que viria a ser um dos rostos preponderantes da sua filmografia; em 1990 surge a película "Filha da Mãe", com a participação do actor brasileiro José Wilker e de imediato os holofotes surgiram sobre ele decidindo então partir para a experiência em televisão, realizando a série "Alentejo Sem Lei", que teve como um dos protagonistas Herman José. No pequeno écran irá realizar ainda duas novas séries: "Cluedo" e "Sai da Minha Vida".

Em 1998 surge o filme "Sapatos Pretos" com Ana Bustorff como protagonista que teve um enorme sucesso e, com a chegada do novo milénio, realiza na primeira década do século XXI três películas: "Ganhar a Vida", "Noite Escura", que confesso ser o meu filme favorito de João Canijo, e "Mal Nascida", ao mesmo tempo que realiza para a televisão os filmes "A Audição" e "Fugas.pt" e uma curta-metragem intitulada "Mãe Há Só Uma".

Na década seguinte João Canijo, que assinava muitos dos argumentos dos seus filmes, desenvolveu uma intensa actividade como cineasta, realizando as películas "Fantasia Lusitana", "Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor", "Sangue do Meu Sangue", "É o Amor", "Portugal - Um Dia de Cada Vez", "Fátima" que nos conta a odisseia de 11 mulheres numa peregrinação de Bragança até ao Santuário de Fátima, que virá dar origem à série de televisão, em cinco episódios, "Fátima - Caminhos da Alma" no ano de 2015, a que se seguiu o documentário "Diário das Beiras" em 2017.

Ao longo da sua actividade como realizador João Canijo visitou o documentário a par do cinema de ficção e em 2020 realiza com a actriz Anabela Moreira, que foi protagonista de alguns dos seus filmes, a longa-metragem documental "Fojos". Três anos mais tarde  são estreadas as películas "Mal Viver", que recebeu o Urso de Prata do Júri do Festival de Berlin em 2023 e "Viver Mal", que conquistou diversos prémios em Portugal e que virá a dar origem à série de televisão "Hotel do Rio" em 2024.

João Canijo tinha neste momento, em fase de pós-produção, a película "Encenação", que visitava o universo teatral.

Aos 68 anos João Canijo deixa uma obra cinematográfica que bem merece ser redescoberta e exibida de novo nas salas de cinema e esperamos que a Cinemateca lhe dedique um ciclo de cinema, assim como edite um livro, como é prática da casa. Já a televisão devia voltar a passar as suas série,s para muitos redescobrirem a outra faceta deste nome do cinema português que nos deixou em 29 de Janeiro de 2026.

30.1.26

Ralph Towner - (1940 - 2026)

Ralph Towner - (1940 - 2026)

Ralph Towner um dos nomes mais conhecidos do jazz deixou-nos a 18 de janeiro de 2026 e a sua arte na guitarra de 12 cordas é memorável para todos que o escutaram e alguns ainda se devem recordar do fabuloso concerto que ele realizou na sala do cinema Roma em Portugal num quarteto em que tínhamos também a companhia de Gary Peacock.

Multi-instrumentista o guitarrista norte-americano Ralph Towner teve na editora ECM Records a sua casa onde gravou mais de meia-centena de álbuns, com a cumplicidade do produtor Manfred Eicher, tanto a solo como em trio e quarteto na companhia de músicos como Jan Garbarek, John Abercrombie, Jack DeJohnette, Gary Burton, entre muitos outros, deixando-nos obras únicas no interior do jazz. Recorde-se que a guitarra clássica também era outro dos seus instrumentos preferidos, para além do piano, sintetizadores e percussão. Álbuns como "Diary", "Sargasso Sea" ou "Solstice" são bem demonstrativos da arte de Ralph Towner.

Johnny Hazard - "João Tempestade - A Falsa Noiva" - Frank Robbins


Johnny Hazard
"João Tempestade - A Falsa Noiva"
Arte: Frank Robbins
Argumento: Frank Robbins
Mundo de Aventuras nº,s 347 a 368
Ano: 1956


Um dos heróis da minha infância, cujas histórias lia no "Mundo de Aventuras". Johnny Hazard foi baptizado em Portugal de "João Tempestade" como era habitual nesses anos. Recordo-me que esta banda desenhada também surgia na imprensa escrita em diversos jornais, tendo Frank Robbins (1917 – 1994) como seu criador. As aventuras de Johnny Hazard foram pulicadas desde 1944 até 1977 sempre com um enorme sucesso junto de uma legião de fans.

Vincent van Gog - "A Ponte de Langlois, perto de Arles, com lavadeiras"


Vincent van Gog
"A Ponte de Langlois, perto de Arles, com lavadeiras"
Óleo sobre tela
54 x 65 cm.
Rijksmuseum Kröller-Müller, Otterlo.
Ano: 1888

Quando Vincent van Gog - (1853 - 1890) pintou este quadro já tinha um conhecimento profundo da pintura japonesa e o céu estava cinzento quando ele pintou este quadro, um dos mais famoso da sua longa obra artística, criado perto da cidade de Arles no Sul da França, onde não só nos dá uma perspectiva diagonal da ponte como capta o trabalho das lavadeiras que tinham por hábito lavar a roupa naquele local.

Milos Forman - “Valmont”


Milos Forman
“Valmont”
(França/EUA -1989) – (137 min. / Cor)
Colin Firth, Annette Bening, Meg Tilly, Fairuza Balk, Jeffrey Jones, Henry Thomas.

Todos nós fixámos o nome deste cineasta checo quando surgiu nos nossos écrans essa obra intitulada “Voando Sobre um Ninho de Cucos” / “One Flew Over the Cuckoo’s Nest”, baseada no livro do ex-beatnick Ken Keasy e, como alguns devem estar recordados, na época o cinema Quarteto fez uma retrospectiva do cineasta na qual foi possível descobrir alguns filmes do seu período checo, onde encontrámos obras como “O Ás de Espadas” / “Cerny Petr” sobre a adolescência, “O Baile dos Bombeiros” / “Hori má panenko”, retrato mordaz de uma sociedade e o maravilhoso “Amores de uma Loira” / “Lásky jedné plavovlásky” onde a imagem de um regime se fazia sentir, de forma perfeita e irónica. Depois, com a invasão da Checoslováquia pelas tropas de Pacto de Varsóvia, pondo fim à então chamada “Primavera de Praga”, Milos Forman optou por partir e escolheu a América como a sua segunda casa. Aí rodou primeiro “Os Amores de Uma Adolescente” / “Taking Off” e participou numa obra colectiva sobre os jogos olímpicos,”Visions of Eight”, tendo escolhido o decatlo para nos oferecer a sua visão sobre esta difícil modalidade.


Após o êxito estrondoso de “Voando Sobre um Ninho de Cucos”, realizou o infelizmente pouco conhecido “Ragtime”, retrato de uma nação e viu chegar o reconhecimento de todos com o célebre “Amadeus” em 1984. Cinco anos depois, decide levar ao grande écran o célebre livro de Chordelos de Laclos, “Ligações Perigosas”, tendo escolhido como argumentista o famoso Jean-Claude Carriére. E, mais uma vez, surpreendeu tudo e todos não só pela escolha dos actores: Colin Firth, Annette Bening e Meg Tilly, todos eles com grandes interpretações, como pela sua reconstituição histórica, simplesmente perfeita. Mas na época um outro Estúdio decidiu também levar ao grande écran o célebre romance, partindo da peça de teatro escrita por Christopher Hampton, com John Malkovich, Glenn Close e Michelle Pfeifer, que estaria concluído antes do filme de Milos Forman, terminando por ganhar na batalha das bilheteiras.


“Valmont” de Milos Forman, ao contrário do filme de Stephen Frears, privilegia a reconstituição histórica e o naturalismo, sendo o trabalho dos actores muito mais credível, fruto da excelente direcção do cineasta checo e, ao dizermos isto, não estamos de forma alguma a menosprezar a obra do britânico, apenas pretendemos referir que Forman nos oferece um retrato muito mais plausível e aliciante, fruto das interpretações espantosas dos actores e nunca nos podemos esquecer que esta foi a segunda película de Annette Bening, que nos mergulha numa Madame de Merteuil cheia de sensualidade e cinismo, em busca da vingança, após descobrir que o seu amante Gercourt (Jeffrey Jones) vai casar com a jovem e inocente Cecile de Volanges (Fairuza Balk).


Decide então envolver o seu amigo Valmont (Colin Firth) em apostas amorosas, cuja finalidade é oferecer ao seu amante uma noiva “em segunda mão”. E nesta rede de pequenos enganos e grandes ódios irão cair a bela e inocente Madame de Tourval (Meg Tilly), que se irá apaixonar perdidamente pelo belo Valmont, ao mesmo tempo que o jovem professor de música Danceny (Henry Thomas… em tempos o célebre amigo de “E.T.”) se irá por sua vez perder de amor e razão pela bela Cecília, fazendo-lhe a corte (sempre com a cumplicidade de Madame de Merteuil), apesar de saber que ela está prometida a Gercourt, nascendo aqui a mais perfeita história de intrigas onde todos acabarão por sair a perder, incluindo Valmont, que será morto num duelo pelo jovem Danceny.


Ao revermos hoje esta obra de Milos Forman, descobrimos que o seu ”Valmont” não apresenta as marcas da passagem dos anos, surgindo como um belo e profundo retrato de uma época, a França do século XVIII, em que os jogos de amor e traição conviviam abertamente com a morte e a perdição, porque o que aqui encontramos é esse profundo desejo de amar, esse mesmo desejo que irá consumir a bela Madame de Tourval (Mel Tilly), a qual nunca irá esquecer a enorme paixão que nutre por Valmont, reparem bem como ela vai deixando que o seu amor por ele lhe consuma a vida. A película realizada por Milos Forman respira Cinema por todos os poros!

29.1.26

John Cage - «4'33''»


John Cage
Tema: 4' 33''
Maestro: Kirill Petrenko
Berliner Philharmoniker


Quando no ano de 1952 a BBC Radio anunciou a transmissão desta peça em primeira audição mundial, de um compositor contemporâneo, já célebre na época, foram certamente muitos os ouvintes que se dirigiram para o rádio para rodarem o botão do som, basta recordarmos o filme "Radio Days" de Woody Allen, para entendermos como a rádio era um importante meio de comunicação.


Esta peça que é composta por quatro minutos e meio de silêncio revelou-se como uma obra percursora da Arte Conceptual e foi inicialmente apresentada em piano solo, embora nos dias de hoje, como sucede no clip que escolhemos, surge interpretada por uma grande orquestra, tendo em conta que ela também foi composta para orquestra, neste caso a conhecida Berliner Philharmoniker, que aqui surge dirigida pelo famoso maestro Kirill Petrenko, em que podemos acompanhar os três movimentos de que é constituído o tema 4' 33'', através da direcção do maestro.


Esta peça de John Cage terminaria por fazer escola em outras áreas musicais bem diferentes, como sucede no álbum de rock progressivo, "Islands", da banda britânica King Crimson, na década de 70 do século passado, como no interior da denominada "ambient music", quando Brian Eno a introduziu no álbum "Spinner" de 1995, na última faixa do cd. Por outro lado, Laraaji no seu cd "Flow Goes The Universe" oferece-nos cinco faixas de silêncio de duração diferente para intercalarmos na audição do cd, se decidirmos programar a audição do cd.

Num universo repleto de ruído, aqui fica o convite para escutarem o silêncio.

Rex Stout - "A Derradeira Palavra"


Rex Stout
"A Derradeira Palavra" / "The Final Deduction"
Colecção Vampiro nº.448
Páginas: 212
Livros do Brasil


Não é todos os dias que temos Nero Wolfe a sair de casa, mesmo quando a distância é curta e o período de ausência das suas belas orquídeas não ultrapasse as 24 horas, mas desta vez foi mesmo necessário. e a noite foi mesmo mal dormida.


«Ele fitou-me intensamente, depois voltou a cabeça para olhar para o relógio. Fechou as mãos e ficou a olhar para os punhos, depois utilizou-as para puxar a cadeira para trás. Levantou-se e encaminhou-se para a porta. Quando chegou ao átrio, chamou em voz de trovão: «Fritz!». A porta da cozinha abriu-se e Fritz apareceu. Wolfe estava a andar para a frente, em direcção ao bengaleiro. Tirou o sobretudo do cabide e voltou-se.
- Os mexilhões estão abertos?
- Não, senhor. Só...
- Não os abra. Guarde-os. Archie e eu vamos sair. Estaremos de volta para o almoço de amanhã. Mantenha a porta trancada.
Fritz ficou abananado.»

Rex Stout
in "A Derradeira Palavra"

Roy Lichtenstein - "Girl with Ball"


Roy Lichtenstein
"Girl with Ball"
Óleo sobre tela
153,7 x 92,7 cm.
The Museum of Modern Art, New York
Ano: 1961

Roy Lichtenstein - (1923 - 1997) é um dos mais importantes artistas da denominada "Pop Art" que introduziu a famosa 9ª Arte ou seja a banda desenhada que os norte-americanos virão denominar como "comics", no interior da pintura contemporânea. 


Quando Andy Warhol fez os seus primeiros trabalhos e os apresentou a uma famosa galeria tendo o "Rato Mickey" como modelo, estes  foram recusados porque já tinham adquirido umas obras de Roy Lichtenstein com a mesma temática e assim aquele que viria a ser o mais famoso pintor da "Pop Art" irá mudar de registo. Já Roy Lichtenstein irá criar uma obra quase toda baseada na banda desenhada, embora venha a fazer outro género de obras, que virão a ficar célebres.

Recordo que a primeira vez em que visitei o "Centro Pompidou" em Paris ao entrar no piso cinco deparei-me maravilhado precisamente com uma obra de Roy Lichtenstein, que nos deixou em 1977 devido a uma pneumonia que apanhou após ter visitado uma exposição e ao regressar a casa a pé debaixo de chuva, contraiu o fatal vírus que viria a levar um dos maiores criadores da pintura contemporânea norte-americana.

Carl Th. Dreyer - "A Paixão de Joana D'Arc" / "La Passion de Jeanne D'Arc"


 Carl Th. Dreyer
"A Paixão de Joana D'Arc" / "La Passion de Jeanne D'Arc"
(França – 1928) - (110 min – P/B - Mudo)
Falconetti, Eugéne Silvain, André Berlly, Maurice Schultz.


A história de Joana D’Arc já foi por diversas vezes retratada no cinema, ao longo dos anos, mas será a visão que nos ofereceu o dinamarquês Carl Theodor Dreyer que fica para sempre registada como a obra-prima absoluta.


O cinema de Carl Dreyer, na época, era já conhecido de todos os espectadores de cinema, mas para o enorme esplendor da película contribuiu decididamente o rosto mais que expressivo de Falconetti, actriz oriunda da Comédie-Française (este seria o seu único filme), que aceitou rapar o cabelo e oferecer todo o seu talento ao protagonizar esta filha do povo, que um dia se viu traída pelos seus pares, ficando prisioneira dos ocupantes ingleses, que a irão julgar e torturar, para depois a condenarem a morrer na fogueira.


A forma como Carl Dreyer nos oferece o rosto martirizado de Falconetti, com aquele olhar que ficou na História do Cinema e que faz arrepiar o mais comum dos mortais, fala por si. Aliás Jean-Luc Godard faz a sua homenagem a este filme quando, em “Vivre sa Vie” / “Viver a sua Vida”, Anna Karina vai ao cinema ver a película de Dreyer e descobrimos o campo-contracampo dos rostos de Karina e Falconetti, num dos momentos mais sublimes deste maravilhoso e inesquecível filme de Jean-Luc Godard.


Em “A Paixão de Joana D’Arc”, o cineasta dinamarquês usa o grande plano com uma força expressiva até então nunca vista e sentimos o próprio medo a invadir-nos o corpo, quando deparamos com o rosto dos carrascos sem alma que interrogam a prisioneira. Na verdade, ao (re)vermos “La Passion de Jeanne D’Arc”, sentimos o respirar da própria alma e, à medida que se aproxima o fim da jovem heroína, as lágrimas que lhe correm pelo rosto dizem mais que todas as palavras possíveis.


Carl Dreyer, a propósito deste filme, afirmou que o pretendido era mostrar que os heróis da História são também profundamente humanos.

A “Paixão de Joana D’Arc” de Carl Dreyer oferece-nos um verdadeiro rio de sentimentos, nesse rosto angélico e torturado dessa espantosa actriz chamada Marie Falconetti.

28.1.26

António Chainho - (1938 - 2026)


 António Chainho - (1938 - 2026)

António Chainho foi um virtuoso da guitarra de 12 cordas e desde muito novo se interessou por este instrumento tão célebre no interior da música portuguesa. Foram os seus pais que lhe despertaram a paixão pela música e desde os oito anos começou a interessar-se pela guitarra e aos 13 anos já acompanhava a mãe quando ela cantava fado; sempre que escutava a rádio decidia também ele acompanhar os fados que surgiam no rádio lá de casa.

Seria na casa de fados "A Severa", situada no então já célebre Bairro Alto em Lisboa, que surgiu a tocar com enorme sucesso, assim como na casa de Fados "O Faia" e no Restaurante "O Folclore", situado mesmo ao lado da célebre cervejaria "Trindade". Ao longo dos anos acompanhou fadistas como Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, Hermínia Silva, Francisco José, Helena Lima e até Tony de Matos e António Calvário, entre muitos outros.

Anos mais tarde iniciou uma careira internacional, tocando com nomes como Paco de Lucia, John Williams, Bruce Swedien, Geg Cohen, Peter Scherer e Jacques Morelenbaum e em 1980 inicia uma carreira em nome próprio com o álbum "Guitarra Portuguesa". Em 1996 grava com a célebre "The London Philharmonic Orchestra" um fabuloso trabalho discográfico, a que se seguiu dois anos mais tarde o álbum "A Guitarra e Outra Mulheres" na companhia de Teresa Salgueiro e Elba Ramalho, entre outros nomes. 

Com a chegada do novo Milénio surge o álbum "António Chainho - Lisboa Rio", que conta com diversas colaborações incluindo a do famoso Ney Matogrosso. Três anos mais tarde é lançado o registo ao vivo de um concerto no CCB com Marta Dias, para depois surgir seis anos mais tarde o fabuloso "LisGoa". Em 2012 nasce entre amigos o álbum "António Chainho - Entre Amigos", em que encontramos nomes como Camané, Adriana Calcanhoto, Ney Matogrosso, Elba Ramalho, para três anos mais tarde chegar o seu derradeiro trabalho discográfico cujo título nos revela o retrato de uma vida intitulado, "Cumplicidades - 50 Anos de Careira" em que participam Rui Veloso, Pedro Abrunhosa, Paulo de Carvalho entre outros.

António Chainho, o virtuoso da guitarra, era conhecido como o homem tranquilo e a sua paixão pela guitarra ficou bem expressa ao longo da sua genial carreira repleta de sucessos, tendo até sido convidado por K. D. Lang e José Carreras para participar em temas destes nomes incontornáveis do universo musical.

António Chainho deixou-nos a 27 de Janeiro de 2026, mas fica para sempre na nossa memória.

Big Ben Bolt - "Luís Euripo - Luta Pelo Título" - John Cullen Murphy


Big Ben Bolt
"Luís Euripo - Luta Pelo Título"
Arte:: John Cullen Murphy
Argumento: John Cullen Murphy
Mundo de Aventuras nºs. 359 a 374 - 1ª Série
Ano: 1956



Big Ben Bolt o célebre pugilista foi baptizado em Portugal de Luís Euripo e na época quando as suas aventuras surgiram publicadas no nosso país era apresentado como campeão português, recorde-se que na época era habitual dar-se nomes portugueses aos heróis de banda desenhada, basta recordar que o célebre Rip Kirby surgiu com o nome de Ruben Quirino ou que Michel Vaillant surgiu nas páginas do Cavaleiro Andante "baptizado" de Miguel Gusmão, sendo filho de um industrial português a viver em França, era assim a banda desenhada nos anos cinquenta do século passado. 


Recorde-se que na época o pugilismo era um desporto bem apreciado havendo até combates no célebre recinto do Parque Mayer incluindo de luta "Grego-Romana" então muito em voga. As aventuras de Big Ben Bolt / Luís Euripo envolviam não só os bastidores do pugilismo, mas também tinham um cunho policial para alegria dos seus leitores que eram muitos. As revistas "Mundo de Aventuras", "Condor Popular, e "Ciclone" divulgaram, de forma assídua, este herói da banda desenhada criado pela arte de John Cullen Murphy.

Man Ray - "Notre-Dame vue de la rue St.Séverin"


Man Ray
"Notre-Dame vue de la rue St.Séverin"
Ano: 1931

Man Ray desde muito cedo sentiu a influência do fotógrafo Alfred Stieglitz, marido da pintora Georgia O'Keeffe e inicialmente sentiu-se influenciado pelo expressionismo, como sucede nesta fotografia, onde vemos a famosa Notre-Dame, mais tarde será o cubismo, mas o seu encontro com Marcel Duchamp e Francis Picabia irá conduzi-lo até junto do Movimento Dada, então muito em voga e mais tarde o surrealismo irá marcar também a sua obra, para além de retratar de forma bem original um conjunto de artistas seus contemporâneos.

Agnès Jaoui / Jean-Pierre Bacri - “O Gosto dos Outros” / “Le Gout des Autres”

Agnès Jaoui / Jean-Pierre Bacri
“O Gosto dos Outros” / “Le Gout des Autres”
(França – 2000) – (112 min. / Cor)
Anne Alvaro, Jean-Pierre Bacri, Alain Chabat, Agnès Jaoui, Gerard Larvin, Christiane Millet.


O cinema francês, muitas vezes, oferece-nos obras que são uma verdadeira lufada de ar fresco e que nos convidam a amar um filme, como sucedeu com este “O Gosto dos Outros” / “Le Gout des autres” de Agnès Jaoui, que na época da sua estreia em Portugal era praticamente desconhecida, o que já não sucede hoje em dia, já passaram 20 anos sobre a estreia deste filme no cinema Nimas Estamos assim perante uma película profundamente inteligente, que aborda de forma discreta o relacionamento das pessoas e os seus gostos.


Agnès Jaoui começou como actriz no Teatro, tendo até sido dirigida pelo célebre Patrice Chéreau no Teatro de Amandiers, em Nanterre, mas seria o seu encontro com o actor Jean-Pierre Bacri, recentemente falecido, nas audições para a peça “O Aniversário” de Harold Pinter, que irá dar origem a uma dupla de argumentistas única na história do cinema francês, tendo em conta a forma como eles usam os diálogos, aliás não nos podemos esquecer que eles são os argumentistas de “Smoking" / "No Smoking” / “Fumar/Não Fumar” e de “On Connait La Chanson” / “Uma Canta a Outra Não”, realizados pelo cineasta Alain Resnais.


Este casal de argumentistas, que se encontrava sempre nos filmes dirigidos por Agnès Jaoui, não possuia curiosamente uma grande paixão pelas novas tecnologias, escrevendo os seus argumentos usando papel e caneta, às vezes até um lápis, quando surge aquela ideia fantástica, para depois utilizarem a velhinha máquina de escrever, para passar os textos como ela confessou numa entrevista. Naturalmente os quatro filmes iniciais realizados por Agnès Jaoui contam com argumentos da dupla, sendo os outros três: “Olhem Para Mim” / “Comme une image”, “Deixem Chover” / “Parlez-moi de la pluie” de (2008) e “E Viveram Felizes Para Sempre…?” / “Au Bout du conte”.


Logo no início de “O Gosto dos Outros” encontramos dois homens sentados num café, a falar de algo que parece, à primeira vista, ser muito importante, mas depois iremos perceber que eles estão simplesmente a falar de futebol e que são o motorista e o guarda-costas de Monsieur Jean-Jacques Castella (Jean-Pierre Bacri), um industrial de província, que está a efectuar negócios com um grupo iraniano e cuja Companhia de Seguros exigiu a presença de um guarda-costas ao longo do processo negocial, para sua segurança. Contrariado, Castella aceita a presença de Frank Moreno (Gerard Lanvin), um ex-polícia que deixou a instituição porque não conseguia ver os corruptos presos, apesar de todas as provas recolhidas. Porém este negócio vai também exigir a Castella voltar a aprender inglês e então é obrigado a contratar uma professora de inglês (Anne Álvaro), que como boa professora de línguas começa de imediato a falar a língua anglo-saxónica com Castella, que não acha nada divertido esse método e está pronto a desistir.


Mas nessa mesma noite ele irá ao teatro ver a sobrinha a actuar e acabará por descobrir que a actriz principal da peça é Clara Devaux (Anna Álvaro), a sua professora de inglês, decidindo então recomeçar as lições.

Iremos assim entrar nos momentos mais hilariantes da película, com a aulas no salão de chá, entre Castella e Clara, ao mesmo tempo que todos compreendemos que o industrial se começa a apaixonar por ela, mas também por esse círculo de intelectuais onde ela se movimenta, fazendo-se encontrado e terminando sempre por lhes fazer companhia, até que essa trupe decide gozar e colocar a ridículo o industrial, num dos momentos mais dolorosos de “O Gosto dos Outros”.


Enquanto vamos assistindo à história de Castella, iremos também conhecer a vida de Bruno Deschamps (Alain Chabat), o motorista de Castella e de Frank (Gerard Lanvin), o guarda-costas. Se o primeiro é um homem permanentemente usado pelas mulheres, veja-se o que se passa com a namorada que está nos Estados Unidos, já Frank Moreno (Gerard Lanvin) é um homem que sabe demasiado da vida e que irá encontrar em Marie (Agnès Jaoui), a empregada do bar, frequentado pelo grupo de Clara, a sua possível alma-gêmea. No entanto irá nascer uma barreira invisível entre eles, quando Frank percebe que ela também vende haxixe, para ganhar algum dinheiro extra para as despesas do dia-a-dia, o que para ele, um ex-polícia, é matéria mais que proibida e impossível de "conviver".


Regressando a Castella (Jean-Pierre Bacri), descobrimos ao longo da película que ele é um homem dominado pela mulher, que intitulando-se decoradora leva sempre a sua avante, basta olhar para a forma como está decorada a casa que habitam e um sorriso de imediato surge nos nossos lábios. E nesse dia em que ele compra um quadro de que gosta, a um pintor amigo de Clara e o pendura na parede, Angélique (Christianne Millet), que gosta muito mais de animais do que pessoas, irá fazer uma tempestade num copo de água, para no dia seguinte tirar o quadro da parede porque ela não suporta o gosto dele.

Já Clara, a professora de inglês, é uma mulher na casa dos quarenta que vive sempre com um pé dentro e fora dos palcos, porque também por ali o Teatro passa as suas dificuldades com a falta de espectadores, recorde-se que a acção se passa nos subúrbios de Paris, vendo os anos a passarem a uma velocidade vertiginosa e o amor com que sempre sonhou a passar-lhe ao lado da vida.


Ao longo de "O Gosto dos Outros" vamos mergulhar nas pequenas vidas destas personagens, que nos irão fascinar ao longo de duas horas, porque por ali passa um belo retrato da sociedade francesa, ao mesmo tempo que descobrimos como são simples, mas também complicadas as relações entre os seres humanos. Veja-se a relação de Castella com o seu assistente ou a de Marie com Frank, sendo todos estes aspectos oferecidos de forma perfeita por Agnès Jaoui, sempre com um sentido de "mise-en-scéne" extraordinário: o argumento não possui uma palavra a mais ou uma palavra a menos e as imagens também falam por si, por vezes de forma dolorosa, como sucede na relação entre Marie e Frank.


Ao optar pelo “scope”, Agnès Jaoui comunga o gosto dos cineastas franceses por este formato, que respira cinema por todos os poros. "O Gosto dos Outros" foi galardoado em 2001, com os Cesars de Melhor Filme, Melhor Argumento Original (Agnès Jaoui/Jean-Pierre Bacri), Melhor Actor Secundário (Gerard Lanvin) e Melhor Actriz Secundária (Anne Álvaro).

"O Gosto dos Outros" / “Le Goût des autres” oferece-nos assim, uma comédia divertida e inteligente, que nos convida a meditar sobre o pequeno mundo que nos rodeia e os inevitáveis gostos dos outros. Tenho de confessar que sempre que revejo este filme, me divirto imenso, mas também termino a pensar neste pequeno mundo que habitamos.